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dezembro 06, 2007

Livro: A Montanha da Alma | Gao Xingjian | Primeiro Capítulo

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Livro: A Montanha da Alma
Brasil | World

1

Você está num ônibus de uma linha de longa viagem. E, desde de manhã, o velho ônibus reformado para a cidade sobe aos solavancos 12 horas de enfiada sobre as estradas da montanha, malconservadas, cheias de saliências e buracos, antes de chegar a esta pequena aldeia do Sul.

Saco nas costas, uma sacola na mão, você varre com os olhos a área juncada de papéis de pirulitos de chocolate e de restos de cana-de-açúcar.

Homens carregados de sacos de todos os tamanhos, mulheres, bebê nos braços, descendo do ônibus ou atravessando aquela área enquanto bandos de jovens, sem sacos nem cestas, tiram de um cartuchinho sementes de girassol que levam uma a uma à boca, cuspin-do-lhes a pele imediatamente. Comem com elegância e emitindo uma espécie de assobio, com uma distinção, um ar desembaraçado, típicos do estilo local. Aqui é seu país natal, não há nenhuma razão para que não vivam com toda a liberdade, suas raízes mergulham neste solo de geração em geração. Inútil que você venha de longe procurar raízes aí. Mas, para aqueles que deixaram este lugar há muito tempo, evidentemente não existia ainda essa estação rodoviária e muito menos esses ônibus. Sobre o rio, era preciso pegar um barco coberto de trançados de bambu, e sobre a terra, alugar um carrinho de mão. Se realmente não se tinha um centavo, não se podia contar senão com as duas próprias solas. No momento, todos os que ainda estão vivos voltam à luta, vindo até mesmo desde o outro rio do oceano Pacífico, seja em pequeno carro particular, seja em grande veículo com ar-condicionado. Alguns fizeram fortuna, alguns se tornaram célebres, outros não são nada, mas todos vêm para cá em razão de sua idade avançada. Chegado o termo da vida, quem pode fugir a essa nostalgia? Aqueles que jamais alimentaram o menor desejo de deixar este lugar caminham com mais naturalidade, os braços oscilantes, rindo e falando alto, sem nenhum entrave. Sua entonação é doce e familiar, quase comovente. Quando dois conhecidos se encontram, não trocam como na cidade palavras vazias só por polidez, sacudindo a cabeça ou estendendo a mão. Ora se tratam por seus nomes, ora se dão grandes tapas nas costas, adorando se apertar mutuamente contra o peito, não apenas as mulheres entre si, porém talvez mais ainda os homens. Perto do boxe para a lavagem de carros estão justamente duas jovenzinhas. Ambas falam sem parar, dando-se as mãos. A linguagem das mulheres desta região tem um tom tão afetado que é impossível não lhes lançar um olhar. Visto pelas costas, o turbante delas, confeccionado com um tecido azul com motivos transmitidos de geração em geração, e a maneira pela qual foi dado o laço parecem de uma extraordinária originalidade. Você se aproxima involuntariamente. O turbante está atado debaixo do queixo, em triângulo, deixando à vista rostos bonitos, traços finos que combinam com suas graciosas silhuetas. Você passa muito perto delas. As mãos de ambas, sempre ligadas, juntas, são da mesma cor vermelha, tão grosseiras, com articulações fortes. Sem dúvida são recém-casadas em visita à casa de amigos ou então voltando da casa dos pais. Aqui, entretanto, a expressão “jovem casada” só designa a própria nora. Se se usar essa expressão à maneira dos rústicos do Norte, para designar qualquer moça que tenha acabado de entrar na vida de casada, vai-se provocar logo um chorrilho de injúrias. Uma vez casada, a jovem chama o marido de “o velho”, como também diz “meu marido” ou “seu marido”. Aqui as pessoas têm seu próprio vocabulário, ainda que sejam todos chineses, descendentes dos imperadores fundadores, pertencendo à mesma etnia e possuindo a mesma cultura.

Você mesmo, você não sabe claramente por que veio aqui. Foi por acaso que no trem você ouviu alguém falar de um lugar chamado Lingxan, a Montanha da Alma. Esse homem estava sentado à sua frente, sua xícara de chá tinha sido posta ao lado da dele e as vibrações do trem levavam as tampas de suas xícaras uma a bater na outra, retinindo. As coisas teriam ficado nisso se o choque das xícaras continuasse a retinir, ou se elas parassem de bater ao fim de um instante, mas o acaso quis que, no momento em que as duas tampas se entrechocaram, você tivesse tido, ao mesmo tempo que ele, a intenção de afastá-las e que, nesse instante, elas silenciassem. Mas, mal vocês desviaram o olhar, recomeçou o barulho das tampas. Vocês estenderam o dedo ao mesmo tempo e interromperam o movimento. Nenhum dos dois disse uma palavra, ambos apenas riram. Simplesmente vocês, então, afastaram um pouco as tampas e começaram a conversar. Você lhe perguntou para onde ele ia.

– Para Lingxan.
– Como?
– Lingxan, a Montanha da Alma.
Você também, você percorrera a China de norte a sul e tinha ido a muitas montanhas conhecidas, mas nunca tinha ouvido falar desse lugar.
Diante de você, seu companheiro de viagem fechou por um momento os olhos, repousando. Animado de uma curiosidade compreensível, você quereria saber que lacuna resta em seu conhecimento dos lugares célebres. Em sua vaidade, você não pode suportar que exista ainda um lugar do qual você jamais ouviu falar. Então você lhe pergunta onde fica Lingxan.

– Na nascente do rio Yu – responde ele abrindo os olhos.
Onde fica esse rio Yu? Você não tem a menor idéia, mas não ousa perguntar a ele. Contenta-se em abanar a cabeça, o que pode ser compreendido de duas formas: “Ah, está bem, obrigado”, ou então “Ah, sei, conheço”. Seu amor-próprio está satisfeito, mas seguramente não a sua curiosidade. Um momento depois, você acaba por lhe perguntar como se vai lá e por onde se penetra nessa montanha.

– Pode-se tomar o ônibus até a pequena aldeia de Wuyi, depois subir o Yu de barco.
– O que é que há lá? Vistas de paisagens, templos? Vestígios? – pergunta você, assumindo um ar de indiferença.
– Lá tudo está no estado original.
– Há florestas virgens?
– Claro, mas não só isso.
– Homens selvagens também? – você pergunta, querendo ser agradável.
Ele ri, mas sem zombaria, o que excita mais ainda a sua curiosidade. Você precisa saber quem é esse amigo sentado diante de você.
– Você estudou ecologia? Você é biólogo? Paleoantropólogo? Arqueólogo?
– Antes me interesso pelo vivos – responde ele, fazendo “não” com a cabeça a cada uma das hipóteses levantadas pelo outro.
– Você faz pesquisas sobre as tradições populares? É sociólogo? Especialista em folclore? Etnólogo? Ou então jornalista? Aventureiro?
– Sou tudo isso, como amador.
Os dois riram.
– O que não deixa de ser divertido!
Vocês riram ainda mais largamente. Ele acendeu um cigarro e botou para funcionar o seu moinho de palavras, contando todo tipo de maravilhas sobre Lingxan. Depois, em tom de convite, rasgou um maço de cigarros vazio e desenhou um mapa indicando a estrada que se tinha de seguir para ir lá.

No Norte já é pleno outono. Aqui, os rigores do verão ainda não diminuíram. Antes de desaparecer por trás das montanhas, o sol mantém toda a sua força e, quando bate em cima do corpo, o suor molha as costas todas. Você sai da estação rodoviária, inspeciona os arredores. À frente, há apenas uma estalagem de um único andar, estilo antigo, de frente de madeira. As tábuas rangem quando a gente caminha pelo assoalho, mas o mais terrível são os travesseiros e as esteiras, de uma sujeira gordurosa. Para se lavar, é preciso esperar a noite, para tirar as calças e se aspergir com a água de uma bacia no pequeno pátio, exíguo e úmido. É um pouso para os que percorrem o campo, comerciantes e artesãos.

Falta um bocado ainda para anoitecer, você tem todo o tempo para achar uma hospedaria mais limpa. Você erra pelas ruas, saco nas costas, pensando descobrir nesta vilazinha um sinal, uma tabuleta, nada mais do que um nome formado pelos dois caracteres que formam a palavra Lingxan que lhe provariam que você não está enganado, que não fez esse longo trajeto à toa. Você olhou bem por toda parte, nenhum traço. Entre as pessoas que desceram do ônibus ao mesmo tempo que você, ninguém tem ar de turista. Certamente você também não, mas ninguém tem o seu jeito de se apresentar: um par de leves mas sólidas botas de montanha, um saco nas costas. Claro, este lugar não faz o gênero de ponto turístico famoso para onde vão jovens casais e aposentados, no qual tudo se volta para o turismo, em que por toda parte estacionam ônibus e podem ser comprados mapas turísticos a cada canto das ruas, e em todas as lojinhas estão expostos bonés, camisetas com mangas ou sem mangas, lenços com o nome do lugar, em que haja hotéis nos quais descem os estrangeiros que pagam com moedas de troca, centros de recepção ou centros de repouso aos quais só se tem acesso com uma carta de recomendação, sem esquecer os hoteizinhos íntimos, trazendo todos como símbolo esse nome sagrado. Você não procurou esse tipo de lugar para se distrair em grupo nas veredas de uma colina onde as pessoas se observam, esbarram umas nas outras, se comprimem e jogam no chão cascas de melancia, garrafas de água gasosa, caixas de conserva, papéis lambuzados e guimbas. Aqui também, mais dia, menos dia, será assim. Você acreditava vir antes de serem construídos belos pavilhões, quiosques, terraços ou torrinhas, de ter de se acotovelar diante da epígrafe de uma celebridade ou da máquina fotográfica de um jornalista. Intimamente, você se diverte alimentando algumas dúvidas. Nesta rua, nenhum sinal para atrair os turistas, enganaram você? Você confiou apenas em um itinerário rabiscado num maço de cigarros escondido em sua roupa e em um companheiro encontrado por acaso no trem. Nada prova que ele dizia a verdade. Você não viu nenhuma autêntica narrativa de viagem, e nem mesmo a grande relação dos pontos turísticos publicada recentemente incluía um verbete com esse nome. É certo que são localizáveis com facilidade pontos com nomes como Lingtai, Lingquiu, Lingyan e até Lingxan, folheando-se o atlas da China por províncias. Você não ignora que nos inumeráveis livros e textos históricos antigos, desde o Clássico dos mares e das montanhas, obra de adivinhação e de magia antiga, até o velho tratado de geografia intitulado Clássico dos rios, Lingxan bem que aparece. O próprio Buda despertou aí o venerável Mahacassiapa. Você não é estúpido, deve apelar para sua inteligência, procurar primeiro essa pequena aldeia chamada Wuyi mencionada no maço de cigarros e o caminho que penetra em Lingxan, a Montanha da Alma.

Você volta à estação rodoviária, entra na sala de espera, o lugar mais animado desta cidadezinha de montanha. A esta hora, a sala de espera já está completamente vazia. Os guichês de venda de passagens e os de depósito de bagagens estão obstruídos por uma prancheta. Você bate, sem obter o menor resultado. Só lhe resta levantar a cabeça para ler os nomes das estações, cada um mais bonito do que o outro, alinhados sobre o guichê: a Aldeia dos Zang, a Loja de Areia, a Fábrica de Cimento, o Velho Forno, Cavalo de Ouro, Ano Feliz, Inundação, a Baía do Dragão, a Bacia das Flores de Pessegueiro... mas nenhum corresponde ao lugar que você procura. Apesar do tamanhozinho desta vila, partem muitos ônibus para muitos destinos. Para um único roteiro, há até cinco ou seis ônibus, mas a viagem para a Fábrica de Cimento certamente não é turística. A linha menos freqüentada só é servida por um ônibus ao dia. Esse deve ser o lugar mais perdido, mas Wuyi se acha bem no finzinho. Não atrai o olhar, semelhante a todos os outros nomes de lugarejo sem “alma” especial. Mas, como se tivesse achado o fio de uma complicada meada que você não tinha esperança de desembaraçar, se você não está louco de alegria, pelo menos está sossegado. Você deverá comprar um bilhete uma hora antes da partida do ônibus. A experiência lhe diz que nessas linhas de montanha de um único horário por dia é uma luta subir no ônibus e, se você não se preparar para isso com antecedência, terá de enfrentar a fila muito cedo.

Neste momento, você tem tempo pela frente, mas a mochila começa a pesar nas suas costas. Você passeia e os caminhões carregados de madeira, buzinas berrantes, passam raspando em você. Na estrada estreita que atravessa a vilazinha, você observa que os caminhões, de todo tamanho, não deixam de trombetear suas buzinas. Nos ônibus, os trocadores mantêm o braço estirado pela janela e batem sem parar na carroceria, aumentando a confusão que reina na rua. E é o único meio que faz os pedestres, afinal, se afastarem.

As velhas casas dos dois lados da rua têm todas fachadas de madeira. No andar de baixo faz-se comércio, e no segundo andar secam-se roupas: de fraldas a sutiãs, de calções remendados a lençóis floridos agitam-se ao vento na poeira e no meio do tumulto dos carros, como se fossem bandeiras dos países do mundo inteiro. À beira do caminho, nos postes de cimento, à altura dos olhos, estão afixados todos os tipos de publicidade. Uma delas, que vende um produto contra o mau cheiro das axilas, prende particularmente a sua atenção. Não que você sofra dessa doença, mas você é atraído pela originalidade do texto. Depois do termo “bromidrose”, há uma explicação entre colchetes:

[A bromidrose (também chamada Odor dos Imortais) é uma doença desagradável que produz um odor nauseabundo. Por causa dela, muitos têm tido de adiar seu casamento ou encontram dificuldades para fazer amigos. Freqüentemente, rapazes e moças, impedidos de achar trabalho ou de entrar para o exército, por causa disso têm sofrido terrivelmente sem chegar a superar seus aborrecimentos. Agora, graças a um novo processo sintético, pode-se suprimir totalmente o mau cheiro. A eficácia é de 97,5%. Para sua alegria na vida e felicidade futura, venha se tratar conosco...]

Depois você chega a uma ponte de pedra. Nenhum mau cheiro. Um vento fresco sopra docemente, refrescando e agradando. A ponte de pedra passa por cima de um largo rio. Se bem que a rua seja asfaltada, distinguem-se ainda vagamente leões esculpidos sobre as colunas entalhadas. A ponte certamente deve ser muito velha. Apoiado sobre a balaustrada de pedra reforçada por cimento, você contempla as duas partes deste vilarejo ligadas pela ponte. De cada lado, inúmeros telhados de telhas pretas dispostos em fileiras compactas se estendem a perder de vista. Entre as montanhas abre-se um vale cujos campos de arroz amarelo-ouro mostram incrustações de bosques de bambu verdes. A água do rio de um azul puro corre tranqüilamente entre as praias de areia de seu leito, depois, chegada aos pilares da ponte de pedra talhada que a dividem, torna-se mais profunda e a cor muda para verde-escuro. Desde que passou o arco da ponte, a água emite um ronco, e uma espuma branca se forma sobre seus violentos turbilhões.
A água deixou sua marca em diferentes níveis do dique de pedra alto de mais de dez metros. A mais recente, de um amarelo-acinzentado, data da última inundação do verão. Será esse rio o Yu? Terá sua nascente em Lingxan?

O sol vai se pôr. Sua semi-esfera parece uma tampa alaranjada. Permanece brilhante, mas não ofusca mais. Você estica seu olhar até o ponto em que as duas vertentes do vale se juntam, lá onde os picos se perdem na bruma e nas nuvens. Esse quadro ilusório de um negro bem vivo cerca pouco a pouco por baixo o astro cintilante que parece rodar em círculo. Mais o sol poente se tinge de vermelho, mais doce fica. O azul-escuro e os raios dourados se misturam nas ondulações e nos jorros d'água. A bola cor de púrpura ainda manda alguma serenidade, mas, descendo ao fundo do vale, traz uma certa sedução em sua gravidade. E depois há os sons. Você ouve um deles, difícil de distinguir, que se põe a ressoar no fundo de seu coração e se espalha progressivamente, estremece um pouco, como quem anda na ponta dos pés, e escapa em disparada pela paisagem negra da montanha, invadindo os céus da bruma do crepúsculo. O vento da tarde sopra em seus ouvidos, como o som incessante das buzinas dos carros. Atravessando a ponte, você descobre na outra extremidade uma placa gravada recentemente com caracteres realçados em vermelho: Ponte Yongning, construída durante o terceiro ano da era Kaiyuan dos Song, restaurada em 1962. Placa afixada em 1983. Eis um sinal anunciando a chegada do turismo.

Ao fim da ponte há duas fileiras de botecos. Na da esquerda, você come uma tigela de queijo de soja preparado como geléia, um tipo de queijo de soja tenro e delicioso, bem temperado, vendido pelas ruas e vielas, que tinha desaparecido durante algum tempo, mas hoje voltou a ser fabricado graças a uma receita transmitida de pai a filho. Depois, na da direita, você come dois biscoitos de gergelim e cebola saindo da frigideira, quentes e cheirosos: afinal, você come ainda – você nem se lembra mais onde – dois bolinhos de arroz com glúten fermentado, só um pouquinho maiores do que pérolas, açucarados à vontade de cada um. Claro, você não foi tão pedante como o Senhor Ma, o Segundo, viajando para o Lago do Oeste, mas você tem muito bom apetite. Degustando essa comida dos nossos ancestrais, você ouve as conversas dos fregueses e dos donos que conhecem bem a região. Você gostaria de se aproximar e se misturar com aqueles grupos falando a suave linguagem deles com sotaque camponês. Você viveu muito tempo na cidade e não consegue se desligar de uma grande nostalgia da região em que nasceu, e gostaria de sentir um certo bem-estar voltando à época de sua infância e reencontrando as lembranças perdidas.

Você acaba de achar um hotel deste lado da ponte, numa velha rua calçada com pedras. O assoalho foi lavado há pouco. No quarto simples que você elogiou, está estendida uma prancha recoberta por uma esteira de bambu e uma colcha de algodão de um cinzento que não se sabe se é produto da sujeira ou se se trata da cor original. Você empurra a colcha para baixo da esteira, afasta o travesseiro engordurado. Felizmente faz calor, a roupa de cama é inútil. Nesse momento, você sente a necessidade de tirar das costas sua mochila, que se tornou muito pesada, e de se livrar de toda a poeira e da transpiração que se cola a seu corpo. Você se espicha de torso nu sobre a cama, pernas afastadas. No quarto ao lado, pedem-se explicações. Joga-se baralho. Você ouve claramente o ruído das cartas quando são baixadas sobre a mesa. Só um tabique separa os quartos e, pelos buracos dos panos de parede rasgados, você pode perceber vagamente alguns rapagões sem camisa. Você não está cansado a ponto de mergulhar imediatamente no sono e você bate no tabique. Uma voz surda se ergue do outro lado. Não é contra você, mas contra eles mesmos que reclamam. Há os ganhadores e os perdedores, e os perdedores demoram a honrar suas dívidas. Nesse hotel joga-se a dinheiro abertamente apesar do aviso da polícia do distrito afixado nos quartos, que determina a proibição do jogo e da prostituição. Você realmente tem vontade de verificar se esse regulamento é respeitado. Veste-se, sai pelo corredor e bate na porta entreaberta do quarto. A confusão continua, ninguém presta atenção a você. Você entra decididamente, empurrando a porta. Os quatro rapazes sentados em volta de uma cama no meio do cômodo se voltam para olhá-lo. Não estão de todo surpresos, você é que está mais espantado. Quatro rostos estranhos com pedaços de papel colados nas sobrancelhas, nos lábios, no nariz ou nas bochechas. São tão apavorantes como cômicos. Mas não riem, não fazem mais do que olhá-lo. Você os perturbou, manifestamente eles estão com raiva.

– Ah, vocês estão jogando baralho...
Tudo que você faz é se desculpar.
E eles continuam baixando suas cartas. São muito compridas, com desenhos vermelhos ou pretos, como no majongue. Exibem também a porta celeste e a prisão terrestre. O perdedor é punido pelo ganhador, que lhe cola um pedaço de papel de jornal em determinado lugar. É só uma brincadeira de mau gosto, um jeito de botar os instintos para fora, ou talvez um jeito estabelecido pelos apostadores permitindo aos perdedores ou aos ganhadores que façam suas contas, impossível sabê-lo de fora.

Você sai recuando e volta para o seu quarto. Estende-se de novo sobre a cama e contempla no forro as manchas que se juntam em volta da lâmpada elétrica, que são na verdade incontáveis mosquitos, esperando que a luz se apague para virem picá-lo. Rapidamente você baixa o mosquiteiro. Fixado no teto por uma tira de bambu formando um círculo, o mosquiteiro de gaze delimita um espaço cilíndrico. Há muito tempo você não dorme sob esse tipo de mosquiteiro e faz muito que você já passou da idade em que se perdia em devaneios, os grandes olhos abertos fixos no alto da gaze. Hoje, você não sabe que impulso o animará amanhã, você que aprendeu bem tudo que foi necessário aprender, que é que você vai procurar agora? Chegado à idade madura, você não devia viver tranqüilamente, dar conta de sua tarefa sem pressa num posto nem muito baixo, nem muito alto, cumprir seu papel de marido e de pai, instalar-se num ninho aconchegante, guardar no banco um pouco de dinheiro que rendesse no correr dos meses e lhe proporcionasse um pouco de conforto depois de retirados os descontos para aposentadoria?

2

A meio caminho entre os elevados planaltos tibetanos e a bacia do Sichuan, no país da etnia quiang, na parte média dos montes Quionglai, vi a adoração do fogo e uma sobrevivência da civilização original da humanidade. Os ancestrais de cada etnia veneraram o fogo que lhes trouxe os inícios da civilização. É um deus.

Sentado diante do fogo, ele bebe, mas, antes de provar a bebida, mergulha um dedo em sua tigela e o agita sobre brasas que se põem a assobiar soltando uma fumaça azulada. Nesse instante, compreendo que verdadeiramente existo.

– Faço esta oferenda ao deus do lar porque graças a ele é que temos o que beber e o que comer.
A luz do fogo ilumina suas faces cavas, seu nariz longo e suas maçãs do rosto salientes. Ele me diz que pertence à etnia quiang, que é originário da aldeia de Gengda. Sem graça para fazer-lhe de saída perguntas sobre os deuses e os demônios, digo-lhe simplesmente que vim estudar cantos populares destas montanhas e lhe pergunto se ainda existe aqui a dança chamada gejuang. Ele declara que ele próprio ainda é capaz de dançá-la, que, orgulhosos, homens e mulheres dançavam em torno do fogo até de manhãzinha, porém que, mais tarde, isso foi proibido.

– Por quê?
Sei perfeitamente a resposta, mas assim mesmo faço a pergunta.
– Por causa da Revolução Cultural. Disseram que as palavras das canções eram nocivas e elas foram substituídas pelas citações de Mao.
– E depois?
Faço a pergunta ainda de propósito, o que se tornou em mim um velho hábito.
– Depois, ninguém mais entoou as canções. Hoje retoma-se essa dança, mas raros são os jovens que sabem. Eu ensino a eles.

Peço-lhe que faça uma demonstração. Imediatamente ele se levanta e, sem hesitação, põe-se a dançar cantando. Sua voz é grave e forte, uma bela voz natural. Estou convencido que ele é da etnia quiang, mas os policiais que se ocupam da condição civil duvidam disso. Acham eles que todos os que declaram pertencer às etnias tibetana ou quiang só o fazem para escapar da limitação dos nascimentos e assim poder pôr no mundo mais crianças.

Canta uma canção, depois outra. Diz-me que gosta muito de se divertir, no que também acredito. Acaba de se livrar de seu cargo de chefe de aldeia e se parece de novo com um montanhês, um velho montanhês cheio de animação. Infelizmente, passou da idade das aventuras amorosas.

Também é capaz de dizer de cor numerosas encantações, procedimentos mágicos que os caçadores usam no momento de ir para a montanha, chamados “método da montanha negra” ou então “bruxaria”. Não nega isso. Acredita firmemente que essas encantações podem empurrar as caças para as valas ou levá-las a se deixar cair nas armadilhas. A magia não é usada só para pegar os animais, mas também entre os homens, com uma finalidade de vingança. Se o “método da montanha negra” é utilizado contra um homem, ele está comprometido a não sair mais da montanha. Isso parece com uma história que ouvi quando era criança: o fantasma que ergue um muro. Um homem caminha de noite numa trilha da montanha, anda, anda e de repente aparece um muro diante dele, uma muralha escarpada ou mesmo um rio profundo cuja travessia é impossível para ele. Se ele não conseguir quebrar o encanto, não pode mais dar o menor passo em frente e volta incessantemente a seu ponto de partida. Assim, quando o dia se levanta, ele percebe que não fez senão dar voltas no mesmo lugar. E o que é pior: a magia pode levar a um ponto sem saída, e então é a morte.

Encantação sobre encantação ele continua a recitar. Esses sortilégios não são tristes e pacíficos como as canções, mas, ao contrário, desabalados como uma respiração forte
e irregular. Não posso compreender tudo que ele diz, mas o encanto dessa língua, o sopro soberbo dos monstros e demônios que ele invoca, enchem o cômodo enegrecido pela fumaça. As chamas lambem o caldeirão onde cozinha a carne de carneiro, fazendo brilhar seus olhos: eis uma cena verdadeira.

Enquanto você está em busca do caminho que leva a Lingxan, eu, passeando ao longo do Yang-zi, busco a verdade. Acabo de passar por um momento grave. Os médicos diagnosticaram erradamente um câncer de pulmão. A morte brinca comigo e consigo finalmente superar o obstáculo que ela armou contra mim. Alegro-me comigo mesmo. A vida me deu de novo um imenso vigor. Deveria depois de muito tempo deixar meu meio ambiente poluído e voltar à natureza em busca de uma vida autêntica.

Os que constituíam meu círculo mais próximo me ensinaram que a vida era a fonte da literatura e que a literatura devia ser fiel à vida, fiel à sua verdade. E meu erro era justamente ter me afastado da vida, ter ido contra a sua verdade. A verdade da vida não se parece com a imagem exterior. A verdade da vida, quer dizer, a natureza da vida, deve ser tal como é e não de outro modo. Se estou afastado dessa verdade, é porque só expus uma série de fenômenos da vida que com toda a certeza não podem refleti-la corretamente. O resultado é que não fiz mais do que assumir compromissos com um falso caminho, deformando com isso a realidade.

Não sei se, no momento, trilho verdadeiramente o bom caminho: em todo caso, quero abandonar o mundo literário em plena efervescência e me refugiar em meu quarto sempre cheio de fumaça de tabaco. Os livros que aí se amontoam me oprimem, a ponto de me impedir de respirar. Eles expõem todas as espécies de verdades, desde a verdade histórica até a verdade do comportamento humano, e não sei mais que utilidade elas têm. Entretanto, elas me travam e eu me debato em suas redes, vivo como um inseto apanhado na armadilha de uma teia de aranha. Felizmente, o médico que se enganou em seu diagnóstico me salvou a vida. Era um homem sincero. Deu-me para comparar as duas radiografias do peito que me tinha feito. À borda do pulmão esquerdo, uma sombra de contornos desfocados estendia-se até a traquéia. Mesmo se se retirasse totalmente o lobo do pulmão esquerdo, ele não serviria para nada. Essa conclusão surgia como uma evidência. Meu pai já tinha morrido de um câncer de pulmão, e só três meses decorreram entre a descoberta da doença e sua morte. Era o mesmo médico que tinha feito o diagnóstico. Eu tinha confiança nele e ele confiava na ciência. As radiografias que eu tinha feito em dois hospitais diferentes eram em cada ponto semelhantes, não podia haver aí um erro de ordem técnica. O doutor também tinha me dado uma receita para que eu fizesse uma fibroscopia 15 dias depois. Eu não tinha pressa, porque ela confirmaria sem dúvida nenhuma o volume desse tumor. Antes da morte de meu pai, eu tinha procedido da mesma maneira, só caminhava nesse sentido, isso não tinha nada de original. E entretanto eu estive entre os dedos da morte, não posso negar que tive sorte. Acredito na ciência, mas também no destino.

Vi um pedaço de madeira, comprido de 13 centímetros, recolhido nos anos 30 por um etnólogo na região de etnia quiang, com a escultura de um homem de cabeça baixa apoiada sobre suas duas mãos, os traços do rosto marcados de negro. Sobre seu corpo a inscrição de dois caracteres: “longa vida”. Chamavam-no o “wuchang cabeça baixa”. O homem esculpido tinha realmente alguma coisa de maléfico. Eu perguntava àquele chefe de aldeia aposentado se era encontrado ainda aquele gênero de deuses protetores. Respondeu-me que eram chamados “laogen”: as “velhas raízes”. Essa estatueta deve ser dada ao recém-nascido e ficar com ele pelo resto de sua vida, até a morte. Depois, quando seu dono morre e é enterrado, a estatueta é depositada em plena montanha, para ajudar a alma do morto a retornar à natureza. Como eu lhe pedisse se podia achar uma para que eu carregasse comigo, ele me respondeu rindo que eram os caçadores que as levavam em suas roupas para conjurar a má sorte, mas elas não tinham nenhuma utilidade para pessoas como eu.

– Poderia então achar um velho caçador conhecedor da feitiçaria, com o qual eu pudesse caçar?
– O velho pai Xi é que tem mais talento – respondeu, depois de um tempo de
reflexão.
– Pode-se achá-lo?
– Ele está na casa de pedra do pai Xi.1
– E onde é essa casa?
– Se você subir mais dez lis* a partir daqui, chegará ao Barranco da Mina de Prata. Lá, você seguirá até o fim da torrente que passa no barranco, e verá uma casa de pedra.
– O lugar tem um nome, ou é apenas a casa de pedra do pai Xi?
Ele me explica que é o nome do lugar, mas que há verdadeiramente uma casa de pedra, na qual mora o pai Xi.
– Você pode ir comigo? – pergunto ainda.
– Ele está morto. Morreu dormindo, estirado em sua cama. Era muito velho, mais de 90 anos. Até mais de 100, segundo outros. Na verdade, ninguém sabia muito bem sua idade.
Não resisto a perguntar:
– Os descendentes dele ainda estão vivos?
– Ele era da geração de meu avô... Sempre me disseram que ele viveu sozinho.
– Não tinha mulher?
– Vivia sozinho no Barranco da Mina de Prata, nada de família, nada de lar, uma casinha para ele sozinho.Ah, seu fuzil ficou pendurado perto dele.
Pergunto-lhe o que quer dizer isso.
Ele me explica que se tratava de um bom caçador, muito apaixonado por magia, como não há mais hoje. Todo mundo sabe que seu fuzil sempre esteve pendurado na parede da casinha dele, uma arma cujo tiro nunca falhou, mas ninguém ousa pegá-lo.

Não entendo por quê.
– O caminho que leva ao Barranco da Mina de Prata está obstruído.
– Não se pode mais entrar lá?
– Não. Antigamente qualquer um abria uma mina de prata naquele lugar e uma empresa de Chengdu tinha contratado operários para trabalhar lá. Depois, ela foi roubada e os operários partiram para longe. A passarela que levava à mina pelo barranco desabou em alguns trechos ou apodreceu.
– Quando foi isso?
– Meu avô ainda vivia. Acho que faz uns 50 anos.
Nada de espantoso que agora esteja aposentado. Ele pertence à história, uma história real.
– E nunca mais alguém entrou lá?
Cada vez tenho mais desejo de conhecer a chave do mistério.
– Não se pode garantir. De todo modo, não é fácil ir lá.
– A casa também está apodrecida?
– Como uma casa de pedra poderia estar apodrecida?
– Queria me referir às vigas.
– Ah, sim, com toda a certeza.
Na minha opinião, ele tenta me deixar com medo, porque não tem a intenção de me levar lá ou de me apresentar a um caçador.,?p>

– Mas como você sabe que o fuzil continua pendurado na parede? – volto a perguntar.
– É o que se diz. Alguém deve tê-lo visto. Conta-se também que o velho pai Xi era muito estranho. Seu corpo não se decompôs e os animais selvagens não ousaram tocá-lo. Está estirado reto na cama, muito magro, muito seco, seu fuzil está pendurado na parede.
– Impossível, a umidade é muito forte numa montanha. Certamente o cadáver se decompôs e o fuzil deve ter se transformado numa porção de ferragem enferrujada.
– Não sei, é o que se diz depois de tanto tempo.
Continua a dizer o que quer sem levar em conta minhas opiniões. Chamas brilham em seus olhos. Acho-os cheios de malícia.
Volto à carga:
– Você não o viu, não é?
– Alguns o viram. Ele parecia dormir. Muito magro, muito seco, seu fuzil pendurado na parede – continua ele, no mesmo tom. – Não apenas os homens não ousaram pegar seu fuzil, como os animais não ousaram tocar em seu corpo.

Esse caçador já tinha sido divinizado. A história e os boatos se misturavam, uma lenda popular tinha nascido. A verdade não existe a não ser na experiência e ainda apenas na experiência de cada um, e mesmo assim, desde que seja contada, torna-se história. É impossível demonstrar a verdade dos fatos, e não é preciso fazê-lo. Deixemos os hábeis dialéticos debater sobre a verdade da vida. O importante é a própria vida. O que é real, o que eu sou sentado ao lado deste fogo, neste quarto enegrecido pela fumaça do óleo, que eu vejo essas chamas dançando nos olhos dele, isso é que é verdade, sou eu mesmo, é a sensação fugidia que acabo de experimentar, impossível de transmitir a outro. Fora, caiu o nevoeiro, as montanhas sombrias estão esbatidas, o som do rio rápido ressoa em você, e isso basta.

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blue de izabel disse...

Parece bom!

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