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agosto 13, 2008

Trecho do Livro: Criança 44 | Tom Rob Smith

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Trecho do Livro: Criança 44 | Tom Rob Smith

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Aldeia de Chervoy, Ucrânia (União Soviética). Uma vez que Maria tinha decidido morrer, seu gato teria de se haver sozinho. Ela cuidou dele muito além do ponto onde fazia sentido ter um animal de estimação. Há muito tempo ratos e camundongos tinham sido pegos em armadilhas e comidos pelos habitantes da aldeia. Os animais domésticos sumiram pouco depois. Com exceção de um, esse gato, o companheiro que ela mantinha escondido. Por que não o matou? Porque precisava de alguma coisa pela qual viver, de algo para proteger e amar, para sobreviver por ele. Prometeu continuar dando comida para ele até o dia em que não pudesse mais alimentar a si mesma. O dia era esse. Ela já havia cortado suas botas de couro em tiras finas, cozinhando-as com sementes de urtiga e raiz de beterraba. Já tinha cavado em busca de minhocas, chupando casca de árvore. Naquela manhã, num delírio febril, havia roído a perna do banco da cozinha e mastigado até as lascas furarem suas gengivas. Ao vê-la, o gato correu, se escondeu embaixo da cama e não apareceu nem quando ela se ajoelhou no chão e chamou-o pelo nome, tentando convencê-lo. Foi nesse momento que Maria resolveu morrer, porque não tinha nada para comer nem para amar.

Esperou anoitecer para abrir a porta da frente. Achava que, no escuro, o gato teria mais chance de chegar à floresta sem ser visto. Se alguém na aldeia o notasse, iria pegá-lo. Mesmo tão perto de morrer, Maria ficou perturbada com a idéia do gato sendo morto. Consolou-se pensando que o inesperado estava do lado dele. Num lugar onde homens mascavam terra na esperança de encontrar formigas ou ovos de insetos, onde as crianças mexiam em excremento de cavalo na esperança de encontrar pedaços mal digeridos de cevada e as mulheres brigavam por ossos, Maria tinha certeza de que ninguém acreditaria que um gato ainda estivesse vivo.

Pável não acreditou no que viu. Era um bicho desajeitado, magro, de olhos verdes e pêlo salpicado de preto. Sem dúvida, um gato. Pável estava recolhendo lenha quando viu o animal sair correndo da casa de Maria Antonovna, atravessar a estrada coberta de neve e ir para a floresta. Prendeu a respiração e olhou em volta. Ninguém tinha notado. Não havia ninguém por ali, as janelas estavam escuras. O único sinal de vida eram nuvens de fumaça saindo de menos da metade das chaminés. Era como se a aldeia estivesse soterrada na neve pesada, tudo extinto. A neve estava quase intacta: não havia marcas de pés e nenhum caminho tinha sido cavado. Os dias eram tão silenciosos quanto as noites. Ninguém saía para trabalhar. Nenhum dos amigos dele brincava, ficavam em casa com a família, encolhidos na cama, filas de olhos fundos olhando para o teto. Os adultos começavam a ficar parecidos com crianças e as crianças, com adultos. A maioria tinha desistido de procurar comida. Assim, o aparecimento de um gato era quase um milagre, o ressurgimento de um animal há muito considerado extinto.

Pável fechou os olhos e tentou lembrar a última vez em que tinha comido carne. Quando os abriu, estava com água na boca. A saliva escorreu, grossa, pelo rosto. Limpou-a com as costas da mão. Nervoso, largou a pilha de lenha no chão e foi para casa. Tinha que contar para a mãe, Oksana, aquela incrível novidade.

Oksana estava enrolada num pano de lã, olhando para o chão. Continuou completamente imóvel, conservando a energia enquanto pensava em como manter a família viva, preocupação que ocupava todas as suas horas desperta e todos os aflitos pesadelos. Era uma das poucas pessoas que não desistia. Jamais desistiria. Pelo menos enquanto tivesse os filhos. Mas determinação não bastava, era preciso tomar cuidado: um esforço malcalculado poderia causar exaustão, que levava sempre à morte. Alguns meses antes, Nikolai Ivánovitch, vizinho e amigo, atacou, desesperado, um celeiro do Estado. Não voltou. Na manhã seguinte, a esposa dele e Oksana foram procurá-lo. Encontraram o corpo ao lado da estrada, esquelético, com o estômago liso e saltado, a barriga inchada com o cereal cru que engoliu nos últimos instantes de vida. A esposa chorou enquanto Oksana tirava os grãos que ficaram nos bolsos e dividia entre as duas. Na volta para casa, a esposa de Nikolai contou a notícia para todos. Em vez de lastimarem, eles a invejaram, só pensando nos punhados de grãos que possuía. Oksana achou que ela era uma boba sincera, pois colocou as duas em perigo.

As lembranças foram interrompidas pelo barulho de alguém correndo. Ninguém corria, a não ser que tivesse uma notícia importante. Ela se levantou, temerosa. Pável irrompeu na sala e, ofegante, anunciou:

— Mãe, vi um gato.

Ela deu um passo e agarrou as mãos do filho. Tinha de se certificar de que ele não estava imaginando coisas: a fome enganava. Mas o rosto dele não mostrava sinais de alucinação. Os olhos estavam atentos e a expressão, séria. Tinha apenas 10 anos e já era um homem. As circunstâncias exigiam que ele esquecesse a infância. O pai provavelmente estava morto, pelo menos para eles. Tinha ido para a cidade de Kiev na esperança de trazer comida. Nunca voltou e Pável compreendeu que jamais voltaria, sem precisar que lhe dissessem, nem de ser consolado. Agora Oksana dependia do filho tanto quanto ele dela. Eram companheiros e Pável tinha jurado que conseguiria o que o pai não conseguiu: manter a família viva. Oksana tocou o rosto do filho.

— Você consegue pegar o gato? Ele sorriu, orgulhoso.

— Se eu tiver um osso.

O lago estava gelado. Oksana cavou a neve para achar uma pedra. Preocupada que o barulho chamasse atenção, escondeu a pedra no xale, abafando o barulho enquanto cavava um pequeno buraco na neve. Colocou a pedra no chão. Tomou coragem, enfiou a mão na água escura e gelada, soltou uma exclamação por causa do frio. Mexeu depressa, pois em segundos ficaria com o braço dormente. Tocou no fundo do buraco e sentiu apenas lodo. Onde estava o que tinha guardado? Apavorada, inclinou-se e enfiou o braço inteiro, procurando à esquerda e à direita, ficando com a mão insensível. Os dedos bateram num vidro. Aliviada, tirou a garrafa do buraco. A pele de Oksana ficou em tons de azul, como se tivesse levado socos. Não se importou, pois tinha encontrado o que procurava: uma garrafa lacrada. Limpou a camada de lodo que se acumulara no vidro e olhou dentro. Tinha vários ossinhos.

Voltou para casa e viu que Pável tinha acendido a lareira. Esquentou o lacre nas chamas e a resina pingou nas cinzas em gotas grossas. Enquanto esperavam, Pável percebeu que a mãe estava azulada e esfregou o braço dela para a circulação voltar, sempre atento às necessidades dela. Depois que o lacre derreteu, ela virou a garrafa e balançou. Vários ossos ficaram na boca da garrafa. Pegou-os e entregou-os para o filho. Pável olhou-os com atenção, raspou e cheirou todos. Escolheu um, estava pronto para sair de casa. Ela não deixou.

— Leve seu irmão.

Pável achou que seria bobagem. O irmão caçula era desajeitado e lento. E, de toda forma, o gato era dele. Ele viu, ele o pegaria. A vitória seria dele. A mãe colocou mais um osso na mão dele.

— Leve Andrei.

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Zano disse...

Esse livro é fantástico. Recomendo a leitura. Comecei a ler sem nenhum ânimo, só ia folear, mas desde a primeira página fiquei presa a história do livro, que cada vez me surpreendia...só parei na última página. Muito bom.

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