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setembro 21, 2008

Livro: A Chave de Sarah | Tatiana de Rosnay | Primeiro Capítulo

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Livro: A Chave de Sarah | Tatiana de Rosnay | Primeiro Capítulo

Livros A Chave de Sarah Tatiana de Rosnay BooksLivro: A Chave de Sarah

Paris, julho de 1942.

A menina foi a primeira a ouvir as fortes pancadas na porta. Seu quarto era o mais próximo à entrada do apartamento. No início, entorpecida pelo sono, pensou que era seu pai, subindo do esconderijo no porão. Ele havia esquecido suas chaves e estava impaciente porque ninguém ouvira sua primeira e tímida batida. Mas depois vieram as vozes, fortes e brutais no silêncio da noite, que não tinham nada a ver com seu pai.

— É a polícia! Abram a porta! Agora!

As pancadas recomeçaram, desta vez mais fortes. Elas ecoavam até a medula dos ossos. O irmão mais novo, adormecido na cama ao lado, agitou-se.

— É a polícia! Abram a porta! Abram a porta!

Que horas eram? Ela espiou pelas cortinas. Ainda estava escuro lá fora.

Ficou com medo. Lembrou-se das recentes conversas sussurradas que havia escutado, tarde da noite, quando seus pais pensavam que estava dormindo. Ela havia caminhado silenciosamente até a porta da sala de estar para ouvir e olhar através de uma pequena fresta. A voz nervosa de seu pai. O rosto ansioso da mãe. Eles conversavam em sua língua materna, que a menina compreendia, embora não fosse fluente como eles. Seu pai havia sussurrado que os tempos que estavam por vir seriam difíceis. Que eles teriam que ser corajosos e muito cuidadosos. Ele pronunciava palavras estranhas, desconhecidas: “campos”, “batida policial, uma grande batida policial”, “prisões de manhã cedo”, e a menina ficava imaginando o que tudo aquilo poderia significar. Seu pai havia murmurado que nem as mulheres nem as crianças estavam em perigo, somente os homens, e que ele ficaria escondido no porão todas as noites.

De manhã, o pai havia explicado à menina que seria mais seguro se ele dormisse lá embaixo durante algum tempo. Até “que as coisas voltassem a ficar mais seguras”. Que “coisas”, exatamente?, pensou a menina. O que significava “seguras”? Quando as coisas voltariam a ficar “seguras”? Ela queria descobrir o que ele quisera dizer com “campos” e “batida policial”, mas ficou preocupada em admitir que havia escutado seus pais conversando às escondidas diversas vezes. Então, não ousou perguntar a ele.

— Abram a porta! É a polícia!

E se os policiais houvessem encontrado seu pai no porão?, ela se perguntava. Era essa a razão por que estavam aqui, a polícia tinha vindo para levar Papa para os lugares que ele havia mencionado durante aquelas conversas sussurradas no meio da noite: “os campos”, longe, fora da cidade?

Com passos surdos, a menina percorreu rapidamente o caminho até o quarto da mãe, no fim do corredor. Sua mãe acordou no instante em que sentiu a mão sobre seu ombro.

— É a polícia, mamãe — a menina sussurrou. — Eles estão esmurrando a porta.

Sua mãe girou as pernas, empurrando-as para fora dos lençóis, e afastou os cabelos dos olhos. A menina achou que ela parecia cansada, velha, muito mais velha do que seus 30 anos.

— Eles vieram para levar Papa embora? — suplicou a menina, com as mãos nos braços da mãe. — Eles vieram buscá-lo?

A mãe não respondeu. Novamente, as vozes em altos brados no fim do corredor. A mãe rapidamente vestiu um penhoar por cima da camisola, pegou a menina pela mão e dirigiu-se à porta. Sua mão estava quente e pegajosa, como a de uma criança, a menina pensou.

— Pois não? — sua mãe disse timidamente, sem abrir o ferrolho.

Uma voz de homem. Ele berrou o nome dela.

— Sim, Monsieur, sou eu — ela respondeu. Seu sotaque saiu forte, quase desagradável.

— Abra a porta. Imediatamente. Polícia.

A mãe levou a mão à garganta e a menina notou como ela estava pálida. Parecia esgotada, paralisada. Como se não pudesse mais se mexer. A menina jamais havia visto aquele medo no rosto da mãe. Sentiu sua boca ficar seca de angústia.

Os homens bateram na porta novamente. A mãe a abriu com dedos trêmulos e desajeitados. A menina estremeceu, esperando ver ternos verde-acinzentados.

Havia dois homens lá. Um era policial, usando sua capa azul-escura até os joelhos e um quepe alto e redondo. O outro usava uma capa de chuva bege. Ele tinha uma lista nas mãos. Mais uma vez, disse o nome da mulher. E o nome do pai. Falava francês perfeitamente. Então estamos seguros, pensou a menina. Se eles são franceses e não alemães, não estamos em perigo. Se eles são franceses, não vão nos fazer mal.

A mãe puxou a menina para perto de si. Ela podia ouvir o coração da mulher batendo através do penhoar. Queria empurrar a mãe. Queria que ela se aprumasse e olhasse para os homens com coragem, que parasse de se curvar de medo, que impedisse seu coração de bater daquela maneira, como o de um animal apavorado. Ela queria que sua mãe fosse corajosa.

— Meu marido... não está aqui — gaguejou a mãe. — Eu não sei onde ele está. Eu não sei.

O homem com a capa de chuva bege adentrou o apartamento impetuosamente.

— Apresse-se, Madame. Vocês têm dez minutos. Pegue algumas roupas. O suficiente para alguns dias.

A mãe não se mexeu. Ela olhava para o policial com os olhos arregalados. Ele estava de pé sobre a plataforma entre dois lances de escada, com as costas voltadas para a porta. Parecia indiferente, entediado.

Ela pôs uma das mãos sobre sua manga azul-marinho.

— Monsieur, por favor... — ela começou.

O policial se virou, afastando a mão dela com uma expressão dura e vazia nos olhos.

— A senhora me ouviu. Vocês virão conosco. Sua filha também. Faça exatamente o que estamos mandando.

***

Paris, maio de 2002.

Bertrand estava atrasado, como sempre. Tentei não me importar com isso, mas me importei. Zoë estava encostada indolentemente contra a parede, entediada. Parecia tanto com o pai que às vezes me fazia sorrir. Mas não hoje. Olhei para o prédio alto e antigo. A casa de Mamé. O velho apartamento da avó de Bertrand. E nós iríamos morar lá. Iríamos sair do Boulevard du Montparnasse, com seu tráfego barulhento, com as ambulâncias incessantes por causa de três hospitais na vizinhança, com seus cafés e restaurantes, para esta rua estreita e tranqüila à margem direita do Sena.

O Marais não era um arrondissement com o qual eu estava familiarizada, embora admirasse sua beleza antiga caindo aos pedaços. Será que eu estava feliz com a mudança? Não tinha certeza. Bertrand não havia realmente pedido a minha opinião. Não havíamos conversado muito sobre isso. Como era seu estilo, ele havia tomado a dianteira da coisa toda. Sem mim.

— Lá está ele — disse Zoë. — Apenas meia hora atrasado.

Observamos Bertrand subir a rua, passeando, com seu característico andar sensual. Esguio, moreno, transpirando sensualidade, o arquétipo do homem francês. Ele estava ao telefone, como sempre. Arrastando-se atrás dele estava Antoine, seu colega de trabalho, barbudo e de rosto rosado. Seu escritório ficava na rue de l’Arcade, bem atrás da Madeleine.

Bertrand tinha feito parte de uma firma de arquitetura durante muito tempo, desde antes do nosso casamento, mas abriu seu próprio negócio com Antoine cinco anos atrás. Bertrand acenou para nós e depois apontou para o telefone, baixando as sobrancelhas e fazendo uma careta.

— Como se ele não conseguisse se livrar da pessoa ao telefone — zombou Zoë. — Com certeza.

Zoë tinha apenas 11 anos, mas às vezes parecia que já era uma adolescente. Primeiro por sua altura, que fazia com que todas as suas amigas parecessem anãs — assim como seus pés, ela acrescentaria austeramente —, e, depois, por uma lucidez precoce que muitas vezes me deixava sem fôlego. Havia algo de adulto em seu olhar solene, cor de avelã, e no modo pensativo como levantava o queixo. Ela sempre foi assim, mesmo quando pequena. Calma, madura, às vezes madura demais para sua idade.

Antoine veio nos cumprimentar enquanto Bertrand continuava em sua conversa, alta o bastante para que a rua inteira ouvisse, agitando as mãos no ar, fazendo mais caretas, virando-se de vez em quando para certificar-se de que estávamos captando cada palavra.

— Um problema com outro arquiteto — explicou Antoine com um sorriso discreto.

— Um concorrente? — indagou Zoë.

— É, um concorrente — respondeu Antoine.

Zoë suspirou.

— O que significa que podemos passar o dia todo aqui — ela disse.

Tive uma idéia.

— Antoine, por acaso você está com a chave do apartamento de madame Tézac?

— Sim, Julia, estou com ela — ele disse, sorrindo. Antoine sempre me respondia em inglês quando eu falava em francês com ele. Suponho que ele tinha a intenção de ser gentil, mas, secretamente, isso me deixava chateada. Eu sentia como se meu francês ainda não fosse bom, mesmo depois de estar morando aqui durante todos esses anos.

Antoine exibiu a chave. Decidimos subir, nós três. Zoë digitou a senha com vigor e dedos hábeis. Caminhamos pelo pátio frondoso e fresco que levava ao elevador.

— Odeio esse elevador — observou Zoë. — Papa deveria fazer algo sobre isso.

— Querida, ele só está reformando a casa de sua bisavó — observei. — Não o prédio todo.

— Bem, ele deveria — respondeu ela.

Enquanto esperávamos pelo elevador, meu celular começou a tocar o tema de Darth Vader. Examinei o número que piscava no visor. Era Joshua, meu chefe.

Atendi.

— Sim?

Joshua foi direto ao ponto. Como sempre.

— Preciso que você volte às três. Estamos fechando a pauta de julho. Câmbio final.

— Putz! — respondi atrevidamente. Ouvi uma risadinha no outro lado da linha antes que ele desligasse. Joshua sempre parecia gostar quando eu dizia “putz”. Talvez isso o fizesse lembrar-se de sua juventude. Antoine parecia se divertir com minhas gírias fora de moda. Eu o imaginava colecionando-as e depois tentando repeti-las com seu sotaque francês.

O elevador era uma daquelas inimitáveis geringonças parisienses com uma cabine diminuta, uma grade de ferro manual e portas duplas de madeira que inevitavelmente batiam na sua cara. Espremida entre Zoë e Antoine — que exagerou ligeiramente com seu perfume de vetiver —, dei uma olhada no meu rosto no espelho enquanto deslizávamos para o alto. Eu parecia tão desgastada quanto o elevador que rangia. O que havia acontecido com a beldade cheia de frescor que veio de Boston, Massachusetts? A mulher que me encarava de volta estava na temida idade entre os 45 e os 50, a terra de ninguém cheia de flacidez, com a chegada das rugas e a furtiva aproximação da menopausa.

— Eu também odeio esse elevador — comentei secamente.

Zoë sorriu e beliscou minha bochecha.

— Mamãe, até mesmo Gwyneth Paltrow ficaria horrorosa nesse espelho.

Eu tive de sorrir. Era um comentário típico de Zoë.

***

A mãe começou a soluçar, baixinho no início, e depois mais alto. A menina olhava para ela, atordoada. Em todos os seus 10 anos de idade, ela jamais vira a mãe chorar. Horrorizada, observava as lágrimas deslizarem pelo rosto pálido e amarrotado da mãe. Queria dizer à mãe para parar de chorar. Não conseguia agüentar a vergonha de ver sua mãe naquela choradeira na frente desses estranhos. Mas os homens não estavam prestando atenção às lágrimas da mãe. Eles disseram a ela que se apressasse. Não havia tempo a perder.

No quarto, o menino continuava a dormir.

— Mas para onde vocês vão nos levar? — suplicou sua mãe. — Minha filha é francesa, ela nasceu em Paris, por que vocês a querem também? Para onde estão nos levando?

Os homens não disseram mais nada. Eles eram vultos assomando-a, enormes, ameaçadores. Os olhos da mãe estavam brancos de terror. Ela foi para o quarto e afundou na cama. Depois de alguns segundos, endireitou as costas e se virou para a menina. Sua voz era um sussurro, seu rosto uma máscara de tensão.

— Acorde seu irmão. Vistam-se, os dois. Pegue algumas roupas para ele e para você. Depressa! Depressa, agora!

Seu irmão ficou mudo de terror quando espiou pela porta e viu os homens. Ele viu sua mãe despenteada, soluçando, tentando arrumar a mala. Reuniu toda a força que seu corpo de 4 anos de idade possuía. Recusou-se a se mover. A menina tentou persuadi-lo. Ele não ouvia. Ficou ali, sem se mover, com seus bracinhos dobrados sobre o peito.

A menina tirou a camisola, apanhou uma blusa de algodão e uma saia. Enfiou os pés dentro dos sapatos. Seu irmão a observava. Eles podiam ouvir a mãe chorando em seu quarto.

— Vou para o nosso lugar secreto — ele sussurrou.

— Não! — ela respondeu num ímpeto. — Você vai conosco, você tem que ir.

Ela o agarrou, mas ele conseguiu escapar do aperto e se esgueirou para dentro do armário longo e profundo escondido na superfície da parede do quarto. Aquele dentro do qual eles brincavam de esconde-esconde. Eles se escondiam ali a toda hora, como se fosse a própria casinha deles. Maman e Papa sabiam sobre ele, mas sempre fingiam que não. Eles os chamavam pelos nomes. Falavam alto, com suas vozes alegres: “Mas aonde foram essas crianças? Que estranho, elas estavam aqui agora mesmo!” E ela e o irmão davam risadinhas divertidas.

Eles tinham uma lanterna lá dentro e algumas almofadas, brinquedos e livros, e até mesmo uma garrafa d’água que Maman enchia todos os dias. Seu irmão ainda não sabia ler, então a menina lia alto para ele Um Bom Diabrete. Ele amava o conto do órfão Charles e a aterrorizante Madame Mac’miche, e como Charles se vingou dela por toda sua crueldade. Ela lia para ele repetidamente.

A menina podia ver o rostinho do irmão espreitando-a através da escuridão. Ele estava agarrado a seu ursinho favorito, e não tinha mais medo. Talvez ficasse a salvo lá, no fim das contas. Tinha água e a lanterna. Ele podia ver as figuras no livro da Condessa de Ségur. Sua preferida era a da magnífica vingança de Charles. Talvez ela devesse deixá-lo lá por enquanto. Os homens jamais o encontrariam. Ela voltaria para pegá-lo mais tarde quando eles tivessem autorização para ir para casa novamente. E Papa, ainda no porão, saberia onde o menino estava escondido, caso subisse.

— Você está com medo aí dentro? — perguntou baixinho, ao mesmo tempo que os homens as chamavam.

— Não — ele respondeu. — Não estou com medo. Você me tranca aqui dentro. Eles não vão me pegar.

Ela fechou a porta diante do rostinho pálido do irmão e girou a chave na fechadura. Depois, colocou a chave no bolso. A fechadura ficava escondida por um dispositivo em forma de um interruptor de luz que girava em torno de si mesmo. Era impossível ver o contorno do armário no apainelamento da parede. Sim, ele estaria seguro ali. Ela tinha certeza.

A menina murmurou o nome dele e encostou a palma da mão sobre o painel de madeira.

— Volto mais tarde para buscar você. Prometo.

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