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outubro 16, 2008

Trecho do Livro: Amantes e Inimigos | Nora Roberts

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Trecho do Livro: Amantes e Inimigos | Nora Roberts

Livros Amantes e Inimigos Nora Roberts BooksLivro: Amantes e Inimigos

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Cento e cinqüenta milhões de dólares não era uma quantia para se desprezar. Ninguém na imensa biblioteca de Jolley Folley ousaria ignorar tal quantia. Exceto Pandora. Ela espirrou com mais entusiasmo do que sutileza em um lenço esfarrapado. Depois de assoar o nariz, endireitou-se, desejando que o antialérgico que tomara cumprisse a promessa de alívio rápido. Antes de mais nada, Pandora desejava não ter se resfriado. Mais: ela desejava estar em qualquer outro lugar no mundo.

Pandora estava cercada por dezenas de livros que lera e mais algumas centenas de edições nas quais jamais pensara, ainda que tivesse passado horas e horas naquela biblioteca. O cheiro das encadernações em couro se misturava a um leve odor do pó. Pandora preferia aquele cheiro à sufocante fragrância dos lírios que enchiam três grandes vasos.

Em um dos cantos do ambiente ficava um tabuleiro de xadrez em mármore e ébano, sobre o qual Pandora perdera várias partidas disputadíssimas. Tio Jolley, graças ao seu rosto redondo e inocente, e aos seus dedos rápidos, era um trapaceiro compulsivo e habilidoso. Ela jamais aceitara uma derrota com facilidade. Talvez por isso mesmo tio Jolley adorasse tanto ganhar dela, de acordo com as regras ou trapaceando.

A luz que entrava pelas três janelas arqueadas era fraca e um pouco melancólica. O que combinava perfeitamente com o humor de Pandora e, pensava ela, com o ritual em curso. Tio Jolley sempre gostou de preparar toda uma cena quando algo estava prestes a acontecer.

Quando amava alguém — e Pandora sentiu esta emoção apenas por uns poucos escolhidos em sua vida —, ela se dedicava totalmente àquela pessoa. Pandora nasceu com uma energia inesgotável e desenvolveu uma persistência inquebrantável. Ela amou tio Jolley com seus modos espalhafatosos e desinibidos, primeiro identificando e depois aceitando todas as esquisitices dele. Mesmo com 93 anos, tio Jolley não ficou esclerosado ou intratável.

Um mês antes de sua morte, Pandora e tio Jolley saíram para pescar — na verdade, para roubar peixes — em um lago que pertencia ao vizinho. Sempre que pegavam mais peixes do que eram capazes de comer, devolviam meia dúzia de trutas, limpas e temperadas, para o proprietário do lago.

Pandora sentiria saudades de tio Jolley, com seu rosto redondo de anjo, sua voz melodiosa e fina, e seu mau humor. No retrato de três metros de altura pendurado na biblioteca, ele a olhava com o mesmo sorrisinho malicioso que exibia ao fechar um negócio de 1 milhão de dólares ou ao oferecer a um desavisado vice-presidente uma bebida servida num copo em que alguém cuspira. Pandora já estava sentindo falta de Jolley. Ninguém mais em sua família arruinada e desunida a aceitou e a entendeu com a mesma doçura. Era por coisas assim que Pandora o amava.

De luto, com uma tristeza agravada pela gripe, Pandora ouvia Edmund Fitzhugh se alongar mais e mais com as preliminares técnicas da leitura do testamento. Maximillian Jolley McVie nunca foi um admirador das coisas breves. Ele sempre dizia que, se era para fazer algo, melhor fazer até que a energia se esgotasse. Seu testamento e suas últimas palavras faziam jus ao seu estilo.

Sem se importar em esconder o desinteresse na leitura, Pandora se pôs a examinar cuidadosamente os demais ocupantes da biblioteca.

Dizer que estavam ali para cultuar a memória de tio Jolley seria fazer justamente o tipo de piada sarcástica que ele tanto apreciava.

Estavam ali: o único filho ainda vivo de Jolley, tio Carlson, e sua esposa. Qual era o nome dela? Lona... Mona? O nome dela importava? Pandora os viu sentados, eretos e alertas, em roupas que combinavam tons de preto. A imagem deles a fazia pensar em corvos sobre fios da iluminação, à espera que algo caísse a seus pés.

Prima Ginger — doce, linda e ingênua, para não dizer estúpida. Este mês ela usava um cabelo louro como o de Jean Harlow, atriz de cinema da década de 1930. O bom e velho primo Biff trajava seu terno preto da Brooks Brothers. Inclinou-se para trás, uma perna cruzada sobre a outra, como se estivesse assistindo a uma partida de pólo. Pandora sabia que Biff não estava perdendo uma só palavra. A esposa dele — era Laurie? — ostentava um olhar afetadamente respeitoso. Por experiência própria, Pandora sabia que Laurie não falaria nada, a não ser que fosse para apoiar algo que Biff dissesse. Sobre ela, tio Jolley comentava que era uma mulher burra e chata. Pandora odiava ser tão descrente, mas era obrigada a concordar.

Havia ainda tio Monroe, rechonchudo e bem-sucedido, fumando um charuto, apesar de sua irmã, Patience, abanar um lencinho branco em frente ao nariz. Ou, melhor, ele fumava o charuto provavelmente porque sua irmã abanava o lencinho. Nada deixava tio Monroe mais feliz do que incomodar sua inútil irmã.

Primo Hank parecia muito másculo, dificilmente mais do que Meg, sua esposa forte e atlética. Na lua-de-mel, eles fizeram toda a trilha da cordilheira Apalache. Tio Jolley se perguntava se eles se alongavam e faziam flexões antes de se deitarem juntos.

A lembrança provocou risos em Pandora. Sem fazer questão de dissimular, ela abafou o riso com o lenço pouco antes que seu olhar se detivesse em primo Michael. Ou seria Michael um primo de segundo grau? Pandora jamais conseguiu entender direito o lado técnico disso. Até porque tal detalhe parecia um pouco fútil, já que ali não se estava falando de relações de sangue. A mãe de Michael era filha da irmã da segunda esposa de tio Jolley. Era um caso complicado, pensou Pandora. Se bem que Michael era um homem complicado.

Embora Pandora soubesse que tio Jolley gostava dele, eles nunca se deram bem. No entender dela, qualquer pessoa que ganhasse a vida escrevendo uma série de televisão boboca que mantinha as pessoas de olhos grudados em uma caixa, em vez de fazer algo que valesse a pena, era um parasita materialista. Por um instante, Pandora sentiu uma faísca de prazer ao se lembrar de ter dito a tio Jolley exatamente isto.

Depois, claro, havia as mulheres. Quando um homem namorava moças que apareciam no pôster central de revistas ou dançarinas era óbvio que ele não estava interessado em nenhum estímulo intelectual. Pandora sorriu ao se lembrar de deixar clara sua opinião da última vez que Michael visitara tio Jolley. O velho quase caiu da cadeira de tanto rir.

Então o sorriso de Pandora desapareceu. Tio Jolley morrera. E, se ela fosse honesta, o que sempre era, tinha de admitir que, de todas aquelas pessoas na sala naquele instante, Michael Donahue foi o que mais se importou e valorizou o velho, além dela própria.

Pandora pensou que, olhando para Michael agora, dificilmente chegaria a esta conclusão. Ele parecia desinteressado e um bocado arrogante. Pandora notou que a boca de Michael exprimia austeridade. Ela sempre considerou a boca a mais notável das qualidades físicas de Michael, embora ele raramente sorrisse para ela, a não ser para mostrar os dentes e rosnar.

Numa época em que estava começando a servir de cupido, tio Jolley lhe disse que gostava da aparência de Michael. Pandora tratou logo de se certificar de que ele abandonaria rapidamente o hobby de bancar o santo casamenteiro. Bem, tio Jolley não exatamente desistiu da função, mas ela ignorava-o mesmo assim.

Por ele ser baixo e gordinho, talvez Jolley apreciasse o porte alto e esguio de Donahue e seu rosto estreito e intenso. Pandora poderia até ter gostado disso também, não fosse pelos olhos de Michael, constantemente distantes e desatentos.

Naquele momento, ele lembrava um dos heróis da série de ação que escrevia — apoiado descuidadamente contra a parede, ele parecia um pouco desconfortável com seu terno e gravata impecáveis. O cabelo de Michael estava desarrumado e nada limpo, como se ele não tivesse sequer cogitado em penteá-lo antes de uma viagem rápida. Michael parecia entediado e prestes a fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Era tão ruim, pensou Pandora, que eles não se dessem bem. Ela teria gostado de compartilhar lembranças sobre tio Jolley com alguém que valorizasse as extravagâncias do velho do mesmo modo que ela.

Não fazia sentido ficar pensando nisso. Se tivessem sido colocados para se sentarem perto na biblioteca, estariam recolhendo pedaços um do outro agora. Tio Jolley, rindo maliciosamente em seu retrato, sabia disso muito bem.

Com um meio suspiro, Pandora assoou o nariz novamente e tentou ouvir o que Fitzhugh dizia. Era algo sobre um legado deixado para as baleias. Ou talvez para baleeiros.

Michael, por sua vez, pensava que, se aquilo durasse mais meia hora, seria capaz de pular pela janela. Respirando fundo, ele se resignou. Ficaria ali pelo tempo que fosse preciso porque amava o velho maluco. E se a última coisa a fazer por Jolley era ficar numa sala com um grupo de carniceiros, ouvindo um monte de termos jurídicos sem sentido, Michael faria isso. Quando acabasse, ele se serviria de uma boa dose de conhaque e honraria intimamente a memória daquele homem. Jolley tinha predileção por conhaque.

Quando Michael era jovem e cheio de imaginação, e seus pais não o entendiam, tio Jolley o ouvia divagar e o encorajava a sonhar. Sempre que visitava a mansão Folley, seu tio exigia que ele contasse uma história, e então se sentava, com olhos vívidos e ansiosos, enquanto Michael narrava. Ele jamais se esquecera daquilo.

Quando ganhou seu primeiro Prêmio Emmy, pelo seriado Logan’s Run, Michael voou de Los Angeles para Catskills e deu a estatueta para tio Jolley. O Emmy ainda estava no quarto do velho, mesmo que seu antigo ocupante não estivesse mais lá. Michael ouvia a voz seca e impessoal do advogado e ansiava por um cigarro. Ele havia largado o vício há apenas dois dias. Dois dias, quatro horas e cinco minutos. Michael podia muito bem pular pela janela agora.

Naquela sala, com todas aquelas pessoas, ele se sentia sufocando. Todos achavam que o velho Jolley era um tanto maluco e outro tanto chato. Mas quando o assunto era a herança de 150 milhões de dólares, tudo mudava. Ações e títulos do tesouro não tinham nada de maluco. Michael já observara vários olhares avaliadores em direção à mobília da biblioteca. Todos aqueles móveis em estilo georgiano podiam não se adequar aos estilos de vida mais modernos, mas podiam ser transformados em dinheiro limpo. Michael sabia que o velho Jolley adorava cada cadeira desajeitada e mesa exageradamente grande da casa.

Michael podia jurar que nenhuma daquelas pessoas estivera na casa nos últimos dez anos. Exceto Pandora, ele admitiu de má vontade. Ela podia ser irritante, mas amava Jolley. Pandora parecia triste. Michael acreditava que jamais a vira infeliz — furiosa, arrogante, detestável, sim, mas nunca infeliz. Se não a conhecesse bem, ele teria se sentado ao seu lado, oferecido consolo, segurado sua mão. Pandora, provavelmente, o morderia até o osso.

Os olhos assustadoramente azuis de Pandora estavam inchados e vermelhos. Quase tão vermelhos quanto os seus cabelos, foi o que pensou Michael assim que observou a massa de longos fios, rebeldes e de corte simples, que se espalhavam sobre seus ombros. Pandora estava tão pálida que as poucas sardas sobre o nariz sobressaíam. Em condições normais, sua pele de marfim tinha um quê de rosado — se era sinal de saúde ou do temperamento, Michael nunca soube ao certo.

Sentada entre os membros da família, solene e em luto fechado, Pandora se destacava como um papagaio entre corvos. Ela usava um vestido azul berrante. Michael aprovava a roupa, embora jamais admitisse tal coisa em Pandora. Ela não precisava de preto, crepe e lírios para demonstrar seu luto. Michael entendia isso, mesmo sem compreender Pandora.

De tempos em tempos, ela o irritava com suas opiniões a respeito do estilo de vida dele e de sua carreira. Sempre que discordavam, não demorava muito para que Michael respondesse à crítica com violência. Mas, acima de tudo, Pandora era uma mulher brilhante e talentosa, que vivia feliz fazendo jóias extravagantes para butiques, em vez de se acomodar com seu diploma em pedagogia.

Pandora o acusava de ser materialista; Michael, de ela ser idealista. Ela o rotulava de chauvinista; ele a qualificava de pseudo-intelectual. Todas as vezes que brigavam, Jolley ficava sentado com as mãos fechadas, rindo. Agora que o velho morrera, pensou Michael, não haveria mais oportunidade para novas batalhas. Estranhamente, ele viu nisso mais uma razão para sentir falta de seu tio.

A verdade era que Michael nunca mantivera laços familiares fortes com ninguém a não ser com Jolley. Ele não pensava em seus pais com freqüência. Seu pai estava em algum lugar da Europa com a quarta esposa, e sua mãe se estabelecera tranqüilamente na alta sociedade de Palm Springs com o terceiro marido. Eles jamais entenderam o filho que escolhera atuar em algo tão pouco aristocrático como a televisão.

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