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junho 02, 2008

Trecho do Livro: O Castelo de Vidro | Jeannette Walls

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Trecho do Livro: O Castelo de Vidro | Jeannette Walls

Livro O Castelo de Vidro Jeannette Walls The Glass Castle A Memoir BookLivro: O Castelo de Vidro
Brasil | World

“Filha, a gente não tem dinheiro para o presente, mas escolhe uma estrela no céu, e fica com ela pra toda a vida.”

Nunca acreditei em Papai Noel.

Nenhum de meus irmãos acreditava. Mamãe e papai se recusaram a nos deixar acreditar. Eles não tinham condições de comprar presentes caros e não queriam que nós pensássemos que não éramos tão bons como todas as outras crianças que, na manhã de Natal, encontravam todo tipo de brinquedos bacanas debaixo da árvore, que eram, supostamente, deixados lá pelo Papai Noel. Então, eles nos contaram que as outras crianças eram enganadas pelos pais, que os brinquedos que os adultos diziam serem feitos por duendes que usavam chapeuzinhos com guizos em um ateliê no pólo Norte tinham, na verdade, etiquetas onde estava escrito "Made in Japan".

— Tentem não desprezar essas outras crianças — dizia mamãe.

— Não é culpa delas se elas sofreram uma lavagem cerebral pra acreditar nesses mitos bobos.

Comemorávamos o Natal, mas, geralmente, uma semana depois de 25 de dezembro, quando se encontravam laços de fita e papel de embrulho em perfeito estado que as pessoas tinham jogado fora, e árvores de Natal largadas ao longo dos acostamentos das estradas que ainda tinham a maior parte das folhas e, algumas, até enfeites prateados agarrados aos galhos. Mamãe e papai davam de presente um saquinho de bola de gude, ou uma boneca, ou um estilingue, que tinham encontrado na liquidação de Natal.

Naquele ano, papai perdeu o emprego na mina de gesso depois de brigar com um chefe, e, quando chegou o Natal, nós não tínhamos nem um centavo. Na véspera de Natal, papai nos levou para passear de noite no deserto, um de cada vez. Eu estava enrolada em um cobertor e, na minha vez, eu quis dividi-lo com o papai, mas ele disse "não, obrigado". O frio nunca o incomodava. Eu tinha feito cinco anos, e sentei do lado dele, e nós olhamos para cima, para o céu. Papai adorava falar sobre as estrelas. Ele explicava como elas orbitavam pelo céu noturno enquanto a Terra girava. Ele nos ensinou como identificar as constelações e navegar pela estrela Polar. Aquelas estrelas brilhantes, ele insistia sempre, eram uma das melhores coisas que existiam para gente como nós, que vivia na natureza. Os caras ricos da cidade, dizia, moravam em apartamentos chiques, mas o ar deles era tão poluído que eles nem conseguiam ver as estrelas. A gente teria que estar completamente maluco para querer trocar de lugar com eles.

— Escolhe a tua estrela favorita — disse ele naquela noite. Ele disse que eu podia ficar com ela para mim. Ele disse que era o meu presente de Natal.

— Você não pode me dar uma estrela! — falei. — Ninguém é dono de uma estrela.

— É isso aí — disse ele. — Nenhuma outra pessoa tem uma estrela. Basta você declarar que tem antes dos outros, que nem aquele carcamano do Cristóvão Colombo, que declarou que a América era da rainha Isabel. Declarar que uma estrela é tua tem a mesma lógica.

Pensei bem e cheguei à conclusão de que o papai estava certo.

Ele sempre descobria umas coisas assim.

Eu podia ter qualquer estrela que quisesse, disse, menos Betelgeuse e Rigel, porque a Lori e o Brian já tinham declarado que elas eram deles.

Levantei os olhos, olhei as estrelas e tentei decidir qual era a melhor de todas. Dava para ver centenas, talvez milhares ou, até, milhões, brilhando no céu claro do deserto. Quanto mais tempo você olhava, mais os olhos se acostumavam ao escuro, mais estrelas você enxergava, camada por camada tornando-se visível. Havia uma em particular, a oeste, sobre as montanhas, mas baixa no céu, que brilhava com mais força do que todas as outras.

— Quero aquela — falei.

Papai sorriu.

— Aquele é Vênus — disse ele. — Vênus é apenas um planeta bem chinfrim se comparado às estrelas de verdade. Ele parece maior e mais brilhante porque está muito mais perto do que as estrelas. O pobrezinho de Vênus nem produz sua própria luz. É iluminado, não luminoso, só brilha porque reflete a luz. — Ele me explicou que os planetas brilhavam porque a luz refletida era constante, e que as estrelas brilhavam porque a sua luz pulsava.

— Gosto dele mesmo assim — falei. Eu já admirava Vênus, mesmo antes daquele Natal. Dava para vê-lo já nas horas iniciais da noite, cintilando no horizonte, a oeste. E, se você levantasse cedo, ainda podia vê-lo de manhã, depois que todas as estrelas já tinham desaparecido.

— Ora bolas — disse papai. — É Natal. Você pode ter um planeta se quiser.

E ele me deu Vênus.

Naquela noite, durante o jantar, conversamos sobre o espaço sideral. Papai explicou o que eram anos-luz, buracos negros e quasares, e falou das qualidades especiais de Betelgeuse, Rigel e Vênus.

Betelgeuse era uma estrela vermelha, no ombro da constelação de Orion. Era uma das maiores estrelas que se podiam ver no céu, centenas de vezes maior do que o Sol. Ela tinha ardido com um brilho intenso durante milhões de anos, e logo se tornaria uma supernova e se apagaria. Fiquei triste porque a Lori tinha escolhido uma estrela toda ferrada, mas papai explicou que "logo" queria dizer centenas de milhares de anos, em se tratando de estrelas.

Rigel era uma estrela azul, menor que Betelgeuse, prosseguiu papai, mas ainda mais brilhante. Também ficava em Orion — estava no seu pé esquerdo, o que parecia apropriado, porque o Brian corria super rápido.

Vênus não tinha luas nem satélites, nem sequer um campo magnético, mas ele tinha uma atmosfera meio que parecida com a da Terra, só que era extremamente quente — uns 260ºC ou mais.

— Por isso, quando o Sol começar a se apagar e a Terra congelar, todo mundo daqui vai querer mudar para Vênus, para ficar no quentinho. E eles vão ter que pedir permissão para os seus descendentes primeiro — alegou papai.

Rimos de todas as crianças que acreditavam na lenda do Papai Noel, e só ganhavam um monte de brinquedos baratos — e de plástico — de presente.

— Daqui a muitos anos, quando a porcariada que eles ganharam estiver quebrada e a tiverem esquecido toda — disse ele —, vocês ainda terão as suas estrelas.

Papai comprou um Ford Fairlane recauchutado naquele inverno, e, em um fim de semana em que o tempo esfriou, ele disse que nós íamos nadar no Pote Quente. O Pote Quente era uma fonte sulfurosa natural no deserto, ao norte da cidade, cercada de rochas íngremes e de areia movediça. A água era morna ao contato com a pele, e cheirava a ovo podre. Era tão cheia de minerais que incrustações duras e calcárias haviam se acumulado ao longo das bordas, como em um recife de corais. Papai sempre dizia que nós devíamos comprar o Pote Quente e transformá-lo em um spa.

Quanto mais fundo você entrasse na água, mais quente ela ficava. Era muito funda no meio. Certas pessoas das redondezas de Battle Mountain diziam que o Pote Quente não tinha fundo, que ele ia direto para o centro da Terra. Uns bêbados e uns adolescentes malucos tinham se afogado lá, e o pessoal do clube Owl, ao ver os corpos retornarem à superfície, constatava que eles tinham sido, literalmente, cozidos.

Tanto o Brian quanto a Lori sabiam nadar, mas eu nunca tinha aprendido. Grandes volumes d’água me davam medo. Pareciam artificiais — aberrações nas cidades de deserto onde havíamos morado. Nós nos hospedamos, uma vez, em um hotel que tinha uma piscina, e eu tinha conseguido arrumar coragem suficiente para circular ela toda, agarrada à borda. Mas o Pote Quente não tinha nenhuma beirada fácil de segurar como aquela piscina. Não havia onde segurar.

Eu me arrastei até a altura dos ombros. A água que circundava o meu peito estava morna, e as pedras onde eu estava pisando estavam tão quentes que eu queria continuar indo adiante. Olhei para trás, para o papai, que olhava para mim, sem sorrir. Eu queria adentrar a água mais profunda, mas alguma coisa me retinha. Papai deu um mergulho e me alcançou a nado.

— Você vai aprender a nadar hoje — disse ele.

Ele colocou um braço em volta de mim e começamos a nadar um com o outro. Papai me puxava. Eu estava aterrorizada e me agarrei ao seu pescoço tão forte que a sua pele ficou branca.

— Pronto, não foi tão ruim assim, foi? — me perguntou ele quando chegamos ao outro lado.

Nós fizemos o caminho de volta, e, dessa vez, quando estávamos no meio, papai desprendeu os meus dedos agarrados ao seu pescoço e me empurrou para longe dele. Comecei a espernear e me debater desesperadamente, e afundei na água quente e fedorenta. De maneira instintiva, respirei dentro d’água. A água se infiltrou pelo nariz, boca adentro e garganta abaixo. Os meus pulmões queimavam. Os meus olhos estavam abertos, e ardiam com o enxofre, mas a água era escura, e o meu cabelo estava colado contra o meu rosto, e eu não conseguia enxergar nada. Um par de mãos me segurou pela cintura. Papai me puxou até o raso. Eu cuspia e tossia e respirava de maneira irregular, através de soluços bruscos.

— Está tudo bem — disse ele. — Respira fundo.

Quando eu me recompus, o papai me levantou e me arrastou de novo até o meio do Pote Quente.

— Afunda ou nada! — gritou.

Pela segunda vez, eu afundei. A água mais uma vez invadiu meu nariz e meus pulmões. Esperneei e me debati até conseguir subir à superfície, buscando ar, e tentei alcançar o papai. Mas ele se afastou, e eu só senti as suas mãos me sustentando depois da segunda vez que afundei.

Ele repetiu os mesmos gestos de novo, e mais uma vez, até eu compreender que ele só me salvava para me jogar dentro d’água novamente. Por isso, em vez de tentar alcançar as mãos do papai, eu comecei a tentar me afastar delas. Eu o chutava e me afastava dentro d’água usando os braços e, finalmente, consegui me impulsionar para além do seu alcance.

— Você conseguiu, filhota! Você tá nadando! — gritou ele.

Arrastei-me para fora d’água e sentei sobre umas pedras calcificadas, com o peito arfando. Papai também saiu da água e tentou me dar um abraço, mas eu não quis nada com ele, nem com a mamãe, que tinha ficado boiando o tempo todo, como se nada estivesse acontecendo, nem com o Brian ou com a Lori, que vieram até mim para me dar os parabéns. Papai ficava dizendo que me amava, que nunca me teria deixado na mão, mas que eu não podia passar a vida inteira agarrada à borda, que uma lição que todo pai tem que dar ao filho é que "se você não quer afundar, é melhor tentar descobrir uma maneira de nadar". Que outra razão, perguntou ele, poderia haver para me fazer passar por aquilo?

Quando recuperei o fôlego, eu comecei a achar que ele estava certo. Não podia haver outra explicação.

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