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outubro 18, 2008

Trecho do Livro: Einstein | Françoise Balibar

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Trecho do Livro: Einstein | Françoise Balibar

Livros Einstein Francoise Balibar BooksLivro: Einstein

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“Bens materiais, sucesso de fachada e luxo sempre me pareceram desprezíveis, desde muito cedo na minha juventude.”

Neste princípio de ano de 1895, no trem Munique–Milão, um rapaz de 16 anos reflete sobre seu destino. Ele acabou de abandonar os estudos no Gymnasium onde seus pais o haviam matriculado e fugiu para a Itália na esperança de encontrá-los. Com certeza essa decisão não foi tomada levianamente; sabia que ao não se apresentar, dentro de alguns meses, para o exame de conclusão de curso de estudos secundários, em que praticamente tinha certeza de ser aprovado, estaria renunciando à possibilidade de algum dia se matricular numa universidade. Sabe que, ao agir desse modo, vai decepcionar e fazer sofrer seus pais, que sonhavam com uma carreira honrada para ele.

Mas ele não suporta mais; nenhum argumento razoável seria capaz de contrabalançar o desgosto que lhe inspira a vida de secundarista. Quando os pais estavam a seu lado, ainda conseguia suportar as contrariedades de um sistema educativo rígido e severo. Mas, em conseqüência de reveses financeiros, eles decidiram abandonar Munique, levando a filha mais moça, Maja, e deixando o filho Albert entregue aos bons cuidados de uma família amável até o fim do ano escolar.

Albert Einstein nasceu em 1879, na década em que se realizou a unificação da Alemanha sob a égide da Prússia. Durante séculos, a Alemanha tinha sido apenas uma região geográfica, um campo de batalha onde se enfrentavam as potências da Europa.

Em menos de uma geração, a geração de Bismarck, mais ou menos a mesma dos pais de Einstein, a Alemanha havia se tornado um Estado poderoso e forte, uma nação enriquecida por uma industrialização galopante. Mas esses sucessos não eram capazes de fazer com que fossem esquecidas as divisões religiosas e regionais que até então a haviam dividido e às quais se acrescentavam conflitos sociais cada vez mais agudos ligados ao crescimento industrial. Somente o desenvolvimento do nacionalismo e do militarismo podia mascarar essas fraquezas e fazer com que a unificação se tornasse uma realidade.

A infância de Einstein se desenrolou nessa atmosfera muito especial, mescla de exaltação da força e da glorificação da cultura alemã tradicional, filosófica, literária e musical (Kant, Goethe, Schiller, Beethoven) que marcou a Alemanha de Bismarck.

Os Gymnasien, esses estabelecimentos de ensino secundário onde era formada a elite do país, o equivalente de nossos colégios secundários na mesma época, evidentemente só podiam refletir esse estado de espírito. Neles se oferecia um tipo de ensino que exigia por parte dos alunos, simultaneamente, grande familiaridade com os clássicos e real competência nas disciplinas científicas. Ali se exaltava a cultura e o ideal de um desenvolvimento harmonioso da personalidade, ao mesmo tempo em que se obrigava os alunos à mais estrita obediência, impondo-lhes uma disciplina quase militar.

É esta mistura de autoritarismo e doutrinação enciclopédica que o jovem Einstein não pôde suportar. “É um verdadeiro milagre”, escreveria mais tarde, “que a empresa educativa moderna não tenha ainda asfixiado completamente a curiosidade sagrada da pesquisa. Pois esta pequenina e frágil planta tem necessidade de estímulos e sobretudo de liberdade, caso contrário ela perece. É um erro grave acreditar que o prazer de observar e de procurar possa ser induzido pela coação ou pelo sentimento de dever. Creio que se possa privar até mesmo um animal predador, em bom estado de saúde, de sua voracidade, ao obrigá-lo a comer quando ele não tem fome, sob a ameaça perpétua de um chicote.”

Desgostoso com essa disciplina militar e encorajado pela atitude hostil de alguns de seus professores que não suportavam sua independência de espírito, Einstein então decidiu partir para a Itália naquele princípio de ano de 1895. A esses motivos, bastante fortes para levá-lo a tomar sua decisão final de maneira precipitada, acrescentava-se um outro, que foi objeto de muito mais reflexão, mas que manifestava do mesmo modo sua recusa de viver na Alemanha dos anos 1890: o desejo de evitar o serviço militar. Ao deixar o país antes de concluir o curso secundário, Einstein esperava obter a tempo a nacionalidade suíça — o que lhe permitiria não ser considerado um desertor. “Se alguém pode ter prazer em marchar em fileiras, ao som de uma música, isto é suficiente para que eu o despreze; foi por engano que ele recebeu um cérebro, uma vez que a medula de sua espinha lhe seria amplamente suficiente.”

A emancipação econômica e social dos judeus alemães no final do século XIX:

Ao vê-lo chegar à Itália, os pais de Einstein talvez tenham se sentido orgulhosos diante de tamanha audácia, mas ao mesmo tempo ficaram preocupados. Não estaria o filho deles em vias de jogar fora exatamente o que lhes havia sido negado na juventude: a possibilidade de ascender a profissões às quais a universidade dava acesso, garantindo ao mesmo tempo a segurança financeira e a satisfação intelectual? Hermann Einstein, pai de Albert, havia demonstrado quando jovem inclinações inegáveis para as ciências matemáticas, mas tivera que renunciar a elas em particular porque, por ser judeu sem fortuna pessoal, o acesso à universidade lhe era praticamente vedado. Sem dúvida, a contragosto, ele tinha se estabelecido no mundo dos negócios, mas havia esperado que seu filho pudesse se beneficiar com o novo estatuto dos judeus na Alemanha.

A emancipação dos judeus, sua formidável ascensão social na Alemanha de Bismarck constituíram efetivamente um dos fatos mais importantes da história da Europa nessa época. A saída do gueto foi um processo lento, mas irreversível, empreendido a partir do fim do século XVIII com a disseminação das idéias da Revolução Francesa, levado adiante pela promulgação de decretos locais instituindo uma emancipação parcial que só foi se tornar total e definitiva em 1869. Nascido dez anos depois, Albert Einstein pertencia, portanto, à primeira geração de judeus alemães cujos direitos eram reconhecidos pela lei desde seu nascimento.

Paralelamente, o crescimento do capitalismo na Alemanha, com o advento de fato da unificação, assumia um ritmo de avanço espetacular. Os judeus alemães, recentemente emancipados e que, ao contrário das antigas classes privilegiadas, não tinham nada a perder, participavam ativamente neste surto de desenvolvimento e rapidamente ocuparam importantes posições econômicas. Essa ascensão social foi com freqüência marcada por um desejo de assimilação cultural. Os pais de Einstein, judeus não praticantes, pertenciam a essa corrente modernista. Eles provavelmente estavam convencidos de que o anti-semitismo em breve não passaria de uma recordação vergonhosa e que os judeus alemães seriam alemães como os outros. Portanto, não é surpreendente que tenham tido sonhos de uma carreira burguesa para o filho: nunca as possibilidades de sucesso e ascensão social pareceram maiores para um rapaz judeu do que neste final do século XIX. Que nada! A geração de Albert Einstein conheceria o ressurgimento violento do anti-semitismo, seguido do nacional-socialismo, o exílio, no melhor dos casos, ou a morte num campo de concentração.

Um pai homem de negócios e um tio inventor:

Na década de 1880, anos de uma explosão da expansão econômica na Alemanha, muito particularmente na Baviera, onde residia a família Einstein, a eletrificação chegava ao auge; a lâmpada elétrica inventada por Edison, em 1879, entrava em todos os lares e a indústria tornava-se a grande consumidora de eletricidade. Estimulado pelo irmão Jakob, representante típico do novo espírito empresarial, inventor de um dínamo que desejava comercializar, Hermann Einstein aceitou efetuar a reconversão de suas atividades e montar sua própria empresa industrial. Os resultados foram adversos: seja porque Hermann fosse mais dotado para as ciências matemáticas e para a meditação do que para os negócios, seja porque Jakob não foi capaz de dar continuidade às suas idéias, o negócio jamais conseguiu decolar realmente. Então Jakob teve mais uma de suas idéias geniais: uma vez que a eletrificação já estava em estágio demasiadamente avançado na Alemanha, o melhor seria tentar a sorte na Itália, onde o desenvolvimento da eletricidade apenas se iniciava. De modo que toda a família emigrou para Milão e depois para Pávia, deixando Albert entregue à sua triste sorte.

1896: Einstein entra para o “Polytechnicum” de Zurique:

O destino de Hermann Einstein, cujas empresas estiveram ligadas à eletrificação, desempenhou um papel essencial na vida de seu filho. De fato, tendo vivido num ambiente técnico e industrial, pareceu-lhe muito natural, uma vez que ele havia sacrificado voluntariamente sua oportunidade de se matricular na universidade, tentar entrar para uma grande escola de engenheiros. O instituto politécnico de Zurique, Polytechnicum, em alemão, comparável por seu estilo e por seu estatuto social à Escola politécnica de Paris — isto no sentido de que não era militar e que também preparava para a carreira de professor universitário —, pareceu-lhe o lugar onde teria as melhores chances de desenvolver suas aptidões e seu gosto pelas ciências matemáticas e satisfazer o desejo de seus pais de ter uma carreira. Esta escola apresentava a vantagem de não exigir o diploma de conclusão de estudos secundários alemães: nela a admissão se fazia por concurso. Einstein também decidiu que se prepararia sozinho para o exame de admissão e que se apresentaria como candidato independente. Foi o que fez no outono de 1895, um ano antes de completar a idade mínima exigida, depois de ter conseguido obter uma dispensa. Foi reprovado, mas não desanimou por isso e se matriculou para cursar o ano letivo seguinte numa escola que preparava especialmente os alunos para o concurso. No ano seguinte, foi aprovado e então entrou para a Polytechnicum.

Ali conheceu uma moça de origem sérvia, Mileva MariŠ, como ele, estudante de ciências matemáticas e física. É preciso que nos reportemos aos últimos noventa anos para poder apreciar e dar o justo valor ao fato de que uma mocinha pudesse ser aluna de uma escola de engenheiros tão célebre quanto o Polytechnicum de Zurique. Na verdade, essa escola seguia uma política de desenvolvimento de ensino para jovens mulheres muito avançada para seu tempo. Foi, de fato, o primeiro estabelecimento de ensino superior da Europa — e provavelmente isto se aplica ao mundo inteiro — a ter aberto suas portas para mulheres. A título de comparação, a Escola Politécnica de Paris só foi se tornar mista nos anos 1970!

Apaixonados um pelo outro, Albert e Mileva logo consideraram a possibilidade de montar um lar. Mas para a família de Einstein, era inaceitável que Albert se casasse com uma estrangeira, mais velha que ele, manca, fazendo estudos tão pouco “femininos” e, supra-sumo da desventura, não judia. Houve cenas terríveis ao longo das quais a mãe acusou Albert de querer a morte de seus pais, já tão duramente atormentados por provações financeiras. Einstein cedeu, com o coração dominado pela raiva. Mileva descobriu, na primavera de 1901, que estava grávida. Voltou para junto da família para dar à luz uma filha, de quem rapidamente se perdeu qualquer rastro e que provavelmente morreu ainda nos primeiros anos de vida. Ao retornar a Zurique, Mileva não conseguiu passar nos exames finais do Polytechnicum e viu-se assim sem diploma nem profissão.

Profissão: perito técnico estagiário no Serviço Federal de Patentes de Berna:

Os primeiros anos de Einstein na vida adulta não foram particularmente felizes. Sem dúvida, desde julho de 1900, ele possuía o diploma de uma das escolas mais prestigiadas da Europa. Mas grande foi sua decepção quando se deu conta de que — talvez por motivos ligados a desentendimentos com um de seus professores de Zurique — ninguém lhe propunha algum cargo de professor assistente na universidade como lhe tinham dado motivos para esperar. Durante dois anos, foi obrigado a se dedicar a empregos menores, dentre os quais o de professor particular lhe pareceu especialmente desagradável. Foi somente em junho de 1902 que conseguiu, através de uma recomendação do pai de um de seus colegas de escola de Zurique, encontrar um emprego estável de perito no Serviço Federal de Patentes de Berna.

Muito se comentou sobre o fato de que um grande sábio tenha tido que fazer um trabalho tão pouco de acordo com suas capacidades. Mas o próprio Einstein sempre sustentou que se tivesse conseguido um posto na universidade, teria estado muito menos livre, preocupado com a preparação das aulas e com a disputa pelas promoções. Trabalhar no serviço de patentes era exatamente o que lhe convinha: ele devia dar um parecer especializado sobre a invenção de aparelhos, em sua grande maioria elétricos, algo para que tinha real competência e, quando chegava a noite, podia refletir à vontade sobre as grandes questões da física...

Contudo, seria muito difícil fazer passar como “bons tempos” o período de 1899-1905, durante o qual Einstein teve que enfrentar simultaneamente o desemprego, a perda de um filho, o fracasso da vida profissional de Mileva, sem contar com as incontáveis intrigas de seus pais, que só cessaram com a morte de Hermann Einstein em 1902 — após a qual finalmente pôde se casar com Mileva.

O pensamento como refúgio:

Dito isto, seria impossível esquecer que, durante esse período, Einstein trazia em si e amadurecia os estrondosos sucessos de 1905. Podemos supor, portanto — aliás o próprio o confirmou em várias ocasiões —, que ele encontrava no exercício do pensamento a força para suportar as dificuldades da existência. Aos 67 anos, escrevendo a autobiografia, a pedido de um editor americano, Einstein relata como “de natureza bastante precoce”; muito jovem ele tomou consciência “da vaidade das esperanças e das aspirações que empurravam a maioria dos homens para os turbilhões de uma vida desenfreada”. Se dermos crédito a isso, concluiremos que Einstein teve desde a infância o sentimento de que o mundo era cruel e hipócrita. Durante algum tempo, encontrou refúgio na religião e na piedade escrupulosa, que abandonou bem depressa, depois de ter lido, diz ele, obras de vulgarização científica que o convenceram que o que estava escrito na Bíblia não podia ser verdade. Comentando essa fase religiosa de sua vida, ele acrescenta que: “Parece-me claro que o paraíso piedoso de minha juventude assim perdido constituía uma primeira tentativa de me libertar das cadeias de um universo exclusivamente pessoal e de uma existência dominada por desejos, esperanças e sentimentos primitivos.”

Parece que, ao longo da vida, Einstein nunca deixou de procurar se proteger, ao mesmo tempo, da insuportável crueldade do mundo e da estreiteza de uma vida inteiramente governada por sentimentos que ele qualificava como primitivos. A busca da solução para o enigma que tem como pressuposto “o vasto mundo que existe independentemente dos homens” forneceu-lhe esta proteção. “A contemplação deste mundo era como a promessa de uma libertação”, escreveu ele na autobiografia.

Em outros momentos, Einstein afirma que somente o prazer de pensar o permite encontrar um abrigo. Nessa ocasião, ele emprega uma fórmula, que não deixa de fazer lembrar o título do hino final da Nona Sinfonia de Beethoven, mas que também podemos considerar como uma divisa, como o segredo de seu sucesso, do que é chamado de sua genialidade: die Freude am Denken, o prazer de pensar.

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