Crepúsculo (Twilight) | Papel de Parede | Wallpaper
Papel de parede do livro e do filme Crepúsculo (Twilight), dois grandes sucessos de venda da autora Stephenie Meyer. Você também pode conferir o primeiro capítulo dos três primeiros livros da série: Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse (que será lançado no Brasil no dia 16/01/2009).
Veronika Decide Morrer (Veronika Decides to Die), filme baseado no livro de grande sucesso internacional Veronika Decide Morrer, do autor brasileiro Paulo Coelho, dirigido por Emily Young e estrelado por Sarah Michelle Gellar, Jonathan Tucker, David Thewlis, Melissa Leo, Erika Christensen e Florencia Lozano. Estréia nos cinemas brasileiros prevista para o dia 11 de Maio de 2009.
Com gelo no coração, eu o vi se preparar para me defender. Sua intensa concentração não demonstrava sinal algum de dúvida, embora eles estivessem em maior número. Eu sabia que não podíamos esperar qualquer ajuda — naquele momento, era certo que a família dele lutava pela própria vida assim como ele lutava pela nossa.
Será que um dia eu saberia o resultado desse outro combate? Descobriria quem haviam sido os vencedores e os perdedores? Eu viveria tempo suficiente para isso?
As probabilidades não eram muito boas.
Olhos negros, selvagens com o desejo feroz por minha morte, esperavam o momento em que meu protetor estivesse distraído. O momento em que eu certamente morreria.
Em algum lugar, longe, muito longe na floresta fria, um lobo uivou.
1. ULTIMATO
Bella,
Não sei por que você está fazendo Charlie levar bilhetes ao Billy como se estivéssemos na segunda série, se eu quisesse falar com você teria atendido o
Foi você quem escolheu, tá legal? Não pode ter as duas coisas quando
Que parte de “inimigos mortais” é complicada demais para você
Olha, sei que estou sendo um imbecil, mas não há como
Não podemos ser amigos quando você fica o tempo todo com um bando de
As coisas só ficam piores quando eu penso demais em você, então não escreva mais
Sim, eu sinto sua falta também. Muito. Isso não muda nada. Desculpe.
Jacob
Passei os dedos pela folha de papel, sentindo as marcas onde ele pressionara tanto a caneta que quase a rasgou. Eu podia imaginá-lo escrevendo isso — rabiscando as letras furiosas com sua caligrafia tosca, riscando linha após linha quando as palavras saíam erradas, talvez até quebrando a caneta com sua mão grande demais; isso explicaria as manchas de tinta. Eu podia imaginar a frustração unindo suas sobrancelhas pretas e enrugando sua testa. Se eu estivesse lá, poderia até rir. Não tenha um derrame cerebral por isso, Jacob, eu teria dito a ele. É só colocar para fora.
Rir era a última coisa que eu queria fazer agora, ao reler as palavras que eu já memorizara. Sua resposta a meu pedido — passado de Charlie a Billy e depois a ele exatamente como na segunda série, conforme ele observara — não era surpresa. Eu sabia a essência do que ele ia dizer antes de abrir o papel.
Surpreendente era o quanto cada linha riscada me feria — como se as pontas das letras tivessem bordas afiadas. Mais do que isso, por trás de cada começo irritado pairava um enorme poço de mágoa; a dor de Jacob me cortava mais fundo do que a minha própria.
Enquanto pensava nisso, senti o aroma inconfundível de queimado subindo da cozinha. Em outra casa, o fato de uma pessoa que não fosse eu estar cozinhando não devia ser motivo de pânico.
Enfiei o papel amarrotado no bolso de trás e corri. Desci a escada num átimo.
O vidro de molho de espaguete que Charlie colocara no microondas só estava em sua primeira volta quando abri a porta e o tirei de lá.
— O que foi que eu fiz de errado? — Charlie perguntou.
— Você devia ter tirado a tampa primeiro, pai. Não pode colocar metal no microondas. — Retirei rapidamente a tampa enquanto falava, despejei metade do molho numa tigela e a coloquei dentro do microondas e o vidro de volta à geladeira; determinei o tempo e apertei o botão “Ligar”.
Charlie observava meus ajustes com os lábios franzidos.
— Fiz o macarrão direito?
Olhei a panela no fogão — a origem do cheiro que me alertara.
— É bom mexer — eu disse com doçura. Peguei uma colher e tentei desfazer a papa grudenta que queimava no fundo.
Charlie suspirou.
— Mas o que significa isso tudo? — perguntei.
Ele cruzou os braços e olhou pela vidraça dos fundos a chuva que caía forte.
— Não sei do que você está falando — grunhiu ele.
Fiquei pasma. Charlie cozinhando? E por que aquela atitude ríspida?
Edward ainda não havia chegado; em geral, meu pai reservava esse tipo de comportamento para meu namorado, fazendo o máximo para exemplificar o assunto “incômodo” em cada palavra e gesto. Os esforços de Charlie eram desnecessários — Edward sabia exatamente o que meu pai estava pensando sem que ele demonstrasse.
A palavra namorado foi revirada por dentro da bochecha com uma tensão familiar enquanto eu mexia a panela. Não era a palavra certa, definitivamente. Eu precisava de alguma que expressasse melhor o compromisso eterno... Mas palavras como destino e sina pareciam piegas quando usadas numa conversa comum.
Edward tinha outra palavra em mente, que era a origem da tensão que eu sentia. Eu tinha arrepios só de pensar nela.
Noiva. Argh. Dei de ombros para me livrar da idéia.
— Perdi alguma coisa? Desde quando você faz o jantar? — perguntei a Charlie. O bolo de massa borbulhou na água fervente enquanto eu a cutucava. — Ou tenta fazer o jantar, melhor dizendo.
Charlie deu de ombros.
— Não há nenhuma lei que me proíba de cozinhar em minha própria casa.
— Você saberia disso — respondi, sorrindo ao olhar o distintivo alfinetado em sua jaqueta de couro.
— Rá. Essa é boa.
Ele tirou a jaqueta, como se meu olhar o lembrasse de que ainda a estava vestindo, e a pendurou no gancho reservado para suas roupas. O cinto com a arma já estava no lugar — ele não sentia a necessidade de usá-la na delegacia havia algumas semanas. Não tinha havido mais desaparecimentos perturbadores para transtornar a cidadezinha de Forks, em Washington, ninguém mais vira lobos gigantescos e misteriosos nos bosques sempre chuvosos...
Eu mexia o macarrão em silêncio, imaginando que em seu próprio tempo Charlie acabaria por falar sobre o que o incomodava. Meu pai não era um homem de muitas palavras, e o esforço dispensado tentando preparar um jantar para nós dois deixava claro que havia um número incomum de palavras em sua mente.
Olhei o relógio, por hábito, algo que eu sempre fazia mais ou menos nesse horário. Agora faltava menos de meia hora.
As tardes eram a parte mais difícil de meu dia. Desde que meu ex-melhor amigo (e lobisomem) Jacob Black me dedurara sobre a moto que eu pilotara escondido — uma traição que ele concebera a fim de me deixar de castigo para que eu não pudesse ficar com meu namorado (e vampiro) Edward Cullen —, Edward tinha permissão para me ver só das sete às nove e meia da noite, sempre no recesso do meu lar e sob a supervisão do olhar infalivelmente rabugento de meu pai.
Isso era uma evolução do castigo anterior e menos restritivo que eu recebera por um desaparecimento inexplicado de três dias e um episódio de mergulho de penhasco.
É claro que eu ainda via Edward na escola, porque não havia nada que Charlie pudesse fazer a respeito disso. E, também, Edward passava quase todas as noites em meu quarto, mas Charlie não sabia. A capacidade de Edward de escalar facilmente e em silêncio até minha janela no segundo andar era quase tão útil quanto sua habilidade de ler a mente de Charlie.
Embora eu ficasse longe de Edward só na parte da tarde, era o suficiente para me deixar inquieta, e as horas sempre se arrastavam. Ainda assim, suportava minha punição sem reclamar porque — primeiro — eu sabia que merecia e — segundo — porque eu não podia suportar magoar meu pai saindo de casa agora, quando pairava uma separação muito mais permanente, invisível para Charlie, tão próxima em meu horizonte.
Meu pai se sentou à mesa com um grunhido e abriu o jornal úmido que estava ali; segundos depois, estava estalando a língua de reprovação.
— Não sei por que lê o jornal, pai. Isso só o aborrece.
Ele me ignorou, resmungando para o jornal nas mãos.
— É por isso que todo mundo quer morar numa cidade pequena! Ridículo.
— O que as cidades grandes fizeram de errado agora?
— Seattle está se tornando a capital de homicídios do país. Cinco assassinatos sem solução nas últimas duas semanas. Dá para imaginar viver assim?
— Acho que Phoenix tem uma taxa de homicídios mais alta, pai. Eu vivi assim. — E nunca estive prestes a ser uma vítima de assassinato antes de me mudar para esta cidadezinha segura. Na verdade, eu ainda estava em várias estatísticas de risco... A colher tremeu em minhas mãos, agitando a água.
— Bom, você não tem como me cobrar por isso — disse Charlie.
Eu desisti de salvar o jantar e preparei-me para servi-lo; tive de usar uma faca de carne para cortar uma porção de espaguete para Charlie e depois para mim, enquanto ele observava com uma expressão encabulada. Charlie cobriu sua porção com molho e comeu. Eu disfarcei meu próprio pedaço ao máximo que pude e segui seu exemplo sem muito entusiasmo. Comemos em silêncio por um momento. Charlie ainda olhava as notícias, então peguei meu exemplar muito surrado de O morro dos ventos uivantes de onde deixara naquela manhã e tentei me perder na Inglaterra da virada do século enquanto esperava que ele começasse a falar.
Eu estava na parte em que Heathcliff volta quando Charlie deu um pigarro e atirou o jornal no chão.
— Você tem razão — disse Charlie. — Eu tinha um motivo para fazer isso. — Ele agitou o garfo para a gororoba. — Queria conversar com você.
Deixei o livro de lado.
— Podia simplesmente ter falado.
Ele assentiu, as sobrancelhas se unindo.
— É. Vou me lembrar disso da próxima vez. Pensei que tirar o jantar de suas mãos amoleceria você.
Eu ri.
— Funcionou... Suas habilidades culinárias me deixaram mole feito marshmallow. Do que você precisa, pai?
— Bom, é sobre Jacob.
Senti meu rosto enrijecer.
— O que tem ele? — perguntei por entre os lábios rígidos.
— Calma, Bells. Sei que ainda está chateada por ele ter delatado você, mas foi a atitude certa. Ele estava sendo responsável.
— Responsável — repeti com sarcasmo, revirando os olhos. — Muito bem, então, o que tem Jacob?
A pergunta despreocupada que se repetiu em minha cabeça era tudo, menos banal. O quem tem Jacob? O que eu ia fazer com ele? Meu ex-melhor amigo que agora era... o quê? Meu inimigo? Eu me encolhi.
A expressão de Charlie de repente era de preocupação.
— Não fique chateada comigo, está bem?
— Chateada?
— Bom, é sobre Edward também.
Meus olhos se estreitaram.
A voz de Charlie ficou mais ríspida.
— Eu o deixo entrar aqui em casa, não é?
— Deixa mesmo — admiti. — Por períodos curtos de tempo. É claro que você também podia me deixar sair de casa por períodos curtos de vez em quando — continuei, só de brincadeira; eu sabia que ficaria trancafiada aqui por todo o ano letivo. — Tenho sido muito boazinha ultimamente.
— Bom, era aí que eu ia chegar... — E, então, o rosto de Charlie se esticou num sorriso inesperado que fez rugas nos olhos; por um segundo ele parecia vinte anos mais novo.
Eu vi um brilho fraco de possibilidade naquele sorriso, mas continuei, devagar.
— Estou confusa, pai. Está falando de Jacob, de Edward ou de meu castigo?
O sorriso faiscou de novo.
— Mais ou menos dos três.
— E qual é a relação entre eles? — perguntei, cautelosa.
— Tudo bem. — Ele suspirou, erguendo as mãos como se estivesse se rendendo. — Estou pensando que talvez você mereça uma condicional por bom comportamento. Para uma adolescente, você reclama muito pouco. Minha voz e as sobrancelhas se ergueram.
— É sério? Estou livre?
De onde vinha isso? Eu tinha certeza de que ficaria em prisão domiciliar até que realmente me mudasse, e Edward não captara nenhuma oscilação nos pensamentos de Charlie...
Charlie ergueu um dedo.
— Sob uma condição.
O entusiasmo desapareceu.
— Ótimo — suspirei.
— Bella, isto é mais um pedido do que uma ordem, está bem? Você está livre. Mas espero que vá usar a liberdade... com critério.
— O que isso quer dizer?
Ele suspirou de novo.
— Sei que está satisfeita por ficar o tempo todo com Edward...
— Também fico com Alice — interrompi. A irmã de Edward não tinha hora de visita; entrava e saía quando bem entendia. Charlie era massa de modelar nas mãos eficientes de Alice.
— Isso é verdade — disse ele. — Mas você tem outros amigos além dos Cullen, Bella. Ou tinha, antigamente.
Nós nos olhamos por um longo momento.
— Quando foi a última vez que você falou com Angela Weber? — atirou ele para cima de mim.
— Na sexta-feira, no almoço — respondi de imediato.
Antes da volta de Edward, meus amigos da escola se polarizaram em dois grupos. Eu preferia pensar neles como os bons e os maus. Nós e eles também funcionava. Os bons eram Angela, o namorado firme dela, Ben Cheney, e Mike Newton; estes três me perdoaram de modo generoso por ter enlouquecido quando Edward foi embora. Lauren Mallory era o núcleo mau do lado deles, e quase todos os outros, inclusive minha primeira amiga em Forks, Jessica Stanley, pareciam satisfeitos em continuar no programa anti-Bella.
Com Edward de volta à escola, a linha divisória ficara ainda mais distinta. A volta de Edward cobrara seu tributo sobre a amizade de Mike, mas Angela era inabalavelmente fiel, e Ben seguia seu exemplo. Apesar da aversão natural que sentiam pelos Cullen, Angela se sentava por educação ao lado de Alice todo dia no almoço. Depois de algumas semanas, Angela até parecia à vontade ali. Era difícil não se encantar com os Cullen — depois que eles lhe dessem a chance de ficar encantado.
— Fora da escola? — perguntou Charlie, recuperando minha atenção.
— Eu não vejo ninguém fora da escola, pai. De castigo, lembra? E Angela tem namorado também. Ela sempre está com o Ben. Se eu fosse mesmo livre — acrescentei, cheia de ceticismo —, talvez pudéssemos sair juntos.
— Tudo bem. Mas então... — ele hesitou. — Você e Jake costumavam ser como unha e carne, e agora...
Eu o interrompi.
— Pode dizer aonde quer chegar, pai? Qual é sua condição... exatamente?
— Não acho que você deva abandonar todos os seus outros amigos por causa de seu namorado, Bella — disse ele numa voz severa. — Não é bom, e acho que sua vida será mais equilibrada se você tiver outras pessoas nela. O que aconteceu em setembro...
Eu me encolhi.
— Bom — disse ele, na defensiva. — Se você tivesse uma vida à parte de Edward Cullen, poderia não ter sido daquele jeito.
— Teria sido exatamente igual — murmurei.
— Talvez sim, talvez não.
— E então? — lembrei a ele.
— Use sua nova liberdade para ver seus outros amigos também. Tenha equilíbrio.
Assenti devagar.
— Equilíbrio é bom. Mas tenho algumas quotas específicas para cumprir?
Ele fez uma careta, mas sacudiu a cabeça.
— Não quero dificultar nada. Só não se esqueça de seus amigos...
Era um dilema com o qual ainda estava lutando. Meus amigos. Para a própria segurança deles, gente que jamais poderia ver de novo depois da formatura.
Então qual é o melhor modo de agir? Passar tempo com eles enquanto podia? Ou começar a separação agora para torná-la mais gradual? Desanimei diante da idéia da segunda opção.
— ... em particular, Jacob — acrescentou Charlie, antes que eu pudesse pensar melhor.
Um dilema maior que o primeiro. Levei um momento para encontrar as palavras certas.
— Com Jacob pode ser... complicado.
— Os Black são praticamente da família, Bella — disse ele, severo e paternal de novo. — E Jacob foi um amigo muito, muito bom para você.
— Sei disso.
— Você não sente falta dele? — perguntou Charlie, frustrado.
Minha garganta de repente parecia inchada; tive de pigarrear duas vezes para responder.
— Sim, sinto falta dele — admiti, ainda olhando para baixo. — Sinto muita saudade dele.
— Então, por que é difícil?
Não era uma questão que eu tivesse liberdade para explicar. Contrariava as regras para pessoas normais — pessoas humanas, como eu e Charlie — saber do mundo clandestino cheio de mitos e de monstros que existia em segredo em volta de nós. Eu sabia desse mundo — e, como conseqüência, os problemas não eram poucos. Eu não ia envolver Charlie nas mesmas confusões.
— Com Jacob existe um... conflito — eu disse devagar. — Um conflito sobre a amizade, quero dizer. A amizade nem sempre parece ser suficiente para Jake. — Encobri minha desculpa com os detalhes que eram verdadeiros porém insignificantes, em nada cruciais quando comparados ao fato de que o bando de lobisomens de Jake tinha um ódio cruel da família de vampiros de Edward — e, portanto, a mim também, porque eu pretendia me unir de modo pleno a essa família. Não era um assunto que eu pudesse resolver com ele num bilhete, e ele não atendia a meus telefonemas. Mas meu plano de lidar com o lobisomem em pessoa, com certeza, não se coadunava com os vampiros.
— Edward não está preparado para uma pequena competição saudável?
— A voz de Charlie agora era sarcástica.
Olhei sombriamente para ele.
— Não existe competição.
— Você está ferindo os sentimentos de Jake, evitando-o desse jeito. Ele prefere ser amigo a nada.
Ah, agora eu é que o estava evitando?
— Tenho certeza absoluta de que Jake não quer ser amigo coisa nenhuma.
— As palavras arderam em minha garganta. — Aliás, de onde você tirou essa idéia?
Charlie ficou constrangido.
— O assunto talvez tenha surgido hoje numa conversa com Billy...
— Você e Billy fofocam feito umas velhinhas — reclamei, enfiando a faca com violência no espaguete congelado em meu prato.
— Billy está preocupado com Jacob — disse Charlie. — Jake está passando por dificuldades agora... Está deprimido.
Eu estremeci, mas não tirei os olhos da maçaroca.
— E você sempre ficava muito feliz depois de passar o dia com Jake. — Charlie suspirou.
— Eu estou feliz agora. — Grunhi ferozmente entre os dentes.
O contraste entre minhas palavras e o tom rompeu a tensão. Charlie explodiu numa gargalhada e eu tive de acompanhá-lo.
— Tá legal, tudo bem — concordei. — Equilíbrio.
— E Jacob — insistiu ele.
— Vou tentar.
— Ótimo. Encontre esse equilíbrio, Bella. E, ah, sim, você recebeu correspondência — disse Charlie, encerrando o assunto sem sutileza alguma.
— Está ao lado do fogão.
Não me mexi, meus pensamentos girando confusos em torno do nome de Jacob. Era mais provável que fosse mala-direta; tinha recebido um pacote de minha mãe no dia anterior e não estava esperando mais nada.
Charlie afastou a cadeira da mesa e se espreguiçou quando ficou de pé. Levou o prato dele à pia mas, antes de abrir a água para lavá-lo, parou para atirar um envelope a mim. A carta escorregou pela mesa até meu cotovelo.
— Hã, obrigada — murmurei, confusa pela pressão. Depois vi o endereço do remetente. A carta era da Universidade do Sudeste do Alasca. — Essa foi rápida. Acho que esqueci o prazo desta também.
Charlie riu. Virei o envelope e olhei para ele.
— Está aberta.
— Eu fiquei curioso.
— Estou chocada, xerife. Isso é crime federal.
— Ah, leia isso logo.
Eu saquei a carta e alguns palavrões.
— Meus parabéns — disse ele antes que eu pudesse ler alguma palavra.
— Sua primeira admissão.
— Obrigada, pai.
— Precisamos conversar sobre os custos. Tenho algum dinheiro guardado...
— Ei, ei, nada disso. Não vou tocar na sua aposentadoria, pai. Eu tenho meu fundo universitário. — O que restava dele; nem havia muito no começo.
Charlie franziu o cenho.
— Alguns desses lugares são muito caros, Bella. Quero ajudar. Você não tem que ir para o Alasca só porque é mais barato.
Não era mais barato, não mesmo. Mas ficava bem longe e Juneau tinha uma média de 321 dias nublados por ano. O primeiro pré-requisito era meu, o segundo, de Edward.
— Eu posso pagar. Além disso, tem muito apoio financeiro por lá. É fácil conseguir crédito. — Eu esperava que meu blefe não fosse óbvio demais. Não tinha pesquisado muito sobre o assunto.
— Então... — Charlie começou, depois franziu os lábios e desviou os olhos.
— Então o quê?
— Nada. Eu só estava... — Ele fechou a cara. — Só me perguntava... Quais são os planos de Edward para o ano que vem?
— Ah!
— E então?
Três batidas rápidas na porta me salvaram. Charlie revirou os olhos e eu me levantei num salto.
— Já vou! — gritei enquanto Charlie murmurava alguma frase que parecia “Suma daqui”. Eu o ignorei e fui abrir a porta para Edward.
Eu escancarei a porta — ridiculamente ansiosa — e lá estava ele, meu milagre pessoal.
O tempo não me deixara imune à perfeição de seu rosto, e eu tinha certeza de que nenhum aspecto dele deixaria de me surpreender. Meus olhos acompanharam suas feições pálidas: o quadrado do queixo, a curva suave dos lábios cheios — agora retorcidos num sorriso —, a linha reta do nariz, o ângulo agudo das maçãs do rosto, o mármore macio da testa — parcialmente oculta por uma mecha de cabelo bronze, escuro com a chuva...
Deixei os olhos para o final, sabendo que, quando olhasse dentro deles, talvez perdesse o fio do pensamento. Eles eram grandes, calorosos como de ouro líquido, e emoldurados por uma franja grossa de cílios escuros. Olhar seus olhos sempre fazia com que eu me sentisse extraordinária — como se meus ossos tivessem virado esponja. Eu também ficava um pouco tonta, mas isso devia ser porque eu me esquecia de respirar. De novo.
Era um rosto que qualquer modelo no mundo daria a alma para conseguir. É claro que este podia ser exatamente o preço pedido: uma alma.
Não. Eu não acreditava nisso. Sentia-me culpada até de pensar nisso e estava feliz — como sempre ficava — por ser a única pessoa cujos pensamentos eram um mistério para Edward.
Peguei sua mão e suspirei quando seus dedos frios encontraram os meus. Seu toque vinha com a sensação estranha de alívio — como se eu estivesse com dor e o sofrimento de repente cessasse.
— Oi. — Eu sorri um pouco para minha recepção anticlimática.
Ele ergueu nossos dedos entrelaçados para afagar meu rosto com as costas da mão.
— Como foi sua tarde?
— Lerda.
— A minha também.
Ele puxou meu punho até seu rosto, nossas mãos ainda entrelaçadas. Seus olhos se fecharam à medida que o nariz roçava a pele ali, e ele sorriu delicadamente, sem abri-los. Desfrutando o buquê enquanto resistia ao vinho, como certa vez ele mencionou.
Eu sabia que o cheiro do meu sangue — mais doce para ele do que o sangue de qualquer outro, do mesmo modo que vinho ao lado de água para um alcoólatra — causava-lhe dor pela sede ardente que produzia. Mas ele não parecia fugir dele, como fizera um dia. Eu só podia imaginar o esforço hercúleo por trás desse gesto simples.
Entristecia-me que ele tivesse de se esforçar tanto. Eu me reconfortava por saber que não seria a causa de sua dor por muito mais tempo.
Ouvi Charlie se aproximando então, batendo os pés para expressar seu costumeiro desprazer com nosso convidado. Os olhos de Edward se abriram e ele deixou nossas mãos caírem, mantendo-as entrelaçadas.
— Boa noite, Charlie. — Edward era sempre impecavelmente educado, embora Charlie não merecesse isso.
Charlie grunhiu para ele, depois ficou parado ali, de braços cruzados. Nos últimos tempos levava a idéia de supervisão paterna a extremos.
— Trouxe mais alguns formulários de universidades — disse-me Edward depois, estendendo um envelope pardo estufado. Ele trazia um rolo de selos feito um anel em seu dedo mínimo.
Eu gemi. Como era possível que ainda existissem tantas universidades a que ele ainda não me obrigara a me candidatar? E como ele continuava encontrando essas brechas? O prazo já estava se esgotando.
Ele sorriu como se pudesse ler meus pensamentos; deviam ter ficado muito evidentes em meu rosto.
— Ainda há alguns prazos abertos. E alguns lugares dispostos a abrir exceções.
Eu podia imaginar as motivações por trás dessas exceções. E a quantia em dólares envolvida.
Edward riu da minha expressão.
— Podemos? — perguntou ele, conduzindo-me para a mesa da cozinha.
Charlie bufou e nos seguiu, embora não pudesse se queixar da atividade programada para a noite. Ele me atormentava diariamente para tomar uma decisão sobre a universidade.
Limpei a mesa enquanto Edward organizava uma pilha intimidadora de formulários. Quando passei O morro dos ventos uivantes para a bancada, Edward ergueu uma sobrancelha. Eu sabia o que ele estava pensando, mas Charlie interrompeu antes que Edward pudesse comentar.
— Por falar em formulários de universidades, Edward — disse Charlie, seu tom ainda mais rabugento; ele evitava se dirigir diretamente a Edward e, quando tinha de fazer isso, exagerava no mau humor —, Bella e eu acabamos de conversar sobre o ano que vem. Já decidiu para onde vai?
Edward sorriu para Charlie e sua voz era simpática.
— Ainda não. Recebi algumas cartas de admissão, mas ainda estou pensando em minhas opções.
— Onde você foi admitido? — pressionou Charlie.
— Syracusa... Harvard... Dartmouth... e recebi a carta de admissão da Universidade do Sudeste do Alasca hoje. — Edward virou o rosto um pouco para o lado, de modo que pudesse piscar para mim. Reprimi uma risada.
— Harvard? Dartmouth? — murmurou Charlie, incapaz de esconder a incredulidade. — Bom, isso é bem... é muita coisa. É, mas a Universidade do Alasca... Você não pensaria de verdade nela quando pode ir para uma universidade da Ivy League. Quer dizer, seu pai ia querer que você...
— Carlisle sempre apóia as decisões que eu tomo — disse Edward com serenidade.
— Umpf.
— Adivinha só, Edward? — eu disse numa voz animada, entrando no jogo.
— Que foi, Bella?
Apontei para o envelope grosso na bancada.
— Acabo de receber minha admissão na Universidade do Alasca!
— Meus parabéns! — Ele sorriu. — Que coincidência.
Os olhos de Charlie se estreitaram e ele olhou de um para o outro.
— Ótimo — murmurou ele depois de um minuto. — Vou ver o jogo, Bella. Nove e meia.
Este era o comando de partida de sempre.
— Hã, pai? Lembra o que acabamos de conversar sobre minha liberdade...?
Ele suspirou.
— É verdade. Tudo bem, dez e meia. Você ainda tem um toque de recolher nos dias úteis.
— Bella não está mais de castigo? — perguntou Edward.
Embora eu soubesse que ele não estava realmente surpreso, não consegui detectar nenhuma nota falsa na emoção súbita de sua voz.
— Com uma condição — corrigiu Charlie entre os dentes. — O que você tem a ver com isso?
Fiz uma cara bem feia para meu pai, mas ele não viu.
— É só que é bom saber — disse Edward. — Alice anda ansiosa por uma companhia para as compras, e tenho certeza de que Bella adoraria ver algumas luzes da cidade. — Ele sorriu para mim.
Mas Charlie grunhiu.
— Não! — Sua fisionomia ficou roxa.
— Pai! Qual é o problema?
Ele fez um esforço para descerrar os dentes.
— Não quero que você vá a Seattle agora.
— Hein?
— Eu lhe falei da reportagem no jornal... Tem uma espécie de gangue de assassinos solta em Seattle e quero que você fique longe disso, está bem?
Revirei os olhos.
— Pai, há uma probabilidade maior de eu ser atingida por um raio do que um dia eu ir a Seattle...
— Não, está tudo bem, Charlie — disse Edward, interrompendo-me. — Eu não quis dizer Seattle. Estava pensando em Portland. Eu também não deixaria Bella ir a Seattle. É claro que não.
Eu o olhei, incrédula, mas ele estava com o jornal de Charlie nas mãos e lia a primeira página com atenção.
Ele devia estar tentando acalmar meu pai. A idéia de correr perigo até do mais letal dos humanos enquanto eu estivesse com Alice ou com Edward era completamente hilariante.
Funcionou. Charlie olhou para Edward por um segundo mais, depois deu de ombros.
— Ótimo. — Ele foi para a sala de estar, agora meio com pressa; talvez não quisesse perder o aviso.
Esperei até que a tevê estivesse ligada, para que Charlie não conseguisse me ouvir.
— O que... — comecei a perguntar.
— Espere — disse Edward sem tirar os olhos do jornal. Seus olhos continuaram focalizados na página enquanto ele empurrava o primeiro formulário para mim pela mesa. — Você pode aproveitar suas respostas para este. Mesmas perguntas.
Charlie ainda devia estar ouvindo. Eu suspirei e comecei a preencher as informações de sempre: nome, endereço, estado civil... Depois de alguns minutos, olhei para cima, mas Edward agora mirava, pensativo, além da janela. Enquanto inclinava a cabeça para meu trabalho, percebi pela primeira vez o nome da universidade.
Eu bufei e atirei a folha de papel de lado.
— Bella?
— Fala sério, Edward. Dartmouth?
Edward levantou o formulário descartado e o recolocou delicadamente diante de mim.
— Acho que você ia gostar de New Hampshire — disse ele. — Há todo um complemento de cursos noturnos para mim, e as florestas são convenientemente localizadas para um andarilho ávido. Muita vida selvagem. — Ele abriu o sorriso torto a que eu não resistiria.
Respirei fundo.
— Vou deixar que me pague depois, se isso a faz feliz — prometeu ele. — Se quiser, posso lhe cobrar juros.
— Como se eu pudesse entrar sem um suborno enorme. Ou isso faz parte do empréstimo? A ala Cullen da biblioteca? Argh. Por que estamos tendo essa discussão de novo?
— Pode preencher o formulário, por favor, Bella? Não vai doer nada se candidatar.
Meu queixo destravou.
— Quer saber? Não acho que eu vá.
Estendi a mão para a papelada, pretendendo amassá-la numa forma adequada para atirar na lixeira, mas já não estava mais ali. Olhei a mesa vazia por um momento, depois para Edward. Ele não parecia ter se mexido, mas os formulários já deviam estar guardados em seu casaco.
— O que está fazendo? — perguntei.
— Eu assino seu nome melhor do que você mesma. Você já escreveu essas respostas.
— Sabe que está exagerando nisso. — Sussurrei para o caso de Charlie não estar totalmente imerso no jogo. — Não preciso me candidatar a mais lugar nenhum. Fui aceita na Alasca. Quase posso pagar as taxas do primeiro semestre. É um álibi tão bom quanto qualquer outro. Não há necessidade de gastar um monte de dinheiro, qualquer que seja a origem.
Um olhar de dor enrijeceu seu rosto.
— Bella...
— Não comece. Concordo que preciso passar por tudo isso pelo bem de Charlie, mas nós dois sabemos que não estarei em condições de ir a nenhuma universidade no outono que vem. Nem de ficar perto de gente.
Meu conhecimento dos primeiros anos como uma recém-vampira era vago. Edward nunca entrara em detalhes — não era seu assunto preferido —, mas eu sabia que não era agradável. O autocontrole aparentemente era uma habilidade adquirida. Qualquer coisa além de educação à distância estava fora de cogitação.
— Pensei que ainda não tivéssemos decidido o momento — lembrou-me Edward num tom delicado. — Você pode desfrutar de um ou dois semestres de faculdade. Há muitas experiências humanas que você nunca teve.
— Eu as terei depois.
— Elas não serão experiências humanas depois. Não se tem uma segunda chance como humana, Bella.
Suspirei.
— Você precisa ser razoável com a escolha do momento, Edward. É perigoso demais embromar nesse caso.
— Ainda não há perigo — insistiu ele.
Olhei para ele. Não há perigo? Claro. Só havia uma vampira sádica tentando vingar a morte do companheiro com a minha morte, de preferência por um método lento e torturante. Quem estava preocupado com Victoria? Ah, e sim, os Volturi — a família real vampira com seu pequeno exército de guerreiros vampiros —, que insistiram que meu coração parasse de bater de uma ou outra maneira no futuro próximo, porque os humanos não podem saber que eles existem. É verdade. Não havia motivo para todo esse pânico.
Mesmo com Alice mantendo vigilância — Edward dependia de suas visões pouco precisas do futuro para nos dar alertas antecipados — era insanidade correr o risco.
Além disso, eu já ganhara essa discussão. A data de minha transformação estava marcada para algum momento logo depois de minha formatura no ensino médio, dali a algumas semanas.
Um abalo forte de inquietude perfurou meu estômago enquanto eu percebia que me restava pouco tempo. É claro que essa mudança era necessária — e era a chave para o que eu queria mais do que tudo no mundo —, mas eu estava profundamente consciente de Charlie sentado no outro cômodo, desfrutando de seu jogo, como em qualquer outra noite. E de minha mãe, Renée, longe, na ensolarada Flórida, ainda me pedindo para passar o verão na praia com ela e o novo marido. E de Jacob, que, ao contrário de meus pais, sabia exatamente o que ia acontecer quando eu desaparecesse para alguma universidade distante. Mesmo que meus pais não ficassem desconfiados por um bom tempo, mesmo que eu pudesse dispensar as visitas com desculpas sobre despesas de viagem, carga de estudos ou doenças, Jacob saberia da verdade.
Por um momento, a idéia da revolta certa de Jacob ensombreou qualquer outra dor.
— Bella — murmurou Edward, seu rosto se retorcendo quando leu a aflição no meu. — Não há pressa. Não vou deixar ninguém ferir você. Pode levar o tempo que precisar.
— Eu tenho pressa — sussurrei, sorrindo amarelo, tentando fazer piada disso. — Quero ser um monstro também.
Seus dentes trincaram; ele falou através deles.
— Não faz idéia do que está dizendo. — De repente, ele colocou o jornal úmido na mesa entre nós. Seu dedo apontou a manchete na primeira página:
AUMENTAM AS MORTES, POLÍCIA TEME ATIVIDADE DE GANGUE
— O que isso tem a ver?
— Os monstros não são uma piada, Bella.
Olhei a manchete outra vez, depois sua expressão séria.
— Um... um vampiro está fazendo isso? — sussurrei.
Ele sorriu sem humor algum. Sua voz era baixa e fria.
— Ficaria surpresa, Bella, em ver com que freqüência minha espécie é a origem dos horrores de seu noticiário humano. É fácil reconhecer, quando você sabe o que procurar. As informações aqui indicam um vampiro recém transformado à solta em Seattle. Sedento de sangue, louco e descontrolado.Como todos nós somos.
Deixei meus olhos caírem no jornal de novo, evitando os olhos dele.
— Estamos monitorando a situação há algumas semanas. Todos os sinais estão lá... Os desaparecimentos improváveis, sempre à noite, os corpos mal desovados, a ausência de outras provas... Sim, alguém novinho em folha. E ninguém parece estar assumindo a responsabilidade pelo neófito... — Ele respirou fundo. — Bom, não é problema nosso. Não teríamos prestado atenção no caso se não estivesse tão perto de casa. Como eu disse, isso acontece o tempo todo. A existência de monstros resulta em conseqüências monstruosas.
Tentei não ver os nomes nas páginas, mas eles saltaram do texto impresso como se estivessem em negrito. As cinco pessoas cuja vida terminara, cujas famílias agora estavam de luto. Era diferente de considerar o assassinato em nível abstrato, lendo aqueles nomes. Maureen Gardiner, Geoffrey Campbell, Grace Razi, Michelle O’Connell, Ronald Albrook. Pessoas que tinham pais, filhos, amigos, animais de estimação, empregos, esperanças, planos, lembranças e futuros...
— Não seria o mesmo para mim — sussurrei, meio para mim mesma. — Você não deixaria que eu fosse assim. Vamos morar na Antártida.
Edward bufou, rompendo a tensão.
— Pingüins. Que lindo.
Soltei uma risada trêmula e tirei o jornal da mesa para não ter de ver os nomes; ele caiu no linóleo com um baque. É claro que Edward não pensaria nas possibilidades de caça. Ele e sua família “vegetariana” — todos comprometidos em proteger a vida humana — preferiam o sabor de grandes predadores para satisfazer suas necessidades alimentares.
— Alasca, então, como planejamos. Só um lugar muito mais distante de Juneau... Um lugar com muitos ursos.
— Melhor — ele cedeu. — Lá tem urso polar também. Muito feroz. E os lobos são bem grandes.
Minha boca se abriu e minha respiração soprou numa lufada áspera.
— Que foi? — perguntou ele, antes que eu pudesse me recuperar. A confusão desapareceu e todo seu corpo pareceu enrijecer. — Ah! Deixe os lobos para lá, então, se a idéia é ofensiva para você. — Sua voz era dura e formal, os ombros rígidos.
— Ele era meu melhor amigo, Edward — murmurei. Doía usar o verbo no passado. — É claro que a idéia me ofende.
— Por favor, perdoe-me por minha falta de consideração — disse ele, ainda muito formal. — Eu não devia ter sugerido isso.
— Não se preocupe. — Olhei minhas mãos, fechadas em punhos sobre a mesa.
Nós dois ficamos em silêncio por um momento, depois seu dedo frio estava sob meu queixo, erguendo meu rosto. Sua expressão era muito mais suave agora.
— Desculpe. De verdade.
— Eu sei. Sei que não é a mesma coisa. Eu não devia ter reagido assim. É só que... bom, eu já estava pensando em Jacob antes de você chegar. — Hesitei. Seus olhos castanhos pareciam ficar um pouco mais escuros sempre que eu pronunciava o nome de Jacob. Minha voz ficou suplicante em resposta a isso. — Charlie disse que Jake está passando por dificuldades. Ele agora está sofrendo, e... a culpa é minha.
— Você não fez nada de errado, Bella.
Respirei fundo.
— Preciso dar um jeito nisso, Edward. Devo isso a ele. E é uma das condições de Charlie, de qualquer modo...
Seu rosto mudou enquanto eu falava, ficando rígido de novo, como o de uma estátua.
— Sabe que está fora de cogitação você andar desprotegida com um lobisomem, Bella. E seria quebra do pacto se qualquer um de nós entrasse no território deles. Quer que comecemos uma guerra?
— É claro que não!
— Então não tem sentido continuar discutindo a questão. — Ele baixou a mão e virou o rosto, tentando mudar de assunto. Seus olhos pararam em algo atrás de mim e ele sorriu, embora os olhos continuassem preocupados.
— Fico feliz por Charlie ter decidido deixar você sair... Você precisa muitíssimo de uma visita à livraria. Nem acredito que está lendo O Morro dos Ventos Uivantes de novo. Ainda não sabe de cor?
— Nem todos nós temos memória fotográfica — eu disse asperamente.
— Com ou sem memória fotográfica, não entendo por que gosta dele. Os personagens são pessoas medonhas que arruínam a vida umas das outras. Não sei como Heathcliff e Cathy terminaram ao lado de casais como Romeu e Julieta, ou Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy. Não é uma história de amor, é uma história de ódio.
— Você tem problemas sérios com os clássicos — eu disse.
— Talvez porque não fique impressionado com a antiguidade. — Ele sorriu, evidentemente satisfeito por ter me distraído. — Falando sério, por que você sempre lê isso? — Seus olhos agora eram vívidos de interesse, tentando, de novo, revelar o funcionamento convoluto de minha mente. Ele estendeu a mão por sobre a mesa para afagar meu rosto. — O que lhe agrada tanto?
Sua curiosidade sincera me desarmou.
— Não sei bem — eu disse, lutando para ter coerência enquanto seu olhar esfacelava meus pensamentos sem ter essa intenção. — Acho que tem algo a ver com a inevitabilidade. Nada pode separá-los... Nem o egoísmo dela, nem a maldade dele, nem mesmo a morte, no final...
Seu rosto estava pensativo enquanto ele ponderava minhas palavras. Depois de um instante, ele deu um sorriso zombeteiro.
— Ainda acho que seria uma história melhor se um deles tivesse uma qualidade que os redimisse.
— Acho que esta é a questão — discordei. — O amor dos dois é a única qualidade redentora.
— Espero que você tenha mais juízo do que isso... Se apaixonar por alguém tão... maligno.
— É meio tarde para me preocupar com quem se apaixonou por quem — assinalei. — Mas, mesmo sem o aviso, parece que eu me saí muito bem.
Ele riu baixinho.
— Fico feliz que você pense assim.
— Bom, espero que você seja bastante inteligente para ficar longe de alguém tão egoísta. É Catherine a origem de todos os problemas, não Heathcliff.
— Estarei precavido — prometeu ele.
Suspirei. Ele era tão bom nas distrações! Coloquei a mão sobre a dele para mantê-la em meu rosto.
— Preciso ver Jacob.
Ele fechou os olhos.
— Não.
— Sinceramente, não há perigo algum — eu disse, de novo suplicante.
— Eu costumava passar o dia todo em La Push com todos eles, e nunca aconteceu nada.
Mas pisei em falso; minha voz falhou no final porque percebi, enquanto dizia as palavras, que elas eram uma mentira. Não era verdade que nunca havia acontecido nada. Um breve lampejo de memória — um lobo cinza enorme agachado para atacar, arreganhando os dentes de adaga para mim — fez as palmas de minhas mãos suarem como um eco do pânico recordado.
Edward ouviu meu coração se acelerar e assentiu como se eu tivesse reconhecido a mentira em voz alta.
— Os lobisomens são instáveis. Às vezes, as pessoas perto deles se machucam. Às vezes, elas morrem.
Eu queria negar isso, mas outra imagem sufocou minha réplica. Vi em minha mente o rosto antes lindo de Emily Young, agora desfigurado por três cicatrizes escuras que baixavam o canto de seu olho direito e deixavam sua boca presa para sempre numa careta de lado.
Ele esperou, implacavelmente triunfante, que eu encontrasse minha voz.
— Você não os conhece — sussurrei.
— Conheço-os melhor do que você pensa, Bella. Eu estava aqui da última vez.
— Da última vez?
— Nosso caminho começou a se cruzar com o dos lobos há setenta anos... Tínhamos acabado de nos acomodar perto de Hoquiam. Isso foi antes de Alice e Jasper estarem conosco. Nós estávamos em maior número, mas isso não os teria impedido de entrar numa luta, se não fosse por Carlisle. Ele conseguiu convencer Ephraim Black de que era possível coexistirmos, e por fim fizemos uma trégua.
O nome do bisavô de Jacob me sobressaltou.
— Pensamos que os limites tinham desaparecido com Ephraim — murmurou Edward; agora parecia que ele falava consigo mesmo. — Que a singularidade genética que permitia a transmutação tivesse se perdido... — Ele se interrompeu e me fitou de um jeito acusatório. — Sua falta de sorte parece ficar mais poderosa a cada dia. Percebe que sua atração implacável por tudo que é letal é bastante forte para arrancar da extinção um bando de caninos mutantes? Se pudéssemos engarrafar sua sorte, teríamos uma arma de destruição em massa.
Ignorei a provocação, minha atenção presa pelo pressuposto dele — ele falava sério?
— Mas não fui eu que os trouxe de volta. Não sabia?
— Sabia do quê?
— Minha falta de sorte nada tem a ver com isso. Os lobisomens voltaram porque os vampiros voltaram.
Edward me encarou, seu corpo imóvel de surpresa.
— Jacob me disse que a presença de sua família aqui deu a partida nisso. Pensei que você já soubesse...
Seus olhos se estreitaram.
— É isso que eles acham?
— Edward, considere os fatos. Há setenta anos você veio para cá e os lobisomens apareceram. Você voltou agora, e os lobisomens surgiram de novo. Acha que é só uma coincidência?
Ele pestanejou e seu olhar relaxou.
— Carlisle ficará interessado nesta teoria.
— Teoria — zombei.
Ele ficou em silêncio por um momento, olhando a chuva pela janela; imaginei que estivesse contemplando o fato de que a presença de sua família estava transformando os habitantes em cães gigantes.
— Curioso, mas não é exatamente relevante — murmurou ele depois de um momento. — A situação é a mesma.
Eu podia traduzir isso muito bem: nada de amigos lobisomens.
Eu sabia que devia ter paciência com Edward. Não era que ele não estivesse sendo razoável, era só que ele não entendia. Ele não fazia idéia do quanto eu devia a Jacob Black — muitas vezes, minha vida, e talvez minha sanidade também.
Eu não gostava de falar daquela época enfadonha com ninguém, em especial com Edward. Ele só estava tentando me salvar quando partiu, tentando salvar minha alma. Eu não o considerava responsável por todas as idiotices que eu fizera em sua ausência, ou pela dor que sofrera.
Mas ele era.
Então eu teria de exprimir meus esclarecimentos com muito cuidado.
Levantei-me e contornei a mesa. Ele abriu os braços para mim e me sentei em seu colo, aninhando-me em seu abraço frio de pedra. Olhei suas mãos enquanto falava.
— Por favor, ouça por um minuto. Isto é muito mais importante do que atender a alguns caprichos de um velho amigo. Jacob está sofrendo. — Minha voz distorceu a palavra. — Não posso me negar a ajudá-lo... Não posso desistir dele agora, quando ele precisa de mim. Só porque ele não é humano o tempo todo... Bom, ele estava a meu lado quando eu mesma... não era tão humana. Você não sabe como foi... — Eu hesitei. Os braços de Edward estavam rígidos à minha volta; as mãos agora em punhos, os tendões se destacando. — Se Jacob não tivesse me ajudado... não tenho certeza se você teria por que voltar. Tenho que tentar consertar isso. Eu devo a ele mais do que isso, Edward.
Olhei seu rosto, preocupada. Seus olhos estavam fechados, e o queixo, tenso.
— Nunca vou me perdoar por tê-la deixado — sussurrou ele. — Nem que eu viva cem mil anos.
Coloquei a mão em seu rosto frio e esperei até que ele suspirou e abriu os olhos.
— Você estava tentando fazer o que era certo. E tenho certeza de que teria funcionado com qualquer pessoa menos retardada do que eu. Além disso, você está aqui agora. É só isso que importa.
— Se eu não tivesse partido, você não teria necessidade de arriscar sua vida para consolar um cão.
Eu me encolhi. Estava acostumada com Jacob e todas as suas calúnias pejorativas — sanguessuga, parasita... De certo modo, parecia mais áspero na voz aveludada de Edward.
— Não sei como expressar isso adequadamente — disse Edward, e seu tom de voz era triste. — Imagino que vá parecer cruel. Mas estive perto demais de perder você no passado. Sei o que é pensar que perdi. Eu não vou tolerar nenhum risco.
— Tem que confiar em mim neste caso. Eu vou ficar bem.
Seu rosto era de dor outra vez.
— Por favor, Bella — ele sussurrou.
Olhei em seus olhos dourados subitamente ardentes.
— Por favor o quê?
— Por favor, por mim. Por favor, faça um esforço para se manter segura. Farei tudo o que eu puder, mas agradeceria se tivesse uma ajudazinha.
— Vou dar um jeito — murmurei.
— Você faz mesmo alguma idéia da importância que tem para mim? Alguma noção do quanto a amo? — Ele me puxou para mais perto de seu peito duro, colocando minha cabeça sob seu queixo.
Apertei os lábios em seu pescoço frio como neve.
— Eu sei o quanto eu amo você — respondi.
— Você compara uma árvore pequena com toda uma floresta.
Revirei os olhos, mas ele não pôde ver.
— Impossível.
Ele beijou o alto de minha cabeça e suspirou.
— Nada de lobisomens.
— Não vou concordar com isso. Preciso ver Jacob.
— Então terei de impedi-la.
Ele parecia totalmente confiante de que isso não seria um problema. Eu tinha certeza de que ele estava com a razão.
— Veremos — blefei mesmo assim. — Ele ainda é meu amigo.
Pude sentir o bilhete de Jacob em meu bolso, como se de repente pesasse dez quilos. Pude ouvir as palavras em sua voz, e ele parecia concordar com Edward — algo que nunca aconteceria na realidade.
Isso não muda nada. Desculpe.
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Música de Natal: Noite Feliz e Ave Maria | Enya e Sarah Brightman
Caros amigos e amigas, desejo a vocês e aos seus familiares um Feliz Natal cheio de Paz, Alegria e Esperança. Se você estiver feliz, continue assim. Se você estiver triste, nunca desista, siga sempre em frente.
Cena do Filme: Amadeus - Mozart toca a música de Antonio Salieri
Na primeira cena o Imperador José II oferece a Mozart uma composição feita pelo compositor oficial do reino, Antonio Salieri.
Na segunda cena do filme é apresentada a ópera Don Giovanni (K. 527), considerada por muitos um trabalho artístico sem erros, sem defeitos, de perfeição ininterrupta.
Mozart (Wolfgang Amadeus Mozart) foi um dos maiores gênios da música, senão o maior de todos. Suas composições residem no nosso dia-a-dia, seja em um filme, em um comercial de TV ou até mesmo na seleção musical de diversas rádios, mesmo passados mais de 200 anos de seu falecimento.
O filme Amadeus, baseado na peça teatral de Peter Shaffer, dirigido pelo excelente Milos Forman, recebeu mais de 30 prêmios internacionais, inclusive 8 Oscars, entre eles o de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e o de Melhor Ator.
As atuações foram tão soberbas que os dois atores principais do filme, Tom Hulce (Mozart) e F. Murray Abraham (Salieri), concorreram ao Oscar de Melhor Ator. Os dois mereciam a estatueta, mas quem arrebatou o prêmio foi F. Murray Abraham pela fantástica interpretação do compositor italiano Antonio Salieri.
José da Trino - ou Datrino - (1917–1996), começou a pregar a gentileza como uma alternativa de paz e lucidez para a cidade do Rio de Janeiro e para a humanidade. Seu impacto nas camadas populares foi grande, a ponto de ser chamado de “Profeta Gentileza” (ou “José Agradecido”).
Como todo profeta, Gentileza sentiu um chamado divino, dentro de um determinado contexto histórico. Tinha uma pequena empresa de transporte de carga na zona norte do Rio de Janeiro. Vivia como qualquer trabalhador das classes populares até que, no dia 17 de dezembro de 1961, ocorreu um incêndio criminoso no Gran Circus Norte-Americano, no outro lado da Baía de Guanabara, em Niterói, onde cerca de 500 pessoas morreram queimadas, a maioria delas crianças. A tragédia abalou José Datrino. Seis dias após o incêndio irrompeu a vocação profética, entre meio-dia e uma hora da tarde, quando entregava mercadorias com o seu caminhão. Ele mesmo testemunhou que recebeu um chamamento divino, confirmado três vezes, de que deveria deixar tudo e entregar-se ao consolo das vítimas do circo. Às vésperas do Natal, tomou seu caminhão, comprou uma certa quantidade de vinho, foi a Niterói e lá, junto às barcas, o distribuiu em copos de papel para todos que o desejassem, anunciando: “Quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.
Depois se instalou por quatro anos no local do incêndio. Cercou-o e transformou-o num jardim cheio de flores. Colocou dois portões, um de entrada e outro de saída, com as inscrições: “Bem-vindo ao Paraíso da gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obscenas porque esse local se tornou agora um campo santo”. Consolava a todos que ali chegavam desesperados, dizendo: “Seu papai, sua mamãe, sua filha, seu filho, não morreram; morreu o corpo, o espírito não. Deus chamou. Até o pior pecador se salvou porque Deus não é vingativo. Eu fui enviado por Deus e vim consolar vocês”. Os que vinham e escutavam a sua mensagem sentiam-se consolados.
José Datrino também peregrinou por outras cidades. Em uma de suas viagens, na cidade de Aquidauana (Mato Grosso do Sul), o Profeta Gentileza foi preso e humilhado, o seu cabelo foi cortado e o seu estandarte foi quebrado. O motivo para tal atitude teria sido o fato de ele estar pregando sem uma bíblia nas mãos o que, para alguns, remetia ao desrespeito contra a fé cristã e até mesmo ao charlatanismo. Os jornais da época relataram este episódio com imensa indignação. Em Campo Grande, um dos jornais locais estampou a manchete:
“Que mal fez este homem?”
Em resposta a esta pergunta que a muitos incomodava, Gentileza criou uma frase singular:
“Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria?”
Esta e outras frases do Gentileza, assim como certas circunstâncias pertinentes a sua vida, foram posteriormente abordadas pela cantora Marisa Monte na canção Gentileza, do álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. A canção também trata das pinturas (murais) que José Datrino fez em mais de cinquenta pilastras de viaduto. Com o passar dos anos pichadores e vândalos deterioraram os murais, e mais tarde as pinturas foram cobertas com tinta cinza.
Assim como os profetas bíblicos, o Profeta Gentileza via nos acontecimentos a manifestação de um sentido profundo. O circo lhe sugere o mundo como um circo, como teatro e representação. Sua destruição é uma metáfora da destruição de um tipo de mundo construído na falta de gentileza e gratuidade. Claramente diz: “A derrota de um circo queimado em Niterói é um mundo representado, é isso que aconteceu; e o mundo é redondo e o circo arredondado; por esse motivo, então, o mundo foi acabado”. A alternativa a esse mundo reside na vivência da gentileza e da atitude de agradecimento.
José Datrino faleceu em maio de 1996, aos 79 anos de idade, na cidade de seus familiares (Mirandópolis-SP).
Trecho do Livro: Romance Sem Palavras | Carlos Heitor Cony
O romancista e jornalista Carlos Heitor Cony foi preso diversas vezes durante o regime militar que imperou no Brasil durante os anos 60. Os fatos reais que Cony vivenciou naquela época inspiraram a produção e a publicação deste romance. Além de escritor, Carlos Heitor Cony também é colunista da Folha de São Paulo e comentarista da rádio CBN e do canal de TV BandNews.
Ainda que viva cem, mil anos, não esquecerei aquele dia em que, deitado no leito miserável da cela B 17, a porta se abriu e dois soldados empurraram um corpo que logo se estatelou no chão de ladrilhos. De início, nem parecia um corpo mas um saco, enorme e comprido, que desabou e, estranhamente, não fez nenhum ruído quando caiu. Ou, quem sabe, o espanto — seria melhor dizer: o medo — não me deixou ouvir nada. Todos os meus sentidos ficaram resumidos no olhar — um olhar que procurava entender não o que estava vendo mas o que ainda poderia ver.
Sempre que aquela porta se abria, alguma coisa poderia acontecer comigo. As duas refeições diárias eram colocadas numa pequena bandeja giratória na parede ao lado, e nos quinze dias em que ali estava, a porta só se abria à noite, para mais um interrogatório. Já tudo havia respondido, o que sabia e não sabia, minhas informações estavam sendo checadas, se elas não fizessem sentido ou fossem julgadas insuficientes, eu começaria a ser torturado.
Das celas vizinhas, sobretudo durante a madrugada, eu ouvia os gemidos daqueles que voltavam do porão do quartel que o regime político transformara em prisão. Não eram gritos, eram gemidos mesmo, que duravam horas. Mesmo assim, em certas noites, apesar de distantes, eu ouvia os gritos — e ainda que viva cem, mil anos, jamais me esquecerei deles.
Daí que nada precisei ouvir para jamais esquecer o que agora estava vendo, ali no chão da cela que até então ocupara sozinho. Eu via o resultado de muitos gritos acumulados num corpo que nem parecia corpo e que, tombado no chão, mais parecia uma carniça.
Nu, coberto de sangue, era branco como um corpo de mulher que não toma sol. Mas não era um corpo de mulher. A cabeça raspada indicava que podia ser um estrangeiro, um homem de outro clima e de outra raça, bem diferente dos presos com os quais eu cruzava à noite, quando ia para as sessões de interrogatório.
Tanto que pensei, num primeiro momento, que o cara ali estava por outro motivo, outro tipo de delito contra o Estado, ou mesmo um delito comum. A brancura de sua pele, que se adivinhava por baixo das placas de sangue que entravam em coagulação, não combinava com a pele tostada da maioria dos presos, que antes de serem apanhados viviam ao sol e à chuva, geralmente no meio do mato, nos subúrbios castigados pelo calor, fugindo das patrulhas e batidas dos camburões da polícia ou do Exército.
Esperei a porta se fechar para ver mais e melhor. Nos dois anos em que entrara no movimento, no começo como redator de manifestos e mensagens, mais tarde como uma espécie de responsável pelos recursos do grupo, nunca tinha visto um tipo como aquele metido na luta que iniciáramos tão logo ficou claro que, se nada fosse feito, a ditadura seria longa e progressivamente cruel.
Ao lado da cama, numa cadeira que tinha um dos pés avariados, havia uma moringa de barro com uma água que a temperatura naqueles dias de verão tornava morna, quase quente. Levantei-me, esperei ouvir os passos dos soldados se afastando no corredor, molhei as mãos e com elas procurei limpar o rosto daquele corpo que não precisava gemer para mostrar que estava sofrendo.
Na altura da testa, junto à raiz dos cabelos raspados, havia um talho profundo do qual ainda saía um filete de sangue. Fora dali, com certeza, que o sangue empapara o resto do corpo, embora houvesse outras feridas espalhadas pelo peito, pelas costas, pelos braços.
À medida que eu limpava o sangue, a brancura daquela pele surgia com uma palidez de moça. Uma pele macia, suspeita para um homem de seus trinta anos, não mais.
“Que seria aquilo?”, foi a pergunta que me fiz, logo reconhecendo que devia tê-la formulado de outra forma: “Quem seria aquilo?”. O “aquilo” se justificava: não era mais um corpo ali tombado, mas um troço de carne ferida e, dentro dela, um enigma que eu nunca decifraria, nem mesmo agora, tantos anos passados.
Concurso do Ministério Público do Rio Grande do Sul
O concurso público do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (Procuradoria Geral de Justiça) oferece salário inicial de até R$ 10.993,84 para o cargo de Promotor de Justiça. São 25 vagas de trabalho para candidatos com graduação escolar no nível superior. As inscrições para o concurso do MP-RS vão até o dia 6 de fevereiro de 2009, e devem ser realizadas através do endereço a seguir: www.mp.rs.gov.br/concurso
O nascer do século 20 foi tal qual uma aurora resplandecente. Esperava-se mais desse período do que jamais se havia esperado de outros. Tanto havia sido conquistado no século anterior, que parecia sensato acreditar que dali em diante os êxitos do mundo em muito superariam os desastres.
O novo momento prometia bastante aos povos europeus, quer ainda habitassem o Velho Mundo ou as longínquas terras colonizadas. Seus filhos poderiam esperar uma educação melhor do que nunca, e o trabalho de crianças de 10 anos em tempo integral, em fazendas e oficinas, já não parecia normal. A vida melhorava, a fome diminuía, as pessoas viviam mais. Os conflitos entre as principais nações da Europa pareciam se extinguir, embora grandes exércitos ainda desfilassem em feriados nacionais. Democracia e liberdade se espalhavam. No entanto, a maior parte de tais benefícios atingia apenas um quarto da população mundial, e não parecia provável que viesse a alcançar a África, a Ásia ou as remotas ilhas do Pacífico.
O século se iniciava de modo promissor e, ao mesmo tempo, perigoso. A aurora de 1901 se anunciava de maneira reluzente, mas nuvens negras lentamente ameaçavam ofuscar a luz.
A Europa dominava uma grande porção do mundo. A maior parte da frota mundial de navios mercantes ou de guerra navegava sob bandeira britânica, alemã ou francesa. O continente concentrava algumas das maiores cidades do mundo, com seus palácios famosos, seus museus, suas galerias de arte e suas universidades. A maioria das estradas de ferro e linhas telegráficas era construída ou financiada por companhias européias. Quase todas as principais ilhas eram províncias ou colônias do império britânico, da Holanda, da França, de Portugal, da Espanha ou da Alemanha. A quase totalidade da África e praticamente todas as ilhas do Pacífico estavam sob domínio europeu. Na Ásia, os únicos grandes países não subjugados pela Europa eram a China e o Japão.
O império britânico, o maior já conhecido pelo mundo, ainda não havia atingido seu auge. Detinha uma impressionante parte de cada continente habitado e um cordão de ilhas em cada oceano. No ano de 1900, dominava os mares, com barcos carvoeiros no Mar do Norte, navios de passageiros rumo a portos distantes e tramp steamers com "chaminés empastadas de sal". O império britânico e a China tinham, cada um, 400 milhões de habitantes, abrigando, em conjunto, metade da população mundial.
Evoluindo de modo desordenado, esse império era diferente de todos os anteriores. Em algumas colônias, os representantes britânicos eram extremamente poderosos, enquanto em outras não passavam de simples figuras protocolares. No Egito, os oficiais britânicos de maior patente tomavam as decisões, mas assentiam que altivos "paxás", fumando suas cigarrilhas em suntuosos escritórios, desfrutassem do prestígio. Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia dispunham de grande autonomia, e seus parlamentos representavam mais fielmente o povo do que o próprio parlamento britânico. Esses países cada vez mais financiavam seus próprios exército e marinha, embora aceitassem a liderança britânica em caso de guerra. Em situação diametralmente oposta estavam as colônias da África e da Ásia, as quais não possuíam parlamento, juízes locais ou oficiais de alta patente, dependendo grandemente, em termos econômicos, da Grã-Bretanha.
O crescimento do império russo se deu de forma tão acelerada que ficou difícil diferenciar, nos mapas, a velha Rússia do novo império. O império russo se estendeu desde o Mar Báltico até o Oceano Pacífico. Era tão vasto que um de seus pontos limítrofes em um dos lados fazia fronteira com a Turquia e a Pérsia, enquanto o outro fazia divisa com a Coréia. Em tamanho, somente o império britânico o excedia. Um indício de quanto essa parte do império russo era recente: até 1860, a bandeira russa não tremulava em portos como o de Vladivostok, no Oceano Pacífico, ou o de Batumi, no Mar Negro. Mas, no início do século, a ferrovia transiberiana estendia-se ao leste, chegando ao Lago Baikal, na Sibéria, e logo atingindo o Oceano Pacífico. Tal abrangência deu a alguns observadores a sensação de que o século que se iniciava seria da Rússia.
A Alemanha era um império de feições mais jovens. Com apenas alguns pontos nos mapas de 1880, tomava a forma de um quebra-cabeça que chamava a atenção. Soldados, administradores, missionários e mercadores alemães haviam ocupado partes das costas oeste e leste da África e de Nova Guiné, bem como cordões de ilhas nas cercanias. No outro lado do Oceano Pacífico, próximo ao Equador, estavam a Samoa alemã, a Nauru alemã, bem como outros postos avançados. A distância entre algumas colônias alemãs era tamanha que um inspetor vindo de Berlim, ao fazer a inspeção anual dos escritórios de correios das colônias e usando somente os navios do serviço postal, poderia levar até oito meses para passar por todas elas. Uma vez que a Alemanha havia se tornado uma potência colonial, era necessário que formasse uma marinha de guerra – e essa poderosa força naval foi fator de instabilidade na Europa durantes os primeiros anos do século.
A França era um império mais antigo, fruto de mais de trezentos anos de colonização. Após a Grã-Bretanha, era o império mais difundido. Compreendendo a Indochina tropical e retalhos de pequenas colônias nas Américas do Norte e do Sul, o império francês detinha grande parte da África, incluindo uma série de províncias na costa sul do Mediterrâneo. Suas ilhas no Pacífico se estendiam desde a Nova Caledônia, uma das principais fontes de níquel do mundo, até o exótico Taiti. O território francês tinha somente a metade do tamanho do império russo, mas alcançava todos os grandes oceanos do mundo. Talvez não passasse de 20 o número de cidadãos franceses que já haviam visitado todas as colônias habitadas pertencentes a seu país. Tal declaração pode ser feita com uma boa dose de certeza, uma vez que a ilha dos baleeiros de Kerguelen jazia em total isolamento nos agitados mares do sul do Oceano Índico.
Um vasto império que muitos acreditavam estar à beira da ruína era o otomano. Com governo sediado em Constantinopla, fazia fronteira com as costas do Mediterrâneo, do Mar Negro, do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico. Havia séculos que se encontrava cambaleante, sem, no entanto, sucumbir. Sua resistência periclitante, sua hesitação e sua indecisão iriam determinar a eclosão da Primeira Guerra Mundial.
A China, pródiga em recursos, cochilava enquanto diplomatas e negociantes europeus a cobiçavam. A mais populosa nação do mundo corria o risco de ser alvo de negociação por parte de potências estrangeiras, que a dividiriam. Derrotada pelo refeito Japão na guerra de 1894-95, a China permanecia intacta graças, em boa parte, a sua sorte. Em resumo, as ambiciosas nações européias e os Estados Unidos não conseguiram chegar a um acordo sobre a anexação e o controle do território chinês. Portos chineses, como os de Xangai, Macau e Hong Kong, já estavam sob o controle da Europa, e Taiwan havia sido recentemente anexado pelo Japão.
Os impérios europeus pareciam poderosos em 1900 e continuavam ávidos por expansão. Tudo entraria em colapso ao longo do século.
Cena do Filme: Shine (legendado) - O Treinamento do Pianista David Helfgott
Shine (1996), filme inspirado na vida de David Helfgott, dirigido por Scott Hicks, estrelado por Geoffrey Rush, Armin Mueller-Stahl, Noah Taylor e Lynn Redgrave.
Na cena do filme, David Helfgott adolescente (interpretado por Noah Taylor) está se preparando para tocar o Rachmaninoff Três (Piano Concerto No. 3 ou Rach 3) em uma competição musical.
Belíssimo filme australiano (como quase todo filme que vem de lá) vencedor de 38 prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Ator para Geoffrey Rush.
Era uma vez um velho bruxo muito bondoso que usava a magia com generosidade e sabedoria para beneficiar seus vizinhos. Em vez de revelar a verdadeira fonte do seu poder, ele fingia que suas poções, amuletos e antídotos saíam prontos de um pequeno caldeirão a que ele chamava de sua panelinha da sorte. De muitos quilômetros ao redor, as pessoas vinham lhe trazer seus problemas, e o bruxo, prazerosamente, dava uma mexida na panelinha e resolvia tudo.
Esse bruxo muito querido viveu até uma idade avançada e, ao morrer, deixou todos os seus bens para o único filho. O rapaz, porém, tinha uma natureza bem diferente da do bom pai. Na sua opinião, quem não sabia fazer mágicas não valia nada, e ele muitas vezes discordara do hábito que o pai tinha de ajudar os vizinhos com sua magia.
Quando o velho morreu, o jovem encontrou escondido no fundo da velha panela um embrulhinho com o seu nome. Abriu-o na expectativa de ver ouro, mas, em lugar disso, encontrou uma pantufa grossa e macia, pequena demais para ele e sem par. Dentro dela, um pedaço de pergaminho trazia a seguinte frase: "Afetuosamente, meu filho, na esperança de que você jamais precise usá-la."
O filho amaldiçoou a caduquice do pai e atirou a pantufa no caldeirão, decidindo que passaria a usá-la como lixeira.
Naquela mesma noite, uma camponesa bateu à porta da casa.
- Minha neta apareceu com uma infestação de verrugas, meu senhor. O seu pai costumava preparar um cataplasma especial naquela panela velha...
- Fora daqui! - exclamou o filho. - Que me importam as verrugas da sua pirralha?
E bateu a porta na cara da velha.
Na mesma hora, ele ouviu clangores e rumores que vinham da cozinha. O bruxo acendeu sua varinha e abriu a porta, e ali, para seu espanto, viu que brotara um pé de latão na velha panela do pai, e o objeto pulava no meio da cozinha fazendo uma zoada assustadora no piso de pedra. O bruxo se aproximou admirado, mas recuou ligeiro quando viu que a superfície da panela estava inteiramente coberta de verrugas.
Concurso Público do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)
O concurso do MDA oferece salário inicial até R$ 2.588,51 para os futuros integrantes dos cargos de emprego oferecidos pelo Ministério. São 202 vagas de trabalho para candidatos com graduação escolar no nível médio e superior. As inscrições para o concurso do Ministério do Desenvolvimento Agrário vão até o dia 18 de janeiro de 2009, pela Internet, e devem ser realizadas no endereço a seguir: www.concursos.uff.br
Concurso Público do Hospital das Forças Armadas (HFA)
Salário inicial até R$ 3.350,96 para profissionais da área da Saúde. São 1.314 cargos de emprego para compor o quadro de vagas do Hospital das Forças Armadas. O candidato ao concurso deve ter graduação no nível médio ou superior. As incrições vão até o dia 23/01/2009. Os interessados podem obter o edital através do seguinte endereço: Edital HFA nº 1/2008 (arquivo em formato PDF).
Cena do filme Rocky Balboa, escrito, dirigido e estrelado por Sylvester Stallone, último da série de seis filmes que se iniciou em 1976 com Rocky (vencedor de 3 Oscars) e terminou em 2006 com o título mencionado.
Os filmes da série Rocky são diferentes entre si em vários aspectos, porém há um ponto comum a todos: Rocky é a história do fraco contra o forte, de Davi contra Golias. Para quem conheceu a série e foi fã dos filmes, garanto que não assistiu Rocky 4 menos de vinte vezes. :-)
Após o primeiro vídeo segue um vídeo bônus: a seqüência do treinamento de Rocky Balboa e do soviético Ivan Drago (ambos na Rússia, antes da luta, ainda na época da repressiva União Soviética), cada um deles em seu ambiente.
Filme e música de Natal: O Expresso Polar (Tom Hanks)
O Expresso Polar (The Polar Express) é um dos mais belos filmes de Natal já produzidos. O filme é dirigido pelo genial Robert Zemeckis e a trilha sonora é assinada pelo sempre muito requisitado Alan Silvestri, compositor da trilha sonora de mais de 100 filmes. Tom Hanks atua em mais de um papel de forma brilhante.
O primeiro vídeo abaixo é o trailer do filme, e o segundo vídeo (legendado) apresenta uma das músicas de O Expresso Polar: When Christmas Comes to Town, belíssima canção interpretada por Matthew Hall e Meagan Moore.
Tom Jobim: Música, Sucesso, Estados Unidos e o Brasil (que dá prejuízo)
Entrevista a Revista Veja realizada em 23/03/1988.
Veja: O que você veio fazer no Brasil?
Tom Jobim: Vim ver minha mãe, que está com 80 anos. Vim ver se o imposto de renda me devolve o que tirou na fonte. Vim falar português. Vim tomar ar puro, olhar o céu azul e sentir cheiro de mato. Nova York é poluída demais e a gente se cansa do frio, se cansa de enfiar ceroulas e botas cada vez que sai à rua.
Veja: Qual a sua queixa do imposto de renda?
Tom Jobim: O imposto de renda me tira 45% na fonte e, como sou residente no exterior, não posso fazer nenhuma dedução. O Brasil é um país de parasitas, que persegue quem trabalha. Se descobrem que você trabalha, correm atrás de você o fiscal, a polícia, os ladrões. Falam mal de você. O Brasil me dá prejuízo.
Veja: Mas nos Estados Unidos o imposto de renda também não é pesado?
Tom Jobim: Isto é uma invenção brasileira. Hoje em dia, o máximo que se cobra de pessoa física nos Estados Unidos é 28%. E, para um artista, há deduções de gastos com piano, carro, vestimenta, maquilagem. Comparado com o Brasil, aquilo é um paraíso fiscal.
Veja: O fato de estar morando no exterior, de estar afastado das chamadas raízes brasileiras, não prejudica a sua música?
Tom Jobim: Eu acho uma coisa formidável você de longe, à distância, poder contemplar sua calçada e seu quintal. O Guimarães Rosa, o Vinícius de Moraes, o João Cabral de Melo Neto e tantos outros escreveram muito quando estavam em outros países e não ficaram menos brasileiros. O Jorge Amado, que eu encontrei em Nova York, lançando o livro dele - Tocaia Grande -, viajou em seguida para Paris, onde arranjou um apartamento para ficar escrevendo. E não é maravilhoso ele carregar a Bahia para Paris? Em matéria de raiz, o Jorge Amado já comeu toda a mandioca que podia. Como dizia o Carlos Drummond de Andrade: "Os senhores me desculpem, mas, devido ao adiantado da hora, me sinto anterior a fronteiras". Passarinho sempre voou - e nunca usou passaporte, nem bilhete.
Veja: Como recebeu a notícia de que o Rio de Janeiro havia sido devastado pela chuva?
Tom Jobim: Soube pela televisão, pelos jornais e pela perplexidade dos americanos ao tomarem conhecimento de que pessoas viviam daquela forma no Rio. Não podemos atribuir a Deus uma catástrofe dessas. No Rio se corta o mato, chegam as chuvas de verão e a terra desliza. A enxurrada quase levou até a minha casa, no Jardim Botânico, em pleno centro da cachoeira. Estamos completamente erodidos.
Veja: Onde é mais fácil fazer sucesso: no Brasil ou nos Estados Unidos?
Tom Jobim: É mais fácil fazer sucesso no Carnegie Hall, em Nova York, do que no Maracanãzinho. Aqui o cara já vai para o Maracanãzinho cheio de problemas, com todos os planos na cabeça, cruzados, congelamento, descongelamento. Isso aqui é uma brincadeira. Lá as pessoas vão para o espetáculo sem preocupações.
Veja: O Brasil trata bem os seus artistas?
Tom Jobim: O Brasil precisa amar os seus artistas. Ficam dizendo que nós, músicos, somos milionários. Por que não se fala a verdade no Brasil? Por que não se diz quem são os ricos? O rico é a Gal Costa, o Caetano Veloso, o Chico Buarque, o Tom Jobim? Aqui inventam uma porção de coisas, há sempre a interferência muito grande do governo na vida particular do indivíduo. Eles querem saber o que é que você está fazendo, escutar no telefone, aquele negócio todo que tivemos desde 1964. Eu fui preso, o Chico Buarque também, todo mundo foi apanhado em casa. Eu não sou subversivo, pelo contrário, eu sou um sujeito nitidamente da ordem e do progresso. Agora, o que estou vendo aqui não é nem ordem nem progresso, pelo contrário.
Veja: Mas mesmo com essas críticas você continua gostando do Brasil?
Tom Jobim: Sim. Mas é preciso ter lucidez para falar do país. Porque se a pátria é um negócio pelo qual você dá a vida, você morre e você é torturado, o que é que é isso? Isso não é a pátria. Como disse um amigo em Nova York: o meu país é aquele que me deixa viver, que não me fuzila, que não me tortura, que me deixa educar meus filhos, onde posso exercer minha profissão, que deixa eu fazer meus negócios. Você ama, ama, ama a pátria e depois como é que é? Cadê o piano? O Brasil importa metralhadoras de todos os tipos e nós não temos piano para tocar.
Veja: Não há pianos no Brasil?
Tom Jobim: Atenção, juventude, para o meu conselho: a primeira coisa que o garoto deve fazer, se quiser ser músico, é arranjar um contrabandista. Se não for assim, não terá um instrumento decente.
Veja: Que outro conselho você daria para quem quer ser músico?
Tom Jobim: O garoto precisa saber também que música não é só um instinto, não é comprar uma camisa vermelha e sair de moto, não é imitar o canto dos pássaros, nem sair tocando "bumbum" até furar a laje da casa ou do apartamento.
Veja: Você trabalha muito?
Tom Jobim: Trabalho mais do que mereço. Eu sou uma usina de música. Tenho mais de 500 músicas gravadas e faço questão de acompanhar todas as etapas do meu disco. Tem horas que não quero trabalhar, prefiro andar na praia, sair para comprar um jornal, ver uma garota na praia - à distância e com muito respeito -, mas quase não dá, tanto aqui como no exterior.
Veja: Muita gente o criticou por ter cedido Águas de Março para os anúncios da Coca-Cola. Você fica magoado com isso?
Tom Jobim: Há quase dois anos que eu não bebo. Só posso beber café, água e refrigerantes. A Coca-Cola se aproximou de mim para fazer um anúncio, eu achei ótimo, achei que não fazia mal a ninguém, pois vejo todo mundo tomando Coca-Cola. Aí esses meus amigos - entre aspas, Jards Macalé, Antônio Houaiss e Luiz Carlos Vinhas - começaram a dizer que eu tinha vendido o Brasil à Coca-Cola. Essas pessoas resolvem que fazer anúncios para a Coca-Cola é pecado. Eu posso anunciar cachaça, Brahma Chopp, mas não posso cometer o pecado mortal que é anunciar Coca-Cola. Eu não vendi nada para a Coca-Cola. Eu apenas licenciei o mote de Águas de Março. Todo o Brasil pode cantar tranqüilamente esta música. O primeiro contrato foi por seis meses e por aquele anúncio em que eu aparecia, aqui no Brasil, recebi 280.000 cruzados.
Veja: E de outras publicidades que você faz, as pessoas não reclamam?
Tom Jobim: Reclamam. Eu fiz também a campanha do "Rio, eu gosto de você", o anúncio do Passaporte Brasil, para a Embratur, e vem sempre gente dizer: "Como é, você agora é garoto-propaganda?" E o que eu vou dizer para essas pessoas? Eu posso dizer: "Não, garoto-propaganda é a sua mamãe". Mas não vou dizer isso porque sou um rapaz educado.
Veja: Mas vendo você como um patrimônio da arte brasileira, um monumento da música, muita gente se espantou vendo o comercial da Coca-Cola.
Tom Jobim: Vamos ser objetivos, bem diretos. Vamos contar a verdade. Se o "seu" Tom Jobim está com 61 anos, andando de avião pelo mundo todo, indo para os Estados Unidos, Japão, Europa e várias cidades, dormindo cada dia num lugar diferente, fazendo show - por quê? Porque o "seu" Tom Jobim está precisando de dinheiro, evidentemente. Se ele não estivesse precisando de dinheiro, ele não estaria viajando tanto. Eu não sou passarinho para viver pelos ares. Sou uma pessoa que tem grandes compromissos, ajudo gente, tenho uma família grande, fui casado uma primeira vez, sou casado pela segunda vez. Minha mãe é idosa, tenho de cuidar dessas pessoas que dependem de mim. Vou ganhar ainda esses dinheiros e depois não quero mais.
Veja: O Michael Jackson ganhou 10 milhões de dólares para fazer anúncio da Pepsi-Cola, não é?
Tom Jobim: Eu fico muito satisfeito com isso porque o Michael Jackson comprou os direitos dos Beatles. Isso é uma coisa fantástica. O Michael Jackson deve ser fã dos Beatles e vai cuidar bem da obra. Eu, se ganhasse um dinheiro desses, não 10 milhões de dólares que é muita coisa para mim, mas 5 ou 4 ou 3 ou 2 ou 1 milhão de dólares, compraria a obra do Tom Jobim, a minha própria obra. Não quero terras nem fazendas. Dinheiro é muito bom quando você não tem de pensar nele. Eu compraria minha obra e iria editá-la toda direitinho porque está toda escrita errada, ia corrigir as letras, as harmonias e as melodias e até o ritmo. Faria isso para poder morrer em paz. Se eu morresse agora, neste minuto, iria ficar um rastro de besteira incrível. No mais das vezes, esses editores nunca se preocuparam em editar música nenhuma, eles sempre quiseram foi ficar com os direitos autorais.
Veja: Está acontecendo uma renovação na música brasileira?
Tom Jobim: O Brasil é um país maravilhosamente musical, bem-dotado. Fala-se muito aqui da influência americana. Mas tenho ouvido Michael Jackson e aquilo está cheio de samba. Aliás, a música latina sempre fez parte da música americana. A música cubana toda foi assimilada pelos Estados Unidos. O Dizzy Gillespie ia a Cuba estudar pistão. Eles vêm aqui e ficam encantados. Mas é difícil ouvir músicas brasileiras porque aqui só se escuta rock.
Veja: O que você acha de estar incluído pelos críticos internacionais entre os compositores mais importantes do século?
Tom Jobim: Eu me sinto muito bem. Sou um cara humilde, não gosto muito de ipsilone, de coisa muito complicada. Sou um compositor popular e a minha mensagem é direta. Quando faço uma melodia, pretendo que ela seja ouvida, seja claramente entendida, que tenha contornos nítidos. O Villa-Lobos costumava dizer umas coisas para irritar as pessoas. Lembro que o pessoal estava numa fase de falar muito da esquerda. Aí o Villa disse: "Olha, o futuro do mundo, o que vem aí, é o socialismo, o comunismo, é claro. Mas infelizmente no momento eu não posso perder um mercado como os Estados Unidos". Isso é o auge da gozação, porque o Villa-Lobos era um pobretão, não tinha nada, mas era um gozador. Quando voltou para o Brasil, já muito doente, depois de operado em Nova York, deu uma entrevista. E a repórter perguntou: "Maestro, está compondo muito?" E ele: "Não, minha filha, agora estou decompondo".
Veja: Como você está se sentindo sendo pai novamente, agora aos 61 anos?
Tom Jobim: Ser pai é ótimo. Eu tenho meus filhos bem criados. Graças a Deus, eles gostam muito de mim e eu gosto muito deles. São boas pessoas. Gente de bem - inclusive o Paulinho e a Elisabeth trabalham comigo. Agora tenho esses mais novinhos: João e Maria Luiza. Eu consegui chegar a uma certa simplicidade, pois meus filhos se chamam João e Maria, nomes bastante simples e bonitos.
Veja: E como é a sua relação com João?
Tom Jobim: Excelente. Ele vai fazer 8 anos em outubro. Ele é engraçado. Ao mesmo tempo que me admira, de vez em quando me esculhamba, me maltrata. Outro dia estava o Lobão cantando na televisão. Eu perguntei: "Como é João, você gosta disso?" Ele disse: "Olha, o Lobão explode, você não chega nem a quebrar". Ele esculhamba logo.
Veja: Ainda hoje há críticas que dizem que a bossa nova não é música brasileira. Como você reage a isso?
Tom Jobim: A bossa nova é um negócio que apareceu com um baiano chamado João Gilberto, que é um cara de um talento genial. Aí vem um Paulo Francis e escreve: "A bossa nova é 50% jazz". Mentira. É um troço brasileiro que surgiu aqui com Chega de Saudade, com uma introdução tipo choro, e não tem nada de jazz. Ao contrário, o jazz é que teve uma atitude aquisitiva em relação à bossa nova. Em 1962, Stan Getz já começava a improvisar com figuras de jazz sobre a bossa nova brasileira. O que é o jazz? É uma orquestra que tem saxofone, tem trombone? Então isso é o jazz. E nós estamos perdidos porque você não vai poder usar o telefone, tocar trombone, tudo é jazz. Se a bossa nova fosse jazz nunca teria estourado nos Estados Unidos, como não estouraram o jazz francês, o jazz sueco, o jazz alemão.
Veja: Você parou de fumar cigarros e praticamente não bebe mais. Essa preocupação com a saúde seria medo da morte?
Tom Jobim: Não. Não tenho medo da morte. Mas acho preferível adiar esse problema, não tenho pressa. Antes, eu gostaria de botar os papéis em ordem. Já tenho dois testamentos feitos, um em Nova York e outro no Brasil. Mas, como o nosso país não tem memória, espero morrer só depois que escrever o meu cancioneiro. Só eu e meu filho Paulinho sabemos tudo das minhas músicas, de como devem ser tocadas. Tenho de botar tudo isso no papel. Por enquanto, é até bom a gente andar em aviões separados.
Veja: Você gosta de tomar remédios?
Tom Jobim: Não, remédio eu não tomo. Eu estava com uma bursite, em Nova York, e aquilo incomoda, estava me atrapalhando tocar. Eu fui numa loja de comida natural. Lá eu tenho mania de comer comida natural. Pedi aos indianos, donos da loja, uma pomada lá da Sumatra, que é um paliativo. Aí eles me deram um remédio, um antioxidante. Eu comprei dois vidrinhos, 25 dólares cada um. Tomei e melhorei muito. É feito com uma erva havaiana.
Veja: E a comida natural aqui no Brasil, você não come?
Tom Jobim: Um dos problemas do Brasil é a falta de honestidade: arroz integral é falsificado. O problema do Brasil é que nós não podemos fazer nem uma lingüiça porque ela depende do que você põe dentro. Se colocar tudo que é porcaria, fica uma porcaria. Esse é o problema básico do Brasil. O problema do nosso país, infelizmente, é um problema de honestidade.
Veja: A fama te incomoda?
Tom Jobim: A liberdade derradeira do homem é andar como um ilustre desconhecido. Em Nova York, eu ando na rua, as pessoas me perguntam as horas, me tratam como um ser normal, isso é muito confortável. Tem hora que o sujeito vem te fazer um elogio frontal e é uma coisa embaraçosa. Às vezes, em Nova York, chega uma pessoa e diz: Eu sei quem você é. Outro dia, um cara me parou e disse que havia me visto na TV, sabia que eu era um compositor brasileiro, lembrava das músicas que eu cantei, falou que eu toquei piano na beira do mar. Mas não se lembrava do meu nome.
Veja: Como você definiria a sua atual fase?
Tom Jobim: Depois que a gente tem um distanciamento, depois que a gente fica assim destacado, um pouco marginalizado de si mesmo, devido à passagem dos anos e ao fato de você poder olhar certas coisas com mais tranqüilidade, as coisas mudam. Muitos filósofos acham mesmo que, para se ver bem uma coisa, a pessoa deve se distanciar um pouco dela. O Guimarães Rosa se tratava na terceira pessoa. Isso daí já é o distanciamento ideal. Ele dizia assim:O Rosa está com sede, o Rosa quer água, o Rosa agora está cansado, o Rosa agora vai dormir, ele quer cama. Infelizmente ainda não cheguei a essa perfeição de me tratar na terceira pessoa. Mas não demora muito não.
Depois de quarenta e duas horas de deliberações, que vieram após setenta e um dias de julgamento, que incluíram 530 horas de depoimentos de quatro dúzias de testemunhas, e depois de uma eternidade sentados em silêncio enquanto os advogados discutiram, o juiz os instruía e os espectadores assistiam como falcões atrás de qualquer sinal de novidade, o júri estava pronto. Trancados na sala dos jurados, isolados e seguros, dez deles assinaram com orgulho o veredicto enquanto dois continuaram em seus cantos de cara feia, afastados e infelizes por discordarem. Todos se abraçavam e sorriam, sem modéstia por terem sobrevivido a essa pequena guerra e por agora poderem voltar de cabeça erguida para a arena com a decisão a que tinham conseguido chegar com pura determinação e incessante busca do compromisso. O martírio deles tinha chegado ao fim; o dever civil estava completo. Tinham servido além do esperado. Estavam prontos.
O presidente do júri bateu na porta e despertou Tio Joe de seu cochilo. Tio Joe, o velho meirinho, cuidara deles além de providenciar suas refeições, escutar suas reclamações e, discretamente, levar seus recados para o juiz. Quando era mais jovem e sua audição era melhor, corria um boato de que Tio Joe também escutava as deliberações dos jurados por trás de uma porta fina de pinho que ele mesmo escolhera e colocara ali. Mas esses dias acabaram e, como confidenciara apenas para a esposa, depois do martírio desse julgamento em particular, penduraria suas velhas chuteiras de uma vez por todas. A pressão de controlar a justiça estava acabando com ele.
Tio Joe sorriu e disse:
- Que ótimo. Vou chamar o juiz. – Como se o juiz estivesse em algum lugar no tribunal apenas esperando um chamado do Tio Joe. Em vez disso, como de costume, ele procurou um oficial de justiça e deu a ele a maravilhosa notícia. Era realmente animador. O velho tribunal nunca vira um julgamento tão importante e longo. Terminá-lo sem uma decisão seria uma vergonha.
O oficial de justiça bateu de leve na porta do juiz, depois entrou e, como se ele mesmo tivesse pessoalmente participado de todas as negociações e agora estivesse apresentando o resultado como um presente, anunciou com orgulho:
- Temos um veredicto.
O juiz fechou os olhos e soltou um longo suspiro de satisfação. Abriu um sorriso nervoso que demonstrou seu enorme alívio, quase descrença, e finalmente disse:
- Procure os advogados.
Depois de quase cinco dias de deliberações, o juiz Harrison já tinha se conformado com o fato de que o júri não chegaria a um veredicto, seu pior pesadelo. Após quatro anos de um litígio que mais pareceu uma briga de foice e de quatro meses de julgamento inflamado, a idéia de um empate o atormentava. Não conseguia nem imaginar a possibilidade de começar tudo de novo.
Enfiou os pés nos mocassins velhos, levantou da cadeira sorrindo como um menino e pegou sua beca. Finalmente tinha acabado o julgamento mais longo de sua brilhante carreira.
A primeira ligação do oficial de justiça foi para a Payton & Payton, uma firma local formada por marido e mulher que agora funcionava em uma loja abandonada em uma parte menos favorecida da cidade. Um paralegal atendeu o telefone, escutou por alguns segundos, desligou e então gritou:
- O júri tem um veredicto! – A voz dele ecoou no cavernoso labirinto de pequenas salas provisórias, causando rebuliço entre os seus colegas.
Ele gritou novamente enquanto corria para A Cova, onde o resto da firma estava freneticamente se reunindo. Wes Payton já estava lá, e a esposa, Mary Grace, entrou logo; seus olhos se encontraram por uma fração de segundo de medo e preocupação silenciosos. Dois paralegais, duas secretárias e uma contadora se reuniram na mesa de trabalho longa e bagunçada, onde de repente congelaram e ficaram se olhando, todos esperando que alguém falasse.
Poderia mesmo ter acabado? Depois de terem esperado um eternidade, poderia acabar tão de repente? De forma tão abrupta? Com apenas um telefonema?
- Que tal um minuto de oração silenciosa? – disse Wes, e eles deram as mãos, formando um pequeno círculo, e rezaram como nunca tinham rezado antes. Todos os tipos de petições foram dirigidos a Deus Todo-Poderoso, mas o pedido comum foi a vitória. Por favor, meu Deus, após todo esse tempo, esforço, dinheiro, medo e dúvida, por favor, nos conceda uma vitória divina. E nos livre da humilhação, da ruína, da falência e de muitos outros males que um veredicto ruim trará.
O segundo telefonema do oficial de justiça foi para o celular de Jared Kurtin, o arquiteto da defesa. O sr. Kurtin estava recostado tranqüilamente em um sofá em seu escritório provisório na Front Street no centro de Hattiesburg, a três quadras do tribunal. Estava lendo uma biografia e vendo as suas horas, que custavam 750 dólares cada, passarem. Escutou com calma, desligou o telefone e disse:
- Vamos. O júri está pronto.
Seus soldados de terno preto ergueram-se e perfilaram-se para escoltá-lo pela rua rumo a outra vitória esmagadora. Seguiram o caminho sem nenhum comentário, nenhuma oração.
Outros telefonemas foram dados para outros advogados, depois para os repórteres, e em poucos minutos a notícia já estava se espalhando rapidamente pela rua.
Em algum escritório no alto de um arranha-céu de Manhattan, um jovem em pânico interrompeu uma reunião séria e cochichou a notícia urgente no ouvido do sr. Carl Trudeau, que na mesma hora se desinteressou pelos assuntos que estavam sendo discutidos, levantou-se abruptamente e disse:
- Parece que o júri chegou a um veredicto.
Ele saiu da sala e atravessou o corredor até uma grande suíte, onde tirou o paletó, afrouxou a gravata, dirigiu-se à janela e observou à distância o cair da tarde no rio Hudson. Esperou e, como de costume, perguntou-se como, exatamente, boa parte de seu império podia depender da sabedoria de doze pessoas comuns em um lugar esquecido do Mississipi.
Para um homem que sabia tanto, essa pergunta permanecia sem resposta.
Nunca tínhamos sentido tanta fome; nunca tínhamos sentido tanto frio. Quando dormíamos, se dormíamos, sonhávamos com as delícias que tínhamos comido de maneira tão descuidada sete meses antes — todo aquele pão com manteiga, os bolinhos de batata, as salsichas — comidos com desatenção, engolindo sem sentir o gosto, deixando grandes sobras em nossos pratos, restos de gordura. Em junho de 1941, antes de os alemães chegarem, achávamos que éramos pobres. Mas junho ficou parecendo o paraíso quando veio o inverno.
À noite o vento soprava com tanto barulho e durante tanto tempo que nos assustávamos quando ele parava. As dobradiças das janelas do café abandonado que ficava na esquina paravam de ranger por alguns segundos agourentos, como se um predador estivesse se aproximando e os animais menores ficassem em silêncio, aterrorizados. As próprias janelas haviam sido arrancadas em novembro para serem usadas como lenha. Não havia mais restos de madeira em Leningrado. Todas as placas de madeira, os sarrafos dos bancos do parque, as tábuas do assoalho das casas despedaçadas — tudo havia desaparecido, queimado no fogão de alguém. Os pombos também tinham desaparecido, pegos e cozidos em gelo derretido do Neva. Ninguém se importava em abater os pombos. Eram os cachorros e gatos que causavam problema. Ouvimos um boato em outubro de que alguém tinha assado o vira-lata da família e cortado em quatro para servir na ceia; demos risada e balançamos a cabeça, sem acreditar, e também nos perguntando se cachorro não teria um gosto bom com bastante sal — ainda havia muito sal, mesmo quando todo o resto acabou, nós tínhamos sal. Por volta de janeiro, os boatos haviam se tornado fatos comuns. Tirando aqueles que eram bem relacionados, ninguém mais conseguia alimentar um animal de estimação, então os bichinhos nos alimentavam.
Havia duas teorias sobre os gordos versus os magros. Alguns diziam que aqueles que eram gordos antes da guerra tinham mais chance de sobrevivência: uma semana sem comida não iria transformar um homem gorducho em um esqueleto. Outros diziam que as pessoas magricelas estavam mais acostumadas a comer pouco e podiam lidar melhor com o choque da fome. Eu me posicionava no segundo grupo, totalmente por interesse próprio. Fui raquítico desde que nasci. Nariz grande, cabelo preto, a pele rabiscada pela acne — reconheço que eu não era o ideal de bom partido de nenhuma garota. Mas a guerra me tornou mais atraente. Outros definhavam à medida que os cartões de racionamento eram cada vez mais reduzidos, diminuindo pela metade aqueles que pareciam os fortões de circo antes da invasão. Eu não tinha músculos para perder. Como os pequenos roedores que continuaram vivendo de porcarias enquanto os dinossauros tombavam ao redor deles, eu estava preparado para a privação.
Na véspera do ano-novo me sentei no telhado do Kirov, o prédio de apartamentos onde morei desde os cinco anos (embora ele não tivesse nome até 1934, quando Kirov foi assassinado e metade da cidade recebeu seu nome), olhando os dirigíveis antiaéreos cinzentos e rechonchudos como um enxame sob as nuvens, à espera dos bombardeiros. Naquela época do ano o sol ficava no céu por apenas seis horas, apressando-se para atravessar de um horizonte a outro como se estivesse assustado. Todas as noites quatro de nós ficávamos no telhado em turnos de três horas, armados com baldes de água e de areia, tenazes de ferro e pás, vestindo todas as camisas, suéteres e casacos que pudéssemos encontrar, vigiando os céus. Nós éramos os bombeiros. Os alemães tinham decidido que atacar a cidade seria muito custoso, então, em vez disso, eles nos cercaram, pretendendo nos matar de fome, jogando bombas e queimando tudo.
Antes da guerra mil e cem pessoas moravam no Kirov. Quando o ano-novo chegou, esse número estava perto de quatrocentos. A maioria das crianças pequenas fora evacuada antes que os alemães fechassem o cerco em setembro. Minha mãe e minha irmã menor, Taisya, foram para Vyazma para ficar com o meu tio. Na noite antes de partirem, eu briguei com minha mãe, na única briga que tivemos — ou, mais exatamente, a única vez em que reagi. Ela queria que eu fosse com elas, é claro, longe dos invasores, bem no centro do país, onde os bombardeiros não poderiam nos encontrar. Mas eu não ia abandonar Piter. Eu era um homem, ia defender a minha cidade, seria uma Nevski do século XX. Talvez eu não fosse assim tão ridículo. Eu tinha um bom argumento: se cada pessoa fisicamente capaz fugisse, Leningrado cairia nas mãos dos fascistas. E sem Leningrado, sem a Cidade dos Trabalhadores construindo tanques e fuzis para o Exército Vermelho, que chances a Rússia teria?
Minha mãe achava que era um argumento idiota. Eu mal tinha completado dezessete anos. Não soldava blindagens nas fábricas e não poderia me alistar antes de quase um ano. A defesa de Leningrado nada tinha a ver comigo; eu era apenas mais uma boca para alimentar. Eu ignorava esses insultos.
— Sou bombeiro — disse-lhe, porque aquilo era verdade, o conselho municipal havia ordenado a criação de dez mil unidades de bombeiros, e eu era o orgulhoso comandante da Brigada do Quinto Andar do Kirov.
Minha mãe não tinha quarenta anos, mas seu cabelo já estava grisalho. Ela estava sentada na minha frente à mesa da cozinha, segurando uma de minhas mãos entre as suas. Era uma mulher muito pequena, mal chegava a um metro e meio, e tive medo dela desde o meu nascimento.
— Você é um idiota — disse ela.
Talvez isso possa soar ofensivo, mas minha mãe sempre me chamava de “meu idiota”, e àquela altura eu considerava a palavra um apelido afetuoso.
— A cidade estava aqui antes de você. Ela vai estar aqui depois de você. Taisya e eu precisamos de você.
Ela estava certa. Um filho melhor, um irmão melhor, teria ido com ela. Taisya me adorava, pulava sobre mim quando eu chegava da escola, lia para mim uns poeminhas tolos que ela escrevia como dever de casa, para honrar os mártires da revolução, desenhava caricaturas de meu perfil narigudo em seu caderno. Geralmente eu queria estrangulá-la. Eu não tinha vontade de atravessar o país com minha mãe e minha irmã menor. Eu tinha dezessete anos, inundado em uma crença em meu próprio destino heróico. A declaração de Molotov durante seu discurso pelo rádio no primeiro dia da guerra (NOSSA CAUSA É JUSTA. O INIMIGO SERÁ DERROTADO. NÓS TRIUNFAREMOS.) havia sido impressa em milhares de cartazes que foram colados nos muros da cidade. Eu acreditava na causa; não ia fugir do inimigo; não ia ficar fora do triunfo.
Mamãe e Taisya partiram na manhã seguinte. Elas foram de ônibus uma parte do caminho, conseguiram carona em caminhões do Exército, e andaram por quilômetros intermináveis nas estradas do campo com suas botas de solas abertas. Levaram três semanas para chegar lá, mas conseguiram, finalmente seguras. Ela me mandou uma carta descrevendo a jornada, o terror e o cansaço. Talvez quisesse me fazer sentir culpa por tê-las abandonado, e eu senti, mas também sabia que era melhor que elas tivessem ido embora. O grande combate estava próximo e a linha de frente não era lugar para elas. No dia 7 de outubro os alemães tomaram Vyazma, e parei de receber cartas dela.
Eu gostaria de dizer que sentia falta das duas depois que foram embora, em algumas noites me sentia solitário, e sempre sentia falta da comida que minha mãe fazia, mas desde pequeno sonhei em viver por conta própria. Minhas histórias favoritas eram protagonizadas por órfãos diligentes que atravessavam a floresta escura, sobrevivendo a todos os perigos com esperteza, levando a melhor sobre seus inimigos, encontrando seu destino no meio de suas perambulações. Eu não diria que estava feliz — nós todos estávamos com fome demais para estarmos felizes —, mas eu acreditava que aqui finalmente estaria o Significado. Se Leningrado caísse, a Rússia cairia; se a Rússia caísse, o fascismo conquistaria o mundo. Todos nós acreditávamos nisso. E ainda acredito.
Eu era jovem demais para o Exército, mas tinha idade suficiente para cavar valas antitanque durante o dia e guardar os telhados à noite. Na minha equipe estavam os meus amigos do quinto andar — Vera Osipovna, uma talentosa violoncelista, os gêmeos ruivos Antokolsky, cujo único talento conhecido era a habilidade de peidar em harmonia. Nos primeiros dias da guerra nós fumávamos no telhado, fazendo poses de soldados, fortes, corajosos e de queixo reto, vigiando os céus à procura do inimigo. No final de dezembro não havia mais cigarros em Leningrado, pelo menos nenhum feito com tabaco. Algumas almas desesperadas esmagavam folhas caídas, enrolando-as em papel, que chamavam de Luzes de Outono, afirmando que as folhas certas proporcionavam um cigarro decente, mas no Kirov, longe da mais próxima árvore que ainda estava em pé, aquilo nunca foi uma opção. Passávamos nossos momentos de folga caçando ratos, que devem ter achado que o desaparecimento dos gatos da cidade era a resposta a todas as suas preces mais antigas, até que perceberam que não havia mais nada para comer no lixo.
Depois de meses de bombardeios, sabíamos identificar os diversos aviões alemães pelo som de seus motores. Naquela noite eram os Junkers 88, como vinha sendo há semanas, substituindo os Heinkel e os Dornier que nossos combatentes agora conseguiam acertar com facilidade. Por mais triste que nossa cidade tivesse ficado sob a luz do dia, à noite havia uma estranha beleza no cerco. Do telhado do Kirov, quando havia lua, podíamos ver toda Leningrado: a torre de ponta de agulha do Almirantado (pintada com tinta cinza para ocultá-la dos bombardeiros); a Fortaleza de Pedro e Paulo (os pináculos envolvidos em malha de camuflagem); as abóbadas de Santo Isaac e o Templo do Salvador sobre o Sangue. Podíamos ver as equipes controlando as armas antiaéreas sobre os telhados dos prédios vizinhos. A Frota do Báltico havia ancorado no rio Neva; ficaram flutuando ali, gigantescas sentinelas cinzentas, disparando seus enormes canhões das plataformas da artilharia nazista.
Os combates aéreos eram muito bonitos. Os Ju-88 e os Sukhoi circulavam sobre a cidade, invisíveis do chão, a menos que fossem pegos pelos fachos dos potentes holofotes. Os Sukhoi tinham enormes estrelas vermelhas pintadas na parte de baixo de suas asas, para que nossas armas antiaéreas não atirassem neles. Em intervalos de poucas noites, víamos uma batalha iluminada como se fosse um palco, os bombardeiros alemães, mais pesados e lentos, inclinavam as asas de maneira acentuada, para permitir que seus atiradores mirassem nos velozes caças russos. Quando um Junkers era abatido, a carcaça em chamas do avião caindo como um anjo expulso do paraíso, um enorme grito de desafio erguia-se dos telhados por toda a cidade, todos os atiradores e bombeiros erguendo os punhos fechados para saudar o piloto vitorioso.
Nós tínhamos um pequeno rádio conosco no telhado. Na véspera de ano-novo, ouvimos os carrilhões do relógio Spassky em Moscou tocando a Internacional. Vera havia encontrado meia cebola em algum lugar; ela a cortou em quatro pedaços em um prato com óleo de girassol. Depois que a cebola desapareceu, limpamos a sobra do óleo com nossa ração de pão. O pão que recebíamos não tinha gosto de pão. Não tinha gosto de comida. Depois que os alemães bombardearam os armazéns de grãos de Badayev, as padarias da cidade tornaram-se criativas. Tudo que pudesse ser acrescentado à receita sem envenenar as pessoas era acrescentado. A cidade inteira estava morrendo de fome, ninguém tinha o suficiente para comer, mas mesmo assim todo mundo xingava o pão, o gosto de serragem, o jeito que ele endurecia no frio. Pessoas quebraram dentes tentando mastigá-lo. Mesmo hoje, mesmo tendo esquecido o rosto das pessoas que amei, eu ainda me lembro do gosto daquele pão.
Meia cebola e um pão de 125 gramas divididos por quatro — isso era uma refeição razoável. Ficávamos deitados de costas, embrulhados em cobertores, observando os dirigíveis presos em seus longos cabos flutuando ao vento, ouvindo o metrônomo no rádio. Quando não havia música ou notícias, a estação de rádio transmitia o som de um metrônomo, o tic-tic-tic interminável informando-nos que a cidade ainda não fora conquistada, que os fascistas ainda estavam fora dos portões. O som do metrônomo no rádio era o coração pulsante de Piter, e os alemães nunca o silenciaram.
Foi Vera quem viu o homem caindo do céu. Ela gritou e apontou, e todos ficamos em pé para ver melhor. Um dos holofotes brilhava sobre um pára-quedista que descia em direção à cidade, a seda do pára-quedas como uma tulipa branca acima dele.
— Um Fritz — disse Oleg Antokolsky, e ele estava certo; nós conseguíamos ver o uniforme cinza da Luftwaffe.
De onde teria vindo? Nenhum de nós tinha ouvido sons de combate aéreo, nem o estrondo de uma arma antiaérea. Não ouvíamos um bombardeiro passar por lá havia quase uma hora.
— Talvez tenha começado — disse Vera.
Durante semanas estivemos ouvindo rumores de que os alemães estavam preparando um lançamento maciço de soldados pára-quedistas, um ataque final para arrancar o miserável espinho de Leningrado do traseiro do exército que avançava. A qualquer minuto esperávamos olhar para cima e ver milhares de nazistas flutuando em direção à cidade, uma nevasca de páraquedas brancos encobrindo o céu, mas dúzias de holofotes rasgaram a escuridão e não encontraram mais inimigos. Havia apenas aquele ali, e a julgar pela moleza do corpo suspenso pelas correias do pára-quedas, já estava morto.
Ficamos observando enquanto ele descia, congelado na luz do holofote, baixo o suficiente para podermos ver que havia perdido uma de suas botas pretas.
— Ele está vindo na nossa direção — falei.
O vento levou-o para a rua Voinova. Os gêmeos se entreolharam.
— Luger — disse Oleg.
— A Luftwaffe não usa Lugers — disse Grisha. Ele era cinco minutos mais velho e a autoridade em armamento nazista.
— Walther PPK.
Vera sorriu para mim.
— Chocolate alemão.
Corremos para a porta da escadaria, abandonando nossas ferramentas de bombeiro, e descemos correndo no escuro. Nós éramos idiotas, é claro. Um escorregão em um daqueles degraus, sem gordura ou músculos para amortecer a queda, significava um osso quebrado, e um osso quebrado significava a morte. Mas nenhum de nós se importava. Éramos muito jovens, e um alemão morto estava caindo na rua Voinova trazendo presentes da Vaterland.
Atravessamos o pátio correndo e escalamos o portão trancado. Todos os postes da rua estavam apagados. A cidade toda estava no escuro — para tornar mais difícil o trabalho dos bombardeiros e porque a maior parte da eletricidade tinha sido desviada para as fábricas de munição —, mas a lua oferecia claridade o bastante para enxergarmos. A Voinova estava desimpedida e deserta, seis horas depois do toque de recolher. Não havia carros à vista. Apenas os militares e o governo tinham acesso a gasolina, e todos os automóveis civis tinham sido requisitados durante os primeiros meses da guerra. Tiras de papel atravessavam as vitrines das lojas, o que, segundo nos dizia o rádio, tornava-as mais resistentes à quebra. Talvez aquilo fosse verdade, embora eu tivesse passado na frente de muitas lojas em Leningrado onde só o que havia sobrado nas vitrines era uma tira de papel pendurada.
Já na rua, olhamos para o céu, mas não conseguimos encontrar nosso homem.
— Para onde ele foi?
— Você acha que ele caiu em um telhado?
Os holofotes estavam vasculhando o céu, mas todos estavam montados no topo dos prédios altos e nenhum deles tinha ângulo para iluminar a rua Voinova. Vera deu um puxão na gola de meu sobretudo, um enorme casaco da marinha que eu havia herdado de meu pai e que ainda era grande demais para mim, mas mais quente do que qualquer outra roupa que tinha.
Eu me virei e o vi deslizando em direção à rua, o nosso alemão, a bota preta única deslizando sobre a calçada congelada, o enorme pára-quedas branco ainda inchado no vento, levando-o na direção dos portões do Kirov, o queixo enterrado no peito, o cabelo preto salpicado de cristais de gelo, o rosto lívido sob o luar. Ficamos imóveis, olhando-o aproximar-se. Tínhamos visto coisas naquele inverno que os olhos de ninguém jamais deveriam ver, achávamos que nada poderia nos surpreender, e se o alemão tivesse sacado sua Walther e começado a atirar, nenhum de nós teria conseguido fugir a tempo. Mas o morto continuou morto, e por fim o vento cedeu, o pára-quedas se esvaziou, e ele caiu bruscamente na calçada, sendo arrastado por mais alguns metros de rosto para baixo em uma humilhação final.
Fizemos um círculo em volta do piloto. Grisha ajoelhou-se e abriu o coldre do alemão.
— Walther PPK. Não falei?
Rolamos o alemão para que ele ficasse de costas. O rosto pálido estava ferido, a pele esfolada sobre o asfalto, as escoriações descoradas como a pele intacta. Os mortos não se ferem. Eu não conseguia dizer se ele havia morrido assustado, desafiador ou sereno. Não havia traço de vida ou de personalidade em seu rosto — ele parecia um cadáver que tinha nascido como cadáver.
Oleg tirou as luvas pretas de couro, enquanto Vera pegou o cachecol e os óculos de proteção. Encontrei uma bainha presa ao tornozelo do piloto e tirei dela uma faca de aço temperado, com um guarda-mão de prata e uma lâmina de corte único de quinze centímetros gravada com palavras que eu não conseguia ler sob a luz do luar. Recoloquei a lâmina na bainha e prendi-a ao meu próprio tornozelo, sentindo pela primeira vez em meses que meu destino de guerreiro estava finalmente se tornando realidade.
Oleg encontrou a carteira do morto e sorriu ao contar os marcos alemães. Vera embolsou um cronômetro, duas vezes maior do que um relógio de pulso, que o alemão usava preso à manga de sua jaqueta de vôo. Grisha encontrou um par de binóculos dobrados em um estojo de couro, dois carregadores extras para a Walther, e um pequeno cantil. Ele tirou a tampa, cheirou e me passou o cantil.
— Conhaque?
Tomei um gole e confirmei com a cabeça.
— Conhaque.
— Quando é que você tomou conhaque para saber o gosto? — perguntou Vera.
— Já tomei antes.
— Quando?
— Deixa eu ver — disse Oleg, e o cantil passou pelo círculo, nós quatro de cócoras ao redor do piloto caído, tomando aquela bebida que poderia ser conhaque, brandy ou Armagnac. Nenhum de nós sabia a diferença. Seja lá o que fosse, aquele líquido esquentava a barriga.
Vera olhou fixamente o rosto do alemão. A expressão dela não demonstrava pena, nem medo, apenas curiosidade e desprezo — o invasor tinha vindo jogar suas bombas sobre nossa cidade e em vez disso jogou a si mesmo. Não o tínhamos derrubado, mas nos sentíamos triunfantes mesmo assim. Mais ninguém no Kirov tinha encontrado o cadáver de um inimigo. Pela manhã seríamos o assunto do prédio de apartamentos.
— Como você acha que ele morreu? — perguntou ela.
Nenhum ferimento de bala manchava o corpo, não havia nenhuma parte chamuscada, nenhum sinal de qualquer violência. A pele estava pálida demais em comparação à dos vivos, mas nada a havia perfurado.
— Ele morreu congelado — eu lhes disse. Falei com autoridade porque eu sabia que era a verdade e não tinha como provar. O piloto tinha saltado a milhares de metros acima de Leningrado à noite. O ar no nível do solo era frio demais para as roupas que ele estava usando; lá em cima, nas nuvens, fora de sua cabine quente, não teve chance.
Grisha ergueu o cantil, fazendo um brinde.
— Viva o frio.
O cantil começou a circular novamente. Ele nunca chegou em mim. Nós deveríamos ter ouvido o motor do carro a dois quarteirões de distância, a cidade depois do toque de recolher era silenciosa como a lua, mas estávamos ocupados tomando nossa bebida alemã, fazendo nossos brindes. Apenas quando o GAZ entrou na rua Voinova, os pneus pesados fazendo barulho sobre o asfalto, os faróis vindo na nossa direção, é que percebemos o perigo. A punição por violar o toque de recolher sem uma autorização era a execução sumária. A punição por abandonar uma posição dos bombeiros era a execução sumária. A punição por pilhagem era a execução sumária. Os tribunais não funcionavam mais; os policiais estavam no front, as prisões com apenas meia capacidade e diminuindo rapidamente. Quem tinha comida para um inimigo do Estado? Se infringisse a lei e fosse pego, você seria morto. Não havia tempo para quaisquer sutilezas legais.
Então saímos correndo. Nós conhecíamos o Kirov melhor do que qualquer um. Se conseguíssemos ultrapassar os portões do pátio e entrar na escuridão gélida do espaçoso prédio, ninguém poderia nos encontrar, mesmo que tivesse três meses para procurar. Podíamos ouvir os soldados gritando para que parássemos, mas aquilo não importava; vozes não nos assustavam, apenas balas faziam diferença, e ninguém havia puxado um gatilho ainda. Grisha conseguiu chegar ao portão primeiro — ele era o mais próximo de um atleta entre nós —, pulou sobre as barras de ferro e içou-se sobre elas. Oleg seguia logo atrás, e eu estava bem atrás de Oleg. Nossos corpos eram fracos, os músculos retraídos pela falta de proteína, mas o medo nos ajudou a escalar o portão com mais rapidez do que nunca.
Perto do topo do portão eu olhei para trás e vi que Vera havia escorregado em uma camada de gelo. Ela olhou para mim, os olhos arregalados e cheios de medo, apoiada sobre as mãos e joelhos enquanto o GAZ freava ao lado do corpo do piloto alemão e quatro soldados desciam. Eles estavam a uns seis metros de distância, empunhando fuzis, mas eu ainda tive tempo de pular sobre o portão e desaparecer dentro do Kirov.
Gostaria de poder lhe dizer que a idéia de abandonar Vera nunca passou pela minha cabeça, que minha amiga estava em perigo e que fui resgatá-la sem hesitar. Mas a verdade é que, naquele momento, eu a odiei. Eu a odiei por ter sido desajeitada na pior hora possível, por olhar para mim com seus olhos castanhos cheios de pânico, elegendo-me para ser seu salvador, muito embora Grisha tivesse sido o único que ela alguma vez beijou. Eu sabia que não poderia viver com a lembrança daqueles olhos implorando para mim, e ela sabia, também, e eu a odiei mesmo quando desci do portão com um pulo, levantei-a do chão e a puxei até as barras de ferro. Eu era fraco, mas Vera não chegava a pesar quarenta quilos. Eu a levantei sobre o portão enquanto os soldados gritavam e os saltos de suas botas estalavam sobre a calçada e seus fuzis eram engatilhados.
Vera conseguiu passar por cima do portão e eu subi com dificuldade atrás dela, ignorando os soldados. Se eu parasse, eles se reuniriam ao meu redor, diriam que eu era um inimigo do Estado, me forçariam a ajoelhar e me dariam um tiro na nuca. Eu era um alvo fácil, mas talvez eles estivessem bêbados, talvez fossem rapazes da cidade como eu, que nunca tinham dado um tiro antes em suas vidas, talvez errassem de propósito porque sabiam que eu era um patriota e defensor da cidade e que eu tinha saído furtivamente do Kirov apenas porque um alemão tinha caído de uma altura de seis mil metros na minha rua, e qual garoto russo de dezessete anos não sairia de fininho para dar uma espiada em um fascista morto?
Meu queixo estava nivelado com o topo do portão quando senti mãos enluvadas envolverem os meus tornozelos. Mãos fortes, as mãos de soldados do Exército que faziam duas refeições por dia. Eu vi Vera correndo para dentro do Kirov, sem sequer olhar uma vez para trás. Tentei subir pelas barras de ferro, mas os soldados me arrastaram para baixo, me jogaram na calçada e ficaram sobre mim, os canos de seus fuzis Tokarev espetando o meu rosto. Nenhum dos soldados parecia ter mais do que dezenove anos e nenhum deles parecia relutante em espalhar os meus miolos pela rua.
— Esse aqui parece que vai cagar nas calças.
— Estava dando uma festa aqui, filho? Encontrou um pouco de aguardente?
— Ele vai ser bom para o coronel. Podemos colocá-lo junto com o Fritz.
Dois deles se curvaram, agarraram-me pelas axilas, sacudiram-me para que eu ficasse em pé, guiaram-me até o GAZ e me empurraram para dentro, no banco de trás. Os outros dois soldados ergueram o alemão pelas mãos e pelos pés, jogando-o no carro ao meu lado.
— Para te esquentar — disse um deles, e todos riram como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Eles se apertaram dentro do carro e bateram as portas.
Decidi que eu ainda estava vivo porque queriam me executar em público, como um aviso para outros saqueadores. Alguns minutos antes eu tinha me sentido mais poderoso do que o piloto morto. Agora, enquanto passávamos correndo pela rua escura, ziguezagueando para desviar das crateras de bombas e dos amontoados de entulho, ele parecia estar zombando de mim, os lábios pálidos como uma cicatriz dividindo seu rosto congelado. Estávamos indo na mesma direção.
Eragon olhava fixamente para a torre escura de pedra onde estavam escondidos os monstros que tinham assassinado seu tio, Garrow.
Estava deitado de bruços por trás da borda de um morro arenoso, pontilhado com raras folhas de capim, arbustos espinhosos e pequenos cactos parecidos com botões de rosa. As hastes quebradiças da folhagem do ano anterior picavam as palmas de suas mãos enquanto ele avançava pouco a pouco, para conseguir uma visão melhor de Helgrind, que avultava acima das terras ao redor, como uma adaga negra que se projetava a partir das entranhas da terra.
O sol poente riscava os montes baixos com sombras compridas e estreitas e - ao longe, no oeste - iluminava a superfície do lago Leona, de modo que o horizonte parecesse uma barra de ouro ondulante.
À sua esquerda, Eragon ouvia a respiração compassada de seu primo, Roran, estendido a seu lado. O fluxo de ar normalmente inaudível parecia ter uma altura sobrenatural para Eragon, com sua audição apurada, uma das muitas mudanças resultantes de sua experiência durante o Agaetí Blödhren, a Celebração de Juramento ao Sangue dos elfos.
Ele prestou pouca atenção a isso agora que observava uma fila de pessoas se aproximando devagar da base de Helgrind, aparentemente vindas a pé da cidade de Dras-Leona, a alguns quilômetros de distância. Um contingente de vinte e quatro homens e mulheres, trajados em grossas vestes de couro, encabeçava a coluna. Esse grupo se movimentava em desalinho: mancavam, arrastavam os pés, corcoveavam e se remexiam; balançavam-se em muletas ou usavam os braços para avançar sobre pernas estranhamente curtas - contorções necessárias porque, como Eragon percebeu, a cada um dos vinte e quatro faltava um braço, uma perna ou alguma combinação desses membros. Numa liteira carregada por seis escravos ungidos, seu líder estava sentado empertigado, postura que Eragon considerou um feito espantoso, levando-se em conta que o homem ou mulher - ele não sabia dizer - possuía nada mais do que o torso e a cabeça, sobre cuja testa se equilibrava um cocar de couro enfeitado, com uns noventa centímetros de altura.
- Os sacerdotes de Helgrind - sussurrou ele para Roran.
- Eles sabem usar magia?
- É possível que sim. Só vou me aventurar a explorar Helgrind com minha mente quando eles tiverem ido embora, pois, se qualquer um deles for mágico, perceberá meu contato, por mais sutil que seja, e nossa presença será revelada.
Atrás dos sacerdotes, seguia pesadamente uma coluna dupla de rapazes envoltos em tecido dourado. Cada um carregava uma estrutura retangular de metal, subdividida em doze barras horizontais, das quais estavam suspensos sinos de ferro do tamanho de nabos de inverno. Metade dos rapazes agitava com vigor seus retângulos quando avançava com o pé direito, produzindo uma cacofonia lancinante, enquanto a outra metade chocalhava os seus quando avançava com o pé esquerdo, fazendo com que badalos de ferro colidissem com paredes também de ferro e emitissem um clamor pesaroso que reverberava pelos montes. Os acólitos acompanhavam o pulsar dos sinos com seus próprios gritos, gemendo e berrando num êxtase apaixonado.
Atrás da procissão grotesca vinha, cansada, uma leva de moradores de Dras-Leona: nobres, mercadores, comerciantes, alguns comandantes militares de alta patente e uma mistura dos menos afortunados, como operários, mendigos e soldados de infantaria.
Eragon se perguntou se o governador de Dras-Leona, Marcus Tábor, estaria em algum lugar no meio deles.
Parando à beira da escarpa de cascalho que cercava Helgrind, os sacerdotes se reuniram dos dois lados de um rochedo da cor de ferrugem, cujo topo era polido. Quando a coluna inteira estava imóvel diante do altar tosco, a criatura na liteira se mexeu e começou a cantar numa voz tão dissonante quanto o lamento dos sinos. Rajadas de vento truncavam a todo momento as declamações do xamã, mas Eragon captou trechos da língua antiga - estranhamente deturpada e mal pronunciada - entremeados com palavras da língua dos anões e dos Urgals, todas unidas por um dialeto arcaico da língua do próprio Eragon. O que ele entendeu lhe causou calafrios, pois o sermão falava de coisas que seria melhor não saber: de um ódio malévolo que tinha se inflamado por séculos nas cavernas sombrias do coração das pessoas antes de ter permissão para vicejar com a ausência dos Cavaleiros, de sangue e loucura, e de rituais repulsivos cumpridos sob uma lua negra.
Ao final desse discurso depravado, dois dos sacerdotes inferiores avançaram às pressas e levantaram seu mestre - ou mestra, conforme fosse - da liteira e o puseram sobre o altar. Então, o Sumo Sacerdote deu uma breve ordem. Lâminas gêmeas de aço piscaram como estrelas quando subiram e caíram. Um pequeno riacho de sangue brotou de cada um dos ombros do Sumo Sacerdote, escorreu pelo torso em seu estojo de couro e então começou a formar poças sobre a rocha até transbordar para o cascalho ali embaixo.
Outros dois sacerdotes deram um salto à frente para apanhar o líquido vermelho em taças que, quando estavam totalmente cheias, foram distribuídas entre os membros da congregação, que beberam sofregamente.
- Eca! - disse Roran, reprimindo a voz. - Você não me disse que esses vagabundos traficantes de carne, esses adoradores de idiotas, esses transtornados manchados de sangue eram canibais.
- Não é bem assim. Eles não consomem a carne.
Quando todos os participantes tinham molhado a garganta, os noviços servis devolveram o Sumo Sacerdote para a liteira e ataram os ombros da criatura com faixas de linho branco. Borrões molhados mancharam imediatamente o tecido até então imaculado.
Os ferimentos pareceram não ter efeito algum sobre o Sumo Sacerdote, pois a criatura desprovida de membros girou de volta para os devotos, que tinham os lábios vermelhos como framboesa.
- Agora sois realmente meus Irmãos e Irmãs, por terem provado a seiva de minhas veias aqui à sombra do grande poder de Helgrind. O sangue chama o sangue, e se um dia vossa Família necessitar de ajuda, fazei então o que puderdes pela Igreja e por outros que reconheçam o poder de nosso Medonho Senhor... Para afirmar e confirmar nossa lealdade ao Triunvirato, recitai comigo os Nove Votos... Por Gorm, Ilda e pelo cruel Angvara, juramos render homenagem pelo menos três vezes por mês, na hora anterior ao anoitecer, e então fazer uma oferenda de nós mesmos para aplacar a fome eterna de nosso Grande e Terrível Senhor... Juramos respeitar as regras do livro de Tosk... Juramos sempre trazer junto ao corpo nosso Bregnir e para sempre nos abstermos dos doze dos dozes e do contato de uma corda com muitos nós, para que não se corrompa...
O vento aumentou de repente, obscurecendo o resto da lista do Sumo Sacerdote. E então Eragon viu que os ouvintes sacavam uma faca pequena e curva, e, cada um por sua vez, se cortavam na dobra do cotovelo para ungir o altar com um filete do seu próprio sangue.
Depois de alguns minutos, a brisa raivosa diminuiu, e Eragon voltou a ouvir o sacerdote.
- ... e aquelas coisas que desejais e pelas quais ansiais vos serão concedidas como prêmio por vossa obediência... Nosso culto está completo. Entretanto, se algum dentre vós tiver coragem suficiente para demonstrar a verdadeira profundidade de sua fé, que se apresente!
A congregação se enrijeceu e se inclinou para a frente, com expressões de enlevo. Parecia que era por isso que todos esperavam.
Houve um intervalo longo e silencioso, que deu a impressão de que eles se decepcionariam, mas um dos acólitos se afastou do lugar na fileira, aos gritos.
- Eu quero!
Com um rugido de prazer, seus irmãos começaram a agitar os sinos num ritmo acelerado e selvagem, instigando a congregação a um desvario tal que todos pulavam e gritavam como se tivessem perdido o juízo. A música tosca acendeu uma centelha de empolgação no coração de Eragon - apesar de sua repulsa diante dos ritos - despertando alguma parte primitiva e brutal dentro dele.
Despindo seus trajes dourados para ficar coberto apenas com uma tanga de couro, o jovem de cabelos escuros saltou para cima do altar. Respingos da cor de rubi surgiram dos dois lados de seus pés. Ele encarou Helgrind e começou a estremecer e se sacudir como se estivesse sofrendo um ataque convulsivo, no compasso das badaladas dos cruéis sinos de ferro. Sua cabeça girava frouxa no pescoço, espuma se juntava nos cantos da boca, os braços se debatiam como serpentes. O suor untava seus músculos até que o rapaz refulgisse como uma estátua de bronze ao sol poente.
Os sinos atingiram um ritmo alucinado em que uma nota discordava da outra, e a essa altura o rapaz esticou a mão para trás. Nela, um sacerdote depositou o punho de um utensílio estranhíssimo: uma arma de um gume, uns setenta centímetros de comprimento, com espiga completa, cabo com escamas, vestígios de um guarda-mão e uma lâmina plana de base larga e perto da extremidade apresentava recortes arredondados, um formato que lembrava uma asa de dragão. Era uma ferramenta projetada para uma única finalidade: cortar armaduras, ossos e tendões com a mesma facilidade com que perfuraria um volumoso odre de água.
O jovem ergueu a arma para que ela se voltasse na direção do pico culminante de Helgrind. Caiu então de joelhos e, com um grito incoerente, fez a lâmina descer atravessando seu pulso direito.
O sangue jorrou borrifando as pedras por trás do altar.
Eragon recuou e desviou o olhar, embora não conseguisse escapar dos gritos penetrantes do rapaz. Não era nada que Eragon não tivesse visto em combate, mas parecia errado mutilar-se deliberadamente quando era tão fácil ser desfigurado no dia-a-dia.
Folhinhas de grama rasparam umas nas outras quando Roran mudou de posição. Ele resmungou alguma maldição, que se perdeu ainda na barba, e voltou a se calar.
Enquanto um sacerdote cuidava do ferimento do rapaz - estancando o sangue com um encantamento - um acólito soltou dois escravos da liteira do Sumo Sacerdote, só para acorrentá-los pelos tornozelos a uma argola de ferro embutida no altar. E então os acólitos se desfizeram de numerosos embrulhos que traziam por baixo das vestes e os empilharam no chão, fora do alcance dos escravos.
Encerradas as cerimônias, os sacerdotes e seu séquito deixaram Helgrind em direção a Dras-Leona, lamentando-se e repicando sinos pelo caminho. O fanático agora maneta seguia trôpego logo atrás do Sumo Sacerdote.