terça-feira, 30 de setembro de 2008

Automóveis: Qual a legislação vigente para Seguro de Carros?

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Automóveis: Qual a legislação vigente para Seguro de Carros?

É a Circular nº 269/2004 da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), publicada em 4 de outubro de 2004. Ela estabelece, altera e consolida as regras e critérios complementares de funcionamento e de operação dos contratos de seguros de automóveis, com inclusão ou não, de forma conjugada, da cobertura de responsabilidade civil facultativa de veículos (RCF-V) e/ou acidentes pessoais de passageiros (APP). Esta Circular, além de definir regras específicas para o seguro de carro, estabelece que aplicam-se também a tais seguros todas as disposições da Circular nº 256, de 16 de junho de 2004, a qual dispõe sobre a estruturação mínima das Condições Contratuais e das Notas Técnicas Atuariais dos Contratos de Seguros de Danos em geral.

CIRCULAR SUSEP nº 269, de 30 de setembro de 2004 (publicada em 4/10/2004 no Diário Oficial da União)

Estabelece, altera e consolida as regras e critérios complementares de funcionamento e de operação dos contratos de seguros de automóveis, com inclusão ou não, de forma conjugada, da cobertura de responsabilidade civil facultativa de veículos e/ou acidentes pessoais de passageiros.

O SUPERINTENDENTE DA SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS - SUSEP, no uso das atribuições que lhe conferem o art. 36, alínea "b", do Decreto-Lei no 73, de 21 de novembro de 1966, o item 2, alínea "c", da Instrução SUSEP No 1, de 20 de março de 1997 e tendo em vista o que consta do Processo SUSEP no 10.003243/00-18, RESOLVE:

Art. 1o Estabelecer, alterar e consolidar as regras e os critérios complementares de funcionamento e de operação dos contratos de seguros de automóveis, com inclusão ou não, de forma conjugada, da cobertura de responsabilidade civil facultativa de veículos e/ou acidentes pessoais de passageiros, comercializados pelas sociedades seguradoras.

Art. 2o Aplicam-se aos seguros de automóveis todas as disposições da Circular SUSEP No 256, de 16 de junho de 2004.

§ 1o O prazo para adaptação previsto no artigo 4o da Circular mencionada no caput deste artigo, aplica-se igualmente aos planos de seguros de automóveis atualmente comercializados, ficando as sociedades seguradoras dispensadas da abertura de novo processo administrativo.

§ 2o Os novos planos apresentados para análise da SUSEP deverão obedecer aos critérios definidos nesta Circular.

Art. 3o Esta Circular entra em vigor na data de sua publicação, ficando revogada a Circular SUSEP No 241, de 9 de janeiro de 2004.

RETIFICAÇÃO
Na Circular SUSEP No 269, de 30 de setembro de 2004, divulgada no D.O.U. de 4 de outubro de 2004, onde se lê: “Art. 10. No caso de cancelamento do contrato de seguro, em decorrência de sinistro, a sociedade seguradora, ressalvado o disposto no parágrafo 2o deste artigo, deverá restituir o prêmio relativo às demais coberturas contratadas e não utilizadas, pelo prazo a decorrer, até a data em que houver o pagamento da indenização. Parágrafo único. Fica facultada, à sociedade seguradora, a não restituição do prêmio prevista no parágrafo 1o deste artigo, na hipótese de ser estabelecida, nas condições contratuais e na nota técnica atuarial, a concessão de desconto pela contratação simultânea de mais de uma cobertura”, leia-se: “Art. 10. No caso de cancelamento do contrato de seguro, em decorrência de sinistro, a sociedade seguradora, ressalvado o disposto no parágrafo único deste artigo, deverá restituir o prêmio relativo às demais coberturas contratadas e não utilizadas, pelo prazo a decorrer, até a data em que houver o pagamento da indenização. Parágrafo único. Fica facultada, à sociedade seguradora, a não restituição do prêmio, na hipótese de ser estabelecida, nas condições contratuais e na nota técnica atuarial, a concessão de desconto pela contratação simultânea de mais de uma cobertura”.

CAPÍTULO I

DAS DISPOSIÇÕES OPERACIONAIS E DAS CONDIÇÕES CONTRATUAIS

SEÇÃO I - DAS DISPOSIÇÕES PRELIMINARES E OPERACIONAIS

Art. 1o Para efeito de análise por parte da SUSEP, poderá ser aberto processo administrativo único englobando as modalidades “valor de mercado referenciado” e “valor determinado”, efetuando-se os ajustes necessários, onde couber.

Art. 2o Deverão constar, das condições contratuais, glossário com as definições dos termos técnicos utilizados no contrato, observando-se em função da estrutura de cada produto, no mínimo, as seguintes definições: valor de mercado referenciado ou valor determinado, apólice, avaria, aviso de sinistro, beneficiário, bônus, endosso, franquia, prêmio, proposta, salvados, segurado, seguradora, sinistro, vistoria prévia, regulação de sinistro, indenização integral e limite máximo de garantia ou limite máximo de indenização (LMI), além do questionário de avaliação de risco.

SEÇÃO II - DAS GARANTIAS

Art. 3o A cobertura de acidentes pessoais de passageiros (APP), quando contratada, deverá indicar o limite máximo de indenização por passageiro.

SEÇÃO III – FORMA DE CONTRATAÇÃO

Art. 4o As sociedades seguradoras, que comercializarem apólices de seguro de automóveis, podem oferecer ao segurado, quando da apresentação da proposta, a cobertura de “valor de mercado referenciado” e/ou de “valor determinado”.

§ 1o Para efeito desta Circular, fica estabelecido que a cobertura de “valor de mercado referenciado” é a modalidade que garante ao segurado, no caso de indenização integral, o pagamento de quantia variável, em moeda corrente nacional, determinada de acordo com a tabela de referência, expressamente indicada na proposta do seguro, conjugada com fator de ajuste, em percentual, a ser aplicado sobre o valor de cotação do veículo, na data da liquidação do sinistro.

§ 2o A aplicação do fator de ajuste de que trata o parágrafo 1o deste artigo poderá resultar em valor superior ou inferior àquele cotado na tabela de referência estabelecida na proposta, de acordo com as características do veículo e seu estado de conservação.

§ 3o Para efeito desta Circular, fica estabelecido que a cobertura de “valor determinado” é a modalidade que garante ao segurado, no caso de indenização integral, o pagamento de quantia fixa, em moeda corrente nacional, estipulada pelas partes no ato da contratação do seguro.

Art. 5o As sociedades seguradoras deverão observar os seguintes critérios na comercialização da modalidade de seguro de “valor de mercado referenciado”:

I - A tabela de referência deverá ser estabelecida dentre aquelas divulgadas em revistas especializadas ou jornais de grande circulação;

II – As condições contratuais devem conter cláusula prevendo a utilização de uma segunda tabela de referência, estabelecida na proposta do seguro, observado o disposto no inciso I deste artigo, que será aplicada em caso de extinção ou interrupção da publicação da tabela adotada por ocasião da contratação do seguro, ficando entendido que, para fins de remissão, tal tabela será chamada de tabela substituta;

III - A tabela de referência, a tabela substituta, o veículo de comunicação utilizado para fins de divulgação das tabelas e o fator de ajuste, em percentual, que serão utilizados na data da liquidação do sinistro, deverão constar expressamente da apólice; e

IV - Para veículo zero quilômetro, deverá ser fixado prazo não inferior a 90 (noventa) dias, contado a partir da data de sua entrega ao segurado, durante o qual vigorará a cobertura com base no “valor de novo”, devendo a sociedade seguradora definir expressamente os critérios necessários para que seja aceita tal condição;

§ 1o Entende-se como “valor de novo” o valor do veículo zero quilômetro constante da tabela de referência quando da liquidação do sinistro.

§ 2o Fica vedada a utilização de qualquer tabela elaborada por sociedade seguradora ou corretora de seguros.

§ 3o Para efeito de controle estatístico, a sociedade seguradora deverá manter, em seus registros, o percentual, o valor da cotação do veículo obtido pela tabela adotada por ocasião da contratação do seguro e as tabelas de referência utilizadas.

SEÇÃO IV – DAS FRANQUIAS

Art. 6o Fica vedada a aplicação de franquia nos casos de danos causados por incêndio, queda de raio e/ou explosão e de indenização integral.

SEÇÃO V – DA INDENIZAÇÃO INTEGRAL

Art. 7o Será caracterizada a indenização integral quando os prejuízos resultantes de um mesmo sinistro, atingirem ou ultrapassarem a quantia apurada a partir da aplicação de percentual previamente determinado sobre o valor contratado.

§ 1o O percentual de que trata o caput deste artigo deverá ser fixado nas condições contratuais e não poderá ser superior a 75% (setenta e cinco por cento).

§ 2o Na modalidade de cobertura de “valor de mercado referenciado”, o valor a que se refere o caput deste artigo corresponde ao de cotação do veículo segurado, de acordo com a tabela de referência contratualmente estabelecida e em vigor na data do aviso do sinistro, multiplicado pelo fator de ajuste.

§ 3o Na modalidade de cobertura de “valor determinado”, o valor contratado a que se refere o caput deste artigo é aquele definido na apólice.

§ 4o Fica vedada a dedução de valores referentes às avarias previamente constatadas, nos casos de indenização integral.

SEÇÃO VI – DA LIQUIDAÇÃO DE SINISTROS

Art. 8o Nos casos de indenização integral, o documento de transferência de propriedade do veículo deverá ser devidamente preenchido com os dados de seu proprietário e da sociedade seguradora.

Art. 9o Deverá ser estabelecida, contratualmente, a forma como será efetuado o pagamento da indenização integral de veículos alienados fiduciariamente.

SEÇÃO VII – DAS INFORMAÇÕES GENÉRICAS E OPERACIONAIS

Art. 10. No caso de cancelamento do contrato de seguro, em decorrência de sinistro, a sociedade seguradora, ressalvado o disposto no parágrafo 2o deste artigo, deverá restituir o prêmio relativo às demais coberturas contratadas e não utilizadas, pelo prazo a decorrer, até a data em que houver o pagamento da indenização.

Parágrafo único. Fica facultada, à sociedade seguradora, a não restituição do prêmio prevista no parágrafo 1o deste artigo, na hipótese de ser estabelecida, nas condições contratuais e na nota técnica atuarial, a concessão de desconto pela contratação simultânea de mais de uma cobertura.

Art. 11. No caso de substituição do veículo segurado, deverá ser observado o critério de cobrança ou devolução da diferença de prêmio, calculada proporcionalmente ao período a decorrer.

Art. 12. Deverá ser previsto contratualmente que, uma vez efetuado o pagamento da indenização integral, os salvados passam a ser de inteira responsabilidade da sociedade seguradora.

Art. 13. Deverá ser incluída cláusula de vistoria prévia, se for o caso.

Art. 14. Deverá ser prevista contratualmente a livre escolha de oficinas pelos segurados, para a recuperação de veículos sinistrados.

SEÇÃO VIII – DA PROPOSTA E DA APÓLICE

Art. 15. Além das informações previstas em normativos específicos, a proposta e a apólice do seguro de que trata a presente Circular deverão conter, ainda, os seguintes dados:

I – identificação do bem segurado;

II – o valor atribuído ao bem, na modalidade de seguro “valor determinado”;

III – indicação da tabela de referência e da tabela substituta, bem como seus respectivos veículos de publicação;

IV – indicação do fator de ajuste, em percentual, a ser utilizado;

V – prêmios discriminados por cobertura;

VI – limites de indenização por cobertura;

VII – franquias aplicáveis;

VIII – bônus, quando houver; e

IX – respostas ao questionário de avaliação de risco, quando houver.

CAPÍTULO II

DA NOTA TÉCNICA ATUARIAL

Art. 16. A nota técnica atuarial deverá manter perfeita relação com as condições contratuais e conter, adicionalmente, a indicação de que a contratação do seguro é a primeiro risco absoluto.

Art. 17. Exclusivamente no caso dos seguros de que trata a presente Circular, as sociedades seguradoras ficam dispensadas de submeter especificação das taxas e/ou prêmios estatísticos e puros utilizados para a cobertura de casco dos veículos.

Art. 18. Nos casos de utilização de prêmios diferenciados, deverão ser especificados os critérios de cálculo.

Parágrafo único. Caso a sociedade seguradora pratique critérios de cálculo de prêmio baseados em informações constantes do questionário de avaliação de risco, este deverá ser encaminhado à SUSEP.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Câmera Digital Samsung NV100HD tem resolução de 14,7 MP

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Câmera Digital Samsung NV100HD tem resolução de 14,7 MP

A Samsung apresentou a Câmera Digital Samsung NV100HD, modelo com resolução de 14,7 MP, ou seja, basicamente o dobro da capacidade de captação fotográfica digital das câmeras mais vendidas no mercado brasileiro.

A NV100HD é equipada com lentes Schneider de 28mm, tela Touch Screen (sensível ao toque) e estabilizador duplo de imagem, função que auxilia no ajuste da fotografia quando tirada em movimento.

A Samsung NV100HD também conta com a tecnologia Face Detection (reconhecimento de face) e grava vídeos com resolução de 720p, utilizando-se do afamado codec H264. Possui microfone estéreo e aceita até 10 horas de gravação de voz.

A câmera vem com bateria de lítio, pesa 138 gramas e tem saídas USB, vídeo AV (NTSC, PAL) e vídeo HDMI 1.2 (NTSC, PAL).

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Setembro 28, 2008

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Setembro 28, 2008

O Estado de São Paulo

Livros A Cabana William P Young The Shack Books

Ficção

01. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

02. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

03. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

04. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
José Saramago . leia um trecho do livro

05. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak

06. CREPÚSCULO
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

07. AS MEMÓRIAS DO LIVRO
Geraldine Brooks . leia um trecho do livro

08. O MUNDO É BÁRBARO
Luis Fernando Verissimo . leia um trecho do livro

09. O VENCEDOR ESTÁ SÓ
Paulo Coelho . leia um trecho do livro

10. MUNDO SEM FIM
Ken Follett . leia um trecho do livro


Livros ELES CONTINUAM ENTRE NOS Zibia Gasparetto Books

Não-Ficção

01. ELES CONTINUAM ENTRE NÓS
Zibia Gasparetto . leia um trecho do livro

02. O SEGREDO
Rhonda Byrne

03. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

04. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

05. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

06. 1808
Laurentino Gomes . leia um trecho do livro

07. CASAIS INTELIGENTES ENRIQUECEM JUNTOS
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

08. SEMPRE EM FRENTE
Roberto Shinyashiki

09. O PAÍS DOS PETRALHAS
Reinaldo Azevedo

10. RESISTÊNCIA
Agnès Humbert

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domingo, 28 de setembro de 2008

Trecho do Livro: O Ladrão de Arte | Noah Charney

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Trecho do Livro: O Ladrão de Arte | Noah Charney

Livros O Ladrao de Arte Noah Charney The Art Thief BooksLivro: O Ladrão de Arte

Era quase como se ela estivesse esperando, ali parada, naquela escuridão artificial.

A pequenina igreja barroca de Santa Giuliana in Trastevere se encolhia num canto da cálida noite de Roma. As ruas estavam sombrias e sem qualquer movimento, iluminadas apenas pela luz mansa da lâmpada de um poste numa praça próxima.

Então fez-se um ruído. Dentro da igreja.

Era um ruído mínimo, produzido pelo roçar de metal sobre metal, quase imperceptível de dia, mas que àquela hora parecia o contraste entre o branco e o preto. Então parou. O som tinha sido momentâneo, mas seu eco perdurava.

Do bojo da igreja fechada um pássaro apareceu. Um pombo esvoaçou aflito pela capela sombria e arremeteu por entre as abóbadas e ao longo do transepto, esculpindo um padrão às cegas pelo interior cavernoso e sombrio.

Então o alarme soou.

Padre Amoroso despertou num sobressalto. Havia suor em sua testa, rente ao cabelo.

Ele olhou para o relógio na cabeceira da sua cama. Três e quinze. Ainda era noite do lado de fora da janela do quarto. Mas o ruído que soava em seus ouvidos não parava. Então ele percebeu que não era apenas em seus ouvidos.

Jogou um roupão por cima da camiseta com que dormia e enfiou os pés nas sandálias. Num segundo já tinha descido a escada e corrido a distância de poucos passos ao longo da praça até a Santa Giuliana in Trastevere, que espreitava, com suas formas que lembravam as de um tatu, como havia pensado certa vez, mas que agora vibrava com aquele som.

Padre Amoroso avançou às cegas com suas chaves e finalmente empurrou a porta antiga, inchada pela umidade. Virou-se para o dispositivo que destoava como algo anacrônico, logo na entrada, e desligou o alarme. Olhou à sua volta por um momento. Então pegou o telefone.

— Scusi, signore. Estou aqui, sim... Não sei. Provavelmente algum defeito no sistema de alarme, mas eu... Um momento...

Padre Amoroso deixou a polícia esperando enquanto inspecionava o interior. Nada se mexia. Bem comportada, a escuridão mantinha-se no entorno da igreja e a luz da lua na nave projetava sombras entre os bancos. Ele deu um passo adiante, e então, pensando melhor, mudou de idéia. Acendeu as luzes.

O interior barroco pouco a pouco ganhou vida. Holofotes apontados para as várias reentrâncias e tesouros iluminavam indiretamente os espaços vazios. Padre Amoroso avançou até o centro da nave e examinou tudo atentamente. Havia a capela de Santa Giuliana, a pintura de Domenichino retratando Santa Giuliana, o confessionário, a pia branca de mármore para água benta, os candelabros das orações com a inscrição offerte, a estátua de Sant’Agnese de autoria de Maderno, o ícone bizantino e os cálices no interior da vitrina, a pintura de Caravaggio da Anunciação acima do altar, o relicário onde estava sepultada a tíbia de Santa Giuliana sob um mar de ouro e vidro... Nada parecia estar fora do lugar.

Padre Amoroso voltou ao telefone.

— Non vedo niente... Deve ser um problema com o sistema. Desculpem, por favor. Obrigado... Boa noite... Sim... Sim, obrigado.

Pôs o telefone no gancho e desligou as luzes. A igreja que por um momento tinha adquirido vida agora voltava a adormecer mais uma vez. Armou novamente o alarme, empurrou a porta pesada, trancou-a e voltou a seu apartamento para dormir.

Padre Amoroso ergueu-se de repente na cama, os olhos arregalados. Acabara de ter um sonho terrível no qual não conseguia fazer parar a campainha soando em seus ouvidos. Por um momento atribuiu o ruído à zupa di frutti di mare do jantar no Da Saverio, mas então se deu conta mais uma vez de que o alarme não estava apenas em seus ouvidos. Todo mundo deve ter comido no Da Saverio, pensou por um instante, e então acordou completamente.

Era o alarme, mais uma vez tocando com violência. Ele olhou para o relógio de cabeceira. Três e cinqüenta. O sol ainda estava num sono profundo. E ele, por que não estava? Pôs o roupão e as sandálias e desceu mais uma vez aos tropeções para a insone noite romana.

Ainda que raramente se portasse como um homem profano, padre Amoroso murmurou entre os dentes algumas imprecações leves, enquanto manuseava desajeitadamente suas chaves, enfiava-as na pesada porta de madeira e a empurrava para abri-la, apoiando-se nos calcanhares para tomar impulso.

Isso era para ser uma igreja, não um despertador, pensou.

Lá dentro, virou-se na direção do alarme na parede, derrubando sem querer o telefone do gancho. “Dio!”, murmurou, então pensou melhor e apontou para o céu ao sussurrar:

— Scusa, signore. Estou um pouco cansado. Scusa.

Desligou o alarme e então voltou-se para o interior da igreja. As sombras pareciam zombar dele. Acendeu as luzes com satisfação. A igreja bocejou ao se iluminar. Padre Amoroso pegou o telefone.

— Si? Si, mi dispiace. Não sei... Não, isso não vai ser necessário... Um instante, por favor...

Largou o telefone e mais uma vez se dirigiu para o centro da nave. A pequenina igreja parecia boquiaberta, grande e vazia, em meio à escuridão da madrugada.

Nada aparentava estar faltando. Dessa vez padre Amoroso caminhou ao longo das paredes internas da igreja. Deslocou-se pela ardósia gasta do piso, passando ao largo de fileiras de velas apagadas, bancos entalhados em madeira e reentrâncias ainda sombrias, nas quais se escondiam figuras de santos em relevo ou pintadas a óleo. Tudo estava quieto. Ele voltou ao telefone.

— Niente. Niente di niente. Mi dispiace, ma... Certo, agora são quatro e dez da manhã... Sim, provavelmente um defeito... Sim... Mais tarde, pela manhã, sim. Não há nada a se fazer até lá. Obrigado, boa-noite... Quer dizer, bom-dia. A noite já acabou há algum tempo... Ciao.

Padre Amoroso olhou com desprezo para o alarme que havia disparado duas vezes sem motivo algum, só para debochar dele. Talvez não devesse ter olhado por tanto tempo para a Signora Materassi na missa do último domingo. Deus tem seus caminhos. Mais tarde telefonaria pedindo que o alarme fosse checado. Talvez ainda conseguisse dormir um pouco.

Padre Amoroso apagou as luzes. Ignorou o alarme vistoso ao sair porta afora, trancou-a e voltou à sua casa para capturar quaisquer minutos preciosos de sono que ainda estivessem ao seu alcance.

Um alarme disparou.

Padre Amoroso pulou da cama. Mas então se acalmou. Era o alarme do despertador na sua cabeceira. Eram sete horas, numa manhã de segunda-feira. Assim é melhor, pensou.

O sol estava presente no horizonte e o dia prometia sua habitual luminosidade romana em meio à umidade do verão. Ele bocejou despreocupadamente e esticou os braços cansados, abrindo-os em forma de cruz. Tirando sua camisa de dormir, padre Amoroso caminhou gingando até o banheiro e de lá surgiu como um novo homem, limpo e revigorado para outro dia. Vestiu suas roupas clericais e desceu para ir até a Santa Giuliana.

Estava dez minutos adiantado. Não esperavam que abrisse a igreja até que soassem as oito horas. O dia ainda não estava quente demais, e padre Amoroso decidiu dar uma escapada por um momento. Escapuliu para o bar ao lado e pediu um caffè. Admirou a luz do sol no piso antigo enquanto bebericava seu espresso, de pé, no bar. Os transeuntes passavam na rua lá fora. O turista ocasional aparecia por ali, de mapa na mão e câmera a postos.

Olhou o relógio. Sete e cinqüenta e sete. Acabou de beber e atravessou a praça rumo à sua igreja.

Com uma agradável sensação de quem gozava de uma folga, padre Amoroso manuseou lentamente as chaves e, tendo encontrado a que procurava, girou-a e empurrou a enorme porta de madeira. Quando já a tinha aberto o suficiente, travou o trinco de metal para mantê-la escorada, permitindo que o ar parado, preso lá dentro, esfriasse na brisa matinal que corria do lado de fora.

Entrou na igreja e, ao passar, lançou um olhar de desprezo para o sistema de alarme. Deus, vou ter de mandar consertar isso hoje, pensou, e então se deu conta da blasfêmia e olhou de relance para o céu pedindo perdão. Arrastou os pés pelo chão a caminho do escritório da igreja, afastou para o lado a cortina que escondia a porta e a destrancou. Virou-se e avançou para o centro da nave, parando por um momento para dobrar os joelhos quando passava diante do altar.

Estava prestes a seguir em frente quando percebeu. Não podia acreditar em seus olhos. Talvez ainda estivesse dormindo, pensou, esperançoso. Então se convenceu, e recuou aos tropeções, enquanto gritava:

— Dio mio!

O retábulo de Caravaggio havia desaparecido.

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Trecho do Livro: Escreva e Emagreça | Julia Cameron

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Trecho do Livro: Escreva e Emagreça | Julia Cameron

Livros Escreva e Emagreca Julia Cameron The Writing Diet BooksLivro: Escreva e Emagreça

Sou uma especialista em criatividade, e não em dietas. Então, por que estou escrevendo um livro sobre perder peso? Porque por acaso descobri um segredo sobre a perda de peso que funciona de verdade. Há 25 anos dou aulas sobre como desbloquear a criatividade, um processo com 12 semanas de duração baseado em meu livro A Via do Artista (The Artist’s Way). Do meu lugar à frente da sala de aula, vejo vidas se transformarem — e, para meu espanto, corpos se transformarem também. Levei algum tempo para perceber o que estava acontecendo, mas, com certeza, alunos que começaram o curso com alguns quilinhos a mais chegavam ao final visivelmente mais magros e bem-dispostos. O que está acontecendo aqui? Perguntei a mim mesma. Tratava-se apenas de imaginação ou havia mesmo um “antes” e um “depois”? Havia, sim!

Aos meus olhos experientes, a perda de peso é freqüentemente uma conseqüência da recuperação da criatividade. Comer em excesso bloqueia a criatividade. O contrário também é verdade: podemos usar a criatividade para bloquear a gula excessiva. E isto é o que faremos neste livro: usaremos instrumentos criativos para combater o excesso de peso e alterar nosso peso através da alteração da nossa consciência. Acreditem ou não, escrever é uma ferramenta para perder peso — uma ferramenta desprezada, subutilizada e extremamente poderosa.

Não que eu não tenha experimentado as dietas tradicionais. Pelo contrário — sou quase especialista. Durante anos tentei a dieta do dr. Atkins, mas meu colesterol ia às alturas; South Beach, mas recupero o peso perdido assim que saio da fase um; a dieta dos Comedores Compulsivos Anônimos me deixa louca com as privações impostas, e loucura é algo que quero evitar tanto quanto a gordura. Recorri aos Vigilantes do Peso, mas essa história de contar pontos também me parece uma forma de loucura. O que sei contar são palavras. Escrevi mais de vinte livros e aprendi que cada palavra tem seu peso, assim como cada caloria. De repente — literalmente — passei a alimentar o pensamento. Como seria consumir palavras, em vez de calorias? Que tal escrever de modo a chegar ao tamanho certo? Assim que a idéia brotou em minha cabeça, tive certeza de que havia descoberto algo.

Todos nós sabemos que comemos em excesso porque alguma coisa está nos roendo por dentro. Que tal nos perguntarmos que coisa é essa, exatamente na hora em que nos der vontade de comer? Que tal se, à beira de um desejo por guloseimas, eu me perguntasse: “O que está me roendo tanto por dentro que senti essa vontade súbita de comer?” E se eu parasse para anotar meus sentimentos por escrito? Por que não dar à minha mente algo para pensar, em vez de dar comida para meu corpo? Já que é possível usar a comida para bloquear os sentimentos, por que não seria possível usar as palavras para bloquear a gula? Calorias não passam, no final das contas, de unidades de energia, e assim são as palavras também.

Essa idéia me entusiasmou. Minha longa experiência como escritora ensinou-me que a escrita é um meio de metabolizar a vida. Se consigo escrever sobre algo, posso lidar com esse algo — e muitas vezes com charme. Poderia a escrita se tornar um meio para metabolizar os vaivéns do meu próprio metabolismo? Acho que sim. Nunca fui magra, mas também nunca fui gorda — até que tive necessidade de tomar um medicamento que lista o ganho de peso entre seus possíveis efeitos colaterais. Remédios são uma necessidade. O ganho de peso, aos olhos do meu médico, era um preço pequeno a ser pago pela minha estabilidade mental. Certamente, pensei, deve haver uma saída. Seria a escrita essa saída?

Durante os 25 anos em que ensinei desbloqueio criativo, uma das ferramentas que sempre aconselho é escrever diariamente, pela manhã. Quantas vezes vi meus alunos usarem suas Páginas Matinais para se livrarem não só da inibição criativa, mas assim também dos quilos a mais! Embora a finalidade do curso A Via do Artista seja atingir um renascimento criativo, vi que era possível atingir ao mesmo tempo um renascimento corporal. Muitas vezes recebo alunos corpulentos e deprimidos. Eu lhes digo que escrevam. Uma dieta contínua de auto-reflexão em pouco tempo controla sua gula. Quilos começam a desaparecer. À medida que as Páginas Matinais metabolizam suas vidas, eles deixam de comer em excesso para bloquear seus pensamentos desagradáveis. Sua criatividade aumenta enquanto seu peso diminui. Vista do meu lugar à frente da sala de aula, a transformação chega a ser espantosa.

Ao iniciar seu processo de desbloqueio criativo, Laura, uma professora de jardim-de-infância, era, para ser bem franca, gorda.

Alta e loura, carregava 18 quilos de excesso de peso. Costumava vestir-se de preto para parecer mais magra, mas essa ilusão de ser magra não convencia ninguém. Laura pertencia àquele tipo de mulher de quem se costuma dizer: “É uma pena que ela seja tão gorda. Tem um rosto tão bonito...”

Laura cresceu em um lar violento e desde cedo aprendeu a bloquear seus sentimentos por meio da comida. Escrevendo suas Páginas Matinais, começou a enfrentar seus sentimentos turbulentos. Com isso, sua necessidade de bloquear as emoções foi desaparecendo. Os quilos foram sumindo também, e Laura emergiu de um curso de 12 semanas como uma mulher muito mais esbelta. Ela atribui à escrita sua perda de peso. “Havia tantas coisinhas que me incomodavam”, lembra-se ela. “Minhas Páginas Matinais eram sessões de queixumes, nas quais eu reconhecia meus ressentimentos e lidava com eles.” Depois que descobriu o que a incomodava, já não sentia necessidade de comer tanto.

Escrever nos torna conscientes. Uma vez conscientes, fica difícil agir de maneira inconsciente. Depois que percebemos que comer em excesso é um artifício que nos bloqueia, fica mais fácil recorrer às palavras do que recorrer à comida. E é isso que este livro tem para ensinar. Diante da perspectiva de um ataque às guloseimas, você pode correr para suas páginas em vez de correr até a geladeira. E, em conseqüência, sua criatividade responderá com um fluxo maior de percepções e idéias.

“Estava na ponta da língua”, dizemos muitas vezes quando uma idéia nos foge. O que nem sempre percebemos é que as idéias vivem na ponta da nossa língua — e que as afogamos com um excesso de comida. Michael, um escritor, conta que, quando consome doces e carboidratos no lanche, sua fonte de criatividade para escrever seca, mas que, quando ingere um lanche saudável, como um pedaço de fruta, seu fluxo criativo dispara. Mary Alice, também escritora, declara que quando registra por escrito seus sentimentos é premiada com um fluxo de criatividade mais abundante. “É como se ao dar nome a certas coisas eu encontrasse nomes para muitas outras.”

Nossas emoções se tornam conhecidas. Uma vez conhecidas, deixam de ser os sabotadores que nos levam a comer demais. Somos todos criativos e podemos, todos nós, ser mais criativos do que já somos. Ao abandonarmos nossos mecanismos de bloqueio, entramos no gozo de nossos poderes. Neste livro, focalizamos especificamente o bloqueio criativo constituído pela comida — e o ato de escrever como meio de controlar o peso.

Embora muitos dos meus alunos digam que descobriram uma vida nova e cheia de emoções depois de seguir minhas dicas sobre a criatividade, não posso prometer uma nova carreira se você seguir a dieta do Escreva e Emagreça. O que posso prometer é um aumento em sua clareza, energia e produtividade. À medida que for escrevendo, você perderá peso e ganhará em criatividade. Ao desbloquear seus sentimentos, terá acesso à energia neles contida. À medida que se familiarizar consigo mesmo, com a origem de seu trabalho criativo, você se tornará, literalmente, mais original. À medida que emagrecer, seus pensamentos se tornarão mais claros. Ao perder peso, deixará de esperar pela varinha mágica que vai transformar sua vida. Em vez disso, compreenderá que a varinha mágica é, na verdade, sua caneta, e que, com a caneta na mão, você será capaz de transformar sua própria vida.

Diferentemente de outros livros de dieta que se proclamam donos da verdade, a dieta do Escreva e Emagreça funciona bem aliada a qualquer dieta sensata. Escrever é a chave. Você pode escrever e seguir a dieta Atkins. Escrever e seguir a South Beach. Você pode escrever enquanto freqüenta os Vigilantes do Peso ou os Comedores Compulsivos Anônimos. Na verdade, as ferramentas do livro contribuirão para aumentar suas chances de sucesso em qualquer dieta de sua escolha.

Se você se sente atraído por este livro, isso significa que provavelmente você se considera criativo, mas também vítima de uma criatividade inibida. Você se sente literalmente faminto por uma vida mais satisfatória. Trabalhar com a ajuda das ferramentas deste livro pode lhe proporcionar essa vida que almeja. Seu desejo por doces será saciado pela doce satisfação de levar uma vida mais rica e produtiva.

Para simplificar, este livro se divide em duas partes. A Parte I vai lhe apresentar sete ferramentas simples. Elas são o alicerce da sua gula, que a partir de agora está em recuperação. A Parte II se compõe de artigos curtos que descrevem as inúmeras situações e circunstâncias que você pode vir a encontrar. Cada artigo vem acompanhado de mais uma ferramenta que permitirá o aprofundamento de sua consciência e de sua criatividade.

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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

iPhone 3G: operadoras apresentam preços diferentes

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iPhone 3G: operadoras apresentam preços diferentes

O consumidor deve pesquisar e ficar atento ao preço do Telefone Celular iPhone 3G nas operadoras antes de realizar a compra, pois o preço oferecido pelas empresas de telefonia móvel pode variar bastante.

A operadora Claro disponibilizará em seu primeiro lote a quantia de 30 mil aparelhos celulares iPhone, que estarão disponíveis a venda em várias das principais capitais brasileiras e em Campinas e Ribeirão Preto, ambas cidades do estado de São Paulo.

A Claro venderá o iPhone no início por R$ 1.000 (iPhone 3G de 8GB), enquanto a Vivo o comercializará por R$ 899,00.

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Automóveis | Veículos: Seguro de Carro - Dúvidas e Respostas

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Automóveis | Veículos: Seguro de Carro - Dúvidas e Respostas

SEGURO OBRIGATÓRIO (DPVAT)

O Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT) é um seguro de contratação obrigatória, pago anualmente pelos proprietários de veículos automotores, com o objetivo de amparar as vítimas de acidentes de trânsito no território brasileiro, independente de quem seja a culpa do acidente ocorrido.

Como ocorre a contratação do DPVAT?

Veículos sujeitos ao Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA): O bilhete do seguro é emitido com o certificado de registro e licenciamento anual;

Veículos isentos do pagamento de IPVA: a contratação é efetuada junto com o emplacamento ou licenciamento.

Vigência: do primeiro ao último dia de cada ano.

Coberturas: o seguro cobre morte, invalidez permanente e despesas de assistência médica ou hospitalar. As indenizações são pagas individualmente, não importando o número de vítimas do acidente.

Beneficiários: no caso do reembolso das despesas médicas, hospitalares e invalidez permanente, o beneficiário será a própria vítima do acidente. Em caso de morte, o beneficiário será o cônjuge sobrevivente ou equiparado. Na falta destes, receberão o reembolso os herdeiros legais.

Indenização: o pedido pode ser feito através de qualquer seguradora e sem a ajuda de intermediários. O interessado deverá apresentar a documentação necessária ao caso. A mesma seguradora efetuará o pagamento da indenização em cheque nominal, no prazo de quinze dias da entrega dos documentos.

O prazo para dar entrada no pedido de indenização é de três anos, a contar da data em que ocorreu o acidente. Nos casos de invalidez o prazo para prescrição levará em conta a data do laudo do Instituto Médico Legal (IML).

O prêmio do seguro será pago na rede bancária. As indenizações por morte e invalidez permanente não são cumulativas. Não estão cobertos danos materiais como roubo, furto, colisão ou incêndio de veículos.

SEGURO PRIVADO (SEGUROS DE CONTRATAÇÃO OPCIONAL)

O seguro é um contrato pelo qual a empresa seguradora garante ao segurado proteção contra eventuais prejuízos decorrentes de determinado evento ou risco. As coberturas oferecidas pelas empresas seguradoras privadas em um seguro de veículo têm o objetivo de atender às necessidades dos segurados diante da possibilidade desses terem prejuízo em razão de danos causados acidentalmente pelo uso de seus automóveis ou resultante da ação de terceiros. São seguráveis todos os carros terrestres de propulsão a motor e seus reboques, desde que não andem sobre trilhos. O valor da importância segurada inscrito na apólice de seguro para cada cobertura representará o limite máximo de responsabilidade da empresa seguradora.

Quais são as modalidades possíveis para o seguro de automóvel?

VMR - Valor de Mercado Referenciado: modalidade que garante ao segurado, no caso de indenização integral, o pagamento de quantia variável, em moeda corrente nacional, determinada de acordo com a tabela de referência, expressamente indicada na proposta do seguro, conjugada com fator de ajuste, em percentual, a ser aplicado sobre o valor da cotação do veículo, na data da liquidação do sinistro.

VD - Valor Determinado: modalidade que garante ao segurado, no caso de indenização integral, o pagamento de quantia fixa, em moeda corrente nacional, estipulada pelas partes no ato da contratação do seguro.

O que significa “valor de novo”?

Refere-se ao compromisso da seguradora, na modalidade de valor de mercado referenciado (VMR), de indenizar o segurado pelo valor do veículo zero quilômetro constante da tabela de referência na data de liquidação do sinistro. A seguradora deverá definir expressamente os critérios necessários para que tal condição seja aceita. Esta cobertura vigorará durante prazo não inferior a 90 dias, contado a partir da entrega do veículo ao segurado e fixado nas condições gerais do seguro.

Quais são os tipos de coberturas oferecidas?

A cobertura compreensiva abrange roubo e furto, colisão e incêndio (perda parcial e total). A cobertura do seguro de automóvel pode, ainda, ser conjugada com a cobertura de responsabilidade civil facultativa de veículos (RCF-V), que cobre os danos corporais ou materiais causados a terceiros, e a cobertura de acidentes pessoais para passageiros (APP).

A cobertura de RCF-V, por sua vez, pode ser dividida em duas modalidades: a que cobre danos materiais causados a terceiros (DM) e a que cobre danos corporais causados a terceiros (DC).

Podem ser contratadas coberturas adicionais?

Sim. São coberturas contratadas por cláusulas especiais que integram a apólice. Como exemplo, temos as coberturas para: acessórios, rádios, ar condicionado, antenas e outros equipamentos, guindastes, frigoríficos (caminhões frigoríficos), aparelhos de raio x (nos hospitais volantes), etc.

Quais são os prejuízos não indenizáveis?

São os prejuízos decorrentes dos riscos excluídos, bem como, nos casos de indenizações parciais, as avarias previamente constatadas pela seguradora.

Como é determinado o valor do prêmio de seguro?

O valor do prêmio será fixado pela seguradora a partir das informações que lhe foram enviadas sobre o bem segurado (automóvel) e, em geral, sobre o segurado e o condutor (questionário de avaliação de risco).

As seguradoras estão liberadas para fixar seus prêmios e a forma de pagamento (se o prêmio será à vista ou parcelado), mas deverão encaminhar o documento de cobrança em até 5 dias úteis antes da data do respectivo vencimento.

Qual é o início de vigência do seguro?

No caso de seguro em que a proposta foi recepcionada na seguradora sem pagamento de prêmio, o início de vigência da cobertura será a data de aceitação da proposta ou outra se expressamente acordarem segurado e seguradora. Na ausência de data vale a do recebimento da proposta pela seguradora.

No caso de seguro de proposta recepcionada pela seguradora com adiantamento para futuro pagamento de prêmio, o contrato terá início de vigência a partir da realização da vistoria, exceto para veículos zero quilômetro ou para os casos de renovação na mesma seguradora, hipóteses em que o início de vigência ocorre na data em que a proposta foi recebida na empresa seguradora.

Qual é o prazo para a aceitação da proposta pela seguradora?

O prazo é especificado na proposta de seguro, não podendo ser superior a quinze dias.

Encerrado este prazo, não tendo havido a recusa da seguradora, o seguro passa a ser considerado aceito. No caso de recusa, a seguradora deverá comunicar formalmente ao segurado a não aceitação do seguro, justificando a recusa.

O que caracteriza a indenização integral em caso de ocorrência de sinistro?

A indenização integral é caracterizada quando os prejuízos resultantes de um mesmo sinistro atingirem ou ultrapassarem 75% (ou percentual inferior quando previsto na apólice) do valor contratado pelo segurado (valor definido na apólice para a modalidade VD ou valor vigente na tabela de referência na data do aviso do sinistro multiplicado pelo fator de ajuste acordado para a modalidade VMR). Em caso de roubo ou furto do veículo sem que o mesmo seja recuperado, há também a indenização integral.

Quanto vou receber no caso de ocorrência de sinistro que acarrete indenização integral?

Nos casos de indenização integral, para a modalidade VD, o valor da indenização corresponderá ao valor constante da apólice. Para a modalidade VMR, o valor da indenização será determinado de acordo com a tabela de referência, expressamente indicada na proposta do seguro, conjugada com o percentual de fator de ajuste, a ser aplicado sobre o valor de cotação do veículo, na data da liquidação do sinistro.

Como devo proceder para o recebimento de indenização integral?

No caso de indenização integral, o segurado deverá, ocorrendo sinistro, avisar imediatamente a seguradora, preencher o formulário de aviso de sinistro e apresentar a documentação necessária, definida nas condições gerais do seguro.

Como devo proceder para o recebimento de indenização parcial?

Para a indenização parcial por avarias, ou seja, por danos materiais causados ao veículo que não acarretem a indenização integral, o segurado deverá, no caso de sinistro, avisar imediatamente a seguradora, preencher o formulário de aviso de sinistro, levar o carro a uma oficina de sua livre escolha (é possível que a seguradora ofereça algumas vantagens para utilização de rede credenciada, mas não pode impedir o segurado de escolher determinada oficina) e aguardar autorização prévia da seguradora para serem efetuados os consertos.

São também indenizáveis, até o limite máximo da indenização, os valores referentes aos danos materiais comprovadamente causados pelo segurado e/ou por terceiros na tentativa de evitar o sinistro, minorar o dano ou salvar o bem.

Qual o prazo para receber a indenização?

O prazo estabelecido para a liquidação do sinistro está limitado a 30 dias contados a partir do cumprimento de todas as exigências contratuais feitas ao segurado (entrega da documentação).

A contagem do prazo poderá ser suspensa quando, no caso de dúvida fundada e justificável, forem solicitados novos documentos, sendo reiniciada a partir do cumprimento das exigências pelo segurado.

O que é limite máximo de indenização?

Também chamado de importância segurada, o limite máximo de indenização representa, para cada uma das coberturas contratadas pelo segurado, o valor máximo que esse poderá receber em caso de um sinistro amparado pela respectiva cobertura. O segurado deverá estar atento, em cada cobertura, ao valor estipulado para o limite máximo de indenização, pois, dependendo da forma de contratação do seguro, isso poderá acarretar o recebimento parcial dos prejuízos.

O que é franquia?

É o valor, expresso na apólice de seguro, que representa a parte do prejuízo que deverá ser arcada pelo segurado por sinistro. Assim, se o valor do prejuízo de determinado sinistro não superar a franquia, a seguradora não indenizará o segurado.

A franquia não poderá ser cobrada do segurado nos casos de sinistro com indenização integral por qualquer causa, além dos sinistros que resultarem de incêndio, queda de raio e/ou explosão, ainda que esses acarretem indenizações parciais. Entretanto, se o veículo roubado ou furtado for recuperado e necessitar de conserto, o segurado arcará com a franquia, pois neste caso a indenização é parcial (desde que o prejuízo não ultrapasse o percentual máximo previsto na apólice de seguro).

No caso de mais de um sinistro, o segurado arcará com tantas franquias quantas forem os sinistros.

O que é bônus?

Trata-se de um critério definido pela empresa seguradora para permitir uma redução no valor do prêmio da apólice de seguro quando o segurado apresentar um número de anos sem sinistros. A Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), órgão de fiscalização e regulação das empresas de seguros, não define regras para a aplicação ou suspensão de bônus.

O contrato de seguro de veículos pode ser cancelado?

O contrato poderá ser rescindido com a concordância de ambas as partes. Se a rescisão ocorrer por vontade da seguradora, a empresa poderá reter um percentual do prêmio proporcional ao prazo decorrido do seguro. Se a rescisão ocorrer a pedido do segurado, a seguradora reterá, no máximo, além do custo da apólice de seguros e impostos, o prêmio calculado de acordo com a tabela de prazo curto.

Haverá o cancelamento automático do seguro por falta do pagamento único ou da primeira parcela do prêmio; quando ocorrer a indenização integral; e para os seguros de danos, quando a soma das indenizações pagas em razão dos sinistros ultrapassar o limite máximo da indenização.

O que é perda de direito do segurado?

É ocorrência de um fato que provoca a perda do direito à indenização, ainda que, a princípio, o sinistro seja oriundo de um risco coberto, ficando, então, a seguradora isenta de qualquer obrigação decorrente do contrato. Isto ocorre se o sinistro ocorrer por culpa grave ou dolo do segurado ou beneficiário do seguro; a reclamação de indenização por sinistro for fraudulenta ou de má-fé; o segurado, corretor, beneficiários ou ainda seus representantes e prepostos fizerem declarações falsas ou, por qualquer meio, tentarem obter benefícios ilícitos do seguro; e se o segurado agravar intencionalmente o risco.

Quais cuidados devo tomar anter de contratar um seguro de carro?

Verifique se a corretora e seguradora possuem a devida autorização de funcionamento junto à Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). Pesquise e compare os valores dos prêmios de diversas empresas seguradoras em várias corretoras, não deixando de avaliar os benefícios extras oferecidos. Leia atentamente a proposta e as condições gerais do contrato. Certifique se a proposta contém os valores do prêmio, a importância segurada e a cobertura, assinando-a somente quando estiver preenchida (não assine documento em branco ou não preenchido completamente).

Não efetue pagamentos em dinheiro vivo ou com cheques ao portador (faça cheque nominal, preenchendo na folha o nome da empresa que o está recebendo) nem forneça dados pessoais ou efetue pagamentos àqueles que pessoalmente (ou por telefone) alegam necessidade prévia de pagamento para liberação de valores de indenizações do seguro ou outros benefícios.

  • Glossário

Apólice: documento emitido pela seguradora que contém todas as cláusulas do contrato.

Avaria: dano causado ao bem segurado.

Aviso de sinistro: comunicação da ocorrência de um sinistro que o segurado é obrigado a fazer ao segurador assim que tenha dele conhecimento.

Bônus: desconto incidente sobre o prêmio a ser pago na renovação do seguro.

Cobertura: eventos indenizados pela seguradora.

Condições gerais: conjunto de cláusulas que definem os riscos cobertos, direitos e obrigações das partes.

Contrato de seguro: contrato pelo qual o segurador garante ao segurado proteção contra eventuais prejuízos decorrentes de determinado evento ou risco.

Corretor(a): pessoa física ou jurídica devidamente habilitada e registrada na Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) para intermediar e promover a realização de contratos de seguro, representando o cliente junto às empresas seguradoras.

Endosso/Aditamento: documento pelo qual as partes (de comum acordo) fazem e aceitam alterações do contrato.

Franquia: parcela do prejuízo suportada pelo próprio segurado, ou seja, quantia que ele terá de pagar, em caso de perda parcial do veículo ou de acessórios segurados. Se o valor do prejuízo de determinado sinistro não superar a franquia, a seguradora não indenizará o segurado.

Importância segurada: termo utilizado para definir o valor do bem segurado estipulado na apólice.

Indenização: é o valor pago pela seguradora em caso de ocorrência de sinistro previsto na apólice.

Prêmio: é a importância que o segurado paga à seguradora para ter direito à indenização em caso de sinistro.

Proposta: documento com a declaração dos elementos essenciais do interesse a ser garantido e do risco, em que o proponente, pessoa física ou jurídica, expressa a intenção de contratar o seguro, manifestando pleno conhecimento das condições contratuais.

Risco: evento incerto ou de data incerta que independe da vontade das partes contratantes e cuja ocorrência dará direito à indenização descrita na apólice.

Questionário de avaliação de risco (definição de perfil): integra a proposta, respondido pelo segurado, contém informações precisas sobre os condutores e usos habituais do veículo. O questionário é também utilizado no cálculo do valor do prêmio.

Segurado: é a pessoa física ou jurídica que, tendo interesse segurável, contrata o seguro, em seu benefício pessoal ou de terceiro.

Seguro: contrato pelo qual uma das partes se obriga, mediante cobrança de prêmio, a indenizar a outra pela ocorrência de determinados eventos ou por eventuais prejuízos previstos nas condições contratuais. O segurador e o segurado são obrigados a guardar, no contrato de seguro, a mais estrita boa-fé e veracidade a respeito do objeto segurado e das declarações a ele concernentes.

Sinistro: representa a ocorrência do risco coberto, durante o período de vigência do plano de seguro, ou seja, é a ocorrência do fato previsto no contrato.

Terceiro: pessoa envolvida num sinistro, mas que não é parte integrante do contrato.

Vigência: período de tempo fixado para a validade da apólice de seguro.

Vistoria: inspeção feita por peritos habilitados da seguradora para verificar o estado geral do veículo. A vistoria pode ser realizada antes da contratação e após o sinistro.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Carros | Veículos: Novo Ford Focus obedece motorista por comando de voz

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Carros | Veículos: Novo Ford Focus obedece motorista por comando de voz

O automóvel Ford Focus (modelo Ghia) é equipado com um sistema de comando de voz que obedece ao motorista. A função pode ser usada para ativar, por exemplo, o rádio, o tocador de CD e o ar-condicionado do carro.

O motorista pode pedir ao automóvel que deixe a temperatura ambiente em 21 graus, e assim o sistema obedecerá e regulará a temperatura do ar-condicionado para se adequar ao pedido do “mestre”.

O sistema de comando de voz do Ford Focus também ativa o aparelho celular do motorista através de conexão Bluetooth, permitindo a discagem sem que o usuário utilize as mãos.

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Setembro 21, 2008

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Setembro 21, 2008

O Estado de São Paulo

Livros A Cabana William P Young The Shack Books

Ficção

01. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

02. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

03. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
José Saramago . leia um trecho do livro

04. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak

05. O MUNDO É BÁRBARO
Luis Fernando Verissimo . leia um trecho do livro

06. CREPÚSCULO
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

07. O VENCEDOR ESTÁ SÓ
Paulo Coelho . leia um trecho do livro

08. MUNDO SEM FIM
Ken Follett . leia um trecho do livro

09. AS MEMÓRIAS DO LIVRO
Geraldine Brooks . leia um trecho do livro

10. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro


Livros Comer Rezar Amar Elizabeth Gilbert Eat Pray Love Books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. ELES CONTINUAM ENTRE NÓS
Zibia Gasparetto . leia um trecho do livro

03. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

04. 1808
Laurentino Gomes . leia um trecho do livro

05. SEMPRE EM FRENTE
Roberto Shinyashiki

06. CASAIS INTELIGENTES ENRIQUECEM JUNTOS
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

07. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

08. O SEGREDO
Rhonda Byrne

09. A ARTE DA GUERRA
Sun Tzu . leia um trecho do livro

10. INVESTIMENTOS INTELIGENTES
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Telefone Celular Nokia 3600 pode ser ligado a TV

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Telefone Celular Nokia 3600 pode ser ligado a TV

A Nokia lançou o Telefone Celular Nokia 3600, aparelho capaz de reproduzir imagens em um televisor comum, desde que este possua entrada para o plug.

O uso desse recurso se faz conectando um cabo entre o aparelho celular e a TV e acionando a função TV-OUT, que permite a exibição dos vídeos gravados no Nokia 3600 diretamente no aparelho de televisão.

A produção dos vídeos com qualidade VGA é feita pela câmera digital de 3.2 MP do próprio telefone celular, equipada com zoom de 8x.

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domingo, 21 de setembro de 2008

Livro: A Arca Perdida da Aliança | Tudor Parfitt | Primeiro Capítulo

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Livro: A Arca Perdida da Aliança | Tudor Parfitt | Primeiro Capítulo

O Professor Tudor Parfitt foi considerado o Indiana Jones britânico pelo conceituado jornal The Wall Street Journal, devido aos perigos e as aventuras que viveu na difícil busca pela Arca da Aliança, um dos objetos mais enigmáticos da história.

Livros A Arca Perdida da Alianca Tudor Parfitt The Lost Ark of the Covenant BooksLivro: A Arca Perdida da Aliança

A Caverna

Era um tempo de seca. Em 1987 minha casa era uma cabana de palha numa ressecada área tribal no centro do Zimbábue, no sul da África, completamente isolada do resto do mundo. Eu estivera fazendo pesquisas de campo sobre uma misteriosa tribo africana chamada Lemba. Isso era parte do meu trabalho. Na época eu era professor de hebraico no Departamento de Estudos do Oriente Próximo e Médio na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em inglês) da Universidade de Londres, e já fazia um tempo que esta tribo era meu principal tema acadêmico.

Como eu passava o tempo na aldeia? No calor escaldante do dia caminhava pelos morros próximos ao povoado e remexia nos restos da antiga cultura de construções de pedra, que, segundo os lembas, era trabalho de seus ancestrais distantes. Com minha pequena colher de pedreiro havia descoberto alguns ossos, pedaços de cerâmica local e um ou dois instrumentos de ferro com idade incerta. Não era muita coisa sobre a qual escrever. Depois eu lia, fazia minhas anotações e passava boa parte da noite ouvindo as narrativas dos anciãos.

Os lembas faziam uma reivindicação espantosa, de que tinham origem israelita, ainda que a presença de israelitas ou judeus na África central jamais tivesse sido atestada anteriormente. Por outro lado, desde o início da Idade Média, houvera rumores de reinos judeus perdidos na África mais escura. O que eu ouvira era que a tribo acreditava que, quando deixaram Israel, estabeleceram-se numa cidade chamada Senna — em algum local do outro lado do mar. Ninguém tinha qualquer idéia de onde, no mundo, ficava essa misteriosa Senna, nem eu. A tribo pedira que eu encontrasse sua cidade perdida, e eu havia prometido tentar.

O que eu sabia em 1987 sobre a tribo lemba, com 40 mil membros, era que eles eram negros, falavam várias línguas banto como venda ou shona, habitavam diversos locais na África do Sul e no Zimbábue, fisicamente não se diferenciavam de seus vizinhos e tinham uma quantidade de costumes e tradições idênticas às das tribos africanas entre as quais viviam.

Pareciam ser completamente africanos.

Mas, por outro lado, também tinham alguns costumes e lendas misteriosos que não pareciam africanos. Não se casavam com pessoas de outras tribos. Não comiam tradicionalmente com outros grupos. Circuncidavam os meninos. Praticavam a matança ritual de animais, usando uma faca especial; recusavam-se a comer porcos e várias outras criaturas; sacrificavam animais em locais altos como os israelitas antigos e seguiam muitas outras leis do Velho Testamento. A visão da lua nova era de importância fundamental para eles, assim como para os judeus. Os nomes dos clãs pareciam derivados do árabe, do hebraico ou de alguma outra língua semítica.

Durante os meses que eu havia passado na aldeia tentando desvendar seus segredos, jamais encontrei a prova absoluta — a arma fumegante, demonstrando que sua tradição oral, que os ligava à antiga Israel, era verdadeira. Jamais encontrei uma inscrição em pedra, um fragmento de uma oração em hebraico, um artefato do antigo Israel. Nem mesmo uma moeda ou um caco de cerâmica.

Antes de chegar ao Zimbábue eu havia passado alguns meses com as grandes comunidades lembas no país vizinho, a África do Sul. Ali, os líderes da tribo haviam me dado muitas informações. Eu esperava conseguir mais no Zimbábue e pedi que o chefe lemba local facilitasse a pesquisa. O chefe Mposi convocou uma reunião dos anciãos dos clãs lembas e, instigados por minha promessa de tentar encontrar sua cidade perdida de Senna, concordaram formalmente em permitir que eu pesquisasse sua história.

Mas depois disso não me contaram nem de longe o quanto eu esperava. Eram reservados com relação a qualquer coisa que tivesse a ver com suas práticas religiosas. Foi somente a disposição de me sentar perto deles até tarde da noite, até que meu uísque tivesse afrouxado a língua dos velhos, que me permitiu ouvir algo sobre seu culto notável.

No dia seguinte eles se arrependiam das indiscrições noturnas e murmuravam que os anciãos do clã não deveriam ter autorizado minha pesquisa, que os brancos não tinham nada que se intrometer nos assuntos deles e que eu deveria parar de tentar penetrar no manto de segredo que velava seus ritos religiosos.

Outros tentaram me amedrontar e fazer com que eu fosse embora contando histórias sinistras do que havia acontecido com gerações anteriores de pesquisadores que tinham penetrado demais em caminhos proibidos. Um deles fora circuncidado à força depois da ousadia de caminhar pela Dumghe, a montanha sagrada da tribo. Outro havia chegado perto demais de uma caverna sagrada na base da Dumghe e fora ferido com uma assegai tradicional e tremendamente espancado. Escapara com vida por pouco.

À medida que minhas esperanças de encontrar a pista fundamental com relação à verdadeira identidade deles começavam a morrer, também morriam as plantações ao redor da aldeia. Não chovera nada durante meses. Havia um pouco de líquido denso e lamacento no fundo das cacimbas. Todas as manhãs as mulheres traziam água em enferrujadas latas de óleo equilibradas na cabeça. Quando isso acabasse, não teriam o que beber. A não ser a cerveja da venda, para quem tivesse dinheiro. E esses não eram muitos.

Nesta manhã, cedo, antes do nascer do sol, o chefe havia convocado uma cerimônia da chuva. O mensageiro do chefe tinha chegado assim que as pessoas da casa começavam a acordar. A fogueira de cozinhar estava sendo soprada, e era aquecida a água para o chá e para abluções, trazida todas as manhãs à minha cabana pela filha de meu gentil anfitrião, Sevias. O mensageiro disse a Sevias que a presença dele seria necessária naquela noite. Este era um último e desesperado lance de dados.

Houvera seca durante tanto tempo que os riachos que um dia haviam trazido vida e peixes ocasionais ao povoado tinham desaparecido completamente. Agora pareciam trilhas de cabras cheias de poeira funda e fina. Sem água, logo a vida na aldeia seria impossível. A tribo teria de se mudar. Mas para onde? A seca cobria toda a região.

No fim da tarde os anciãos e notáveis se reuniram na grande cabana do chefe, no centro de seu kraal — o grupo de cabanas que formavam sua propriedade. Tinham sido convidados a beber chibuku — uma cerveja de milho feita em casa, com consistência de mingau —, dançar durante toda a noite e entreter os ancestrais pedindo chuva. Isso era os confins da África mais profunda.

Sevias me convidou a acompanhá-lo. Caminhamos juntos pela terra ressequida enquanto ele me contava sobre os grandes rebanhos que já possuíra, sobre as árvores gemendo sob o peso das frutas, sobre as espigas de milho que antigamente eram grandes como abóboras.

Estávamos entre os primeiros a chegar. Sentei-me perto de Sevias num banco de barro cozido que rodeava a cabana e olhei com grande interesse os preparativos para a festa dos ancestrais. Nunca havia imaginado que teria permissão de observar qualquer coisa como aquela já que sem dúvida ela fazia parte do coração de seu culto.

Eu tinha uma máquina fotográfica, um gravador e um caderno. Tinha quase certeza de que esta noite me daria material para ao menos um artigo acadêmico, um artigo impressionante.

O chefe Mposi sentou-se sozinho. Estava com saúde ruim e parecia preocupado. Olhava o chão de terra, apoiando a cabeça no topo da bengala. Com um movimento súbito chamou as esposas para servirem cerveja.

— Ela está lá, parada, e não está fazendo bem a ninguém!

— Já vou servir — respondeu rispidamente a esposa mais velha, levantando o pote de cerveja com os braços musculosos.

— Muito tarde — resmungou ele.

O pote de chibuku foi passado de mão em mão, da direita para a esquerda, sem qualquer demonstração inadequada de pressa, como uma garrafa de vinho Madeira depois de um jantar elegante em Oxford.

O silêncio foi rompido pelo chefe chamando os nomes de suas quatro esposas. Eram singularmente diferentes uma das outras em idade, tamanho e beleza. Cada uma respondeu por sua vez, ajoelhadas lado a lado, e começaram a bater palmas. Viraram-se de costas para o chefe, levantaram-se e acenderam velas, enquanto as outras mulheres começavam a ulular e assobiar.

Uma longa trompa de chifre de antílope foi enfiada através da abertura para dentro da cabana, e um toque triunfante silenciou o som agudo das mulheres. O homem que soprava a trompa era alto e forte. Usava uma saia feita de tiras de pele preta e ao redor da cabeça tinha uma faixa de pele de leopardo. Era o feiticeiro. Seu nome era Sadiki — um dos nomes de clãs dos lembas — nome inconfundivelmente semítico cuja presença na África central era uma anomalia misteriosa. Ele comandou a cerimônia. Chocalhos magagada, feitos de cabaça, estavam amarrados aos seus tornozelos com cordas de fibra de casca de árvore. Ele batia os pés no chão de terra da cabana e soprava uma nota longa e assombrosa na trompa.

Quatro mulheres idosas sentadas juntas no banco de barro que seguia por todo o perímetro da cabana começaram a bater em tambores de madeira. Os outros convidados estavam reunidos ao redor do feiticeiro, impelidos nos movimentos curtos e estremecidos da dança pelos ritmos dos tambores e dos chocalhos magagada, praticamente sem se mexer, perdidos em concentração.

Sadiki estava parado no epicentro da tempestade de sons, direcionando seu movimento. Tinha um ar poderoso e régio, e olhava com arrogância ao redor. De modo sugestivo, mexeu um dos pés. Depois, uma das mãos. Seu corpo seguiu e, posicionando-se na frente de um dos tambores, dançou como Davi diante da Arca, parando para soprar a trompa de chifre semelhante à shofar que um dia fora tocada no Templo de Jerusalém. As tocadoras de tambor pareciam velhas e frágeis demais para produzir um som daqueles, no entanto deveriam tocar durante horas, sem pausa.

A cerveja começou a circular mais depressa. A pobreza havia dominado a aldeia. Fazia muito tempo que os potes de cerveja não eram passados com tanta liberalidade. Alguns homens, não mais acostumados a beber, já estavam inebriados.

A mulher mais velha do chefe já estava aparentemente possuída pelos espíritos dos ancestrais. Olhando de um lado para o outro, caiu no chão chorando. Olhando ao redor de modo desfocado, levantou o vestido comprido, de estilo ocidental, até tirá-lo pela cabeça. Dançou posicionando-se no espaço diante das tocadoras de tambor, que Sadiki deixara livre.

O ritmo acelerou de novo. Com o suor descendo pelo peito largo e musculoso, Sadiki pôs um adereço de penas pretas de águia na cabeça da mulher. Sevias me disse que isso era para demonstrar respeito pelos ancestrais. Ela continuou dançando, lançando grandes sombras nas paredes iluminadas por velas. Caiu de joelhos, soluçando, diante do velho chefe e pôs com ternura o adereço na cabeça dele.

O chefe estava morrendo. Todo mundo dizia isso. Parecia cinzento e doente. Fez um gesto para eu me juntar a ele. Pegou minha mão e sussurrou no meu ouvido:

— Os ancestrais vieram de Israel: vieram de Senna. Estão aqui conosco. Adeus, Mushavi. Talvez nos vejamos em Senna.

Senna era a cidade perdida de onde os lembas tinham vindo, também era o lugar aonde esperavam ir depois de morrer.

O rosto dele, iluminado pela luz trêmula das velas, era corrugado com marcas da idade e da doença; seus olhos estavam escondidos por papadas de carne clara e pintalgada. Espiou-me e depois indicou que eu deveria me levantar e deixá-lo. Entristecido e aturdido por suas palavras, voltei ao banco onde estavam meu caderno, a máquina fotográfica e o gravador.

Eu estava na aldeia havia tanto tempo que começava a me sentir em casa, como um deles. Tinha bebido um bocado de sua cerveja chibuku. Depois dos primeiros goles ela se torna mais ou menos palatável, e depois de um tempo é positivamente aceitável. Percebi que aquele não era um momento para ficar sentado num canto tomando notas e gravando música lemba. Havia coisas mais importantes a fazer. Esta era mais uma ocasião para participação do observador. Tirei a camisa para, como pensei, misturar-me aos homens e mulheres cujas sombras fantasmagóricas saltavam loucamente nas paredes e que caíam numa espécie de transe ao meu redor. A mulher mais velha do chefe atravessou a cabana, inclinou-se sobre mim, e sussurrou algo incompreensível em shona, a língua da tribo shona, dominante na região do Zimbábue onde viviam os lembas.

Comecei a dançar ao ritmo forte dos tambores. Uma das mulheres mais novas do chefe estava dançando na minha frente, oscilando, bêbada, suplicando aos ancestrais.

As tocadoras de tambor aceleraram o ritmo.

Outra mulher, num transe remelento, foi para o centro da cabana. Homens ficaram de pé ao redor, admirando seu corpo esguio, instigando-a.

— Ela está falando com os ancestrais — gritou Sevias no meu ouvido. — Logo eles vão responder. Quando as vozes deles forem ouvidas, será melhor você ir embora.

Perto da meia-noite houve uma mudança na atmosfera. Imaginei que havia chegado a hora de oferecer os sortilégios e as orações secretas do culto. Essas eram coisas muito bem guardadas. Eram os códigos orais que governavam a vida dos lembas e que sem dúvida tinham as pistas para o passado que eu estava buscando. Esses códigos e sortilégios eram para mim o âmago da questão. Era disso que eu queria fazer parte. Era para isso que eu tinha vindo.

Meus braços estavam levantados; meu rosto estava voltado para o teto de palha. O suor escorria do meu corpo. Sentia uma empolgação enorme. Eu fora aceito, era um deles. Os ancestrais iam baixar e eu estaria ali para observar o que aconteceria em seguida. Ninguém do mundo externo jamais havia observado isso. Dentro da minha cabeça podia sentir uma espécie de canal se abrindo, parecia um canal de comunicação com os ancestrais israelitas da tribo.

Eu estava me rejubilando com a eficácia de minha metodologia de pesquisa cinco estrelas quando senti um punho se chocar contra a lateral do rosto. Era o punho da mais velha e mais forte mulher do chefe. Caí no chão em cima do corpo deitado e fétido do maior bêbado dos Mposi — uma espécie de mendigo chamado Klopas, que eu conhecia e cujo cheiro havia sentido muitas vezes. Por alguns segundos, perdi a consciência. Fui arrastado para fora da cabana por alguns homens e encostado na lateral da construção.

— É... eu chateei a mulher do chefe — falei. — Lamento muito.

Não estava lamentando tanto assim. Estava me sentindo tremendamente furioso.

— Mushavi — disse Sevias, inclinado acima de mim. — Você não chateou ninguém. O soco foi apenas as boas-vindas dos ancestrais. Talvez também tenha sido um pequeno aviso. Só um pequeno aviso. Se os ancestrais não quisessem você aqui, não teriam dado um soco fraco como esse, teriam feito picadinho de você. Agora você deve ir, porque os ancestrais estão chegando entre nós. Os que não são iniciados devem sair.

Os espíritos dos ancestrais não ficariam felizes em me ver ali, explicou ele. Segredos seriam compartilhados. Havia coisas que eu não deveria saber. De modo truculento, pensei que, se eu não conseguisse descobrir as coisas secretas ali, naquela noite, as chances eram de nunca saber. Era agora ou nunca.

Do lado de fora da cabana, um grupo de anciãos estava olhando ansioso para o céu noturno, esperando sinais de chuva. Sevias sentou-se ao meu lado, encostado na parede. Seu rosto com rugas gentis traía sinais de preocupação. Sua preocupação não era somente pela chuva, ou pela falta dela, se bem que esta fosse uma questão fundamental para ele, assim como para os outros — de fato sua vida e a vida de sua família dependiam disso — mas também por mim e pelo meu desapontamento ao não ser admitido nos segredos tribais. Eu já havia lhe contado que meu trabalho de campo não rendera tanto quanto eu esperava.

De cabeça inclinada, as mãos levantadas num gesto de súplica, ele perguntou com apenas uma sugestão de sorriso:

— Mushavi, você encontrou o que estava procurando no tempo que passou conosco?

Ele freqüentemente me honrava com o elogioso nome tribal de Mushavi, que os lembas geralmente só usam entre si e que eu achava que poderia estar conectado a Musawi — a forma arábica de “seguidor de Moisés (Musa)”. Talvez ele estivesse tentando me lisonjear chamando-me de Mushavi, mas o resto de sua pergunta era incompreensível. Ele sabia muito bem que, na maior parte, os segredos da tribo permaneciam intactos.

Sorri, e com o máximo de paciência que pude juntar, falei:

— Você sabe muito bem, Sevias, que ainda há muitos segredos que vocês não me contaram. E não se esqueça que os anciãos de todos os clãs concordaram que eu tivesse acesso a tudo.

— É — concordou ele, sério — mas muitas vezes expliquei a você que, não importando o que tenha sido dito na reunião dos clãs, há coisas que não podem ser contadas fora da irmandade dos iniciados. Orações, feitiços, sortilégios. Muitos dos nossos segredos não podem ser revelados. Os outros lhe disseram isso. Eles teriam de matá-lo, Mushavi, se você ficasse sabendo dessas coisas secretas. É a lei.

Seu rosto enrugado se tornou quase uma paródia de preocupação e ansiedade.

Sevias era um homem bom. Em todos os meses que eu havia passado em seu kraal, apesar da seca e da situação política insegura dentro da tribo e do país como um todo, apesar de dificuldades familiares, ele sempre fora calmo, gentil e digno. Agora eu percebi que nunca fora mais feliz na vida do que quando me sentava sob a grande árvore no kraal de Sevias.

Ele arrastou os pés descalços e calosos na terra seca.

— Mas e os segredos da tribo? — insisti. — As coisas que vocês trouxeram do norte, de Senna. Já me contaram sobre elas, mas ainda não vi nenhuma.

— É verdade. Nós trouxemos objetos de Jerusalém há muito tempo e trouxemos objetos de Senna. Objetos sagrados, importantes, de Israel e Senna.

Senna era a cidade perdida que, segundo a tribo, ela havia habitado depois de deixar a Terra de Israel. O professor M.E.R. Mathivha — o erudito líder da tribo lemba na África do Sul — já havia me contado muitas coisas sobre a lenda de Senna. A tribo viera de Senna “atravessando o mar”. Ninguém sabia onde isso ficava. Haviam atravessado “Pusela”, mas ninguém sabia onde isso ficava, também. Tinham vindo para a África, onde, por duas vezes, reconstruíram Senna. Esse era o resumo da história.

— Sevias — insisti —, você não pode ao menos me contar o que aconteceu com os objetos da tribo?

Ele examinou o céu e permaneceu calado. Depois murmurou:

— A tribo está espalhada numa grande área. Você sabe, uma vez nós violamos a lei de Deus. Comemos camundongos, que são proibidos para nós, e fomos espalhados por Deus entre as nações da África. Assim os objetos foram espalhados e escondidos em locais diferentes.

— E o ngoma? Onde você acha que pode estar?

O ngoma era um tambor de madeira usado para guardar objetos sagrados. A tribo havia seguido o ngoma, carregando-o no alto, durante a viagem pela África. Eles afirmam que o trouxeram de Israel há tantos anos que ninguém se lembra mais de quando isso aconteceu.

Segundo suas tradições orais, eles carregaram o ngoma à frente da tribo nas batalhas e ele os havia guiado na longa caminhada pelo continente. Segundo a tradição oral dos lembas, o ngoma costumava ser carregado diante do povo, em duas varas. Cada vara era inserida nos dois aros de madeira presos nos dois lados do ngoma. O ngoma era muitíssimo sagrado para a tribo, praticamente divino. Objetos sagrados do culto eram levados ali dentro. O objeto era santificado demais para ser posto no chão: no fim de um dia de marcha era pendurado numa árvore ou posto numa plataforma construída especialmente para ele. Era santo demais para ser tocado. Os únicos membros da tribo que tinham permissão de se aproximar dele eram os sacerdotes hereditários que sempre faziam parte do clã Buba. Os sacerdotes buba serviam ao ngoma e o guardavam. Qualquer um que o tocasse, não sendo os sacerdotes e o rei, seria derrubado pelo fogo de Deus que irrompia do próprio tambor. Ele era levado para a batalha e garantia a vitória. Matava os inimigos dos guardiães do ngoma.

Eu ouvira falar do ngoma pela primeira vez alguns meses antes, na África do Sul. O professor Mathivha me contara o que sabia sobre o objeto e eu recebera um relato detalhado de um velho lemba chamado Phophi, que conhecia bem a história da tribo. Phophi havia me contado sobre o tamanho do ngoma, suas principais propriedades e que tradições eram associadas a ele.

Eu também sabia que, cerca de quarenta anos antes, um antigo ngoma fora encontrado por um estudioso alemão chamado von Sicard numa caverna junto ao Limpopo, o rio infestado de crocodilos que marca a fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. Ele o havia fotografado e a foto fora incluída num livro que escreveu sobre o assunto, mas aparentemente desde então o ngoma havia desaparecido sem deixar vestígios. Mathivha, Phophi e outros anciãos lembas haviam me contado que o artefato encontrado pelo alemão em sua caverna remota era sem dúvida o ngoma original que os lembas haviam trazido do norte.

Uma noite, algumas semanas antes da dança da chuva, sentado até tarde junto ao fogo com Sevias e outros anciãos, ouvi um pouco mais sobre a lenda do ngoma.

— O ngoma veio do grande templo de Jerusalém — disse Sevias. — Nós o carregamos até aqui, pela África, usando as varas. À noite, ele ficava numa plataforma especial.

De repente me ocorreu que, na forma, no tamanho e na função, o ngoma lungundu era semelhante à bíblica Arca da Aliança, a famosa arca perdida que fora procurada sem sucesso através dos tempos. A descrição bíblica do objeto, que eu conhecia desde os anos em que estudava hebraico clássico em Oxford, estava gravada na minha mente.

Uma arca de madeira de shittim; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura (...) e fundirás para ela quatro argolas de ouro, e as porás nos quatro cantos dela, duas argolas num dos lados, e duas argolas noutro lado. E farás varas de madeira de shittim, e as cobrirás com ouro. E colocarás as varas nas argolas, aos lados da arca, para se levar com elas a arca. As varas estarão nas argolas da arca, não deverão ser tiradas dela. Depois porás na arca o testemunho, que eu te darei.

A Arca, como o ngoma, tinha poderes sobrenaturais. Jamais poderia tocar o chão. Era praticamente divina. Como o ngoma, era levada para a batalha e garantia a vitória. Objetos sagrados, inclusive as tábuas em que foram inscritos os Dez Mandamentos e a vara mágica de Arão, irmão de Moisés, eram guardados ali dentro. Qualquer um que ao menos olhasse para ela seria derrubado por seu poder espantoso. Uma casta sacerdotal fundada por Arão, irmão de Moisés, guardava a Arca. O clã sacerdotal dos Buba, fundado por um indivíduo chamado Buba, que supostamente teria guiado os lembas para fora de Israel, guardava o ngoma.

As semelhanças funcionais eram marcantes. Mas as diferenças na forma eram significativas. Aparentemente a Arca era uma espécie de caixa, cofre ou baú, ao passo que o ngoma — apesar de também carregar coisas dentro — era um tambor. A Arca era feita de madeira, mas coberta com folhas de ouro; o ngoma era simplesmente feito de madeira.

De modo mais fundamental, não havia conexão nos tempos antigos entre o mundo da Bíblia e esse canto remoto do interior da África. E não havia absolutamente nenhuma prova, de modo algum, de que os guardiães lembas do ngoma tivessem ancestralidade judaica. Mesmo assim, a sobreposição entre esses objetos aparentemente muito diferentes me atraía e levou minha mente em direção à estranha história da Arca da Aliança. Era uma comparação interessante mas, pensava eu, nada mais do que isso.

Do lado de fora da cabana do chefe, com o ruído tumultuoso dos tambores suplantando todos os sons da noite, encostei-me na parede de barro e palha e senti lentamente a dor do soco ir sumindo. Sevias parecia pouco à vontade. Segurou meu braço e fez com que eu me levantasse, levando-me mais para longe dos grupos de homens que estavam de pé ao redor, desfrutando do ar noturno antes de retornar ao frenesi da dança.

— Falar do ngoma e das coisas que foram trazidas de Israel é perigoso demais, Mushavi. Isso faz parte dos conhecimentos secretos da tribo. Não posso lhe contar sobre isso mais do que já contamos. Contamos que nós nos chamamos de Muzungu ano-ku bva Senna, “os brancos que vieram de Senna”. Contamos que o ngoma veio conosco de Senna. Contamos o que era o ngoma. E contamos que o ngoma não é visto por homens há muitos, muitos anos.

Sevias já ia se virar quando hesitou e pôs a mão no meu braço.

— Os velhos dizem que foi o ngoma que nos guiou até aqui, e algumas pessoas dizem que quando chegar a hora certa o ngoma virá nos levar de volta. As coisas estão piorando neste país. Talvez a hora esteja chegando.

— Sevias — eu disse —, sei que este é um dos maiores segredos de sua tribo e sei que há muitos na tribo que não desejam compartilhar os segredos comigo. Mas partirei em breve. Não quero voltar de mãos vazias. Poderia simplesmente me contar, por favor, se tem alguma idéia de onde pode estar o ngoma lungundu?

Sevias parou, olhou ao redor e ficou em silêncio. Olhou para o céu noturno de uma limpidez frustrante, e de novo arrastou os pés na poeira fina do kraal.

— Onde está agora, não sei. Mas há alguns anos os homens muito velhos costumavam dizer que ele estava escondido na caverna abaixo da montanha Dumghe. Está em segurança lá. É protegido por Deus, pelo rei e pelo “pássaro do céu”, por cobras de duas cabeças e pelos leões, “os guardiães do rei”. Foi levado para lá, segundo dizem os velhos, pelos Buba de Mberengwe. Eles formam o clã dos sacerdotes lembas e naqueles tempos havia alguns deles que ficavam do lado de Mberengwe. Mas, como você sabe, esse é o único lugar aonde você não deve ir. À montanha Dumghe.

Ele me deu boa-noite e voltou rapidamente para se juntar aos anciãos.

Peguei Tagaruze, o policial que fora instruído pelo quartel da polícia local para atuar como meu guarda-costas (e ficar de olho em mim), e caminhei os quase quatro quilômetros de volta até o kraal de Sevias.

Senti uma pontada de tristeza porque logo estaria deixando aquele belo lugar com seus morros ásperos e grandes pedras redondas, moldados por eras de vento e chuva, sol e seca.

No dia seguinte estava planejando ir para o norte em direção ao Malawi e à Tanzânia, seguindo a trilha da passagem dessa tribo enigmática através da África, em busca de sua cidade perdida de Senna. Parecia uma busca longa e solitária, e de repente senti saudade de casa.

Tinha recebido uma carta de Maria, minha voluptuosa namorada latino-americana, dançarina de salsa. Era uma carta amorosa, porém firme. Ela queria que eu voltasse, que deixasse essa busca comodista do que ela chamava de Senna inexistente. Queria que eu me casasse com ela e levasse uma vida normal, a vida convencional e sedentária de erudito e professor universitário. Se eu não quisesse casar com ela, havia um monte de homens que iriam querer.

“Os homens”, escreveu ela, “existem aos milhões. Você é um imbecil se não aproveitar a chance agora, quando ela existe. Outros aproveitariam.”

E era verdade. Cada vez que ela andava pela rua, poucos homens deixavam de notá-la. Maria tinha um jeito especial de andar. Tentei afastá-la do pensamento. Ela esperaria. Provavelmente.

Ainda estava me sentindo tonto por causa do chibuku. Se o que Sevias havia dito estava correto, talvez houvesse alguma chance de eu encontrar seu ngoma lungundu. Isso talvez revelasse alguma coisa sobre de onde a tribo viera. Talvez me ajudasse a encontrar a cidade perdida de Senna. Talvez houvesse alguma coisa escrita nele, objetos sagrados dentro, que pudessem me ajudar na busca. Eu só precisava ir para a Dumghe.

Senti um tremor de empolgação. A montanha sagrada dos lembas situa-se a pouco menos de quatro quilômetros do kraal de Sevias. Era um belo monte arredondado, virado para o leste e coberto com as características pedras redondas da região, e esparsamente coberto de mato. Havia um terreno aberto entre o kraal e a montanha Dumghe. Não havia povoados nem kraals — nem cachorros barulhentos para alertar à tribo sobre minhas atividades. Não havia animais selvagens perigosos, a não ser bandos de chacais e algum leopardo ocasional, e eu estava bêbado demais para me preocupar muito com isso.

Seguindo uma ânsia súbita inspirada pelo chibuku, decidi caminhar até a caverna sagrada, o lugar onde a tribo me havia proibido de ir. Uma área interdita. No passado, qualquer um que ousasse ir lá e não fosse iniciado, seria punido com a morte.

Os anciãos estariam dançando e bebendo nas próximas horas, pensei. O resto da tribo estava dormindo. Ninguém saberia que eu estive lá. Eu sabia que a caverna era situada na base de duas rochas enormes que haviam se separado de um penhasco que formava o lado leste da montanha. Era coberta por grandes pedras lisas e arredondadas, moldadas durante milênios pela erosão dos ventos. As rochas atrás do local onde se escondia a caverna haviam sido apontadas para mim uma vez, e tinham me dito que atrás da caverna sagrada havia outra passagem, mais sagrada ainda do que a primeira. Talvez fosse ali que o ngoma estivesse protegido, como diziam, por seus leões e cobras policéfalas.

Eram cerca de duas da madrugada quando cheguei — junto com Tagaruze, meu forte policial guarda-costas — à grande árvore meshunah onde eu havia encontrado o guardião lemba da Dumghe nos meus primeiros dias na aldeia. A partir da árvore, todos os caminhos que levavam à caverna seriam visíveis. O guardião oficial supostamente estaria sempre de serviço, mas era difícil acreditar nisso e, de qualquer modo, nesta ocasião, eu tinha pouca coisa com que me preocupar, porque o tinha visto na festa da chuva, bêbado como todos os outros.

Paramos um momento e depois subimos pela lateral da montanha, em direção à trilha íngreme que levava à caverna. De um dos lados o caminho se grudava à face da rocha; do outro havia uma queda íngreme de doze metros no vazio. Era uma descida traiçoeira e as pedras ficavam caindo no abismo.

Até Tagaruze ficou amedrontado. Naquela noite ele estava indo muito além do dever. Sentia-se tão fascinado pelas histórias dos lembas quanto eu. Mas começava a se arrepender de ter concordado em me acompanhar até ali. Não era muito dado a palavras, mas finalmente murmurou:

— Por que estamos fazendo isso? O que estamos procurando?

Eu também estava apavorado e não respondi.

Pensei ter escutado um barulho nas árvores e nos arbustos acima da face de pedra da Dumghe. Ficamos em silêncio. Alguns dias antes, um dos anciãos tinha visto um leão, um leão branco, segundo ele, na montanha. Os anciãos tinham me contado que o ngoma era sempre protegido por leões. Eram os leões de Deus, os guardiães do rei. Fomos em frente, escorregando pela descida que levava à caverna na base das rochas, parando de vez em quando para prestar atenção a sinais de perigo. Tagaruze tirou sua arma do coldre e enfiou no cinto. Havia um cheiro úmido e acre no ar. Minhas mãos estavam molhadas de suor devido ao esforço da caminhada e do medo.

De repente o caminho sumiu sob meus pés e foi somente a rapidez de Tagaruze ao agarrar meu braço que me impediu de desaparecer pela borda. Pedras soltas caíram do penhasco numa avalanche respeitável. Um eco chapado ecoou sob nós. Paramos e olhamos a ravina abaixo. Dava para vislumbrar a silhueta do estágio final da descida pelo penhasco do outro lado da grande parede de rocha.

Com cuidado continuamos descendo. Num momento houve um estalo de galhos; em outro, o som de um grande pássaro e uma corrente de ar depois; silêncio. Imaginei se aquele seria o “pássaro do céu”, a criatura que Sevias dissera ser um dos protetores da Dumghe.

Chegamos à base de duas grandes rochas. Houve outro som de galho se partindo. Talvez os lembas realmente mantivessem alguém ali o tempo todo, para guardar seus tesouros, afinal de contas. Havia apenas espaço para andarmos em fila. Fui na frente, apontando a lanterna ao redor até chegarmos ao que parecia a entrada da caverna. Aquele lugar, pensei, devia ser o mais sagrado para os lembas. Entre a pedra e a face do penhasco havia um monte de seixos soltos. Pus ali meu pé calçado com a bota para deserto, segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando a outra na lateral de uma pedra. Não havia nada a ser visto. Encorajado, passei pela entrada estreita e apontei a lanterna em frente. Tudo que vi foi uma parede de pedra.

Mas pude ouvir uma coisa; uma espécie de som ofegante, uma tosse ou um rosnado, e então um som mais alto — uma fungada, talvez, que se transformou num rugido ensurdecedor ricocheteando na face de rocha ao redor. Minha mão apertou a lanterna, cheia de terror. Minhas pernas viraram geléia. A arma, pensei, atire no que quer que isso seja. Tagaruze estava com a arma, mas quando me virei percebi que Tagaruze não estava mais atrás de mim. Tagaruze havia desaparecido. Eu estava sozinho.

Recuei pela abertura, de costas, mantendo o rosto virado para o som, depois subi a trilha estreita atrás dele e fugi pelas encostas cobertas de mato da montanha Dumghe. O ruído nos acompanhou, subindo pelo fosso natural formado pelas grandes rochas, montanha acima. Era um som aterrorizante — poderia ser um leão, um leopardo ou qualquer outra coisa. Não esperamos para descobrir. Corremos o mais depressa que pudemos até chegarmos à árvore meshunah.

Sentamo-nos ofegantes na base da árvore. Enquanto meu traseiro batia no chão senti algo deslizando de baixo de mim e indo para o mato rasteiro. Estremecendo, levantei-me depressa.

— Que diabo foi isso? — perguntei.

— Só uma cobra — disse Tazaruze, sem jeito.

Meu sangue ficou gelado e senti vontade de vomitar. Haviam me dito que um dos guardiães do ngoma era uma cobra de duas cabeças. Eu sentia um milhão de vezes mais medo até mesmo da cobra menor e mais inofensiva do que de qualquer felino, pequeno ou grande, na face da terra.

Estremeci.

— E aquela coisa na caverna?

— Devia ser um ancestral dos lembas no corpo de um leopardo ou um leão. Ou seriam os protetores do ngoma, os leões do Todo-poderoso, os guardiães do rei. Todo mundo sabe que eles rondam nesta montanha. Foi um erro terrível, enorme.

O que o policial dissera era indubitavelmente verdadeiro. Foi um erro. Eu lamentaria esse equívoco em muitos anos seguintes. Não encontramos o esquivo e misterioso ngoma lungundu, o estranho artefato que representava um papel tão importante na imaginação dessa remota tribo africana, mas os acontecimentos daquela noite mudariam minha vida e me colocariam numa busca que só seria solucionada muitos, muitos anos depois.

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Paris, julho de 1942.

A menina foi a primeira a ouvir as fortes pancadas na porta. Seu quarto era o mais próximo à entrada do apartamento. No início, entorpecida pelo sono, pensou que era seu pai, subindo do esconderijo no porão. Ele havia esquecido suas chaves e estava impaciente porque ninguém ouvira sua primeira e tímida batida. Mas depois vieram as vozes, fortes e brutais no silêncio da noite, que não tinham nada a ver com seu pai.

— É a polícia! Abram a porta! Agora!

As pancadas recomeçaram, desta vez mais fortes. Elas ecoavam até a medula dos ossos. O irmão mais novo, adormecido na cama ao lado, agitou-se.

— É a polícia! Abram a porta! Abram a porta!

Que horas eram? Ela espiou pelas cortinas. Ainda estava escuro lá fora.

Ficou com medo. Lembrou-se das recentes conversas sussurradas que havia escutado, tarde da noite, quando seus pais pensavam que estava dormindo. Ela havia caminhado silenciosamente até a porta da sala de estar para ouvir e olhar através de uma pequena fresta. A voz nervosa de seu pai. O rosto ansioso da mãe. Eles conversavam em sua língua materna, que a menina compreendia, embora não fosse fluente como eles. Seu pai havia sussurrado que os tempos que estavam por vir seriam difíceis. Que eles teriam que ser corajosos e muito cuidadosos. Ele pronunciava palavras estranhas, desconhecidas: “campos”, “batida policial, uma grande batida policial”, “prisões de manhã cedo”, e a menina ficava imaginando o que tudo aquilo poderia significar. Seu pai havia murmurado que nem as mulheres nem as crianças estavam em perigo, somente os homens, e que ele ficaria escondido no porão todas as noites.

De manhã, o pai havia explicado à menina que seria mais seguro se ele dormisse lá embaixo durante algum tempo. Até “que as coisas voltassem a ficar mais seguras”. Que “coisas”, exatamente?, pensou a menina. O que significava “seguras”? Quando as coisas voltariam a ficar “seguras”? Ela queria descobrir o que ele quisera dizer com “campos” e “batida policial”, mas ficou preocupada em admitir que havia escutado seus pais conversando às escondidas diversas vezes. Então, não ousou perguntar a ele.

— Abram a porta! É a polícia!

E se os policiais houvessem encontrado seu pai no porão?, ela se perguntava. Era essa a razão por que estavam aqui, a polícia tinha vindo para levar Papa para os lugares que ele havia mencionado durante aquelas conversas sussurradas no meio da noite: “os campos”, longe, fora da cidade?

Com passos surdos, a menina percorreu rapidamente o caminho até o quarto da mãe, no fim do corredor. Sua mãe acordou no instante em que sentiu a mão sobre seu ombro.

— É a polícia, mamãe — a menina sussurrou. — Eles estão esmurrando a porta.

Sua mãe girou as pernas, empurrando-as para fora dos lençóis, e afastou os cabelos dos olhos. A menina achou que ela parecia cansada, velha, muito mais velha do que seus 30 anos.

— Eles vieram para levar Papa embora? — suplicou a menina, com as mãos nos braços da mãe. — Eles vieram buscá-lo?

A mãe não respondeu. Novamente, as vozes em altos brados no fim do corredor. A mãe rapidamente vestiu um penhoar por cima da camisola, pegou a menina pela mão e dirigiu-se à porta. Sua mão estava quente e pegajosa, como a de uma criança, a menina pensou.

— Pois não? — sua mãe disse timidamente, sem abrir o ferrolho.

Uma voz de homem. Ele berrou o nome dela.

— Sim, Monsieur, sou eu — ela respondeu. Seu sotaque saiu forte, quase desagradável.

— Abra a porta. Imediatamente. Polícia.

A mãe levou a mão à garganta e a menina notou como ela estava pálida. Parecia esgotada, paralisada. Como se não pudesse mais se mexer. A menina jamais havia visto aquele medo no rosto da mãe. Sentiu sua boca ficar seca de angústia.

Os homens bateram na porta novamente. A mãe a abriu com dedos trêmulos e desajeitados. A menina estremeceu, esperando ver ternos verde-acinzentados.

Havia dois homens lá. Um era policial, usando sua capa azul-escura até os joelhos e um quepe alto e redondo. O outro usava uma capa de chuva bege. Ele tinha uma lista nas mãos. Mais uma vez, disse o nome da mulher. E o nome do pai. Falava francês perfeitamente. Então estamos seguros, pensou a menina. Se eles são franceses e não alemães, não estamos em perigo. Se eles são franceses, não vão nos fazer mal.

A mãe puxou a menina para perto de si. Ela podia ouvir o coração da mulher batendo através do penhoar. Queria empurrar a mãe. Queria que ela se aprumasse e olhasse para os homens com coragem, que parasse de se curvar de medo, que impedisse seu coração de bater daquela maneira, como o de um animal apavorado. Ela queria que sua mãe fosse corajosa.

— Meu marido... não está aqui — gaguejou a mãe. — Eu não sei onde ele está. Eu não sei.

O homem com a capa de chuva bege adentrou o apartamento impetuosamente.

— Apresse-se, Madame. Vocês têm dez minutos. Pegue algumas roupas. O suficiente para alguns dias.

A mãe não se mexeu. Ela olhava para o policial com os olhos arregalados. Ele estava de pé sobre a plataforma entre dois lances de escada, com as costas voltadas para a porta. Parecia indiferente, entediado.

Ela pôs uma das mãos sobre sua manga azul-marinho.

— Monsieur, por favor... — ela começou.

O policial se virou, afastando a mão dela com uma expressão dura e vazia nos olhos.

— A senhora me ouviu. Vocês virão conosco. Sua filha também. Faça exatamente o que estamos mandando.

***

Paris, maio de 2002.

Bertrand estava atrasado, como sempre. Tentei não me importar com isso, mas me importei. Zoë estava encostada indolentemente contra a parede, entediada. Parecia tanto com o pai que às vezes me fazia sorrir. Mas não hoje. Olhei para o prédio alto e antigo. A casa de Mamé. O velho apartamento da avó de Bertrand. E nós iríamos morar lá. Iríamos sair do Boulevard du Montparnasse, com seu tráfego barulhento, com as ambulâncias incessantes por causa de três hospitais na vizinhança, com seus cafés e restaurantes, para esta rua estreita e tranqüila à margem direita do Sena.

O Marais não era um arrondissement com o qual eu estava familiarizada, embora admirasse sua beleza antiga caindo aos pedaços. Será que eu estava feliz com a mudança? Não tinha certeza. Bertrand não havia realmente pedido a minha opinião. Não havíamos conversado muito sobre isso. Como era seu estilo, ele havia tomado a dianteira da coisa toda. Sem mim.

— Lá está ele — disse Zoë. — Apenas meia hora atrasado.

Observamos Bertrand subir a rua, passeando, com seu característico andar sensual. Esguio, moreno, transpirando sensualidade, o arquétipo do homem francês. Ele estava ao telefone, como sempre. Arrastando-se atrás dele estava Antoine, seu colega de trabalho, barbudo e de rosto rosado. Seu escritório ficava na rue de l’Arcade, bem atrás da Madeleine.

Bertrand tinha feito parte de uma firma de arquitetura durante muito tempo, desde antes do nosso casamento, mas abriu seu próprio negócio com Antoine cinco anos atrás. Bertrand acenou para nós e depois apontou para o telefone, baixando as sobrancelhas e fazendo uma careta.

— Como se ele não conseguisse se livrar da pessoa ao telefone — zombou Zoë. — Com certeza.

Zoë tinha apenas 11 anos, mas às vezes parecia que já era uma adolescente. Primeiro por sua altura, que fazia com que todas as suas amigas parecessem anãs — assim como seus pés, ela acrescentaria austeramente —, e, depois, por uma lucidez precoce que muitas vezes me deixava sem fôlego. Havia algo de adulto em seu olhar solene, cor de avelã, e no modo pensativo como levantava o queixo. Ela sempre foi assim, mesmo quando pequena. Calma, madura, às vezes madura demais para sua idade.

Antoine veio nos cumprimentar enquanto Bertrand continuava em sua conversa, alta o bastante para que a rua inteira ouvisse, agitando as mãos no ar, fazendo mais caretas, virando-se de vez em quando para certificar-se de que estávamos captando cada palavra.

— Um problema com outro arquiteto — explicou Antoine com um sorriso discreto.

— Um concorrente? — indagou Zoë.

— É, um concorrente — respondeu Antoine.

Zoë suspirou.

— O que significa que podemos passar o dia todo aqui — ela disse.

Tive uma idéia.

— Antoine, por acaso você está com a chave do apartamento de madame Tézac?

— Sim, Julia, estou com ela — ele disse, sorrindo. Antoine sempre me respondia em inglês quando eu falava em francês com ele. Suponho que ele tinha a intenção de ser gentil, mas, secretamente, isso me deixava chateada. Eu sentia como se meu francês ainda não fosse bom, mesmo depois de estar morando aqui durante todos esses anos.

Antoine exibiu a chave. Decidimos subir, nós três. Zoë digitou a senha com vigor e dedos hábeis. Caminhamos pelo pátio frondoso e fresco que levava ao elevador.

— Odeio esse elevador — observou Zoë. — Papa deveria fazer algo sobre isso.

— Querida, ele só está reformando a casa de sua bisavó — observei. — Não o prédio todo.

— Bem, ele deveria — respondeu ela.

Enquanto esperávamos pelo elevador, meu celular começou a tocar o tema de Darth Vader. Examinei o número que piscava no visor. Era Joshua, meu chefe.

Atendi.

— Sim?

Joshua foi direto ao ponto. Como sempre.

— Preciso que você volte às três. Estamos fechando a pauta de julho. Câmbio final.

— Putz! — respondi atrevidamente. Ouvi uma risadinha no outro lado da linha antes que ele desligasse. Joshua sempre parecia gostar quando eu dizia “putz”. Talvez isso o fizesse lembrar-se de sua juventude. Antoine parecia se divertir com minhas gírias fora de moda. Eu o imaginava colecionando-as e depois tentando repeti-las com seu sotaque francês.

O elevador era uma daquelas inimitáveis geringonças parisienses com uma cabine diminuta, uma grade de ferro manual e portas duplas de madeira que inevitavelmente batiam na sua cara. Espremida entre Zoë e Antoine — que exagerou ligeiramente com seu perfume de vetiver —, dei uma olhada no meu rosto no espelho enquanto deslizávamos para o alto. Eu parecia tão desgastada quanto o elevador que rangia. O que havia acontecido com a beldade cheia de frescor que veio de Boston, Massachusetts? A mulher que me encarava de volta estava na temida idade entre os 45 e os 50, a terra de ninguém cheia de flacidez, com a chegada das rugas e a furtiva aproximação da menopausa.

— Eu também odeio esse elevador — comentei secamente.

Zoë sorriu e beliscou minha bochecha.

— Mamãe, até mesmo Gwyneth Paltrow ficaria horrorosa nesse espelho.

Eu tive de sorrir. Era um comentário típico de Zoë.

***

A mãe começou a soluçar, baixinho no início, e depois mais alto. A menina olhava para ela, atordoada. Em todos os seus 10 anos de idade, ela jamais vira a mãe chorar. Horrorizada, observava as lágrimas deslizarem pelo rosto pálido e amarrotado da mãe. Queria dizer à mãe para parar de chorar. Não conseguia agüentar a vergonha de ver sua mãe naquela choradeira na frente desses estranhos. Mas os homens não estavam prestando atenção às lágrimas da mãe. Eles disseram a ela que se apressasse. Não havia tempo a perder.

No quarto, o menino continuava a dormir.

— Mas para onde vocês vão nos levar? — suplicou sua mãe. — Minha filha é francesa, ela nasceu em Paris, por que vocês a querem também? Para onde estão nos levando?

Os homens não disseram mais nada. Eles eram vultos assomando-a, enormes, ameaçadores. Os olhos da mãe estavam brancos de terror. Ela foi para o quarto e afundou na cama. Depois de alguns segundos, endireitou as costas e se virou para a menina. Sua voz era um sussurro, seu rosto uma máscara de tensão.

— Acorde seu irmão. Vistam-se, os dois. Pegue algumas roupas para ele e para você. Depressa! Depressa, agora!

Seu irmão ficou mudo de terror quando espiou pela porta e viu os homens. Ele viu sua mãe despenteada, soluçando, tentando arrumar a mala. Reuniu toda a força que seu corpo de 4 anos de idade possuía. Recusou-se a se mover. A menina tentou persuadi-lo. Ele não ouvia. Ficou ali, sem se mover, com seus bracinhos dobrados sobre o peito.

A menina tirou a camisola, apanhou uma blusa de algodão e uma saia. Enfiou os pés dentro dos sapatos. Seu irmão a observava. Eles podiam ouvir a mãe chorando em seu quarto.

— Vou para o nosso lugar secreto — ele sussurrou.

— Não! — ela respondeu num ímpeto. — Você vai conosco, você tem que ir.

Ela o agarrou, mas ele conseguiu escapar do aperto e se esgueirou para dentro do armário longo e profundo escondido na superfície da parede do quarto. Aquele dentro do qual eles brincavam de esconde-esconde. Eles se escondiam ali a toda hora, como se fosse a própria casinha deles. Maman e Papa sabiam sobre ele, mas sempre fingiam que não. Eles os chamavam pelos nomes. Falavam alto, com suas vozes alegres: “Mas aonde foram essas crianças? Que estranho, elas estavam aqui agora mesmo!” E ela e o irmão davam risadinhas divertidas.

Eles tinham uma lanterna lá dentro e algumas almofadas, brinquedos e livros, e até mesmo uma garrafa d’água que Maman enchia todos os dias. Seu irmão ainda não sabia ler, então a menina lia alto para ele Um Bom Diabrete. Ele amava o conto do órfão Charles e a aterrorizante Madame Mac’miche, e como Charles se vingou dela por toda sua crueldade. Ela lia para ele repetidamente.

A menina podia ver o rostinho do irmão espreitando-a através da escuridão. Ele estava agarrado a seu ursinho favorito, e não tinha mais medo. Talvez ficasse a salvo lá, no fim das contas. Tinha água e a lanterna. Ele podia ver as figuras no livro da Condessa de Ségur. Sua preferida era a da magnífica vingança de Charles. Talvez ela devesse deixá-lo lá por enquanto. Os homens jamais o encontrariam. Ela voltaria para pegá-lo mais tarde quando eles tivessem autorização para ir para casa novamente. E Papa, ainda no porão, saberia onde o menino estava escondido, caso subisse.

— Você está com medo aí dentro? — perguntou baixinho, ao mesmo tempo que os homens as chamavam.

— Não — ele respondeu. — Não estou com medo. Você me tranca aqui dentro. Eles não vão me pegar.

Ela fechou a porta diante do rostinho pálido do irmão e girou a chave na fechadura. Depois, colocou a chave no bolso. A fechadura ficava escondida por um dispositivo em forma de um interruptor de luz que girava em torno de si mesmo. Era impossível ver o contorno do armário no apainelamento da parede. Sim, ele estaria seguro ali. Ela tinha certeza.

A menina murmurou o nome dele e encostou a palma da mão sobre o painel de madeira.

— Volto mais tarde para buscar você. Prometo.

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Filme: O Menino do Pijama Listrado | Trailer

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Filme: O Menino do Pijama Listrado | Trailer

O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pajamas), filme baseado no livro de grande sucesso O Menino do Pijama Listrado, do autor John Boyne. Película dirigida por Mark Herman. Estréia nos cinemas dos Estados Unidos no dia 14 de Novembro de 2008.

O Menino do Pijama Listrado | Trailer


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sábado, 20 de setembro de 2008

Curtas: "Edna" | Thomas Giusiano e Mathieu Rey

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Curtas: "Edna" | Thomas Giusiano e Mathieu Rey

Edna, curta-metragem francês de Thomas Giusiano e Mathieu Rey, retrata a personagem Carlitos (Charlie Chaplin) em busca da sua namorada. O filme faz referência ao universo cinematográfico de Steven Spielberg.

"Edna"



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Filme: The Soloist | (Robert Downey Jr e Jamie Foxx) Trailer

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Filme: The Soloist | (Robert Downey Jr e Jamie Foxx) Trailer

The Soloist (O Solista, em livre tradução do título original), filme inspirado no livro The Soloist, de Steve Lopez, dirigido por Joe Wright e estrelado por Jamie Foxx, Robert Downey Jr e Catherine Keener. Estréia nos Estados Unidos prevista para o dia 21 de Novembro de 2008.

The Soloist | Trailer


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Letra e Vídeo: Rob Thomas | "Little Wonders" | Song Lyrics

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Letra e Vídeo: Rob Thomas | "Little Wonders" | Song Lyrics

Rob Thomas
Little Wonders
Disco DVD/CD: A Família do Futuro (Brasil | World)
Rob Thomas

Let it go,
Let it roll right off your shoulder
Don't you know
The hardest part is over
Let it in,
Let your clarity define you
In the end
We will only just remember how it feels

Our lives are made
In these small hours
These little wonders,
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours,
These small hours still remain

Let it slide,
Let your troubles fall behind you
Let it shine
Until you feel it all around you
And I don't mind
If it's me you need to turn to
We'll get by,
It's the heart that really matters in the end

Our lives are made
In these small hours
These little wonders,
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours,
These small hours still remain

All of my regret
Will wash away some how
But I can not forget
The way I feel right now

In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate

Time falls away but these small hours
These small hours, still remain,
Still remain
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These little wonders still remain

Assista ao videoclipe | Watch the video clip

Rob Thomas | Little Wonders



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Livro: Feliz Ano Velho | Marcelo Rubens Paiva | Primeiro Capítulo

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Livro: Feliz Ano Velho | Marcelo Rubens Paiva | Primeiro Capítulo

Livros Feliz Ano Velho Marcelo Rubens Paiva Happy Old Year BooksLivro: Feliz Ano Velho

14 de Dezembro de 1979. 17 horas. Sol em conjunção com Netuno e em oposição a Vênus.

Subi numa pedra e gritei:

— Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.

Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin. Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin. Acabara toda a loucura, baixou o santo e me deu um estado total de lucidez: “Estou morrendo afogado.” Mantive a calma, prendi a respiração, sabendo que ia precisar dela para boiar e agüentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. “Calma, cara, tente pensar em alguma coisa.” Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido com vinte balas no corpo suspira...

— Sim, Xerife, o dinheiro do banco está enterrado na montanha azul.

Por que o cara não manda todo mundo tomar no ... e morre em paz?

O fôlego tava acabando, “devem pensar que estou brincando”. Era estranho não estar mexendo nada, não sentia nenhuma dor e minha cabeça estava a mil por hora. “Como é que vai ser? Vou engolir muita água? Será que vai vir uma caveira com uma foice na mão?”

— Venha, bonecão, vamos fazer um passeio para o mundo do além, uuuaaaaaaa!

Será que vou pro céu? Acho que não, as últimas missas a que fui eram as de sétimo dia dos tios e avós. Depois, não sei se Deus gosta de jovens que, vez em quando, dão uma bola, gostam de rock. Pelo menos não é isso o que os seus representantes na Terra demonstram. É, meu negócio vai ser com o diabo, vou ganhar chifrinhos, um rabinho em forma de flecha, e ficar peladinho, curtindo uma fogueira.

De repente estava respirando, alguém me virou.

— Você tá bem? — Era o professor Urtiga, que me carregava no colo.

Sem saber o que dizer, pedi uma respiração boca a boca. Ele me olhou assustado e foi me levando pra margem fazendo a respiração. Já em chão firme, os bêbados e loucos falavam:

— Ei, Marcelo, levanta!

— Que é isso, Paiva?

— E aí, tinha muito ouro?

— Levanta, que ele fica bom logo, é só dar uma chacoalhada.

— Isso, me levanta, eu devo estar meio bêbado.

Me levantaram, mas não deu em nada. Todos ficaram impressionados, logo começaram a tran*sar uma ida a um hospital qualquer: uma cabeça mágica arrumou uma tábua.

Deitaram-me e fomos até onde estavam os carros. Não havia dúvidas de que a Kombi era o melhor deles. Entraram Urtiga, Florência, Marcinha, Gregor e não sei mais quem. Urtiga foi cantando em castelhano, imaginei que fosse algum ritual maia, já que ele é mexicano. Gregor foi cutucando meu pé e chamou seu deus que até hoje não sei quem é, a Marcinha apelou pro Pai-Nosso e a Florência só chorava. O caminho tava demorando, mas eu nem me importava, tava gostoso ali, deitado, ouvindo o canto maia, com a certeza de que nada de grave havia acontecido. No hospital me dariam uma injeção qualquer e tudo bem. Urtiga começou a passar a mão na minha cabeça. Reparei que ele tava preocupado, olhei pra sua mão e vi que estava toda ensangüentada. Só poderia ser de algum corte da minha cabeça.

Chegando no pronto-socorro, percebi que o negócio era sério: maca, oxigênio, enfermeiros, médicos, maca correndo, teto branco, todo mundo olhando, mesa de raio X.

— Sente aqui?

— Não.

— E aqui?

— Só acima do pescoço.

— Ih, meu Deus...

Veio uma mulher: disse calmamente meu nome e pedi para avisar minha família em São Paulo.

— Ah! Avisa também o Dr. Miguel aqui em Campinas. O telefone dele é 29045.

Não sei como consegui lembrar o telefone do pai da minha ex-girl. Comecei a pensar nela, doce Lalá, faz quase dois anos e não teve outra paixão igual. Lembrei-me de que sempre a gente ia jantar fora, pedíamos vinho e ficávamos tão bêbados que todas as privadas de bares campineiros estavam registradas com meu vômito.

— Não, moça, não corte minha unha, é que eu toco violão e vou fazer uma gravação neste fim de semana.

Seria a primeira vez que ia entrar num estúdio profissional.

— Guarda esse colar, que ele é muito especial.

— Pô, meu cabelo não, é que eu sou muito vaidoso.

Me deixaram carequinha, carequinha. Apaguei.

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Cegueira | José Saramago

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Cegueira | José Saramago

Livros Ensaio Sobre a Cegueira Jose Saramago BooksLivro: Ensaio Sobre a Cegueira

O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tomaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de trânsito vulgar, farol partido, guarda-lamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, Por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.

Tal como o cego havia dito, a casa ficava perto. Mas os passeios estavam todos ocupados por automóveis, não encontraram espaço para arrumar o carro, por isso foram obrigados a ir procurar sítio numa das ruas transversais. Ali, como por causa da estreiteza do passeio a porta do assento ao lado do condutor ia ficar a pouco mais de um palmo da parede, o cego, para não passar pela angústia de arrastar-se de um assento ao outro, com a alavanca da caixa de velocidades e o volante a atrapalhá-lo, teve de sair primeiro. Desamparado, no meio da rua, sentindo que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tentou conter a aflição que lhe subia pela garganta. Agitava as mãos à frente da cara, nervosamente, como se nadasse naquilo a que chamara um mar de leite, mas a boca já se lhe abria para lançar um grito de socorro, foi no último momento que a mão do outro lhe tocou de leve no braço, Acalme-se, eu levo-o. Foram andando muito devagar, com o medo de cair o cego arrastava os pés, mas isso fazia-o tropeçar nas irregularidades da calçada, Tenha paciência, já estamos quase a chegar, murmurava o outro, e um pouco mais adiante perguntou, Está alguém em sua casa que possa tomar conta de si, e o cego respondeu, Não sei, a minha mulher ainda não deve ter vindo do trabalho, eu hoje é que calhei sair mais cedo, e logo me sucede isto, Verá que não vai ser nada, nunca ouvi dizer que alguém tivesse ficado cego assim de repente, Que eu até me gabava de não usar óculos, nunca precisei, Então, já vê. Tinham chegado à porta do prédio, duas mulheres da vizinhança olharam curiosas a cena, vai ali aquele vizinho levado pelo braço, mas nenhuma delas teve a ideia de perguntar, Entrou-lhe alguma coisa para os olhos, não lhes ocorreu, e tão-pouco ele lhes poderia responder, Sim, entrou-me um mar de leite. Já dentro do prédio, o cego disse, Muito obrigado, desculpe o transtorno que lhe causei, agora eu cá me arranjo, Ora essa, eu subo consigo, não ficaria descansado se o deixasse aqui. Entraram dificilmente no elevador apertado, Em que andar mora, No terceiro, não imagina quanto lhe estou agradecido, Não me agradeça, hoje por si, Sim, tem razão, amanhã por si. O elevador parou, saíram para o patamar, Quer que o ajude a abrir a porta, Obrigado, isso eu acho que posso fazer. Tirou do bolso um pequeno molho de chaves, tacteou-as, uma por uma, ao longo do denteado, disse, Esta deve de ser, e, apalpando a fechadura com as pontas dos dedos da mão esquerda, tentou abrir a porta, Não é esta, Deixe-me cá ver, eu ajudo-o. A porta abriu-se à terceira tentativa. Então o cego perguntou para dentro, Estás aí. Ninguém respondeu, e ele, Era o que eu dizia, ainda não veio. Levando as mãos adiante, às apalpadelas, passou para o corredor, depois voltou-se cautelosamente, orientando a cara na direcção em que calculava encontrar-se o outro, Como poderei agradecer-lhe, disse, Não fiz mais que o meu dever, justificou o bom samaritano, não me agradeça, e acrescentou, Quer que o ajude a instalar-se, que lhe faça companhia enquanto a sua mulher não chega. O zelo pareceu de repente suspeito ao cego, evidentemente não iria deixar entrar em casa uma pessoa desconhecida que, no fim de contas, bem poderia estar a tramar, naquele preciso momento, como haveria de reduzir, atar e amordaçar o infeliz cego sem defesa, para depois deitar a mão ao que encontrasse de valor. Não é preciso, não se incomode, disse, eu fico bem, e repetiu enquanto ia fechando a porta lentamente, Não é preciso, não é preciso.

Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura cobria tudo. Sabia que estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes, passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça, poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo, claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tomando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis.

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Lucidez | José Saramago

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Trecho do Livro: Ensaio Sobre a Lucidez | José Saramago

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Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembléia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembléia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências.

Além da umidade que tornava mais espessa a atmosfera, já de si pesada por ser interior a sala, apenas com duas janelas estreitas que davam para um pátio sombrio mesmo em dias de sol, o desassossego, empregando a comparação vernácula, cortava-se à faca. Teria sido preferível adiar as eleições, disse o delegado do partido do meio, p.d.m., desde ontem que está a chover sem parar, há derrubamentos e inundações por toda a parte, a abstenção, desta vez, vai subir em flecha. O delegado do partido da direita, p.d.d., fez um gesto concordante com a cabeça, mas considerou que a sua contribuição para a conversa deveria revestir a forma de um comentário cauteloso, Obviamente não minimizo esse risco, contudo penso que o acendrado espírito cívico dos nossos concidadãos, em tantas outras ocasiões demonstrado, é credor de toda a nossa confiança, eles são conscientes, oh sim, absolutamente conscientes, da transcendente importância destas eleições municipais para o futuro da capital. Dito isto, um e outro, o delegado do p.d.m. e o delegado do p.d.d., com ar meio céptico, meio irônico, viraram-se para o delegado do partido da esquerda, p.d.e., curiosos de saber que espécie de opinião seria ele capaz de produzir. Nesse preciso instante, salpicando água por todos os lados, irrompeu na sala o suplente da presidência, e, como seria de esperar, visto que ficava completado o elenco da mesa da assembléia, o acolhimento foi, mais do que cordial, caloroso. Não chegamos portanto a conhecer o ponto de vista do delegado do p.d.e., porém, avaliando por alguns antecedentes conhecidos, é de presumir que não deixaria de exprimir-se segundo a linha de um claro optimismo histórico, numa frase como esta, por exemplo, Os votantes do meu partido são pessoas que não se amedrontam por tão pouco, não é gente para ficar em casa por causa de quatro míseros pingos de água que caem das nuvens. Na verdade, não eram quatro pingos míseros, eram baldes, eram cântaros, eram nilos, iguazús e iangtsés, mas a fé, abençoada seja ela para todo o sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta.

Constituiu-se a mesa, cada um no lugar que lhe competia, o presidente assinou o edital e ordenou ao secretário que fosse afixá-lo, como a lei determina, à porta do edifício, mas o mandado, dando prova de uma sensatez elementar, fez notar que o papel não se aguentaria na parede nem um minuto, em dois améns se lhe esborrataria a tinta, ao terceiro o levaria o vento. Coloque-o então dentro, aonde a chuva não o alcance, a lei é omissa neste particular, o importante é que o edital fique afixado e à vista. Perguntou à mesa se estava de acordo, todos disseram que sim, com a ressalva de ter requerido o delegado do p.d.d. que a decisão ficasse exarada na acta para prevenir impugnações. Quando o secretário voltou da sua húmida missão, o presidente perguntou-lhe como estava o tempo e ele respondeu, encolhendo os ombros, Na mesma, como a lesma, Há algum eleitor lá fora, Nem sombra dele. O presidente levantou-se e convidou os membros da mesa e os representantes dos partidos a acompanhá-lo na revista à câmara de voto, que se viu estar limpa de elementos que pudessem vir a desvirtuar a pureza das escolhas políticas que ali iriam ter lugar ao longo do dia. Cumprida a formalidade, voltaram aos seus lugares para examinar os cadernos de recenseamento, que também encontraram limpos de irregularidades, lacunas e suspeitas. Tinha chegado o momento grave em que o presidente destapa e exibe a urna perante os eleitores para que possam certificar-se de que está vazia, a fim de que amanhã, sendo necessário, sejam boas testemunhas de que nenhuma acção delituosa havia introduzido nela, pela calada da noite, os votos falsos que corromperiam a livre e soberana vontade política dos cidadãos, que não se repetiria aqui uma vez mais aquela histórica fraude a que se dá o pitoresco nome de chapelada, cuja, não o esqueçamos, tanto se poderá cometer antes como durante ou depois do acto, conforme a ocasião e a eficiência dos seus autores e cúmplices. A urna estava vazia, pura, imaculada, mas não havia na sala um só eleitor, um único para amostra, a quem pudesse ser exibida. Talvez algum deles ande por aí perdido, lutando com as enxurradas, suportando as chicotadas do vento, apertando contra o coração o documento que o acredita como cidadão com direito a votar, mas, tal como estão as coisas no céu, vai tardar muito a cá chegar, se é que não acaba por voltar para casa e deixar os destinos da cidade entregues àqueles que um automóvel preto vem deixar à porta e à porta depois virá recolher, cumprido o dever cívico de quem o ocupava no banco de trás.

Terminadas as operações de inspecção dos diversos materiais, manda a lei deste país que votem imediatamente o presidente, os vogais e os delegados dos partidos, assim como as respectivas suplências, desde que, claro está, estejam inscritos na assembleia eleitoral cuja mesa integram, como era o caso. Mesmo a fazer render o tempo, quatro minutos bastaram para que a urna recebesse os seus primeiros onze votos. E a espera, não havia outro remédio, começou. Ainda meia hora não tinha passado quando o presidente, inquieto, sugeriu a um dos vogais que fosse espreitar a ver se vinha alguém, se calhar apareceram eleitores, mas deram com o nariz na porta que o vento havia fechado, e logo se foram dali a protestar, se as eleições tinham sido adiadas, ao menos que tivessem a delicadeza de avisar a população pela rádio e pela televisão, que para informações dessas ainda servem. Disse o secretário, Toda a gente sabe que uma porta que se feche atirada pelo vento faz um barulho de trinta mil demónios, e aqui não se ouviu nada. O vogal hesitou, irei não irei, mas o presidente insistiu, Vá, faça-me o favor, e tenha cuidado, não se molhe. A porta estava aberta, firme no seu calço. O vogal pôs a cabeça de fora, um instante foi suficiente para olhar a um lado e a outro, e logo para recolhê-la a escorrer como se a tivesse metido debaixo de um duche. Desejava proceder como um bom vogal, agradar ao seu presidente, e, sendo esta a primeira vez que havia sido chamado a funções, queria ser apreciado pela rapidez e eficiência nos serviços que tivesse de prestar, com o tempo e a experiência, quem sabe, alguma vez chegaria o dia em que também ele presidisse a uma assembleia de voto, voos mais altos que este têm cruzado o céu da providência e já ninguém se admira. Quando ele regressou à sala, o presidente, entre pesaroso e divertido, exclamou, Homem, não era preciso deixar-se molhar dessa maneira, Não tem importância, senhor presidente, disse o vogal enquanto enxugava o queixo à manga do casaco, Conseguiu ver alguém, Até onde os meus olhos alcançaram, ninguém, a rua é como um deserto de água. O presidente levantou-se, deu uns passos indecisos diante da mesa, foi até à câmara de voto, olhou para dentro e voltou. O delegado do p.d.m. tomou a palavra para recordar o seu prognóstico de que a abstenção dispararia em flecha, o delegado do p.d.d. pulsou outra vez a corda apaziguadora, os eleitores tinham todo o dia para votar, deviam estar à espera de que o temporal amainasse. Já o delegado do p.d.e. preferiu ficar calado, pensava na triste figura que estaria a fazer se tivesse deixado sair pela boca fora o que se dispunha a dizer no momento em que o suplente do presidente entrou na sala, Quatro miseráveis gotas de água não é coisa que chegue para amedrontar os votantes do meu partido. O secretário, para quem todos olharam à espera, optou por apresentar uma sugestão prática, Creio que não seria má ideia telefonar ao ministério a pedir informações sobre como está a decorrer o acto eleitoral aqui e no resto do país, ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos. Indignado, o delegado do p.d.d. levantou-se, Requeiro que fique exarado na acta o meu mais vivo protesto, como representante do partido da direita, contra os termos desrespeitosos e contra o inaceitável tom de chacota com que o senhor secretário acaba de se referir aos eleitores, esses que são os supremos valedores da democracia, esses sem os quais a tirania, qualquer das que existem no mundo, e são tantas, já se teria apoderado da pátria que nos deu o ser. O secretário encolheu os ombros e perguntou, Tomo nota do requerimento do senhor representante do p.d.d., senhor presidente, Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos, tenho a certeza de que o senhor secretário não quis ofender ninguém, ele próprio é um eleitor ciente das suas responsabilidades, a prova está em que, como todos os que nos encontramos aqui, arrostou com a intempérie para vir aonde o dever o chamava, no entanto, este reconhecimento sincero não me impede de rogar ao senhor secretário que se atenha ao cumprimento rigoroso da missão que lhe foi consignada, abstendo-se de qualquer comentário que possa chocar a sensibilidade pessoal e política das pessoas presentes. O delegado do p.d.d. fez um gesto seco que o presidente preferiu interpretar como de concordância, e o conflito não foi além, para o que fortemente contribuiu ter o representante do p.d.m. recordado a proposta do secretário, Na verdade, acrescentou, estamos aqui como náufragos no meio do oceano, sem vela nem bússola, sem mastro nem remo, e sem gasoil no depósito, Tem toda a razão, disse o presidente, vou ligar para o ministério. Havia um telefone numa mesa afastada e para lá se dirigiu levando a folha de instruções que lhe havia sido entregue dias antes e onde se encontravam, entre outras indicações úteis, os números telefónicos do ministério do interior.

A comunicação foi breve, Fala o presidente da mesa da assembleia de voto número catorze, estou muito preocupado, algo francamente estranho está a acontecer aqui, até este momento não apareceu um único eleitor a votar, já lá vai mais de uma hora que estamos abertos, e nem uma alma, sim senhor, claro, o temporal não há meio de parar, chuva, vento, inundações, sim senhor, continuaremos pacientes e a pé firme, claro, para isso viemos, nem é preciso dizer. A partir deste ponto o presidente não contribuiu para o diálogo com mais que uns quantos acenos de cabeça sempre concordantes, umas quantas interjeições abafadas e três ou quatro começos de frase que não chegou a terminar. Quando pousou o auscultador olhou para os colegas da mesa, mas na realidade não os via, era como se tivesse diante de si uma paisagem toda feita de salas vazias, de imaculados cadernos de recenseamento, com presidentes e secretários à espera, delegados de partidos a olharem desconfiados uns para os outros, deitando contas a quem poderá ganhar e a quem poderá perder com a situação, e lá longe algum vogal molhado e prestimoso regressando da entrada e informando que não vem ninguém. Que foi que responderam do ministério, perguntou o delegado do p.d.m., Não sabem que pensar, é natural que o mau tempo esteja a reter muita gente em casa, mas que em toda a cidade suceda praticamente o mesmo que aqui, para isso não encontram explicação, Por que diz praticamente, perguntou o delegado do p.d.d., Em algumas assembleias de voto, é certo que poucas, apareceram eleitores, mas a afluência é reduzidíssima, como nunca se viu, E no resto do país, perguntou o representante do p.d.e., não é só na capital que está a chover, É isso que desconcerta, há lugares onde chove tanto como aqui e apesar disso as pessoas estão a votar, como é lógico são mais numerosas nas regiões onde o tempo está bom, e por falar nisto, dizem que os serviços meteorológicos prevêem melhoria do tempo para o final da manhã, Também pode acontecer que vá de mau a pior, lembrem-se do ditado, ao meio-dia carrega ou alivia, advertiu o segundo vogal, que até agora ainda não tinha aberto a boca. Fez-se um silêncio. Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de maomé, uma vez que não podemos perguntar a eleitores que não conhecemos por que é que não vêm votar, fazemos a pergunta à família, que é conhecida, olá, viva, sou eu, sim, continuas aí, por que é que ainda não vieste votar, que está a chover sei-o eu, ainda tenho as perneiras das calças molhadas, sim, é verdade, desculpa, esqueci-me de que me tinhas dito que virias depois do almoço, claro, telefonei-te porque isto aqui está complicado, nem imaginas, se eu te disser que até agora não apareceu ninguém a pôr o voto, és capaz de não acreditar, bom, então cá te espero, um beijo. Desligou o telefone e comentou, irónico, Pelo menos um voto está garantido, a minha mulher virá à tarde. O presidente e os restantes membros da mesa entreolharam-se, saltava à vista que havia que seguir o exemplo, mas não menos que nenhum deles queria ser o primeiro, seria reconhecer que em rapidez de raciocínio e desembaraço quem leva a palma nesta assembleia eleitoral é o secretário. Ao vogal que tinha ido à porta ver se chovia não lhe custou muito a compreender que ainda teria de comer muito pão e muito sal antes de chegar à altura de um secretário como o que temos aqui, capaz, com a maior sem-cerimónia do mundo, de sacar um voto de um telefone portátil como um prestidigitador tiraria de uma cartola um coelho. Vendo que o presidente, retirado a um canto, falava para casa através do seu portátil, e que outros, utilizando os seus próprios aparelhos, discretamente, em sussurros, faziam o mesmo, o vogal da porta apreciou a honestidade dos colegas que, ao não usarem o telefone fixo ali colocado, em princípio, para uso oficial, nobremente economizavam dinheiro ao estado. O único dos presentes que por não ter telefone portátil tinha de resignar-se a esperar as notícias dos outros era o representante do p.d.e., devendo acrescentar-se, no entanto, que, vivendo sozinho na capital e tendo a família na província, o pobre homem não tem a quem chamar.

Uma após outra as conversas foram terminando, a mais demorada é a do presidente, pelos vistos está a exigir à pessoa com quem fala que venha imediatamente, a ver como aquilo acaba, seja como for, ele é quem deveria ter falado em primeiro lugar, se o secretário decidiu passar-lhe à frente, bom proveito lhes faça, já vimos que o tipo pertence à espécie dos vivaços, respeitasse ele a hierarquia como nós a respeitamos e teria simplesmente transmitido a ideia ao seu superior. O presidente soltou o suspiro que se lhe havia entalado no peito, meteu o telefone no bolso e perguntou, Então, souberam alguma coisa. A pergunta, além de escusada, era, como diremos, um poucochinho desleal, em primeiro lugar porque saber, aquilo a que se chama saber, sempre alguma coisa se sabe, mesmo quando não sirva para nada, em segundo lugar porque era óbvio que o perguntante se estava a aproveitar da autoridade inerente ao cargo para eludir a sua obrigação, que seria inaugurar ele, em voz e pessoa, o intercâmbio de informações. Se ainda não nos esquecemos daquele suspiro e do ímpeto exigente que em certa altura da conversa nos pareceu notar nas suas palavras, lógico será pensar que o diálogo, supõe-se que do outro lado estaria uma pessoa de família, não foi tão plácido e instrutivo quanto o seu justificado interesse de cidadão e de presidente merecia, e que, sem serenidade para lançar-se a improvisos mal amanhados, se furta agora à dificuldade convidando os subordinados a expressar-se, o que, como também sabemos, é outra maneira, mais moderna, de ser chefe. O que disseram os membros da mesa e os delegados dos partidos, tirando o do p.d.e., que, falto de informações próprias, estava ali para ouvir, foi, ou que aos familiares não lhes apetecia nada apanhar uma molha e esperavam que o céu se resolvesse a escampar para animar a votação popular, ou então, como a mulher do secretário, pensavam vir votar durante o período da tarde. O vogal da porta era o único que se mostrava contente, via-se-lhe na cara a expressão complacente de quem tem motivos para orgulhar-se dos seus méritos, o que, ao ter de traduzir-se em palavras, veio a dar nisto, Da minha casa ninguém respondeu, só pode querer dizer que já vêm aí a caminho. O presidente foi sentar-se no seu lugar e a espera recomeçou.

Foi quase uma hora depois que entrou o primeiro eleitor. Contra a expectativa geral e desalento do vogal da porta, era um desconhecido. Deixou o guarda-chuva a escorrer à entrada da sala e, coberto por uma capa de plástico rebrilhante de água, calçando botas também de plástico, avançou para a mesa. O presidente levantara-se com um sorriso nos lábios, este eleitor, homem de idade avançada, mas ainda robusto, vinha anunciar o regresso à normalidade, à habitual fila de cumpridores cidadãos avançando lentamente, sem impaciência, conscientes, como havia dito o delegado do p.d.d., da transcendente importância destas eleições municipais. O homem entregou o bilhete de identidade e o cartão de eleitor ao presidente, este anunciou com voz vibrante, quase feliz, o número do cartão e o nome do seu possuidor, os vogais encarregados da descarga folhearam os cadernos de recenseamento, repetiram, quando os encontraram, nome e número, marcaram o sinal de visto, depois, sempre pingando água, o homem dirigiu-se à câmara de voto com o boletim, daí a pouco voltou com o papel dobrado em quatro, entregou-o ao presidente, que o introduziu com ar solene na urna, recebeu os documentos e retirou-se, levando o guarda-chuva. O segundo eleitor tardou dez minutos a aparecer, mas, a partir dele, se bem que a conta-gotas, sem entusiasmo, como folhas outonais desprendendo-se lentamente dos ramos, os boletins de voto foram caindo na urna. Por mais que o presidente e os vogais retardassem as operações de escrutínio, a fila não chegava a formar-se, havia, quando muito, três ou quatro pessoas a esperar a sua vez, e de três ou quatro pessoas nunca se fará, por muito que elas se esforcem, uma fila digna desse nome. Razão tinha eu, observou o delegado do p.d.m., a abstenção será terrível, maciça, depois disto ninguém se vai entender, a única solução está na repetição das eleições, Pode ser que o temporal remita, disse o presidente, e, olhando o relógio, murmurou como se rezasse, É quase meio-dia. Resoluto, aquele a quem temos dado o nome de vogal da porta levantou-se, Se o senhor presidente me dá licença, agora que não temos ninguém a votar, vou ver como está o tempo. Não tardou mais que um instante, foi no pé esquerdo e voltou no pé direito, novamente feliz, anunciando a boa notícia, Chove muito menos, quase nada, e já começam a ver-se claros no céu. Pouco faltou para que os membros da mesa e os delegados dos partidos se juntassem num abraço, mas a alegria foi de curta duração. O monótono gotejo de eleitores não se alterou, vinha um, vinha outro, vieram a esposa, a mãe e uma tia do vogal da porta, veio o irmão mais velho do delegado do p.d.d., veio a sogra do presidente, a qual, faltando ao respeito que se deve a um acto eleitoral, informou o abatido genro de que a filha só apareceria lá para o fim da tarde, Disse que estava a pensar em ir ao cinema, acrescentou cruelmente, vieram os pais do presidente suplente, vieram outros que não pertenciam a estas famílias, entravam indiferentes, saíam indiferentes, o ambiente só se animou um pouco quando apareceram dois políticos do p.d.d., e, minutos depois, um do p.d.m., como por encanto uma câmara de televisão saída do nada tomou imagens e voltou para o nada, um jornalista pediu licença para uma pergunta, Como está a decorrer a votação, e o presidente respondeu, Podia estar melhor, mas, agora que o tempo parece ter começado a mudar, estamos certos de que a afluência de eleitores aumentará, A impressão que temos recolhido em outras assembleias eleitorais da cidade é de que a abstenção vai ser muito alta desta vez, observou o jornalista, Prefiro ver as coisas com optimismo, ter uma visão positiva da influência da meteorologia no funcionamento dos mecanismos eleitorais, bastará que não chova durante a tarde para que consigamos recuperar o que o temporal desta manhã tentou roubar-nos. O jornalista saiu satisfeito, a frase era bonita, poderia dar, pelo menos, um subtítulo de reportagem. E, porque havia chegado a hora de dar satisfação ao estômago, os membros da mesa e os delegados dos partidos organizaram-se por turnos para, com um olho posto nos cadernos de recenseamento e outro na sanduíche, comerem ali mesmo.

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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Carros | Veículos: Corolla da Toyota é líder entre os sedãs médios

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Carros | Veículos: Corolla da Toyota é líder entre os sedãs médios

A linha Corolla da Toyota lidera o ranking nacional de automóveis na categoria sedã médio. Os atrativos que garantiram ao veículo a primeira colocação entre os demais concorrentes foram os equipamentos de série disponibilizados ao consumidor, entre eles: airbag duplo, computador de bordo, retrovisores, trava e vidros elétricos, direção assistida e aparato de multimídia formado pelo tocador de CDs com reprodutor MP3. A linha mais luxuosa do carro, a SE-G, traz de série bancos de couro, faróis de xenon e sensores de estacionamento, além do motor 1.8 VVTi de quatro cilindros e 16 válvulas.

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Planeta é fotografado além do Sistema Solar

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Planeta é fotografado além do Sistema Solar

Pela primeira vez após anos de busca um planeta orbitando uma estrela fora do nosso sistema solar foi fotografado pelas lentes especiais do telescópio Gemini North, do observatório Gemini, situado no Havaí. A descoberta foi feita pelos cientistas David Lafrenière, Ray Jayawardhana e Marten H. van Kerkwijk, da Universidade de Toronto (Canadá).

1RXS J160929.1-210524

O objeto que ainda não foi oficialmente classificado como planeta está a cerca de 500 anos-luz do nosso Planeta Terra, ou seja, é necessário viajar durante 500 anos a velocidade de 300.000 km/s (quilômetros por segundo) para cobrir tal distância.

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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Samsung lança o celular Samsung TouchWiz F480

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Samsung lança o celular Samsung TouchWiz F480

A empresa Samsung apresentou o Celular Samsung TouchWiz F480, aparelho de tamanho próximo ao de um cartão de crédito, com tela sensível ao toque (“touch screen”). Com apenas um toque é possível acessar as diversas funções do telefone, o que facilita a experiência do usuário.

O Samsung TouchWiz F480 é equipado com rádio FM, memória interna que pode ser ampliada até 4GB, conexões Bluetooth e USB. O aparelho vem também com câmera digital integrada de 5MP com funções como:

  • Face Detection (reconhece melhor o rosto na foto, mesmo que tirada em movimento)
  • Smile Shot (tira a foto quando a pessoa enquadrada sorri)
  • Estabilizador de imagem
O Celular Samsung F480 tem 12,9 mm de espessura, design metálico e vem com capa de proteção feita de couro.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Trecho do Livro: Eles Continuam Entre Nós | Zibia Gasparetto

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Trecho do Livro: Eles Continuam Entre Nós | Zibia Gasparetto

Livros Eles Continuam Entre Nos Zibia Gasparetto BooksLivro: Eles Continuam Entre Nós

Sônia Crocco nos conta um grande acontecimento presenciado por mais quatro pessoas muito ligadas a ela. Erenita, sua prima, filha de Helena, sem religião definida; Fátima, amiga de Erenita, espírita; Marivalda, católica, vizinha e companheira de fé de Helena, ambas participantes do coral dos Carismáticos da Igreja Nossa Senhora Aparecida, na Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo e Delmita, sua mãe, cunhada de Helena, espírita.

Sua tia, Helena Crocco Mantovani, católica, irmã de seu pai, desencarnou em 8 de maio de 1995.

Helena era uma pessoa boa, alegre e gostava muito de cantar. Quando se reuniam, lá estava ela a brincar com todos. Quando a família se encontrava, ela puxava o coro entre os presentes e a festa começava.

Era muito querida por todos, sempre alegre, com boa vontade e pronta a ajudar quem precisasse, inclusive colaborou na criação da sobrinha Sônia.

Uma fatalidade aconteceu e na mesma semana em que sua filha Erenita ia se casar ela teve um problema de coração. Sônia ficou na esperança de que a tia iria superá-lo; mas infelizmente recebeu a notícia do seu desencarne.

Sônia a amava muito, mas quando chegou ao velório, em vez de tristeza, sentiu grande alegria. Em seu coração havia apenas um grande amor pela tia e uma vontade muito grande de agradecer tudo o que ela havia feito. Sentia grande alegria, tudo era maravilhoso e a tristeza de uma breve separação não tinha nenhum sentido para ela. Estava feliz, muito feliz, pelo carinho que sentia por Helena.

Sua mãe, que tanto estimava a cunhada, também não estava chorando. O ambiente era sereno e calmo.

Eram muitas as pessoas presentes. Um pouco antes de o enterro sair, companheiros de fé religiosa de Helena compareceram para lhe fazer uma homenagem. Entre eles estava a amiga Marivalda.

O coral dos Carismáticos começou a cantar. Sônia e a mãe estavam sentadas uma ao lado da outra. Fátima e Erenita estavam do outro lado. Marivalda e o coral cantavam em volta do corpo. Foi aí que começou a emoção maior. Dentre todas as vozes do coral, uma se destacou, límpida e forte. Era a voz de Helena, cantando como sempre fizera com os amigos.

Ao ouvi-la cantar, Sônia chorou de emoção; percebeu que sua mãe também chorava, mas não disse nada. A canção terminou e o enterro foi realizado. Uma vez em casa, passadas algumas horas, Sônia ligou para a mãe para saber como ela estava. Então o comentário saiu. Ela também tinha ouvido a voz de Helena.

Naquele dia, Delmita foi até a casa da falecida para saber se todos estavam bem. Encontrou Marivalda, Erenita e Fátima conversando. Não perdeu a oportunidade e perguntou:

- Quem no coral tem a voz parecida com a de Helena?

- Por quê? - indagou uma delas.

- Curiosidade.

- Ninguém tinha a voz igual a dela.

- É que eu e a Sônia ouvimos perfeitamente a voz de Helena cantando com o coral.

As três confessaram que também tinham ouvido. Todas chegaram à conclusão de que Helena queria que todos guardassem uma lembrança alegre dela, assim resolveram que ninguém ficaria triste com sua partida. Mas em seus ouvidos guardariam para sempre a lembrança da sua última canção como a dizer que a morte não é o fim, que a vida continua mais além, cheia de alegria e luz.

Poucas pessoas sabem que ser espiritual é cultivar a alegria. Imaginam que os espíritos superiores sejam circunspectos, sérios. Isso não é verdade.

A alegria é o tônico do espírito. Cantar faz bem à alma, harmoniza o espírito, liga-nos com as forças positivas da natureza.

Foi por tudo isso que ela estava lúcida e acordada no próprio velório, fato não muito comum por causa dos nossos medos e dos preconceitos.

A morte é natural e quando o espírito a aceita sem dramatizar pode ficar acordado como Helena. Ela manteve alegria, mesmo tendo de se separar do marido, da filha, dos parentes e amigos.

Não perdeu tempo dramatizando uma situação inexorável, da qual não podia voltar atrás. Aceitou com alegria. Cantou na hora da despedida. Fez com que seus parentes não sofressem nem lamentassem sua partida.

Como ela conseguiu cantar mesmo depois de morta? Usando as energias dos presentes. Os espíritos podem conseguir efeitos físicos por meio do ectoplasma. Uma substância que eles manipulam extraindo energias próprias dos que são médiuns e misturando-as a alguns elementos astrais.

Acredito que ela não tivesse conhecimento técnico para fazer isso, mas algum amigo espiritual a ajudou, criando os elementos necessários para que esse fenômeno de voz direta ocorresse. Esse fato acontece em sessões de efeitos físicos. A voz se manifesta sem o auxílio direto do médium e todos a ouvem. Foi o que aconteceu com Helena.

Mas desencarnar assim, com essa alegria e naturalidade, é um bom exemplo para nos ensinar a lidar de maneira harmoniosa e adequada com a morte dos entes queridos.

É o que a vida quer nos ensinar, permitindo que essas manifestações ocorram.

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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Trecho do Livro: Anjos e Demônios | Dan Brown

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Trecho do Livro: Anjos e Demônios | Dan Brown

Livros Anjos e Demonios Dan Brown Angels and Demons BooksLivro: Anjos e Demônios

Obs: O filme Anjos e Demônios, baseado no livro de Dan Brown, já está sendo filmado. O protagonista Robert Langdon será estrelado por Tom Hanks, e a data prevista de estréia nos Estados Unidos é dia 15 de Maio de 2009.

FATO

O maior estabelecimento de pesquisa científica do mundo - Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN) -, na Suíça, recentemente conseguiu produzir as primeiras partículas de antimatéria. A antimatéria é idêntica à matéria física, exceto por ser composta de partículas cujas descargas elétricas são inversas àquelas encontradas na matéria normal.

A antimatéria é a mais poderosa fonte de energia conhecida pelo homem. Libera energia com 100 por cento de eficiência (a fissão nuclear é 1,5 por cento eficiente). A antimatéria não é poluente nem radioativa, e bastaria uma gota para abastecer a cidade de Nova York de energia por um dia inteiro.

Há, porém, uma ressalva...

A antimatéria é extremamente instável. Incendeia-se ao entrar em contato com qualquer coisa, inclusive o ar. Um único grama de antimatéria contém energia igual à de uma bomba nuclear de 20 quilotons - o tamanho da bomba que caiu sobre Hiroshima.

Até bem recentemente, a antimatéria tinha sido criada apenas em quantidades bem reduzidas (alguns átomos por vez). Agora, porém, o CERN começou a trabalhar com o novo desacelerador de antiprótons - um avançado aparelho que promete criar antimatéria em quantidades maiores.

Resta uma pergunta: será que essa substância tão volátil vai salvar o mundo ou será usada para gerar a mais mortífera arma de todos os tempos?

NOTA DO AUTOR

Todas as referências a obras de arte, a arquitetura, a túneis e a tumbas em Roma são inteiramente factuais (assim como suas localizações exatas). Essas obras e monumentos ainda podem ser vistos hoje.

A fraternidade dos Illuminati também é factual.

Prólogo

O físico Leonardo Vetra sentiu cheiro de carne queimada e sabia que era a sua. Levantou os olhos, aterrorizado, para a figura sombria que o dominava.

- O que você quer?

- La chiave - respondeu a voz rascante. - A senha.

- Mas eu não…

O intruso curvou-se de novo para a frente, pressionando com mais força o objeto em brasa no peito de Vetra. Ouviu-se um chiado de carne grelhando.

Vetra gritou alto, agoniado.

- Não existe senha nenhuma! - E sentiu que mergulhava na inconsciência.

O rosto do homem encheu-se de uma fúria contida.

- Ne avevo paura. Era o que eu temia.

Vetra esforçou-se para manter os sentidos, mas a escuridão envolvia-o pouco a pouco. Seu único consolo era saber que o agressor jamais obteria o que viera buscar. Um momento mais tarde, porém, o homem fez aparecer uma lâmina e ergueu-a diante do rosto de Vetra. A lâmina adejou no ar. Precisa. Cirúrgica.

- Pelo amor de Deus! - gritou Vetra.

Mas era tarde demais.

***

Do alto da pirâmide de Gizé, a jovem riu e voltou-se para ele, lá embaixo, chamando-o.

- Ande, Robert! Devia ter me casado com um homem mais moço! - O sorriso dela era mágico.

Ele tentou acompanhá-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra.

- Espere - pediu. - Por favor...

Enquanto subia, sua vista começou a turvar-se. Seus ouvidos latejavam. Preciso alcançá-la! Mas, quando olhou de novo para cima, a mulher desaparecera. Em seu lugar havia um velho de dentes estragados. O homem encarou-o, os lábios torcendo-se em uma careta melancólica. E ele deixou escapar um grito de angústia que ressoou pelo deserto.

Robert Langdon acordou sobressaltado do pesadelo. O telefone ao lado de sua cama estava tocando. Tonto, levou-o ao ouvido.

- Alô?

- Gostaria de falar com Robert Langdon - disse uma voz masculina.

Langdon sentou-se na cama e tentou clarear sua mente.

- Aqui... é Robert Langdon - e apertou os olhos para o mostrador do relógio digital. Eram 5h18 da madrugada.

- Preciso encontrá-lo imediatamente.

- Quem está falando?

- Meu nome é Maximilian Kohler. Sou um físico de Partículas Discretas.

- Um o quê? - Langdon mal conseguia se concentrar. - Tem certeza de que procurou o Langdon certo?

- O senhor é professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. Escreveu três livros sobre simbologia e...

- Sabe que horas são?

- Peço desculpas. Há uma coisa que precisa ver. Não posso explicar pelo telefone.

Um resmungo conformado escapou dos lábios de Langdon. Aquilo já acontecera antes. Um dos perigos de se escrever livros sobre simbologia religiosa era o chamado de fanáticos querendo que ele confirmasse o último sinal que haviam recebido de Deus. No mês anterior, uma stri*pper de Oklahoma prometera a Langdon a melhor sessão de se*xo de sua vida se ele pegasse um avião até a cidade dela para verificar a autenticidade de uma figura cruciforme que aparecera magicamente nos lençóis de sua cama. O sudário de Tulsa, como Langdon a chamara.

- Como conseguiu o número do meu telefone? - Langdon tentou ser amável, apesar da hora.

- Na Internet. No site do seu livro.

Langdon franziu a testa. Tinha certeza de que o número do telefone de sua casa não constava do site de seu livro. O homem obviamente estava mentindo.

- Preciso vê-lo - a voz do outro lado insistiu. - Vou pagar bem.

Agora Langdon estava ficando furioso.

- Sinto muito, mas eu...

- Se sair agora, pode estar aqui por volta de...

- Não vou a lugar nenhum! São cinco horas da manhã!

Langdon desligou e caiu de volta na cama. Fechou os olhos e tentou adormecer novamente. Não adiantou. O sonho estava entranhado em sua mente. Relutante, vestiu um roupão e desceu.

Robert Langdon perambulou descalço por sua casa deserta, uma construção vitoriana em Massachusetts, segurando seu remédio habitual contra a insônia: uma caneca de chocolate instantâneo fumegante. O luar de abril filtrava-se pelas janelas da sacada e formava desenhos nos tapetes orientais. Os colegas de Langdon sempre brincavam que o lugar parecia mais um museu de antropologia do que uma casa. As prateleiras estavam cheias de artefatos religiosos de todo o mundo - um akuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um ídolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornéu, o símbolo da perpétua juventude de um jovem guerreiro.

Sentado em uma arca de latão maharishi e saboreando o chocolate quente, deu com o seu reflexo nas vidraças das janelas. A imagem estava distorcida e pálida... como a de um fantasma. Um fantasma envelhecido, pensou, sendo cruelmente lembrado de que o seu espírito da mocidade vivia dentro de um invólucro mortal.

Apesar de não ser propriamente bonito no sentido clássico, Langdon, com seus quarenta e cinco anos, possuía o que as colegas do se*xo feminino classificavam de um encanto "erudito" - mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitário. Membro da equipe de mergulho da faculdade, Langdon ainda tinha um corpo de nadador, um metro e oitenta de boa forma, que ele mantinha cuidadosamente com 2.500 metros diários de exercício na piscina da universidade.

Seus amigos sempre o viram como uma espécie de enigma - um homem que pertencia a séculos diferentes. Nos fins de semana, viam-no andando pelo pátio da universidade vestido de jeans e conversando sobre computação gráfica e história religiosa com os alunos; outras vezes, aparecia com seu paletó de tweed e colete paisley nas páginas de importantes revistas de arte em aberturas de exposições de museus para as quais era convidado a dar palestras.

Mesmo sendo um professor rigoroso e muito severo quanto à disciplina, Langdon era o primeiro a acolher o que chamava de "a arte perdida de uma boa brincadeira". Apreciava os momentos de divertimento com um fanatismo contagiante, o que lhe valera uma aceitação fraternal entre seus alunos. Seu apelido no campus, "Golfinho", era uma referência tanto à sua natureza afável quanto à sua lendária capacidade de mergulhar em uma piscina e confundir a estratégia de toda a equipe adversária em um jogo de pólo aquático.

Enquanto estava ali, sozinho, olhando distraído para a escuridão, o silêncio da casa foi quebrado novamente, dessa vez pelo toque da máquina de fax. Exausto demais para se incomodar, Langdon forçou uma risadinha cansada.

O povo de Deus, pensou. Dois mil anos de espera pelo Messias e eles ainda são de uma persistência infernal.

Entediado, deixou a caneca vazia na cozinha e foi andando devagar para seu escritório revestido de painéis de carvalho. O fax recém-chegado estava na bandeja da máquina. Suspirando, pegou a folha de papel e olhou para ela.

No mesmo instante foi tomado por uma onda de náusea.

A imagem na página era a de um cadáver humano. O corpo fora despido e a cabeça fora torcida, virada completamente para trás. No peito da vítima havia uma terrível queimadura. O homem fora marcado a fogo com uma única palavra. Uma palavra que Langdon conhecia bem, muito bem. Ele olhou fixamente, incrédulo, para as letras desenhadas.

- Illuminati - ele gaguejou, o coração batendo forte. - Não pode ser...

Lentamente, temendo o que estava para presenciar, Langdon girou o papel 180 graus. Olhou para a palavra de cabeça para baixo.

E quase perdeu o fôlego. Era como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Mal acreditando em seus olhos, virou a folha de novo, lendo a palavra nas duas posições.

- Illuminati - murmurou.

Aturdido, deixou-se cair em uma cadeira. Ficou ali por um momento, totalmente desnorteado. Aos poucos, sua atenção voltou-se para a luz vermelha que piscava na máquina. Quem mandara o fax ainda estava na linha... esperando para falar. Langdon contemplou durante longo tempo o ponto luminoso piscando.

Depois, trêmulo, levantou o fone.

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Trecho do Livro: Lisboa - O Que o Turista Deve Ver | Fernando Pessoa

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Trecho do Livro: Lisboa - O Que o Turista Deve Ver | Fernando Pessoa

Livros Lisboa O Que o Turista Deve Ver Fernando Pessoa Lisbon What the Tourist Should See BooksLivro: Lisboa - O Que o Turista Deve Ver

Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem disfrutar magníficos panoramas, espalha-se a vasta, irregular e multicolorida massa de casas que constitui Lisboa.

Para o viajante que chega por mar, Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como uma bela visão de sonho, sobressaindo contra o azul vivo do céu, que o sol anima. E as cúpulas, os monumentos, o velho castelo elevam-se acima da massa das casas, como arautos distantes deste delicioso lugar, desta abençoada região.

O espanto do turista começa quando o barco se aproxima da barra e, depois de passar o farol do Bugio — a pequena torre - guardiã na embocadura do rio, construída há três séculos sobre planta de Frei João Turriano — lhe aparece o baluarte que é a Torre de Belém, como um exemplar magnífico da arquitectura militar do século XVI, em estilo romano-gótico-mourisco. À medida que o barco avança, o rio torna-se mais estreito, para logo alargar de novo, formando um dos mais largos portos naturais do mundo, podendo nele ancorar as maiores frotas. Então, à esquerda, as massas de casas agrupam-se vivamente como cachos sobre as colinas. E aí temos Lisboa.

Desembarcar é fácil e relativamente rápido; costuma fazer-se num ponto da margem onde abundam os meios de transporte. Um trem, um automóvel ou então um simples eléctrico conduzirá o estrangeiro em poucos minutos ao centro da cidade. Ao desembarcar, tudo lhe é facilitado e, quanto a funcionários, descobre que os há invariavelmente educados e prontos a darem-lhe todas as indicações que possa pedir, quer se dirija aos funcionários da Alfândega ou aos do porto, ou mesmo à Guarda Fiscal.

No exterior da Alfândega há um pequeno posto de controle que vem mesmo a propósito, pois controla o transporte de bagagens, para prevenir os abusos que, sem isso, seriam inevitáveis onde quer que fosse, em tais circunstâncias. Este posto despacha bagagem para qualquer parte da cidade e assume a responsabilidade pela entrega. Os funcionários são competentíssimos e falam várias línguas.

Convidaremos agora o turista a vir connosco. Servir-lhe-emos de cicerone e percorreremos com ele a capital, mostrando-lhe os monumentos, os jardins, os edifícios mais notáveis, os museus — tudo o que for de algum modo digno de ser visto nesta maravilhosa Lisboa. Depois de a sua bagagem ter sido confiada a um bagageiro de confiança, que a entregará no hotel se o turista ficar por algum tempo, deixemo-lo tomar o seu lugar conosco num automóvel e seguir para o centro da cidade. Pelo caminho mostrar-lhe-emos tudo o que merece ser visto.

Mesmo em frente do cais que lhe fica ali à esquerda é a Rocha de Conde de Óbidos, uma elevação coroada por um bem tratado jardim a que se acede por duas largas escadas de pedra; do cimo desse mesmo jardim tem-se uma bela vista sobre o rio. Seguindo ao longo da Rua 24 de Julho, passamos pelo Jardim de Santos (ou Jardim Vasco da Gama) e logo a seguir pelo Jardim da Praça de Dom Luís, onde está a estátua de bronze de um dos heróicos chefes das lutas liberais, o Marquês de Sá da Bandeira; este monumento, esculpido por Giovanni Ciniselli, foi fundido em Roma, e a base feita em Lisboa por Germano José de Salles, tendo sido erigido em 1881.

Um pouco mais adiante, e depois de passar o belo edifício onde estão instalados os serviços da Assistência Nacional aos Tuberculosos, fundados pela Rainha D. Amélia, permitam-nos mencionar esta praça que se estende ao longo do rio; à esquerda fica o monumento ao Duque da Terceira, que libertou Lisboa do governo absolutista, e à direita uma pequena mas interessante estátua de mármore representando um marinheiro ao leme. Este monumento deve-se ao escultor Francisco dos Santos, e o do Duque ao escultor Simões de Almeida. Ali perto situa-se a estação de caminho de ferro provisória da linha de Cascais, e à beira-rio o cais para os pequenos vapores que cruzam o Tejo. Há também aqui uma praça de automóveis de aluguel.

O nosso automóvel vai andando, percorre a Rua do Arsenal, e passa junto à Câmara Municipal, um dos mais belos edificios da cidade. É notável não só pelo seu exterior como também pelo seu interior e deve-se ao arquitecto Domingos Parente, sendo visível a colaboração de famosos artistas, na cantaria, nas pinturas, etc. A monumental escadaria que conduz ao primeiro andar é digna de ser vista, especialmente no que se refere às magníficas pinturas que decoram as paredes e o tecto; e as várias salas do edifício são também nobremente decoradas com frescos e telas de Sequeira, Columbano, José Rodrigues, Neves Júnior, Malhoa, Salgado etc., representando figuras históricas e outras, havendo uma grande pintura de Lupi figurando o Marquês de Pombal e a reconstrução de Lisboa por ele efectuada depois do grande terremoto, assim como bustos dos melhores escultores, fogões artísticos, mobiliário, etc.

No meio do largo poderemos ver o Pelourinho, muito bem conhecido no estrangeiro; é uma obra-prima do século XVIII, com a forma de uma espiral, feita de um único bloco de pedra. Do lado direito deste largo, veremos, ao passar, o Arsenal da Marinha, um vasto edifício englobando, além do arsenal e das oficinas — que, com a doca, estão do lado do rio e portanto invisíveis para nós —, a Escola Naval, fundada em 1845, e o Tribunal da Relação, em cujas salas podem ser admirados alguns belos exemplares de antiga tapeçaria. Estão também instalados neste edifício outros serviços públicos de menor importância. Mais adiante, numa ala diferente do edifício, dando para o lado da Câmara, estão os Serviços de Correios e Telégrafos, ainda que só a entrada para a Posta Restante fique desse lado.

Chegamos agora à maior das praças de Lisboa, a Praça do Comércio, outrora Terreiro do Paço, como é ainda geralmente conhecida; esta é a praça que os ingleses conhecem por Praça do Cavalo Negro e é uma das maiores do mundo. É um vasto espaço, perfeitamente quadrado, contornado, em três dos seus lados, por edifícios de tipo uniforme, com altas arcadas de pedra.

Os principais serviços públicos estão todos aqui instalados — os Ministérios (excepto o dos Negócios Estrangeiros), os Serviços de Correios e Telégrafos, a Alfândega, a Procuradoria-Geral da República, o Serviço de Emigração, o Tribunal Administrativo, os serviços centrais da Cruz Vermelha etc. O quarto lado, ou lado Sul, da praça é bordejado pelo Tejo, muito largo neste sítio e sempre cheio de embarcações. No centro da praça fica a estátua equestre de bronze do Rei D. José I, uma esplêndida escultura de Joaquim Machado de Castro, fundida em Portugal, de uma só peça, em 1774. Tem catorze metros de altura. O pedestal é adornado com magníficas figuras representando a reconstrução de Lisboa depois do grande terremoto de 1755. Há uma figura segurando um cavalo que esmaga o inimigo sob as patas, outra com as insígnias da Vitória, a Fama num outro grupo; e o conjunto é verdadeiramente notável. Além disso, podemos aí ver as Armas Reais e o retrato do Marquês de Pombal, assim como uma alegoria que representa a Generosidade Real levantando Lisboa das ruínas. O monumento, acessível por degraus de mármore, é circundado por altas grades alternando com colunas.

Do lado Norte da praça, perpendiculares ao rio, há três avenidas paralelas; a do meio parte de um magnífico arco triunfal de grandes dimensões, indubitavelmente um dos maiores da Europa. É datado de 1873 mas foi projectado por Veríssimo José da Costa e começado a construir em 1755. O grupo alegórico que coroa o arco, esculpido por Calmels, personifica a Glória coroando o Génio e o Valor; as figuras reclinadas, que representam os rios Tejo e Douro, assim como as estátuas de Nuno Álvares, Viriato, Pombal e Vasco da Gama, são da autoria do escultor Vítor Bastos.

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Filme: Os Mosconautas no Mundo da Lua | Trailer

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Filme: Os Mosconautas no Mundo da Lua | Trailer

Os Mosconautas no Mundo da Lua (Fly Me To The Moon), filme dirigido por Ben Stassen, estrelado por Tim Curry, Robert Patrick, Kelly Ripa, Buzz Aldrin (astronauta da missão Apollo 11) e Christopher Lloyd. Estréia no Brasil prevista para o dia 10 de Outubro de 2008.

Os Mosconautas no Mundo da Lua | Trailer



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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Setembro 14, 2008

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Setembro 14, 2008

O Estado de São Paulo

Livros O VENDEDOR DE SONHOS Augusto Cury Books

Ficção

01. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

02. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

03. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

04. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak

05. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
José Saramago

06. O MUNDO É BÁRBARO
Luis Fernando Verissimo . leia um trecho do livro

07. O VENCEDOR ESTÁ SÓ
Paulo Coelho . leia um trecho do livro

08. CREPÚSCULO
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

09. DOKI DESCOBRE
Fabiane Ariello

10. A SOMBRA DO VENTO
Carlos Ruiz Zafón . leia um trecho do livro


Livros ELES CONTINUAM ENTRE NOS Zibia Gasparetto Books

Não-Ficção

01. ELES CONTINUAM ENTRE NÓS
Zibia Gasparetto

02. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

03. 1808
Laurentino Gomes . leia um trecho do livro

04. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

05. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

06. O SEGREDO
Rhonda Byrne

07. CASAIS INTELIGENTES ENRIQUECEM JUNTOS
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

08. INVESTIMENTOS INTELIGENTES
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

09. OS SEGREDOS DA MENTE MILIONÁRIA
T. Harv Eker . leia um trecho do livro

10. A SOMA DOS DIAS
Isabel Allende . leia um trecho do livro

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sábado, 13 de setembro de 2008

Concurso do Senado Federal oferece salário de R$ 13.879,95

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Concurso do Senado Federal oferece salário de R$ 13.879,95

As inscrições para o concurso público do Senado Federal estarão abertas a partir do dia 15 de Setembro, com encerramento no dia 10 de Outubro.

São vários cargos, entre eles os de Advogado do Senado Federal e Consultor de Orçamentos, cujo salário inicial é de 13.879,95.

Os interessados devem visitar o seguinte site para ler o manual do candidato:

concurso.fgv.br/senado08/ 

Há vagas destinadas tanto para os que concluíram o ensino médio, quanto para os formados no ensino superior.



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Trecho do Livro: O Jogo do Anjo | Carlos Ruiz Zafón

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Trecho do Livro: O Jogo do Anjo | Carlos Ruiz Zafón

Livros O Jogo do Anjo Carlos Ruiz Zafon El Juego del Angel BooksLivro: O Jogo do Anjo

Naquela época, a rua Nou de la Rambla exibia um corredor de lampiões e cartazes luminosos que cruzava a escuridão do Raval. Cabarés, salões de baile e locais de difícil denominação acotovelavam-se em ambas as calçadas com casas especializadas em males venéreos e lavagens, que ficavam abertas até o amanhecer, enquanto gente de toda laia, desde filhinhos de papai de certa posição até membros das tripulações dos navios atracados no porto, misturava-se com todo tipo de personagens extravagantes que viviam para a noite. Dos dois lados da rua, abriam-se vielas estreitas, sufocadas pela névoa, que abrigavam um rosário de prostíbulos com preços decrescentes.

El Ensueño ocupava o andar superior de um edifício que, no primeiro andar, hospedava uma sala de music hall, onde dois grandes cartazes anunciavam o show de uma bailarina enfiada numa fantasia diáfana e sucinta que não fazia segredo de seus encantos, sustentando nos braços uma serpente negra, cuja língua bifurcada parecia beijar seus lábios.

Eva Montenegro e o tango da morte — rezava o cartaz em letras de forma. — A rainha da noite em seis apresentações exclusivas e improrrogáveis. Com a participação estelar de Mesmero, o leitor de mentes que revelará seus mais íntimos segredos.

Junto à entrada havia uma portinha estreita que dava para uma longa escadaria com as paredes pintadas de vermelho. Subi as escadas e dei de cara com uma grande porta de carvalho lavrado, cuja aldrava tinha a forma de uma ninfa forjada em bronze, com um modesto trevo sobre o pú*bis. Bati um par de vezes e esperei, fugindo de meu reflexo no grande espelho escuro que cobria boa parte da parede. Estava considerando a possibilidade de escapar dali, quando a porta se abriu e uma mulher de meia-idade e cabelos completamente brancos, delicadamente presos num coque, sorriu para mim serenamente.

— Você deve ser o sr. David Martín.

Ninguém nunca tinha me chamado de senhor em toda a minha vida e a formalidade me pegou de surpresa.

— Ele mesmo.

— Faça a gentileza de entrar e me acompanhar.

Seguimos por um breve corredor que conduzia a uma ampla sala circular de paredes revestidas de veludo e lâmpadas à meia-luz. O teto formava uma cúpula de cristal esmaltado, da qual pendia um lustre, também de cristal, sob o qual uma mesa de mogno sustentava um enorme gramofone que sussurrava uma ária de ópera.

— Posso lhe oferecer algo para beber, cavalheiro?

— Agradeceria um copo d’água, se fosse possível.

A dama do cabelo branco sorriu sem pestanejar, imperturbável em seu porte amável e sereno.

— Talvez lhe pareça melhor uma taça de champanhe ou um licor. Ou quem sabe um xerez.

Meu paladar não distinguia nem as diferenças entre as várias safras da água de torneira, de modo que dei de ombros.

— Pode escolher.

A dama concordou sem perder o sorriso e apontou para uma das suntuosas poltronas espalhadas pela sala.

— Se o cavalheiro quiser sentar, Chloé estará aqui em segundos.

Pensei que fosse engasgar.

— Chloé?

Alheia à minha perplexidade, a dama do cabelo branco desapareceu por uma porta atrás de uma cortina de contas negras, deixando-me a sós com meus nervos e meus inconfessáveis desejos. Perambulei pela sala para dissipar a tremedeira que tomava conta de mim. À exceção da música suave e da batida de meu coração nas têmporas, aquele lugar era uma tumba. Seis corredores partiam da sala, franqueados por aberturas cobertas por cortinados azuis, que conduziam a seis portas brancas de folha dupla fechadas. Deslizei para uma das poltronas, concebida para balançar o tra*seiro de príncipes regentes e generalíssimos com uma certa queda por golpes de Estado. Logo a dama de branco regressou com uma taça de champanhe numa bandeja de prata. Aceitei e ela desapareceu de novo pela mesma porta. Bebi a taça de um só gole e afrouxei o colarinho da camisa. Começava a suspeitar que talvez tudo aquilo não passasse de peça montada por Vidal para se divertir às minhas custas. Naquele momento vislumbrei uma figura que avançava em minha direção por um dos corredores. Parecia uma menina, e era. Caminhava com a cabeça baixa, sem que eu pudesse ver seus olhos. Levantei.

A menina inclinou-se numa reverência e fez sinal para que a seguisse. Só então percebi que uma de suas mãos era postiça, como a de um manequim. Levou-me até o final do corredor e, com uma chave que usava pendurada no pescoço, abriu a porta e me deu passagem. Avancei alguns passos, tentando forçar a vista. Ouvi a porta se fechar atrás de mim e, quando me virei, a menina tinha desaparecido. Ouvi o mecanismo da fechadura girar e entendi que estava trancado. Fiquei ali quase um minuto, imóvel. Lentamente, meus olhos se acostumaram à penumbra e o contorno do aposento se materializou a meu redor. O quarto tinha sido coberto do chão ao teto com um tecido negro. De um lado, adivinhava-se uma série de estranhos artefatos que nunca tinha visto e que não fui capaz de decidir se eram sinistros ou tentadores. Um amplo leito circular repousava sob uma cabeceira que parecia uma grande teia de aranha. Da teia, pendiam dois candelabros, nos quais ardiam dois círios negros, desprendendo aquele cheiro de cera que costuma impregnar capelas e velórios. Ao lado da cama havia um biombo de treliça e desenho sinuoso. Senti um calafrio. Aquele lugar era idêntico ao quarto que eu tinha criado para minha inefável vampira Chloé em suas aventuras de Os Mistérios de Barcelona. Algo naquela história cheirava mal. Já estava disposto a arrombar a porta quando percebi que não estava sozinho. Parei, gelado. Uma silhueta se perfilava atrás do biombo. Dois olhos brilhantes me observavam e pude ver dedos brancos e afilados ornados por longas unhas negras surgirem entre os orifícios da treliça. Engoli em seco.

— Chloé? — murmurei.

Era ela, a minha Chloé. A operística e insuperável femme fatale de meus contos em carne e lingerie. Tinha a pele mais pálida que jamais tinha visto, e o cabelo negro e brilhante, cortado em ângulo reto, emoldurava seu rosto. Seus lábios estavam pintados com algo que parecia sangue fresco, e círculos esfumaçados de sombra escura rodeavam seus olhos verdes. Movia-se como um felino, como se aquele corpo apertado num corselete de escamas reluzentes fosse de água e tivesse aprendido a enganar a gravidade. Em sua garganta esguia e interminável enrolava-se uma fita de veludo escarlate, da qual pendia um crucifixo invertido. Incapaz de respirar, vi que se aproximava lentamente, meus olhos grudados naquelas pernas desenhadas com traço impossível, sob meias de seda que provavelmente custavam mais do que eu ganhava em um ano, apoiadas em sapatos pontiagudos como punhais, presos a seus tornozelos por fitas de seda. Em toda a minha vida nunca tinha visto nada mais belo, nem que me desse tanto medo.

Deixei-me levar por aquela criatura até a cama, onde caí, literalmente, de bu*nda. A luz das velas acariciava o perfil de seu corpo. Meu rosto e meus lábios estavam na altura de seu ventre e, sem nem perceber o que estava fazendo, dei-lhe um beijo sob o umbigo e acariciei sua pele com as maçãs do rosto. Nessa altura, já tinha esquecido quem era e onde estava. Ela se ajoelhou diante de mim e pegou minha mão direita. Languidamente, como um gato, lambeu meus dedos um a um. Depois, olhou-me fixamente e começou a tirar minha roupa. Quando quis ajudá-la, sorriu e afastou minhas mãos.

— Shhhh.

Quando terminou, inclinou-se para mim e lambeu meus lábios.

— Agora você. Dispa-me. Devagar. Bem devagar.

Soube então que tinha sobrevivido à minha infância enfermiça e lamentável apenas para viver aqueles segundos. Vagarosamente, eu a des*pi, descobrindo sua pele até que, sobre seu corpo, restou apenas a fita de veludo em torno da garganta e aquelas meias negras de cuja lembrança um infeliz como eu poderia viver cem anos.

— Acaricie-me — sussurrou a meu ouvido. — Brinque comigo.

Acariciei e beijei cada centímetro de pele como se quisesse memorizá-lo para toda a vida. Chloé não tinha pressa e respondia ao toque de minhas mãos e meus lábios com suaves gemidos que me guiavam. Em seguida, estendeu-me na cama, cobriu meu corpo com o seu, e senti que todos os poros de minha pele queimavam. Pousei as mãos em suas costas e percorri a linha milagrosa que marcava sua coluna. Seu olhar impenetrável me observava a apenas alguns centímetros do meu rosto. Senti que precisava lhe dizer algo...

— Meu nome...

— Shhhh.

Antes que pudesse dizer mais alguma bobagem, Chloé pousou seus lábios sobre os meus e, pelo espaço de uma hora, me fez esquecer o mundo. Consciente de minha inabilidade, mas sem deixar que eu percebesse, Chloé antecipava cada um de meus movimentos e guiava minhas mãos por seu corpo sem pressa nem pudor. Não havia enfado nem ausência em seus olhos. Deixava-se levar e saborear com infinita paciência e uma ternura que me fez esquecer como tinha chegado ali. Naquela noite, pelo breve espaço de uma hora, aprendi cada linha de seu corpo como outros aprendem preces ou condenações. Mais tarde, quase sem fôlego, Chloé me deixou apoiar a cabeça em seu colo e acariciou meu cabelo durante um longo silêncio, até que adormeci em seus braços, com as mãos entre suas coxas.

Quando despertei, o quarto permanecia na penumbra e Chloé tinha desaparecido. Sua pele já não estava em minhas mãos. Em seu lugar, havia um cartão de visita impresso no mesmo pergaminho branco do envelope que trouxe o convite, no qual, sob o emblema do anjo, lia-se o seguinte:

ANDREAS CORELLI
Editor
Éditions de la Lumière
Boulevard Saint-Germain, 69, Paris

No verso havia uma anotação escrita à mão.

Querido David, a vida é feita de grandes esperanças. Quando estiver pronto para transformar as suas em realidade, entre em contato comigo. Estarei esperando. Seu amigo e leitor,
A.C.

Peguei minha roupa no chão e me vesti. A porta do quarto já não estava trancada. Percorri o corredor até o salão, onde o gramofone tinha silenciado. Não havia sinal da menina nem da mulher de cabelo branco que tinha me recebido. O silêncio era absoluto. À medida que avançava, tinha a impressão de que as luzes às minhas costas iam se apagando e corredores e quartos mergulhavam lentamente na escuridão. Saí para a entrada e desci as escadas de volta ao mundo, sem ânimo. Ao chegar à rua, segui em direção à Rambla, deixando a confusão e a multidão dos locais noturnos para trás. Uma névoa tênue e cálida subia do porto e os reflexos das vidraças do hotel Oriente a tingiam de um amarelo sujo e poeirento no qual os transeuntes sumiam como desenhos de vapor. Comecei a caminhar enquanto o perfume de Chloé começava a evaporar de meu pensamento. Fiquei me perguntando se os lábios de Cristina Sagnier, a filha do motorista de Vidal, teriam o mesmo sabor.

A gente não sabe o que é sede até beber pela primeira vez. Três dias depois de minha visita a El Ensueño, a memória da pele de Chloé queimava até meus pensamentos. Sem dizer nada a ninguém — e menos ainda a Vidal —, resolvi juntar minhas parcas economias e ir até lá à noite, na esperança de que fossem suficientes para comprar um instante que fosse em seus braços. Passava de meia-noite quando cheguei à escada de paredes vermelhas que levava a El Ensueño. A luz da escadaria estava apagada e subi lentamente, deixando para trás a ruidosa cidadela de cabarés, bares, music halls e locais indefiníveis que se espalharam pela rua Nou de la Rambla durante os anos da grande guerra na Europa. A luz trêmula que se filtrava pela porta de entrada ia desenhando os degraus à minha passagem. Chegando ao patamar, parei e comecei a tatear a porta em busca da aldrava. Meus dedos roçaram no pesado batedor de metal e, ao levantá-lo, a porta cedeu alguns centímetros e vi que estava aberta. Empurrei suavemente. Um silêncio absoluto acariciou meu rosto. Diante de mim, abria-se uma penumbra azulada. Dei alguns passos, desconcertado. O eco das luzes da rua piscava no ar, revelando visões fugazes das paredes nuas e do chão de madeira todo quebrado. Cheguei à sala que tinha visto forrada de veludo e com mobiliário suntuoso. Estava vazia. O manto de poeira que cobria o chão brilhava como areia sob os reflexos dos luminosos da rua. Avancei deixando um rastro na poeira. Não havia sinal do gramofone, das poltronas, nem dos quadros. O teto estava arrebentado e entreviam-se vigas de madeira escurecida. A pintura das paredes pendia em tiras como peles de serpente. Fui para o corredor que levava ao quarto onde tinha encontrado Chloé. Atravessei aquele túnel escuro até chegar à porta de folha dupla, que já não era branca. Não havia maçaneta, apenas um buraco na madeira, como se ela tivesse sido arrancada. Abri a porta e entrei.

O quarto de Chloé era uma cela escura. As paredes estavam carbonizadas e a maior parte do teto tinha desmoronado. Podia ver o lençol de nuvens negras que cruzavam o céu e a lua, que projetava sua luz prateada sobre o esqueleto metálico do que tinha sido um leito. Foi então que ouvi o chão estalar às minhas costas e virei rapidamente, compreendendo que não estava sozinho naquele lugar. Uma silhueta escura e afilada, masculina, recortava-se na entrada do corredor. Não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que estava me observando. Permaneceu ali, imóvel como uma aranha durante alguns segundos, o tempo que levei para reagir e dar um passo em sua direção. Num piscar de olhos, a silhueta retirou-se para as sombras e quando cheguei ao salão não havia mais ninguém. Um sopro de luz procedente de um cartaz luminoso suspenso do outro lado da rua inundou a sala por um segundo, revelando um pequeno monte de escombros empilhados contra a parede. Aproximei-me e ajoelhei diante dos restos carcomidos pelo fogo. Algo se destacava na pilha. Dedos. Comecei a retirar as cinzas e o contorno de uma mão aflorou lentamente. Peguei-a e, ao puxá-la, vi que estava cortada na altura do punho. Reconheci imediatamente a mão daquela menina e compreendi que não era de madeira como pensei, mas de porcelana. Deixei a mão cair de novo sobre os escombros e afastei-me de lá.

Duvidei se não teria imaginado aquela silhueta, pois não havia pegadas na poeira. Desci para a rua de novo e fiquei na calçada ao pé do edifício, examinando as janelas do primeiro andar, completamente confuso. As pessoas passavam a meu lado rindo, alheias à minha presença. Tentei reconhecer a silhueta do desconhecido na multidão. Sabia que estava ali, talvez a uns poucos metros, observando-me. De repente, resolvi atravessar a rua e entrar num café acanhado e abarrotado de gente. Consegui abrir espaço no balcão e fiz sinal para o garçom.

— O que deseja?

Tinha a boca seca e arenosa.

— Uma cerveja — improvisei.

Enquanto o garçom me servia a bebida, inclinei-me em sua direção.

— Ouça, sabe se o local aí da frente, El Ensueño, está fechado?

O garçom deixou o copo no balcão e olhou-me como se eu fosse idiota.

— Está fechado há 15 anos — disse.

— Tem certeza?

— Claro. Não voltou a abrir depois do incêndio. Mais alguma coisa?

Neguei.

— São quatro cêntimos.

Paguei a consumação e fui embora sem nem tocar no copo.

No dia seguinte, cheguei à redação do jornal antes da minha hora e fui direto para os arquivos do sótão. Com a ajuda de Matías, o encarregado, e guiando-me pelo que o garçom tinha me contado, comecei a consultar as manchetes de La Voz de la Industria de 15 anos atrás. Precisei de cerca de quarenta minutos para achar a história, apenas uma nota. O incêndio tinha acontecido durante a madrugada do dia de Corpus Christi, em 1903. Seis pessoas tinham morrido presas entre as chamas: um cliente, quatro profissionais do local e uma menina que trabalhava lá. A polícia e os bombeiros tinham apontado um acidente com um candeeiro como causa da tragédia, embora os responsáveis por uma paróquia vizinha falassem em castigo divino e intervenção do Espírito Santo. Ao voltar à pensão, deitei em minha cama e tentei inutilmente conciliar o sono. Tirei do bolso o cartão daquele estranho benfeitor, encontrado em minhas mãos quando acordei no leito de Chloé, e reli na penumbra as palavras escritas no verso: “Grandes esperanças.”

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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Letra e Vídeo: Metallica | "The Day That Never Comes" | Song Lyrics

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Letra e Vídeo: Metallica | "The Day That Never Comes" | Song Lyrics

Metallica Death Magnetic
The Day That Never Comes
Disco CD: Death Magnetic (Brasil | World)
Metallica

Born to push you around
You better just stay down
You pull away
He hits the flesh
You hit the ground
Mouths so full of lies
Tend to black your eyes
Just keep them closed
Keep praying
Just keep waiting

Waiting for the one
The day that never comes
When you stand up and feel the warmth
but the sunshine never comes, no
No, the sunshine never comes

Push you cross that line
Just stay down this time
Hide in yourself
Crawl in yourself
You'll have your time
God I'll make them pay
Take it back one day
I'll end this day
I'll splatter color on this grave

Waiting for the one
The day that never comes
When you stand up and feel the warmth
but the sunshine never comes

Love is a four letter word
And never spoken here
Love is a four letter word
Here in this prison

I suffer this no longer
I put it into
This I swear!
This I swear!
The sun will shine
This I swear!
This I swear!
This I swear!

Assista ao videoclipe | Watch the video clip

Metallica | The Day That Never Comes



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Trecho do Livro: A Guerra do Fim do Mundo | Mario Vargas Llosa

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Trecho do Livro: A Guerra do Fim do Mundo | Mario Vargas Llosa

Livros A Guerra do Fim do Mundo Mario Vargas Llosa The War of the End of the World BooksLivro: A Guerra do Fim do Mundo

Eu não teria escrito este romance sem Euclides da Cunha, cujo livro Os Sertões me revelou, em 1972, a guerra de Canudos, um personagem trágico e um dos maiores narradores latino-americanos. Desde o roteiro cinematográfico que foi seu embrião (e que nunca foi filmado) até que, oito anos mais tarde, terminei de escrevê-lo, este romance me fez viver uma das aventuras literárias mais ricas e exaltantes, em bibliotecas de Londres e de Washington, em arquivos empoeirados do Rio de Janeiro e de Salvador, e em percursos escaldantes pelos sertões da Bahia e de Sergipe. Acompanhado pelo meu amigo Renato Ferraz, peregrinei por todas as vilas onde, segundo a lenda, o Conselheiro pregou, e nelas ouvi os moradores discutindo ardorosamente sobre Canudos, como se os canhões ainda trovejassem no reduto rebelde e o Apocalipse pudesse acontecer a qualquer momento naqueles desertos salpicados de árvores sem folhas, cheias de espinhos. As raposas vinham ao nosso encontro nas calçadas e também topávamos pelo caminho com homens de roupa de couro, santarrões e cômicos ambulantes que recitavam romances medievais. Onde era Canudos havia agora um lago artificial, e suas margens estavam coalhadas de cartuchos e projéteis enferrujados das atrozes batalhas.

Inúmeros baianos me deram uma mão enquanto eu trabalhava neste romance; entre eles, além de Renato, seria indigno não mencionar pelo menos três: Antonio Celestino, José de Calazans e Jorge Amado.

Comecei a escrevê-lo em 1977, num apartamentinho do Churchill College, em Cambridge, e terminei no final de 1980, numa torreta histórica de Washington DC — onde estava graças ao Wilson Center —, em torno da qual voavam falcões e de cujas varandas Abraham Lincoln discursou para os soldados da União que combateram na batalha de Manassas.

Mario Vargas Llosa


Antonio Conselheiro
Antônio Conselheiro