Dragon Ball Evolution (2009), filme baseado na série de mangás Dragon Ball, a mais vendida no mundo, criada por Akira Toriyama. Filme dirigido por James Wong e estrelado por Justin Chatwin, Joon Park, Jamie Chung, Emmy Rossum, James Marsters, Yun-Fat Chow e Randall Duk Kim. Estréia nos cinemas do Brasil prevista para o dia 9 de Abril de 2009.
Andar pela Amazônia é sempre um festival de descobertas. Mas depois de uma razoável quilometragem por rios e matas da região, fui encontrar a melhor história da floresta tropical no Rio de Janeiro.
Quer dizer: uma história que leva o Rio de Janeiro para a Amazônia, e a Amazônia para Nova York e Paris.
O que leva uma estilista e um empresário confortavelmente instalados na cidade a apostarem seu futuro, sua pele, enfim, suas vidas no Acre? De Bia Saldanha e João Augusto Fortes, os protagonistas desta história real, pode-se dizer tanto que ganharam tudo, quanto que perderam tudo.
Os dois estiveram com Chico Mendes numa passeata na orla carioca, um mês antes do assassinato dele. A partir daí, sonharam unir-se a índios e seringueiros para criar na floresta um produto sofisticado que encantasse o mundo. O sonho tinha toques de megalomania. E foi posto em prática.
Para o repórter, interessou a Amazônia real que surge por trás do mito romântico, revelada pelo olhar urbano de Bia e João. Um choque de fascínio e estranheza. O mais fascinante e estranho, no entanto, é o que acontece com as pessoas comuns no cenário gigante da floresta. Um lugar pouco recomendável para quem não quiser conhecer seu lado avesso.
Os fatos narrados nas páginas que se seguem são verídicos. Foram apurados em cerca de 70 horas de entrevistas gravadas no Rio de Janeiro e no Acre, com variados personagens dessa história, além de anotações de campo e pesquisa documental.
Boa viagem. Não esqueça o filtro solar.
BARRADO EM IPANEMA
O homem baixo, gorducho e com jeito caipira já estava se acostumando com a cidade grande, mas pela primeira vez chegou do mato sem alegria nos olhos. Embora fosse um líder severo, comandante de batalhas duras no faroeste verde do Brasil, de perto transbordava doçura. Riso fácil, tiradas sacanas, nenhuma auto-referência ao papel de líder. Tinha algo de moleque. Ou de santo.
Chico Mendes chegava dessa vez ao Rio de Janeiro sem alegria nos olhos porque já sabia que ia morrer. “Não duro até o Natal”, foi logo dizendo, com sua franqueza rude, a um de seus anfitriões, o empresário João Augusto Fortes. Era dia 9 de dezembro de 1988, portanto sua expectativa de vida — no auge de sua vitalidade — era a de um doente terminal.
João Augusto estava entre uma meia dúzia de abnegados que tinham cismado de tentar fazer o Brasil conhecer Chico Mendes. No ramo da construção civil, João se especializara em urbanismo — quase um paradoxo, como um dono de açougue que vendesse moderador de apetite. Do urbanismo foi se metendo com ar, gente, árvore. Acabou interessado em contribuir com campanhas políticas que encampassem a então novíssima causa da ecologia.
Voltando de uma viagem ao Acre, a atriz Lucélia Santos e o jornalista Alfredo Sirkis vieram com a dica inusitada: em vez de dar dinheiro para candidatos, o empresário poderia bancar a vinda de um seringueiro ao Rio. Era um sujeito diferente, que botava dezenas de famílias na frente das árvores para “empatar” a ação das motosserras. Um Mahatma Gandhi amazônico.
A idéia foi comprada imediatamente. João passou não só a financiar viagens de Chico Mendes a Rio e São Paulo como a circular com ele entre gente influente, passando adiante sua mensagem exótica: o arcaico povo seringueiro era a saída mais moderna para a proteção da Amazônia. O empresário acreditava na causa, mas acreditava sobretudo em Chico. Nunca vira alguém tão focado em sua missão, e ao mesmo tempo tão suave na vida, tão radiante, tão capaz de se divertir com tudo.
Um homem que vinha de um front onde a vida podia valer menos que uma tora de mogno, e parecia estar sempre chegando de um retiro espiritual. Personagem de um mundo pesado, Chico era leve. Só falava de si se perguntado. Especialista em gente, João não teve dúvida: estava diante de um ser raro. Possivelmente um missionário. Não como um daqueles despachantes de dogmas que proliferam nos livros de história. Um missionário de verdade.
Numa dessas viagens ao Rio, em 20 de novembro de 1988, Chico Mendes chegou para uma manifestação pública. Não seria mais uma passeata no Centro da cidade, das que tradicionalmente cruzavam a Avenida Rio Branco entre a Igreja da Candelária e a Cinelândia. Entre os organizadores, havia uma banda criativa da elite carioca interessada em borrifar um pouco de estética na política.
Dois anos antes, tinham inventado de propor um cordão humano em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, em apoio à candidatura do jornalista Fernando Gabeira a governador. A idéia era megalomaníaca e fadada à inviabilidade, até o momento em que o abraço surrealista se concretizou, com milhares de mãos dadas em torno do poluído cartão-postal. Para essa turma, não fazia sentido levar o líder florestal para a zona cinza da cidade.
Nada de parar o trânsito e respirar fumaça. Já bastava a das queimadas. Caminhariam tranqüilos pela orla, olhando a paisagem, sem atrapalhar o ir-e-vir de ninguém. Biquínis e sungas não quebrariam a seriedade do protesto, nem o seu bom andamento. Só faltou combinar isso com eles.
Em dia de pistas fechadas ao trânsito, a única fumaça viria de uma tocha. Chico Mendes a receberia no trajeto através de Jardim Botânico, Leblon, Ipanema, Copacabana e Botafogo, e a levaria como um atleta olímpico até o monumento a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo. Ali, em vez de uma pira para receber o fogo, haveria uma pia para apagá-lo. Era o recado estético contra a queima das florestas.
O dia da manifestação amanheceu ensolarado, impecável, e o ato começou com um grupo de alpinistas escalando o Pão de Açúcar. Se o vento não atrapalhasse, eles pregariam no costão do morro uma faixa gigantesca, em que cada letra do slogan “Salve a Amazônia” tinha o tamanho de um prédio de quatro andares. Era um belo esforço de João Augusto e seus aliados para tirar Chico Mendes do anonimato, mas o alto astral estava amarrado numa bola de ferro.
Estava ficando cada vez mais claro que as idas do líder seringueiro ao Centro-Sul do país, com toda sua estratégia de alerta, poderiam ser só pequenas fugas da sua via-crúcis amazônica. Era preciso dar-lhe uma proteção mais concreta, e João sabia disso.
O encarregado de acender a tocha era o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, futuro idealizador da Ação da Cidadania, a famosa Campanha contra a Fome. Nascia ali uma aliança sui generis. Exilado durante a ditadura militar, Betinho encarnava a crítica ao autoritarismo e ao grande capital. Era símbolo da esquerda pura. João Augusto era filho de militar e dono de uma das construtoras que mais cresceram no período autoritário, portanto identificado pela esquerda como “do sistema”. Os dois acabariam fazendo uma ponte rara entre o mundo do ativismo social e o do dinheiro e da influência.
Betinho apenas deu a partida ao ato. Sua fragilidade física, como hemofílico portador de Aids, não lhe permitia acompanhar os demais. Muitos outros abandonariam a marcha pelo meio, dada a enorme extensão do percurso — uma maratona, perto das passeatas na Rio Branco. Entre os que resistiriam até o fim havia outra pessoa muito importante para João. Mas ele não sabia disso, nem ela, nem sequer se cruzaram aquele dia. Também era empresária, mas estava querendo deixar de ser. Andaram quilômetros quase lado a lado, sem se olhar nem pressentir que estavam prestes a mudar o destino um do outro.
Na verdade, não andaram. Bia Saldanha estava de bicicleta. Vinha acompanhada do filho único, que se equilibrava em sua própria bicicleta sem rodinhas e, aos 4 anos, pedalava na velocidade de um garoto de 10. A casa do menino estivera cheia na véspera até a madrugada. A mãe recebera um grande grupo de amigos para preparar adereços que simulariam uma floresta tropical na orla do Rio. Todos beberam e riram até altas horas, mas o que os excitava e adiava o sono aquela noite era a perspectiva concreta de salvar a Amazônia. Acreditavam mesmo que estavam fazendo isso.
Recém-separada de seu primeiro marido, Bia estava, aos 25 anos, prestes a se separar também de seu primeiro negócio. Tinha uma butique em Ipanema de roupas leves e coloridas que vestiam a nata do beautiful people praiano. O sucesso precoce como empresária de moda não lhe subira à cabeça. Ao contrário, queria a cabeça livre para outras coisas, não sabia precisamente o quê.
Se perguntassem, dizia que queria ser militante. Corria o sério risco de não ser levada a sério, mas não seria novidade. Já passara por isso quando dissera, aos 18 anos, que queria ser empresária. Os que a conheciam de perto preferiam não duvidar mais.
Vestir jovens beldades cariocas não tinha mais graça. O que a seduzia agora era vestir os defensores da floresta, de preferência o próprio Chico Mendes. Bia vinha se aproximando do embrião do Partido Verde, que Gabeira tentava estruturar no Brasil. Uma das campanhas para oficializar o PV seria a produção de camisetas com o slogan “Legalize” — importado do refrão “Legalize mar_juana”, cantado por Bob Marley —, com o duplo sentido de legalização da m_conha e do partido.
O designer Jair de Souza criou a marca e Bia produziu a camiseta. Era uma peça sofisticada, com oito cores, de difícil aplicação e custo alto. Ou seja: ficou linda, mas inútil para legalizar o partido. Estética 1 x 0 política.
Mesmo assim, um número limitado de camisetas “Legalize” foi produzido, e a certa altura alguém teve a idéia de enfiar uma em Chico Mendes. Um seringueiro que estava ali para defender seu povo sofrido não ficaria à vontade vestindo um slogan pró-drogas. Mas Chico ficou. Disse que o PV era uma boa causa e foi em frente. O caipira era, na verdade, um cosmopolita. Agora vestido pela empresária-militante Bia Saldanha.
Ao cruzar a divisa entre Leblon e Ipanema, a passeata estava em seu momento mais robusto. Já colhera boas adesões e as desistências ainda não tinham começado. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas foram se juntando ao grupo, que não gritava palavras de ordem e tinha sérios problemas de coesão (se fosse uma escola de samba seria um desastre), mas ao menos já se distinguia do simples passeio dominical. Nem os jornalistas, nem os passantes sabiam direito quem eram aquelas pessoas, mas os primeiros ainda pareciam receptivos à coisa. Os outros, nem tanto.
E chegou a hora em que a turma da sunga e do biquíni veio tirar satisfações. Os mais encrespados estavam, a rigor, de bermudões e chinelos, já não eram jovens e faziam o tipo síndico-xerife. Foram direto para cima do carregador da tocha, sabendo que assim barrariam a marcha.
Quem estava com o fogo simbólico naquele momento era o jornalista e ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis, recém-eleito vereador. Ao lado dele estava o caipira baixote gorducho, de bigode cafona, que também parou de caminhar. Mas ninguém nem falou com ele. Estava claro que o louro alto de voz trovejante e tocha na mão era o líder.
O grupo de moradores contrariados foi claro: a passeata estava tumultuando a área de lazer dominical e, para piorar, alguns carros da imprensa tinham entrado na pista fechada da Vieira Souto. A manifestação não poderia prosseguir, anunciaram.
Sirkis reagiu indignado, afirmando que ali estava em jogo uma causa importante para o Brasil e que os moradores eram uns alienados. A cada argumento de parte a parte, a possibilidade de entendimento diminuía.
Enquanto na Amazônia avançavam o fogo e a conspiração para assassinar Chico Mendes, ele permanecia refém do bate-boca praiano, espremido entre o vereador e o síndico. Anônimo, barrado em Ipanema.
Para o Brasil urbano, ainda não fazia sentido aquele papo de seringueiro. Chico Mendes não dava samba, nem notícia. A preocupação com a devastação da Amazônia existia, mas era difusa. A maior floresta tropical do mundo era um símbolo para os brasileiros, mas continha sensações misturadas de orgulho e de atraso. Era a região remota dos índios e onças, do rio-mar e seus superlativos enciclopédicos, das reportagens de Amaral Netto sobre a pororoca, da natureza mítica e indomável.
Aos olhos do Sudeste, o personagem de Chico Mendes não se encaixava nesse cenário bíblico. Parecia só um camponês metido numa briga por terra.
João Augusto e seus parceiros tentavam cavar matérias de jornal sobre o “empate” dos seringueiros do Acre, sem sucesso. Não havia sequer dados sistematizados sobre a taxa global de desmatamento da Amazônia, e não seria uma briga de vizinhos de seringal que ia dar manchete. Mas, se a profecia macabra do líder seringueiro estivesse certa, não daria para esperar pela sensibilidade dos editores.
O empresário não teve dúvidas: Chico Mendes não poderia voltar para o Acre. Era preciso escondê-lo no Rio até que conseguissem algum controle sobre a situação.
O vento não atrapalhou e a faixa de 50 metros de altura vestiu o Pão de Açúcar com o grito pela floresta. A faixa era de juta da cor da pedra, de modo que as imensas letras brancas pareciam levitar sobre o costão. A estética mais uma vez dava uma mão à política, atraindo as TVs e os jornais para a propagação de uma mensagem meio sumária, meio telegráfica — mas, de qualquer forma, uma mensagem.
Lá embaixo a passeata desenguiçou. Não que o síndico e o vereador tivessem se entendido. O deputado estadual Carlos Minc, um dos líderes da manifestação, até conseguira baixar a temperatura do bate-boca. Mas quem resolveu a parada foi o caipira anônimo. Vendo que a discussão ia longe, Chico Mendes simplesmente pegou a tocha da mão de Sirkis e saiu andando em frente, sozinho, sem olhar para trás. Foi um ato tão singelo, silencioso e firme que ninguém teve o impulso de tentar detê-lo.
Quando os contendores assimilaram a cena, Chico já ia longe, passo firme, decidido a apagar o fogo simbólico da destruição. A passeata não teve alternativa senão recompor-se atrás dele.
O Fantástico mostrou a montanha pedindo a salvação da floresta, e a cerimônia de afogamento da tocha. Mas Chico Mendes continuou anônimo e a temperatura da sua fornalha acreana foi subindo. Em 9 de dezembro, quando chegou ao Rio anunciando sua própria morte, ouviu a proposta de João Augusto: não voltar mais para o Acre. Receberia todos os meios para comandar sua luta baseado no Rio de Janeiro, enquanto seu Tibete amazônico estivesse dominado pelos pistoleiros.
Não havia muito tempo para pensar na resposta. E Chico nem piscou. Disse que ficar fora de sua terra era morrer por antecipação. Não dava para salvar a Amazônia de Ipanema.
Mais uma vez a determinação serena do líder, agora dramatizada pela situação-limite, impressionou João. Mas o brilho tinha sumido dos olhos de Chico. Ele já sabia que não tinha chance.
O empresário não jogou a toalha. Se a opinião pública e o Estado não se mexiam para salvar a vida do líder florestal, por que não montar uma pequena brigada particular? João passou a consultar colegas que tivessem a mistura suficiente de dinheiro e sensibilidade para montar a operação. Sirkis, que fora seu primeiro elo com Chico Mendes, coordenou a missão. Na luta contra a privatização da floresta pelos grileiros, o jeito era privatizar a segurança do maior inimigo deles.
Enquanto isso, a guerra da comunicação continuava. O jornalista Edilson Martins, acreano radicado no Rio, resolveu fazer com Chico Mendes a entrevista que nenhum grande veículo de comunicação se interessara em fazer. Depois ofereceria o peixe pronto, talvez ficasse mais atraente.
Vibrante e arrojado, Edilson tentava romper a barreira do desinteresse pelo Acre, começando a mostrar que ali brotava um dos principais focos de resistência à destruição da Amazônia. Foi se aproximando dos editores da grande imprensa carioca e paulista com seu jeito meio engajado, meio irreverente. Certa vez, convenceu o colega Elson Martins da Silveira a parar de assinar o último sobrenome. Ficariam assim com identidades quase gêmeas — Edilson Martins e Elson Martins, ambos jornalistas acreanos —, pelo puro prazer de confundir os outros.
No meio da labuta na selva sem lei, de vez em quando se encontravam para devolver ao verdadeiro dono as cartas, as congratulações e também as ameaças recebidas em nome do outro. Tinham achado um jeito de se divertir na guerra.
Um dos editores de quem Edilson Martins começara a se aproximar era Zuenir Ventura, expoente do Jornal do Brasil. A entrevista com Chico Mendes estava feita, e o lead era simples: ele anunciava que ia ser morto. Mas isso também podia não querer dizer muito. Sempre houve uma razoável quantidade de paranóicos e oportunistas avisando às redações que estavam sendo ameaçados de morte.
Acabaram valendo, nesse caso, o carisma do repórter e a intuição do editor. Zuenir se convenceu de que tinha uma matéria importante nas mãos. Decidiu que a publicaria. Mas não queria publicá-la numa página interna qualquer do jornal. Achou que Chico Mendes deveria ser a capa do Caderno B Especial, então o principal suplemento dominical da imprensa brasileira. O problema era que a capa do B Especial era mais concorrida que terra de seringueiro. A edição seguinte, do dia 18 de dezembro, já estava comprometida, e a matéria de Edilson teria que esperar o outro domingo.
João Augusto comemorou a aprovação da matéria no JB. Mas tocou seu plano em frente. No dia 22, uma quinta-feira, reuniu numa grande sala da João Fortes Engenharia o grupo que patrocinaria o esquema de segurança particular de Chico Mendes. Definiram a quantia, reuniram o dinheiro e tomaram as providências para que já na segunda-feira após o Natal, dia 26, o esquema pudesse ser posto em prática. Aí esperariam a repercussão da matéria de Edilson Martins para capturar a atenção das autoridades para o caso.
Desde que começara a se interessar pela contribuição com causas ecológicas, João nunca se sentira fazendo algo tão concreto em defesa do meio ambiente. Estava animado com aquela relação direta com o missionário da floresta.
No início dos anos 70, sua geração se dividira entre os que pegaram em armas contra a ditadura, os que se deixaram enquadrar e os que foram fumar mac_nha em Búzios. Alfredo Sirkis estava no primeiro grupo. João não estava em nenhum. Largou a faculdade, se mandou para Londres, e intrigava os amigos dizendo que sua causa era decifrar e defender a Amazônia. Mais de 15 anos depois, sua causa já não parecia tão exótica, e ele, que sempre preferira as pessoas às idéias, era agora aliado de um legítimo líder amazônico.
O bem-estar com sua ação concreta em defesa da floresta, porém, durou só algumas horas. No final da noite, Sirkis telefonou para sua casa informando que Chico Mendes estava morto.
No dia seguinte, sexta-feira 23, a sala da João Fortes onde ocorrera a reunião sobre Chico Mendes estava em festa. Na confraternização de fim de ano dos funcionários da empresa, destacava-se um coral cantando o “Jingle Bells” a plenos pulmões. O som chegava até o andar inferior quase deserto, e encobria os soluços do ocupante solitário da sala das secretárias da diretoria. João Augusto não parava de chorar, nem de tentar um sinal de fax do outro lado do oceano.
Tinha em mãos uma cópia da matéria de Edilson Martins, que chegara tarde demais. Zuenir Ventura ainda convencera os editores do JB a publicar a entrevista póstuma do caipira anônimo na primeira página do jornal. O fax iria para uma jornalista brasileira em Londres, contatada às pressas por João para traduzir para o inglês a entrevista de Chico (agora encabeçada pela notícia trágica), e espalhá-la pelas agências de notícias internacionais. Enfim, para botar a boca no mundo, já que o Brasil estava surdo.
Quando o sinal do fax londrino apitou e João começou a empurrar o papel máquina adentro, ouviu a voz de Chico Mendes: “Se pelo menos os seringueiros e os índios parassem de morrer à toa, podia ser que a minha morte valesse a pena.” A frase triste dita 15 dias antes voltava à cabeça do empresário, exatamente no tom sereno que a ouvira de Chico, agora lhe provocando calafrios.
Nunca vira alguém apontar para o seu próprio filme e dizer “essa é a hora em que eu morro”. Imaginando sua mensagem brotando do fax na Europa, quis responder a Chico que aquela era a hora em que não te deixamos morrer em vão.
Na verdade, não tinha certeza disso. Nem de nada. Talvez o mundo não mudasse um milímetro com a morte do líder seringueiro. No meio da dor, só uma constatação se impunha inexorável, ecoando a última decisão de Chico Mendes: não dava para salvar a Amazônia de Ipanema.
A Ipanema que barrara Chico Mendes à beira-mar começava a ficar um lugar mais distante também para outra participante daquela passeata.
Bia Saldanha decidira fechar sua butique Cores Vivas, na Visconde de Pirajá com Aníbal de Mendonça. Quando a notícia da morte do líder amazônico explodiu mundo afora, a partir de centelhas como o fax de João Augusto, jornais de vários países (agora incluindo o Brasil) passaram a publicar fotos do caipira que finalmente começava a sair do anonimato. E, na maior parte dessas publicações, Chico Mendes aparecia vestindo a camiseta “Legalize” produzida por Bia na Cores Vivas.
Na imagem que ganhou o mundo, porém, as cores não estavam mais vivas. Era hora do adeus a Ipanema.
Mas ir para onde? Do alto de seus 4 anos de idade, Zé Roberto, o filho velocista que atravessara os seis bairros da passeata no pelotão dianteiro, deu a pista. Quis saber da mãe se agora, sem Chico Mendes, “eles vão destruir tudo”. Era o seu jeito de perguntar: “O que você vai fazer?” Ela não sabia. Só sabia que, fosse o que fosse, era para esse lado que a sua vida iria.
A bússola interna apontava para a floresta. Mas salvar a Amazônia montando árvores cenográficas numa noitada no Jardim Botânico era uma coisa; floresta de verdade — e a execução de Chico Mendes trazia esse recado — era outra. Como já dissera Fernando Gabeira, alertando os candidatos a heróis ecológicos, a floresta gosta de engolir aqueles que entram nela para salvá-la. E foi na casa de Gabeira que Bia colheu a primeira pista sobre qual caminho seguir — não exatamente seguro, mas, de qualquer forma, um caminho.
Era uma reunião política dessas que juntam gente de várias tribos, e acaba não se sabendo direito quem convidou quem. No meio dessa fauna, chamou sua atenção um personagem peculiar. Um empresário que parecia militante, que parecia pragmático, que parecia sensível, que parecia rico. Um cara diferente. Aparentemente despojado. Certamente poderoso.
Bia mal trocou meia dúzia de palavras com ele, mas guardou seu nome: João Augusto Fortes. E guardou também outra informação essencial: seu telefone. Não sabia quando, nem por que, mas estava certa de que chegaria o dia de ligar para ele.
O dia chegou quando, na seqüência da morte de Chico Mendes, Bia desistiu de ser dona de butique. Antes de fechar a Cores Vivas, ainda tentou uma transição com um projeto ao ar livre, em parceria com Gabeira. Era uma série de camisetas com estampas ecológicas criadas por artistas plásticos consagrados, numa espécie de loja itinerante — montada num triciclo — que estaria cada dia num ponto da cidade. Chamava-se “Descamisados”, parodiando o bordão populista do presidente eleito Fernando Collor.
A iniciativa foi um sucesso de crítica e um fracasso de público. O triciclo e sua freguesia pareciam não freqüentar as mesmas esquinas. A “loja” precisava se deslocar com agilidade para os pontos de convergência de gente in. O piloto da engenhoca era o ator Paulinho Miranda, um baiano esguio bom de prosa, meio filósofo, muito querido no Rio. Infelizmente o triciclo não era movido a charme. E era pesado. Pedalá-lo era uma certa estiva, e o forte de Paulinho eram o pensamento e a contemplação. A loja itinerante, evidentemente, enguiçou.
Entre os poucos que se deslumbraram com os “Descamisados” estava João Augusto. Quando Bia telefonou, já havia portanto algum vento a favor dela. Mesmo antes, na casa de Gabeira, a jovem estilista já havia chamado a sua atenção. Não exatamente por seu talento.
Diante de um punhado de personalidades cariocas ali reunidas — gente como o maestro John Neschling e sua mulher, Lucélia Santos, o psicanalista Luiz Alberto Py, Alfredo Sirkis, a promoter Lucia Sweet, o ecologista Guido Gelli (autor da idéia de Chico Mendes apagar a tocha), o sociólogo Liszt Vieira, o próprio Gabeira e outros notáveis —, Bia pediu a palavra.
A moça morena de longos cabelos eriçados e olhos apertados — ali especialmente apertados pela fumaça ingerida — não parecia inibida pela audiência vip, e começou a expor com firmeza e entusiasmo seu pensamento. Seu discurso estava prestes a fazer sentido quando ela, misteriosamente, parou de falar. Talvez fosse uma pausa, e todos esperaram em silêncio que ela retomasse a linha de raciocínio. Mas ela não retomaria.
Tranqüilamente, abortou sua própria fala com um comentário singelo, como se estivesse numa roda de amigos à beira-mar:
— Dispersão é f_da.
Bia simplesmente tinha se esquecido do que estava falando.
O constrangimento da situação poderia tê-la reduzido a pó, mas ela não se abalou. Aquela mistura de espontaneidade com petulância valeu mais que mil palavras inteligentes. E estava só começando a impressionar João.
Com o mesmo desprendimento com que pediu a palavra (e a devolveu pela metade) na reunião política, Bia ligou para o empresário que mal conhecia. Decidira que ele teria uma resposta para sua difícil equação pessoal: a) queria deixar de ser dona de loja; b) queria virar militante; c) tinha uma casa para sustentar. João atendeu-a logo na primeira tentativa, e ela foi direta: disse que estava fechando a Cores Vivas e queria trabalhar na área de meio ambiente. Com ele.
João também foi direto:
— Não feche a sua loja. Não tem trabalho nessa área.
Como de hábito, Bia não se abateu. Continuou falando como se não tivesse acabado de ouvir a palavra “não” duas vezes. Mas dessa vez não se dispersou. Disse que estava decidida a ser ambientalista, e mais: que sabia que ia haver uma conferência mundial de meio ambiente no Brasil, e também sabia que João estava envolvido na organização dela. Era um megaevento sobre o qual pouquíssima gente ainda sabia, ou seja, no mínimo a moça era bem informada.
Aí foi o empresário quem a surpreendeu. Não só insistiu para que Bia não fechasse a Cores Vivas, como se ofereceu para entrar como sócio na loja. Ela não entendeu nada. Ele explicou:
— Pra que você quer ser ecologista? Já tem um monte por aí. O que falta é empresário. Empresário com uma visão como a que você já tem. Meio ambiente tem que dar resultado, tem que dar lucro. Senão a gente nunca vai poder dizer que, no mundo real, vale a pena a floresta ficar em pé.
Tinha baixado Chico Mendes no discurso de João. Nas conversas com o líder seringueiro, ele descobrira o quanto aquele personagem de um mundo arcaico tinha uma concepção moderna dos seus problemas. Chico não queria mesada para seringueiro nem favor para índio. Queria apenas conectar os “povos da floresta” ao mercado.
Nunca se ouvira nada parecido vindo das várzeas amazônicas. Chico Mendes era um ribeirinho que conhecia Karl Marx e Adam Smith. Entendera que uma árvore não cai se tiver sustentação econômica e mercadológica. Fora assassinado por isso. Fazendeiros, madeireiros e grileiros nunca se importaram com os que defendiam a floresta como um jardim. Sabiam que esses messias se derretem ao primeiro contato com a vida real. Mas um sujeito que propagava a floresta como meio de vida era perigoso demais.
Os sons finais e agonizantes do ensaio geral deixaram os atores do Grupo de Teatro Laurel sem mais o que fazer senão ficar ali, calados e imóveis, piscando os olhos diante das luzes do palco e do auditório vazio. Mal ousavam respirar, enquanto a figura diminuta e solene do diretor emergia dentre os assentos desocupados para se juntar à trupe no palco, arrastando uma escada dos bastidores e subindo alguns degraus para dizer-lhes, pigarreando várias vezes, que eram um grupo supertalentoso, um grupo maravilhoso com o qual se trabalhar.
— O trabalho não tem sido fácil — ele disse, os óculos cintilando sobriamente pelo palco. — Tivemos muitos problemas e, francamente, eu já tinha até me conformado em não esperar demais. Mas ouçam bem; talvez seja piegas dizer isso, mas algo aconteceu aqui esta noite. Hoje, sentado ali, de repente eu percebi que vocês todos estavam se entregando ao trabalho com todo o coração pela primeira vez.
Espalmou os dedos de uma das mãos sobre o bolso da camisa, para mostrar como o coração era algo simples, físico; em seguida, transformou a mão num punho, sacudido lentamente, em silêncio, em meio a uma pausa longa e dramática, fechando um dos olhos e deixando o lábio inferior, umedecido, enrugar-se e formar uma careta de triunfo e orgulho.
— Repitam isso amanhã à noite — ele disse — e teremos uma baita apresentação.
Quase choraram de alívio. Em vez disso, trêmulos, aplaudiram, riram e trocaram apertos de mão e beijos, alguém saiu para comprar uma caixa de cerveja e cantaram em volta do piano que havia no auditório até que chegou a hora, segundo o consenso geral, de parar e ter uma boa noite de sono.
— Até amanhã! — exclamaram, felizes como crianças, e a caminho de casa, sob a luz da lua, abriram as janelas dos carros e deixaram que o ar entrasse com os aromas saudáveis da terra e dos brotos das flores. Era a primeira vez que muitos dos integrantes do Grupo de Teatro Laurel se permitiam constatar a chegada da primavera.
Corria o ano de 1955 e o local era uma região a oeste de Connecticut, onde três vilarejos inchados tinham sido unidos por uma rodovia larga e barulhenta chamada Rota 12. O Grupo Laurel era uma trupe amadora, ainda que dispendiosa, e era séria, criteriosamente recrutada entre os jovens adultos dos três vilarejos, e aquela seria a sua primeira produção. Reunidos durante todo o inverno nas salas de estar de residências de membros do grupo, onde discutiam Ibsen, Shaw e O’Neill, e onde a maioria sensata elegeu A Floresta Petrificada, e onde mais tarde escolheram os papéis, os integrantes da trupe sentiam que o seu comprometimento ficava mais forte a cada semana. Na intimidade talvez considerassem o diretor um homenzinho cômico (e era, de certo modo: parecia incapaz de falar de outra maneira, senão com total seriedade, e muitas vezes concluía um comentário com um leve meneio de cabeça que lhe fazia tremer as bochechas), mas gostavam dele e o respeitavam, e acreditavam piamente na maioria das coisas que ele dizia. “Qualquer peça merece o melhor que o ator pode dar”, disse a eles uma vez, e em outra ocasião afirmara: “Lembrem-se disso: não estamos apenas montando uma peça. Estamos criando um teatro comunitário e isso é muito importante.”
O problema era que desde o começo tinham receio de passar por tolos, e o temor se tornara mais forte porque receavam admiti-lo. A princípio, os ensaios eram realizados aos sábados — sempre, ao que parecia, naquelas tardes sem vento, típicas de fevereiro ou março, quando o céu está branco, as árvores negras, os campos amarronzados e as colinas da terra jazem desnudas e delicadas entre coalhadas de neve engelhada. Os atores, saindo de casa pela porta da cozinha e hesitando um instante ao abotoar o casaco ou calçar as luvas, contemplavam uma paisagem na qual se encaixavam apenas algumas casas antigas e dilapidadas; a visão fazia com que as casas deles próprios parecessem frágeis e efêmeras, futilmente dispostas como brinquedos novos e coloridos deixados ao relento, na chuva. Tampouco os carros tinham aspecto adequado — grandes demais e reluzentes, em tons de confeitos e sorvete, parecendo se assustar com cada respingo de lama, arrastavam-se encabulados pelas estradas que, vindas de todas as direções, davam acesso ao pavimento chapado e profundo da Rota 12. Uma vez na rodovia ficavam tranqüilos, em seu ambiente natural, um vale extenso e luminoso, de plástico e vidro colorido e aço inoxidável — KING KONE, MOBILGAS, SHOPORAMA, RESTAURANTE —, mas eram obrigados a sair da auto-estrada, um por um, e subir pela tortuosa vicinal que levava ao prédio da escola secundária; eram obrigados a parar no plácido estacionamento em frente ao auditório da escola.
— Oi! — os atores se saudavam, timidamente.
— Oi!... Oi!... — e entravam, hesitantes.
Pisando duro com suas galochas pelo palco, assoando o nariz com Kleenex e franzindo o cenho diante da impressão ruim dos roteiros, finalmente quebravam o gelo com gargalhadas benevolentes e estrepitosas, e concordavam, repetidas vezes, que haveria tempo suficiente para aparar as arestas. Mas não haveria tempo suficiente, todos sabiam disso, e a constante aceleração do ritmo de ensaios só servia para piorar a situação. Muito tempo depois do prazo estipulado pelo diretor para “fazer a coisa decolar, fazer a coisa acontecer”, tudo continuava estático, amorfo, um fardo cujo peso era desumano; por vezes, os atores liam a promessa de fracasso nos olhos dos colegas, nos acenos e sorrisos de desculpas das despedidas, e na pressa convulsiva com que seguiam para os carros e iam para casa ao encontro de promessas anteriores e menos explícitas de fracasso que porventura estivessem à sua espera.
E agora, naquela noite, faltando apenas vinte e quatro horas, eles tinham conseguido fazer a coisa funcionar. Inebriados com a sensação estranha da maquiagem e do figurino, naquela primeira noite cálida do ano, esqueceram o temor: deixaramse levar pelo movimento da peça, quebrando como uma onda; talvez fosse pieguice (e daí que fosse?), mas todos tinham se dedicado ao trabalho, de coração. Alguém poderia desejar mais do que isso?
O público, chegando na noite seguinte numa comprida serpente de carros, mostrava-se igualmente compenetrado. À semelhança dos atores, a maioria do público não tinha chegado à meia-idade, e vinha bem-vestido, trajando roupas que as lojas de Nova York chamam de “esporte fino”. Qualquer um podia perceber que era um público acima da média, em termos de formação educacional, status profissional e vitalidade, e era igualmente óbvio que se tratava de uma noite importante. Todos sabiam, evidentemente, e o afirmavam repetidas vezes, enquanto entravam e ocupavam seus assentos, que A Floresta Petrificada estava longe de ser uma das grandes peças da dramaturgia mundial. Mas, afinal, tratava-se de um bom texto cuja temática era tão válida hoje quanto nos anos 30 (“Ainda mais válida”, um sujeito repetia para a esposa, que mordia os lábios e assentia, percebendo o que ele queria dizer; “ainda mais válida quando a gente pára e pensa na questão”). O principal, no entanto, não era a peça em si, mas o grupo — a idéia ousada, a perspectiva salutar e esperançosa: o nascimento de um bom teatro comunitário, bem ali, no meio daquele público. Isso os atraíra em número suficiente para ocupar mais da metade do auditório, e os mantinha quietos e tensos, prontos para se deleitarem quando as luzes do auditório diminuíssem.
A cortina se abriu diante de um cenário cuja parede de fundo ainda tremia com o impacto da fuga do contra-regra no último minuto, e as primeiras falas do diálogo foram abafadas por ruídos inoportunos, um ranger e bater proveniente das coxias. Aquelas pequenas trapalhadas sinalizavam o crescente nervosismo do Grupo de Teatro Laurel, mas, para quem estava além das luzes do palco, os incidentes serviam apenas para aumentar a sensação e a proximidade do sucesso. Pareciam dizer em tom cativante: “Esperem um pouco; ainda não começou. Estamos um pouco nervosos, mas, por favor, tenham paciência.” E logo já não havia necessidade de pedir desculpas, pois o público contemplava a jovem que fazia o papel da heroína, Gabrielle.
Seu nome era April Wheeler, e um murmúrio de “adorável” rolou pelo auditório na primeira vez em que ela atravessou o palco. Seguiram-se cutucadas e sussurros, “ela é boa”, bem como meneios orgulhosos entre as várias pessoas que sabiam que ela freqüentara uma das melhores escolas de teatro de Nova York havia menos de dez anos. Era loura e alta, tinha 29 anos, uma beleza nobre que a iluminação amadora não conseguia distorcer, e parecia perfeita no papel. Não importava que duas gestações a houvessem deixado um pouco pesada nos quadris e nas pernas, pois ela se movia com a graça tímida e sensual da virgindade; quem passasse os olhos por Frank Wheeler, o jovem de rosto redondo e ar inteligente que mordia as juntas do próprio punho na última fileira da platéia, diria ser ele o pretendente e não o marido.
“Às vezes sinto-me como se estivesse fervendo”, ela dizia, “e quero sair e fazer algo que seja simplesmente louco e maravilhoso...”
Nos bastidores, amontoados e na escuta, os demais integrantes da trupe sentiram por ela um amor súbito. Ou ao menos se dispunham a amá-la, inclusive os que tinham levado a mal a esporádica falta de humildade demonstrada nos ensaios, pois, de repente, ela era a única esperança do grupo.
Naquela manhã, o protagonista fora acometido de indisposição intestinal. Chegara ao teatro ardendo de febre, insistindo que estava em condições de atuar, mas, cinco minutos antes de a cortina se abrir, começara a vomitar no camarim, e o diretor não teve escolha senão mandá-lo para casa e assumir o papel ele próprio. A coisa foi tão rápida que ninguém teve tempo de pensar em anunciar a substituição; alguns dos atores que desempenhavam papéis menores sequer perceberam a mudança até ouvirem a voz do diretor, em cena, enunciando as falas do colega. O diretor se esmerava e falava com um polimento quase profissional, mas não havia como negar que o papel de Alan Squiers não lhe caía bem — atarracado, meio calvo e quase cego, sem os óculos, que se negava a usar no palco. Desde o momento em que entrou em cena, levou os coadjuvantes a atravessar o diálogo e esquecer a marcação, e agora, no meio de sua fala mais importante do primeiro ato, fala essa que versava sobre seu próprio sentimento de inutilidade — “Sim, cérebro sem propósito; ruído sem som; forma sem substância” —, com uma das mãos ele virou um copo, entornando água na mesa. Tentou disfarçar, com uma risadinha e uma série de frases improvisadas — “Está vendo? Sou mesmo inútil. Deixa, deixa que eu ajude a secar” —, mas o restante da cena foi um fracasso. O vírus da calamidade, latente e ameaçador durante todas aquelas semanas, tinha agora aflorado, transmitido pelo protagonista indisposto, e contagiado o elenco inteiro, exceto April Wheeler.
— Você não gostaria de ser amado por mim? — ela dizia.
— Sim, Gabrielle — dizia o diretor, brilhando de suor. — Eu gostaria de ser amado por você.
— Você me acha atraente?
Embaixo da mesa, a perna do diretor começou a tremer, impulsionada pelo pé arqueado.
— Existem palavras que melhor te definem.
— Então, por que não arriscamos?
Ela atuava sozinha e, visivelmente, perdia forças a cada fala. Antes do final do primeiro ato, o público e os demais atores já percebiam que ela perdera o elã, e o constrangimento era geral. Começara a alternar entre falsos gestos teatrais e uma imobilidade de punhos cerrados; mantinha os ombros rígidos e, apesar da maquiagem pesada, era possível ver o rubor da humilhação subir-lhe ao pescoço e às faces.
Em seguida deu-se a vigorosa entrada em cena de Shep Campbell, um jovem engenheiro ruivo e troncudo que fazia o papel do gângster Duke Mantee. Desde o início Shep fora motivo de preocupação para a trupe, mas ele e a esposa, Milly, que ajudava com os adereços de cena e a publicidade, eram tão entusiasmados e amáveis que ninguém tivera coragem de sugerir sua substituição. Agora, como resultado da tolerância e do sentimento de culpa do próprio Campbell em relação a tal tolerância, ele esqueceu uma das falas principais, disse outras em tal velocidade e com volume tão baixo que as tornaram incompreensíveis além da sexta fileira, e se portou mais como um obsequioso empregado de mercearia, meneando a cabeça, mangas arregaçadas, do que como um fora-da-lei.
Durante o intervalo o público se espalhou, desconcertado, para fumar e caminhar um pouco, formando grupinhos pelo corredor da escola, examinando o painel de avisos e enxugando as palmas das mãos nas calças bem cortadas e nas charmosas saias de algodão. Ninguém queria voltar e se submeter ao segundo e último ato, mas todos voltaram.
E voltaram também os atores, cujo único pensamento agora, tão evidente quanto o suor que lhes escorria pelas faces, era acabar com aquela experiência infeliz quanto antes. Tinha-se a impressão de que a peça se arrastava durante horas, um teste de resistência cruel e prolongado no qual a atuação de April Wheeler foi tão ruim quanto a dos demais, se não pior. No clímax, quando a rubrica assinala que o sofrimento da cena final seja pontuado por disparos feitos na coxia e estampidos da automática de Duke, Shep Campbell errou o timing dos disparos, e o som dos tiros dados na coxia foi tão alto que as palavras dos amantes se perderam num pandemônio de barulho e fumaça. Quando finalmente a cortina se fechou, foi um golpe de misericórdia.
O aplauso, não muito intenso, foi devidamente demorado para ensejar duas chamadas dos atores de volta ao palco, numa das quais, quando a cortina se abriu, os atores, já quase na coxia, deram meia-volta e se esbarraram, e na outra os três protagonistas surgiram num quadro vivo de desolação: o diretor piscando em sua miopia, Shep Campbell exibindo a devida expressão de ferocidade pela primeira vez naquela noite, April Wheeler paralisada com um sorriso formal.
Em seguida, as luzes do auditório foram acesas, e ninguém na platéia sabia como se comportar ou o que dizer. Ouvia-se a voz hesitante da sra. Helen Givings, a corretora de imóveis, repetindo “Muito bom” diversas vezes, mas a maioria das pessoas se mantinha calada e tensa, apalpando maços de cigarros enquanto se levantava e deixava seus assentos. Prontamente, um aluno da escola, a quem coubera naquela noite ajudar na iluminação, pulou para o palco e se pôs a dar instruções a um companheiro invisível posicionado no urdimento. Pouco à vontade, o rapaz não tinha escolha senão ficar diante das luzes, preocupado em manter a maioria das espinhas do rosto no lado da sombra, e exibindo com orgulho as ferramentas de eletricista profissional — faca, alicate, rolos de fio — penduradas à cintura, num cinto de couro polido, e caídas sobre a parte traseira e rígida do macacão. A fileira de luzes logo se apagou, o rapaz deixou o palco timidamente e a cortina se transformou numa insípida parede de veludo verde desbotado e manchado de poeira. Nada havia para se ver agora, exceto as fisionomias das pessoas, enquanto subiam pelos corredores e se retiravam pelas portas da frente. Ansiosos, de olhos arregalados, de dois em dois, os indivíduos se deslocavam como se uma fuga calma e ordeira daquele lugar fosse a maior urgência de suas vidas; como se, na verdade, não pudessem sobreviver até que estivessem longe das ondas de nuvens rosadas causadas pelos escapamentos e da brita ruidosa do estacionamento, longe, onde o céu negro se estendia eternamente e havia centenas, milhares de estrelas.
X-Men Origins: Wolverine, quarto filme da série X-Men, dirigido por Gavin Hood e estrelado por Hugh Jackman, Liev Schreiber, Ryan Reynolds, Dominic Monaghan e Will i Am. Estréia nos cinemas brasileiros prevista para o dia 30 de Abril de 2009.
Sem Querer, Transformo em Pó Minha Professora de Iniciação à Álgebra.
Olhe, eu não queria ser um meio-sangue. Se você está lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho é o seguinte: feche este livro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre seu nascimento, e tente levar uma vida normal.
Ser um meio-sangue é perigoso. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável. Se você é uma criança normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continue lendo. Eu o invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.
Mas, se você se reconhecer nestas páginas — se sentir alguma coisa emocionante lá dentro —, pare de ler imediatamente. Você pode ser um de nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás de você. Não diga que eu não avisei.
Meu nome é Percy Jackson. Tenho doze anos de idade. Até alguns meses atrás, era aluno de um internato, na Academia Yancy, uma escola particular para crianças problemáticas no norte do estado de Nova York.
Se eu sou uma criança problemática? Sim. Pode-se dizer isso.
Eu poderia partir de qualquer ponto da minha vida curta e infeliz para prová-lo, mas as coisas começaram a ir realmente mal no último mês de maio, quando nossa turma do sexto ano fez uma excursão a Manhattan — vinte e oito crianças alucinadas e dois professores em um ônibus escolar amarelo indo para o Metropolitan Museum of Art, a fim de observar velharias gregas e romanas.
Eu sei, parece tortura. A maior parte das excursões da Yancy era mesmo. Mas o sr. Brunner, nosso professor de latim, estava guiando essa excursão, assim eu tinha esperanças.
O sr. Brunner era um sujeito de meia-idade em uma cadeira de rodas motorizada. Tinha o cabelo ralo, uma barba desalinhada e usava um casaco surrado de tweed que sempre cheirava a café. Talvez você não o achasse legal, mas ele contava histórias e piadas e nos deixava fazer brincadeiras em sala. Também tinha uma impressionante coleção de armaduras e armas romanas, portanto era o único professor cuja aula não me fazia dormir.
Eu esperava que desse tudo certo na excursão. Pelo menos tinha esperança de não me meter em encrenca dessa vez. Cara, como eu estava errado. Entenda: coisas ruins me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quinta série, quando fomos para o campo da batalha de Saratoga, e eu tive aquele acidente com um canhão da Revolução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui expulso do mesmo jeito.
E antes disso, na escola da quarta série, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos tubarões do Mundo Marinho, e eu, de alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá para você ter uma idéia.
Nessa viagem, eu estava determinado a ser bonzinho.
Ao longo de todo o caminho para a cidade agüentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruiva e sardenta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaços de sanduíche de manteiga de amendoim com ketchup.
Grover era um alvo fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido de ano muitas vezes, porque era o único na sexta série que tinha espinhas e uma barba rala começando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que o dispensava da Educação Física pelo resto da vida, porque tinha algum tipo de doença muscular nas pernas. Andava de um jeito engraçado, como se cada passo doesse, mas não se deixe enganar por isso. Você precisava vê-lo correr quando era dia de enchilada na cantina.
De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduíche que grudavam no cabelo castanho cacheado dele, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava sendo observado, sob o risco de ser expulso. O diretor me ameaçara de morte com uma suspensão “na escola” (ou seja, sem poder assistir às aulas, mas tendo de comparecer à escola e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de casa) caso alguma coisa ruim, embaraçosa ou até moderadamente divertida acontecesse durante a excursão.
— Eu vou matá-la — murmurei.
Grover tentou me acalmar.
— Está tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim.
Ele se esquivou de outro pedaço do lanche de Nancy.
— Agora chega. — Comecei a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento.
— Você já está sendo observado — ele me lembrou. — Sabe que será culpado se acontecer alguma coisa.
Quando me lembro daquilo, preferiria ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspensão na escola não teria sido nada em comparação com a encrenca em que eu estava prestes a me meter.
O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu. Ele foi na frente em sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos, passando por estátuas de mármore e caixas de vidro repletas de cerâmica preta e laranja muito velha. Eu ficava alucinado só de pensar que aquelas coisas tinham sobrevivido por dois mil, três mil anos.
Ele nos reuniu em volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita para uma menina mais ou menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscrições laterais. Estava tentando ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao meu redor estavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra professora que nos acompanhava, a sra. Dodds, me olhava de cara feia.
A sra. Dodds era aquela professorinha de matemática da Geórgia que sempre usava um casaco de couro preto, apesar de ter cinqüenta anos de idade. Parecia má o bastante para entrar com uma moto Harley bem dentro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando nossa última professora de matemática teve um colapso nervoso.
Desde o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo diabo. Ela me apontava o dedo torto e dizia: “Agora, meu bem”, com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
— Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu me virei e disse:
— Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que eu pretendia.
O grupo inteiro deu risada. O sr. Brunner interrompeu sua história.
— Sr. Jackson — disse ele —, fez algum comentário?
Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
— Não, senhor.
O sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela.
— Talvez possa nos dizer o que esta figura representa.
Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
— É Cronos comendo os filhos, certo?
— Sim — disse o sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito.
— E ele fez isso porque...
— Bem... — eu quebrei a cabeça para me lembrar. — Cronos era o deus-rei e...
— Rei? — perguntou o sr. Brunner.
— Titã — eu me corrigi. — E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs...
— Eca! — disse uma das meninas atrás de mim.
— ...e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs — continuei —, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do grupo.
Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
— Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar nas nossas entrevistas de emprego: “Por favor explique por que Cronos comeu seus filhos.”
— E por que, sr. Jackson — disse sr. Brunner —, parafraseando a excelente pergunta da srta. Bobofit, isso importa na vida real?
— Se ferrou — murmurou Grover.
— Cale a boca — chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo de errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
— Não sei, senhor.
— Entendo. — O sr. Brunner pareceu desapontado. — Bem, meio ponto, sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortaram-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
Grover e eu estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
— Sr. Jackson.
Eu sabia o que vinha a seguir.
Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
— Senhor?
O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora — olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
— Você precisa aprender a responder à minha pergunta — disse ele.
— Sobre os titãs?
— Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
— Ah.
— O que você aprende comigo — disse ele — é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava “Olé!” e nos desafiava, ponta de espada contra giz, a correr para o quadro-negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de C-. Não — ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para sair e comer meu lanche.
A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêndios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando. Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquisitões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
— Detenção? — perguntou Grover.
— Não — disse eu. — Não do Brunner. Eu só gostaria que ele às vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
— Posso comer sua maçã?
Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria de que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas — imagino que tivesse se cansado de roubar dos turistas — e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
— Oops. — Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: “Conte até dez, controle seu gênio.” Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
— Percy me empurrou!
A sra. Dodds se materializou ao nosso lado.
Algumas das crianças estavam sussurrando:
— Você viu...
— ... a água...
— ... parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc. e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo qual ela esperara o semestre inteiro:
— Agora, meu bem...
— Eu sei — resmunguei. — Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
— Venha comigo — disse a sra. Dodds.
— Espere! — guinchou Grover. — Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
— Acho que não, sr. Underwood — disse ela.
— Mas...
— Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente.
— Tudo bem, cara — disse a ele. — Obrigado por tentar.
— Meu bem — latiu a sra. Dodds para mim. — Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu melhor olhar de “vou acabar com a sua raça”. Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada à entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo — meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes. Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta à seção greco-romana. A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um ruído estranho com a garganta, como um rosnado. Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
— Você está nos criando problemas, meu bem — disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
— Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
— Você achou mesmo que ia se safar desta?
A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa. Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar.
Eu disse:
— Eu... eu vou me esforçar mais, senhora.
Um trovão sacudiu o edifício.
— Nós não somos bobos, Percy Jackson — disse a sra. Dodds. — Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos. Confesse, e você sentirá menos dor.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na Internet sem ter nem lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
— E então? — exigiu.
— Senhora, eu não...
— O seu tempo se esgotou — sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas — e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
— Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada — a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos. Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
— Morra, meu bem!
E voou para cima de mim.
Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
Eu estava sozinho. Havia uma caneta esferográfica na minha mão. O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim. Será que eu havia imaginado tudo aquilo? Voltei para o lado de fora. Tinha começado a chover.
Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando me viu, disse:
— Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
— Quem? — respondi.
— Nossa professora. Dãã!
Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando. Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
— Quem? — respondeu ele.
Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
— Não tem graça, cara — disse a ele. — Isso é sério.
Um trovão estourou no alto. Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido.
Fui até ele.
Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
— Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
— Senhor — disse eu —, onde está a sra. Dodds?
Ele olhou para mim com a expressão vazia.
— Quem?
— A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação à álgebra.
Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
— Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
Chovia naquela noite, uma chuvinha fina e murmurante. Ainda depois de muitos anos, bastava Meggie fechar os olhos e ela podia ouvi-la novamente, como se minúsculos dedinhos estivessem batendo em sua janela. Um cão latia em algum lugar na escuridão e, por mais que se virasse de um lado para o outro, Meggie não conseguia dormir.
O livro que ela começara a ler estava debaixo do travesseiro. Cutucava o ouvido dela com a ponta da capa, como se quisesse chamá-la de volta para suas páginas. "Oh, deve ser mesmo muito confortável dormir com uma coisa dura e pontuda debaixo da cabeça", dissera seu pai na primeira vez em que encontrara um volume sob o travesseiro dela. "Confesse, à noite ele sussurra histórias no seu ouvido." "Às vezes, sim!", respondera Meggie. "Mas só funciona com crianças." Em troca, Mo lhe dera um beliscão no nariz. Mo. Meggie nunca chamara o pai de outra maneira.
Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. "O fogo devora os livros", ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro - como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.
A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado, e o estranho quase não passava de uma sombra. Somente seu rosto, virado na direção de Meggie, brilhava lá embaixo. Os cabelos estavam grudados em sua testa molhada. A chuva o encharcava, mas ele parecia não se importar. Estava imóvel, os braços em volta do peito, como se dessa maneira pudesse se aquecer pelo menos um pouco. Assim, ele olhava para a casa de Meggie.
"Preciso acordar Mo!", Meggie pensou. Mas continuou ali sentada, com o coração aos pulos, os olhos fixos na noite, como se o estranho a tivesse contagiado com a sua imobilidade. De repente ele virou a cabeça e Meggie teve a impressão de que olhava diretamente em seus olhos. Ela pulou da cama tão afoita que o livro aberto caiu no chão. Descalça, saiu correndo pelo corredor escuro. Estava frio na velha casa, embora já fosse final de maio. A luz do quarto de Mo estava acesa. Era comum ele ficar lendo até altas horas da noite. Meggie herdara do pai a paixão pelos livros. Quando ela tinha um sonho ruim e ia se refugiar junto dele, não havia nada melhor para fazê-la adormecer do que a respiração calma de Mo ao seu lado virando as páginas de um livro. Nada espantava mais rápido os sonhos ruins do que o barulho das folhas impressas.
Mas a figura na frente da casa não era um sonho.
O livro que Mo estava lendo naquela noite tinha uma capa de pano azul-claro. Também disso Meggie se lembraria mais tarde. Quantas coisas insignificantes ficam gravadas na memória!
- Mo, tem alguém lá fora!
Seu pai ergueu a cabeça e olhou para ela com uma expressão ausente, como sempre fazia quando ela o interrompia na leitura. Sempre demorava alguns instantes até que ele voltasse inteiramente do outro mundo, do labirinto das letras.
- Tem alguém aqui? Você tem certeza?
- Tenho. Ele está olhando para a nossa casa.
Mo pôs o livro de lado.
- O que você leu antes de dormir? O médico e o monstro?
Meggie franziu a testa.
- Mo, por favor! Venha comigo.
Ele não estava acreditando, mas foi atrás dela. Meggie o puxava com tanta impaciência que ele deu uma topada com o dedão do pé numa pilha de livros. E no que mais poderia ser? Havia livros espalhados por toda a casa. Eles não ficavam apenas nas estantes, como na casa das outras pessoas. Não, ali eles se empilhavam debaixo das mesas, em cima das cadeiras, nos cantos dos quartos. Havia livros na cozinha e no banheiro, em cima da televisão e dentro do guarda-roupa, pilhas pequenas, pilhas altas, livros grossos e finos, velhos e novos... livros. Eles acolhiam Meggie de páginas abertas na mesa do café-da-manhã, espantavam o tédio nos dias cinzentos - e de vez em quando alguém tropeçava neles.
- Ele está plantado de pé ali fora! - sussurrou Meggie enquanto puxava Mo para dentro do quarto.
- Ele tem uma cara peluda? Se tiver, pode ser um lobisomem.
- Pare! - Meggie olhou para o pai com uma expressão séria, embora as brincadeiras dele espantassem seu medo. Ela mesma quase já não acreditava mais na figura lá fora na chuva... até ajoelhar-se de novo diante da janela. - Ali! Está vendo? - ela cochichou.
Mo olhou para fora através das gotas de chuva que continuavam a escorrer no vidro, e não disse nada.
- Você não jurou que aqui nunca viria um ladrão, porque não há nada para roubar? - sussurrou Meggie.
- Não é um ladrão - Mo respondeu, mas estava com uma expressão tão séria quando se afastou da janela que o coração de Meggie começou a bater ainda mais depressa. - Vá para a cama, Meggie. A visita é para mim.
E então Mo já não estava mais no quarto - antes mesmo que Meggie pudesse ter perguntado que visita, por tudo neste mundo, podia ser aquela para aparecer daquele jeito no meio da noite. Aflita, ela foi atrás dele, no corredor ouviu-o soltar a corrente da porta e, quando chegou ao vestíbulo, Meggie viu o pai parado em frente à porta aberta.
A noite escura e úmida penetrou na casa, e o barulho da chuva soou alto, ameaçador.
- Dedo Empoeirado! - exclamou Mo para a escuridão. - É você?
Dedo Empoeirado? Que nome era aquele? Meggie não conseguia se lembrar de tê-lo ouvido alguma vez, mas assim mesmo lhe parecia familiar, como uma lembrança muito antiga que não quer tomar forma definida.
Por alguns instantes, tudo permaneceu quieto lá fora. Somente a chuva caía, murmurando e sussurrando, como se de repente a noite tivesse adquirido voz. Então Meggie ouviu passos se aproximarem da casa, e o homem que estava no pátio emergiu da escuridão. O longo sobretudo que ele vestia estava grudado em suas pernas, encharcado de chuva, e, quando o estranho apareceu na luz da frente da casa, por uma fração de segundo Meggie pensou ter visto sobre seus ombros uma cabecinha peluda meter o nariz para fora da mochila e depois se enfiar bem depressa dentro dela novamente.
Dedo Empoeirado passou a manga no rosto molhado e estendeu a mão para Mo.
- Como vai, Língua Encantada? - ele perguntou. - Há quanto tempo!
Mo apertou a mão estendida, com hesitação.
- Muito tempo - ele disse, passando os olhos pelo visitante, como se esperasse ver atrás dele mais uma figura surgir do meio da noite. - Entre, você vai acabar pegando uma pneumonia. Meggie disse que você já está aí fora há um bom tempo.
- Meggie? Ah, é claro.
Dedo Empoeirado deixou que Mo o conduzisse para dentro da casa. Então ele olhou tão demoradamente para Meggie que ela ficou encabulada, sem saber para onde olhar. No final, ela simplesmente retribuiu o olhar.
- Ela cresceu.
- Você se lembra dela?
- Claro.
Meggie notou que Mo deu duas voltas com a chave.
- Com quantos anos ela está?
Dedo Empoeirado sorriu para ela. Era um sorriso estranho. Meggie não conseguia definir se era sarcástico, desdenhoso ou simplesmente tímido. Não retribuiu o sorriso.
- Doze - respondeu Mo.
- Doze? Minha nossa!
Dedo Empoeirado tirou os cabelos encharcados da testa. Eles quase chegavam aos seus ombros. Meggie perguntou-se de que cor seriam quando estivessem secos. Ao redor da boca de lábios finos, sua barba era ruiva como o pêlo do gato sem dono para o qual Meggie colocava uma tigela de leite na frente da casa de vez em quando. A barba por fazer era rala como a primeira barba de um rapaz, e incapaz de esconder as cicatrizes, três longas e pálidas cicatrizes. Elas marcavam de tal forma o rosto de Dedo Empoeirado que parecia que algum dia ele se partira em pedaços e depois fora rejuntado novamente.
- Doze anos - ele repetiu. - É claro. Naquela época ela tinha... três, não é mesmo?
Mo confirmou com a cabeça.
- Venha, vou lhe dar uma roupa seca. - Ele levou o visitante consigo, impaciente, como se de repente tivesse pressa em escondê-lo de Meggie. E disse para ela, por cima dos ombros: - E você vá dormir, Meggie.
Então, sem mais uma palavra, Mo fechou a porta da oficina atrás de si.
Meggie ficou ali esfregando os pés frios um no outro. "Vá dormir, Meggie." Às vezes, quando já era muito tarde, Mo a jogava na cama como um saco de farinha. Outras vezes, depois do jantar, ele corria atrás dela pela casa até que, já sem fôlego de tanto rir, ela se refugiava em seu quarto. E algumas vezes ele estava tão cansado que se esticava no sofá, e ela lhe fazia um café antes de irem dormir. Mas nunca, nunca, ele a mandara para a cama daquele jeito.
Um pressentimento impregnado de medo espalhou-se em seu coração: o de que, com aquele desconhecido, cujo nome soava estranho e mesmo assim familiar, algo ameaçador tivesse invadido sua vida. E Meggie desejou - com tanto fervor que ela própria se assustou - que Mo não tivesse aberto a porta e que Dedo Empoeirado tivesse ficado lá fora até que a chuva o arrastasse para longe.
Quando a porta da oficina se abriu novamente, ela levou um susto.
- Mas você ainda está aí! - disse Mo. - Vá para a cama, Meggie. Vá!
Na sua testa havia aquela pequena ruga que somente aparecia quando ele estava realmente preocupado com alguma coisa. Nessas ocasiões ele olhava para ela como que sem vê-la, como se em pensamentos estivesse num lugar totalmente diferente. O pressentimento cresceu e abriu suas asas negras no coração de Meggie.
- Fale para ele ir embora, Mo! - ela disse enquanto era empurrada para o quarto. - Por favor, mande-o embora. Eu não gosto dele.
Mo encostou-se na porta aberta do quarto.
- Amanhã, quando você acordar, ele já vai ter ido embora. Palavra de honra.
- Palavra de honra? Sem cruzar os dedos?
Meggie olhou firme nos olhos dele. Ela sempre via quando Mo estava mentindo, mesmo quando ele se esforçava ao máximo para esconder isso dela.
- Sem cruzar os dedos - ele disse, e ergueu as duas mãos como prova.
Então Mo fechou a porta atrás de si, embora soubesse que ela não gostava disso. Meggie encostou o ouvido na porta. Ouviu a louça tilintar. "Ah, o barba-de-raposa vai ganhar um chá para se aquecer. Tomara que ele pegue uma pneumonia", pensou Meggie. Bem, ele também não precisava morrer, como a mãe de sua professora de inglês. Meggie ouviu a chaleira apitar na cozinha e depois Mo voltar para a oficina levando uma bandeja com louça tilintante.
Depois que ele fechou a porta, ela achou melhor esperar mais alguns segundos por precaução, o que foi bastante difícil. Então, pé ante pé, voltou para o corredor.
Na porta da oficina de Mo havia uma placa, uma pequena placa de latão. Meggie sabia de cor as palavras que estavam escritas ali. Aos cinco anos ela aprendera a ler com aquelas letras antigas e enfeitadas:
Alguns livros devem ser degustados, Outros são devorados, Apenas poucos são mastigados E digeridos totalmente.
Naquela época, quando ainda precisava subir numa caixa para decifrar a placa, ela pensava que a frase falava literalmente em mastigar, e se perguntava horrorizada por que Mo havia escolhido para pendurar em sua porta as palavras de alguém tão esquisito, que destruía livros daquela maneira.
Agora ela já sabia o sentido, mas naquela noite não estava interessada em palavras escritas. Queria entender as palavras faladas, sussurradas em segredo, as palavras quase incompreensíveis trocadas pelos dois homens atrás da porta.
- Não o subestime! - ela ouviu Dedo Empoeirado dizer.
A voz era tão diferente da de Mo. Nenhuma voz soava como a de seu pai. Com sua voz, Mo era capaz de pintar imagens no ar.
- Ele faria tudo para obtê-lo! - Era Dedo Empoeirado novamente. - E pode acreditar, tudo quer dizer tudo.
- Eu não vou lhe dar o livro. - Esse era Mo.
- Mas ele vai consegui-lo de uma forma ou de outra! Ouça, vou repetir mais uma vez: eles estão seguindo o seu rastro.
- Não seria a primeira vez. Até agora sempre consegui despistá-los.
- Ah, é? E por quanto tempo você acha que isso ainda vai funcionar? E a sua filha? Vai me dizer que ela gosta de ficar mudando de cidade a toda hora? Acredite, eu sei do que estou falando.
Atrás da porta, ficou tão silencioso que Meggie quase não se atrevia a respirar, de medo que os dois homens pudessem ouvir.
Então Mo falou outra vez, hesitante, como se sua língua encontrasse dificuldade em formar as palavras.
- E o que... devo fazer, na sua opinião?
- Venha comigo. Eu o levarei até eles! - Uma xícara tilintou. Uma colher bateu na porcelana. Como os pequenos barulhos ficavam grandes no silêncio. - Você sabe que Capricórnio aprecia muito os seus talentos, ele certamente ficaria muito feliz se você mesmo o levasse para ele! O novo, que ele arranjou como seu substituto, é um charlatão terrível.
Capricórnio. Mais um nome esquisito. Dedo Empoeirado o pronunciara como se o som pudesse morder a sua língua. Meggie mexeu os dedos dos pés, que estavam gelados. O frio subia até o seu nariz e, embora não entendesse muito do que os dois homens diziam, ela tentava gravar cada palavra.
Na oficina, reinava o silêncio novamente.
- Não sei... - Mo finalmente disse. Sua voz soou tão cansada que Meggie sentiu um aperto no coração. - Preciso refletir. Quando você acha que seus homens estarão aqui?
- Logo!
A palavra caiu como uma pedra no silêncio.
- Logo - repetiu Mo. - Pois bem. Então decidirei até amanhã. Você tem onde dormir?
- Oh, dá-se um jeito. Já estou me virando bem, embora tudo ainda continue muito rápido para mim - respondeu Dedo Empoeirado, dando uma risada que não parecia alegre. - Mas eu gostaria de saber o que você decidiu. Tudo bem se eu voltar amanhã? Lá pelo meio-dia?
- Claro. Vou buscar Meggie na escola à uma e meia. Venha depois.
Meggie ouviu uma cadeira ser empurrada. Mais do que depressa, correu de volta pelo corredor. Quando a porta da oficina se abriu, ela havia acabado de fechar a porta do quarto. Deitou-se na cama, puxou o cobertor até o queixo e ouviu o pai se despedir de Dedo Empoeirado.
- Bem, mais uma vez obrigado por me avisar! - ela o ouviu dizer.
Então os passos de Dedo Empoeirado foram se distanciando, lentos, entrecortados, como se ele hesitasse em prosseguir, como se não tivesse dito tudo o que queria. No entanto ele se foi, e apenas a chuva ainda tamborilava com seus dedos molhados na janela de Meggie.
Quando Mo abriu a porta do quarto, ela fechou os olhos depressa e tentou respirar devagar, como se estivesse num sono profundo e inocente. Mas Mo não era bobo. Às vezes, ele era terrivelmente esperto.
- Meggie, ponha um pé para fora das cobertas - ele disse.
Relutante, ela tirou os dedos dos pés ainda frios de sob o cobertor e colocou-os em cima da mão quente de Mo.
- Eu sabia - ele disse. - Você estava espionando. Você não pode fazer o que eu digo pelo menos uma vez?
Com um suspiro, ele empurrou de volta o pé para baixo do cobertor quente. Então sentou-se na cama, passou as mãos no rosto cansado e olhou pela janela. Seus cabelos eram escuros como o pêlo de uma toupeira. Os cabelos de Meggie eram loiros como os da mãe, que ela conhecia somente de algumas fotos desbotadas. "Fique feliz por ser mais parecida com ela do que comigo", Mo sempre dizia. "Minha cabeça não ficaria nada bem em cima de um pescoço de menina." Mas Meggie gostaria de ser parecida com ele. Não havia no mundo um rosto que ela amasse mais.
- Não entendi nada do que vocês falaram - ela murmurou.
- Ótimo.
Mo olhou pela janela, como se Dedo Empoeirado ainda estivesse no pátio. Então levantou-se e foi até a porta.
- Tente dormir mais um pouco - ele disse.
Mas Meggie não queria dormir.
- Dedo Empoeirado! Que nome é esse? - ela perguntou. - E por que ele chamou você de Língua Encantada?
Mo não respondeu.
- E o outro, o que está atrás de você... eu ouvi quando Dedo Empoeirado falou... Capricórnio. Quem é?
- Ninguém que você precise conhecer. - Mo não se virou. - Você não disse que não tinha entendido nada? Até amanhã, Meggie.
Dessa vez, ele deixou a porta aberta. A luz do corredor batia na cama de Meggie e misturava-se ao negro da noite que entrava pela janela. Ela ficou ali deitada, esperando que a escuridão afinal desaparecesse e levasse consigo a sensação de que algo funesto estava para acontecer.
Somente muito depois ela compreendeu que o mal que a ameaçava não nascera naquela noite. Ele apenas voltara sorrateiramente.
Filmes e Curtas: "Mankind Is No Island" | Jason van Genderen
"Mankind Is No Island", curta-metragem vencedor do festival Tropfest NY 2008, dirigido por Jason van Genderen. Todas as imagens do curta - gravadas em Nova Iorque (EUA) e em Sydney (Austrália) - foram captadas a partir da câmera do telefone celular do diretor.
A SEDEST (Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda) do Distrito Federal abriu 307 vagas de trabalho para os futuros aprovados no concurso público da instituição. Podem se candidatar aos exames pessoas com graduação escolar no nível médio ou superior. O salário inicial, dependendo do cargo de emprego, pode chegar a R$ 2.479,33. Os interessados no concurso da SEDEST podem obter mais informações (edital) e realizar a inscrição até o dia 21 de janeiro de 2009 através do seguinte endereço: www.universa.org.br
Fulminado por um câncer na próstata, seu Altivo resistiu poucos meses e morreu em fevereiro de 1959, deixando Tim tristíssimo, mas também se sentindo mais livre para lutar por seu sonho de ir para os Estados Unidos.
O pai era antiamericanista ferrenho, detestava tudo que era americano, vivia dizendo que Tim tinha de conhecer o Brasil primeiro. Dona Maria também não gostava nada da idéia, ele não tinha nem 17 anos. Aconselhava-o a tentar a vida em Brasília, que estava sendo construída e cheia de oportunidades.
Com o rock decadente e sem chances de se integrar ao mundinho Zona Sul da bossa nova, Tim se sentia mais gordo e pobre do que nunca. Lembrou-se de conversas com o produtor Jacy Campos, na TV Tupi, nos tempos do “Clube do Rock”, sobre cursos de televisão nos Estados Unidos, como o que Jacy havia feito graças a uma bolsa de estudos. Voltou ao Cassino da Urca, procurou-o e conseguiu na Embaixada americana alguns folhetos de cursos de televisão. Queria ser diretor, gostava de som e de imagens, de novas tecnologias, de mandar. Claro, seria também o apresentador e artista principal de seu programa musical.
O único problema, além dos textos em inglês, era conseguir uma bolsa de estudos. O inglês foi resolvido por frei Cassiano, da igreja dos Capuchinhos. As condições e exigências, somadas a seu péssimo histórico escolar, reduziam suas esperanças de conseguir uma bolsa a zero. Restava-lhe tentar a vida nos Estados Unidos com a cara, a coragem e um dinheirinho arrecadado com os parentes e com a venda de tudo que tinha, inclusive o violão.
Certamente por intervenção da providência divina, a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu da agência de viagens Camilo Khan grandes descontos para levar um grupo de sacerdotes e paroquianos aos Estados Unidos. Assim que foi informado, frei Cassiano chamou Tim, encorajou-o e foi o primeiro a fazer uma doação para a viagem. Era preciso agir rápido, o avião partiria dentro de um mês. Mesmo com grandes descontos, a passagem, só de ida, custava muito dinheiro — e era pouco o tempo para Tim arrancá-lo de onde pudesse. Começou uma campanha em casa e durante duas semanas pediu qualquer dinheiro a qualquer pessoa que, por alguma obscura razão, se dispusesse a doá-lo ao ex-baterista dos Tijucanos do Ritmo.
Milagrosamente, por intermédio de frei Cassiano, que fechou a conta com uma doação extra do próprio bolso, Tim conseguiu pagar a passagem três dias antes da data fatal. No Divino e nas redondezas, o ex-marmiteiro anunciava a partida, se despedia e contava orgulhoso que faria um curso de televisão na New York University e moraria na casa de amigos de sua família, uma brasileira casada com um americano.
Prometia apaixonadamente a Marlene que ficaria famoso nos Estados Unidos, ganharia dinheiro e mandaria buscá-la para que fosse operada com as novas tecnologias americanas e pudesse voltar a andar.
Restava arranjar uma graninha para a chegada e para se agüentar nos primeiros dias. Na família, tinha conseguido três daquelas notas verdinhas de um dólar, que ele via pela primeira vez. Nas vésperas da viagem, encontrou Erasmo no Divino e ficou sabendo que a noite seria de chumbo grosso.
Uma velha casa de cômodos da rua do Matoso ia ser demolida. O último inquilino já havia saído, o pardieiro estava vazio e caindo aos pedaços e, como era muito antigo, todos os encanamentos eram de chumbo — e o chumbo valia 35 cruzeiros o quilo numa lojinha na Leopoldina. Não seria a primeira vez. Os garimpeiros de chumbo dividiam a casa por áreas e cada um ficava com a sua, para não ter briga. Só os canos de uma privada, tubos imensos de chumbo, garantiam uma semana de vida mansa e, para garotos pobres da Tijuca, farta.
Depois daquela noite, toda a turma comprou roupas novas na Ducal e Tim conseguiu mais 9 dólares, trocando os cruzeiros do chumbo a peso de ouro numa joalheria da Haddock Lobo. Achou que era pouco dólar para muito chumbo.
No dia 13 de agosto, uma sexta-feira, com 16 anos, 12 dólares no bolso e uma carta para a Sra. Cardoso, sem falar uma palavra de inglês, Tim embarcou num quadrimotor do Lóide Aéreo para uma longuíssima viagem até Nova York.
Tim evitava pensar na crendice popular que atribuía mau agouro à presença de padres a bordo, talvez por ligá-los à expectativa de uma extrema-unção momentos antes da queda fatal. Afinal, eles seriam inevitáveis em um vôo promovido pela Arquidiocese.
O dia já havia começado mal para ele no aeroporto do Galeão, quando chegara para o embarque. Despachou sua mala no balcão do Lóide, despediu-se da mãe e dos irmãos e seguiu para a fila de embarque apenas com uma pasta de couro marrom, presente do irmão Antonio. Tinha recusado a ridícula maletinha de lona azul e fecho ecler oferecida pela agência de viagem, que dava um ar de excursão escolar ao grupo.
Na sala de embarque encontrou três padres e um bispo, todos com as maletinhas de lona da Camilo Khan. Quando se encaminhava para a escada do avião, talvez por ser o mais jovem do grupo e o único que não carregava uma maleta azul, um dos sacerdotes lhe pediu que levasse a do bispo. E Tim subiu as escadas bufando com a pesadíssima, talvez cheia de Bíblias, maldita maleta azul do bispo.
O vôo foi atribulado, com o avião sacudido por fortes turbulências, pessoas vomitando, carrinhos de comida virando. Tim só se livrou da abominável maleta quando chegou a Nova York e o bispo entrou num táxi amarelo com os padres e se despediu:
“Obrigado, meu filho, que Deus o abençoe.”
Ia mesmo precisar. Ao contrário do que imaginara, sonhara e contara para todo mundo, não havia nenhuma família americana o esperando no aeroporto de Idlewild. De tanto contar e aumentar as suas histórias, acabara acreditando nelas e estava profunda e sinceramente decepcionado por não haver ninguém à sua espera.
Também não havia nenhum curso e nem qualquer amigo ou conhecido americano ou brasileiro, nem mesmo o frio que ele esperava encontrar no hemisfério norte. Estava um calor do cão, como na Tijuca em fevereiro, e um bafo quente o fazia suar em bicas e empapar a camisa e o paletó. Às onze da manhã, Tim pegou um táxi e repetiu algumas vezes o endereço da Sra. Cardoso até que o motorista jamaicano o entendesse. Ou quase.
Duas horas depois ainda rodavam pelas ruas de Terryton, uma área do Brooklyn — a mais de 40 quilômetros de distância da cidadezinha de Tarrytown, no condado de Westchester, onde morava a Sra. Cardoso — para onde o taxista o havia levado por engano, ou sotaque. Desesperado, vendo o taxímetro disparar e seu coração acelerar, sem encontrar o maldito endereço, Tim acabou batendo boca com o motorista, cada um xingando em sua língua. Terminou de mala na mão numa avenida do Brooklyn, louco de fome, de calor e de raiva e com menos 7 dólares no bolso.
Estava em um ponto de ônibus, com uma expressão tão apalermada e carente que atraiu a compaixão de uma senhora que esperava na fila e tentou descobrir de onde vinha e que estranha língua falava aquele jovem. Quando viu seu passaporte, foi até uma cabine telefônica e ligou 411 para informações, escreveu um endereço num papel e colocou Tim num ônibus que cruzaria o East River e o deixaria a duas quadras do Consulado do Brasil, na Quinta Avenida. E ainda lhe deu o dinheiro da passagem e explicou ao motorista onde ele deveria saltar. Tim cruzou a ponte do Brooklyn com o coração aos pulos e desceu na esquina da rua 42 com a Quinta Avenida. Caminhou algumas quadras olhando para cima, deslumbrado com a altura dos edifícios, assustado com a quantidade de carros na rua e de gente na calçada.
Um brasileiro menor de idade, com 5 dólares no bolso e sem ter onde ficar era encrenca na certa. A política do vice-cônsul exigia repatriação imediata, explicou o funcionário simpático a um Tim apavorado, segurando o passaporte com as duas mãos. Ofereceu-lhe um café e um bolinho, Tim se acalmou um pouco e lhe assegurou que estava sendo esperado, que deveriam estar preocupados com sua demora. O funcionário escreveu dois cartões: um com o endereço da senhora Cardoso em Tarrytown, outro, em inglês, dizendo quem ele era, de onde vinha e o apresentando à família. E pediu-lhe para esperar alguns minutos, pois quando saísse para o almoço o colocaria num táxi para a Grand Central Station, onde deveria pegar o trem para Tarrytown.
Com o cartão na mão, conseguiu chegar ao guichê e ao trem e uma hora depois desembarcava em Tarrytown, à beira do rio Hudson e à margem da rodovia 87, para começar a vida em uma terra estranha, sem falar a língua e sem conhecer ninguém. Sua única referência era a tal senhora Cardoso, que nem mesmo Cardoso se chamava, e sim O’Meara, sobrenome de seu marido americano, e era conhecida, sim, mas de uma família que era freguesa das marmitas dos Maia. E não tinha recebido nenhum pedido para receber Tim em sua casa, nem mesmo um aviso de que alguém chegaria do Brasil. O cartão no bolso de Tim apresentava-o como estudante de televisão e pedia abrigo e proteção. Mas, ao conseguir chegar ao endereço, a senhora O’Meara não estava, não havia ninguém em casa.
Um vizinho se aproximou para ajudar e Tim mostrou-lhe os cartões. Foi levado para a YMCA — Associação Cristã de Moços — próxima à casa dos O’Meara, onde pôde tomar uma chuveirada, trocar de roupa, comer e desabar em um sofá. Acordou assustado com um americano enorme, rindo muito e sacudindo-o pelos pés. Mostrou-lhe os cartões e o gringo fez sinal de que era a pessoa certa e de que ia levá-lo para a casa dos O’Meara, a poucas quadras dali. O casal era muito simpático e sorridente, ela se chamava Lilian e falava português com um sotaque carregado por seus trinta anos na América, e o marido William só falava inglês. O gringo que fora buscá-lo se chamava Richie e era irmão de William. Ao lado do casal, estava um garoto mais ou menos de sua idade, só que muito alto e magrelo, também simpático, Douglas.
Ao mostrar seu passaporte aos O’Meara, Tim se assustou quando eles começaram a rir, a bater palmas e a gritar “Oh, no! I can’t believe it!”
Todos riam muito e a mãe explicou que a data de nascimento de Tim era exatamente a mesma, dia, mês e ano, que a de Douglas, o filho único do casal O’Meara, que falava algumas palavras de português. Tim suspirou aliviado e feliz, foi recebido como um irmão, quase um gêmeo.
Jantou com a família em silêncio e, exausto de tantas emoções, dormiu como uma pedra no colchão mais macio em que já se deitara. Acordou com o sol entrando pela janela do quarto mais bonito e confortável em que já dormira, tomou um longo banho, deu good morning à família e sentou-se à mesa para seu primeiro breakfast americano. Depois saiu com brother Douglas para dar uma volta e descobriu que Tarrytown era uma graça de lugar.
O sol brilhava sobre as colinas que cercavam a cidadezinha e refletia nas águas lentas do Hudson. Cruzando a Main Street com Tim, Douglas contava que Tarrytown tinha menos de 4 mil habitantes, espalhados por uns 8 quilômetros quadrados. Muita gente trabalhava na vizinha fábrica de automóveis da General Motors, ali todo mundo se conhecia. Como na Tijuca, pensou Tim, Tarrytown era uma Tijuca rica e silenciosa. Mais adiante, Douglas parou e mostrou orgulhoso o Music Hall, uma imponente construção de mil oitocentos e tal, que, apesar do nome e para decepção de Tim, não apresentava shows de música. Era um cinema de oitocentos lugares, o maior da região, onde os filmes estreavam junto com os cinemas de Nova York.
Tim não entendia quase nada do que Douglas dizia, em português ou inglês, mas se sentia relaxado e feliz. As casas eram tão arrumadinhas e limpinhas, com seus jardinzinhos floridos de verão, que pareciam de brinquedo. Subiram pela Orchard Street, de onde se tinha uma visão deslumbrante do rio batido de sol, da ponte de Tappan Zee com suas seis pistas cheias de carros coloridos e, nas suaves colinas que cercavam a cidade e ao longo do rio, daquilo que Douglas mostrou com um gesto largo e apresentou como “Millionaire’s Colony”.
Eram diversas grandes mansões, algumas tão grandes que pareciam castelos, com jardins que eram quase parques, cercando de luxo e opulência uma cidadezinha de brinquedo. O nome não precisava de tradução, as casas diziam tudo. Uma delas, apontou Douglas, tinha 45 quartos, era do multimilionário John Rockefeller, de quem até Tim já ouvira falar.
Enquanto o tijucano Tim descobria a América, em Detroit, o negro Berry Gordy, operário da linha de montagem da Ford, pedia 800 dólares emprestados à mãe e fundava a Motown Records, que se tornaria a plataforma de lançamento do melhor funk, soul e rhythm-and-blues da década e seria uma legenda na indústria do disco e na cultura negra dos Estados Unidos.
Tim encontrava a América em ebulição e, assim como ele, pronta para grandes transformações. A Motown era apenas a ponta do iceberg negro que sacudiria a cultura americana. Liderado por Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis avançava sobre a América segregada.
Os Estados Unidos tinham 180 milhões de habitantes e salário mínimo de um dólar por hora, a guerra fria com a União Soviética esquentava, a possibilidade de um holocausto nuclear se tornava um pesadelo para a América próspera e conservadora.
Nas ruas do Greenwich Village, em Nova York, Tim veria pela primeira vez jovens negros com orgulhosas carapinhas eriçadas e adereços africanos, testemunharia outras demonstrações de orgulho da raça e de rebeldia que jamais imaginou na Tijuca. E sentiria na pele, muito mais do que no Brasil, a chibata da discriminação.
No Brasil, Tim sempre se acreditara e se dissera mulato, mas logo descobriu que ali não havia essas sutilezas, se não era branco, negro era. Mas o pior era quando algum branquelo — ou um negro — o chamava de “spic”, que era tão ofensivo para os hispânicos quanto “nigga” para os negros. Tim se sentia um “spic nigga”.
Se lembrou da Tijuca, da rua do Matoso e do farmacêutico Timbó, inventor da miraculosa pasta Timbolina, que alisava os cabelos duros e crespos e permitia a ele, Erasmo e Roberto capricharem nos topetões indispensáveis ao look do rock-and-roll. Sem a Timbolina, comprou um creme alisante em uma farmácia e mudou radicalmente o look. Gostou do que viu no espelho; por causa dos olhos puxados, achou que ficara parecendo um havaiano negro. Mandou um postal para Erasmo contando as novidades e, por amor à bossa nova, chamou-o de Erasmo Gilberto e assinou Tim Jobim.
No fim de setembro, o tempo começou a esfriar e Tim comemorou festivamente seu décimo sétimo aniversário junto com seu “gêmeo americano”. E quase desmaiou quando recebeu o presente dos O’Meara: uma guitarra elétrica. Seus rocks e sambas encheram o ar de alegria e esquentaram a noite dos O’Meara e dos vizinhos. As tardes silenciosas de Tarrytown nunca mais seriam as mesmas.
Passou seu primeiro inverno tiritando de frio e enrolado em cobertores, mas nunca se esqueceria do seu deslumbramento com a nevasca que cobriu a cidade às vésperas do Natal. O chato foi dividir com Douglas, de pá na mão, a tarefa de tirar meio metro de neve da frente da casa, para que o carro dos O’Meara pudesse sair da garagem. Mas Tim não reclamava de nada, dava graças a Deus e às preces de dona Maria Imaculada por estar ali, com aquelas pessoas que lhe davam casa, comida e a máquina de lavar roupa.
Tim logo entendeu que falar bem a língua era fundamental para a sua sobrevivência. Com a ajuda de seu brother e de seu prodigioso ouvido musical, logo estava reproduzindo o sotaque, as cadências e sonoridades do inglês de rua, embora seu vocabulário ainda fosse pequeno e grande a confusão entre pronomes e tempos verbais. Primeiro aprendeu palavrões e gírias, depois entrou para um “curso de americanização” na Sleepy Hollow High School, e o resto veio rapidamente com a televisão, a música e a rua. Em pouco tempo, falava fluentemente e quase sem sotaque, com as gírias e os erros de concordância dos jovens negros e porto-riquenhos com quem convivia. Adotou o nome de Jimmy, the Brazilian.
Jimmy teve um Merry Christmas e ganhou presentes de todo mundo. Não estava habituado a beber, mas comemorou o New Year com um porre monumental e coletivo com os O’Meara, o seu primeiro em família. E começou a entender por que o pessoal da casa sempre ria tanto. E por que sempre acabavam brigando entre eles. Desde o dia da sua chegada, quando fora acordado pelo tio Richie às gargalhadas, trocando as pernas e com um bafo de álcool, Tim notara que todos ali eram chegados a um goró. O mais engraçado era que eles chamavam goró de spirits.
Os O’Meara eram gente boa e trabalhadora. Pelo menos até o fim da tarde. Depois que começavam a encher a cara de gim e de bourbon, tudo podia acontecer. Riam, choravam, brigavam, faziam as pazes, riam de novo. Eram irlandeses sanguíneos e passionais, sujeitos a chuvas e trovoadas.
Seu primeiro emprego foi como ajudante de caixa num pequeno supermercado de Orchard Street, um tipo de loja que não existia na Tijuca nem no Brasil, onde as pessoas enchiam um carrinho com o que queriam e depois pagavam no caixa. Para ele, acostumado a feiras, quitandas e armazéns, era novidade absoluta. Colocava as compras das madames em sacolas e ganhava gorjetas levando-as até os carros.
Tim passava as tardes no caixa vendo os gringos pegando nas prateleiras o que queriam, à vontade, sem ninguém fiscalizando ou prestando atenção, e se lembrava da marcação cerrada que o portuga do armazém da Tijuca e sua mulher exerciam sobre a molecada de dedos rápidos e olho grande. E mesmo assim não conseguiam evitar que, uma vez ou outra, um chiclete ou um chocolate desaparecessem à passagem de Tim e seus amigos. Era impossível resistir àquelas prateleiras cheias do bom e do melhor dando sopa em Tarrytown.
A cena musical americana fervia em 1960, uma nova onda negra estava se formando nos subterrâneos das grandes cidades. O rock parecia perder força, embora Elvis Presley estivesse mais forte — e romântico — do que nunca, voltando triunfalmente aos Estados Unidos depois de prestar serviço militar na Alemanha. Seu grande sucesso do ano foi “It’s Now or Never”, uma versão em inglês do clássico napolitano “O sole mio”, o rock começava a virar pizza, os jovens queriam novidades. Bob Dylan explodia no Village com um novo folk rebelde e sofisticado.
O estéreo revolucionava o mundo do disco, as paradas de sucesso eram invadidas por negros como Ray Charles (“Georgia on my Mind”) e Sam Cooke (“Chain Gang”), e The Marvelettes e Smokey Robinson and The Miracles estouravam os primeiros hits da Motown.
Depois de três meses, saiu do supermercado para lavar pratos em uma lanchonete. Começava a ganhar um dinheirinho e a ficar de saco cheio dos porres e brigas dos O’Meara. Comemorou festivamente seus 18 anos junto com Douglas, com uma grande bebedeira, e tomou a péssima decisão de abandonar o aconchego, mesmo turbulento, do lar e ir morar com dois amigos em um muquifo sem aquecimento, na parte mais pobre da cidade.
Para enfrentar o inverno, ganhara um velho sobretudo de lã de Douglas, que era bem maior do que ele. Miss Lilian cortou 20 centímetros na altura e fez uma bainha, mas mesmo assim ficou muito folgado no corpo — o que se revelaria de grande utilidade para Tim em tempos mais duros, de fome e desemprego, quando fizesse suas feiras informais no supermercado: o casacão era largo o suficiente para abrigar um frango.
Embora não estivesse desempregado — pelo contrário, passara de lavador de pratos a fritador de hambúrgueres, panquecas e steaks na lanchonete — e muito menos com fome, já que comia bastante a sua própria produção, começou a empreender incursões experimentais no supermercado, nas horas de maior movimento, fazendo pequenos produtos desaparecerem nos bolsos do casacão. Passava pela caixa, cumprimentava a garota, pagava seu bubblegum — que não existia no Brasil, onde só havia goma de mascar — e saía feliz e despreocupado pelas ruas de Tarrytown fazendo bolas cor-de-rosa de chicletes.
Também não tinha nenhuma dificuldade em surrupiar um chocolate ou um bolinho e comê-lo rapidamente no local, abaixado como quem amarra os sapatos. O supermercado era um jardim das delícias para Tim, que durante meses o freqüentou com assiduidade e discrição. Até que um dia foi pego pelo gerente com a mão na massa e a boca na botija. Foi sua primeira visita a uma delegacia americana e lhe custou o emprego na cozinha da lanchonete.
Desempregado, passando frio e queimado no supermercado, foi obrigado a buscar em outras lojas das redondezas a sua sobrevivência. Mantinha contato com os O’Meara e, de vez em quando, filava uma bóia em seu antigo lar, onde bebiam e brigavam como sempre.
Apertados no muquifo gelado, todos desempregados e vivendo de biscates, a convivência era marcada pela disputa do pouco que, às vezes, havia na geladeira. Afinal, Tim conseguiu um emprego de entregador de pizza, exaustivo nos fins de semana, mas capaz de lhe garantir boas gorjetas, almoço e jantar, embora o menu fosse sempre pizza com uma Coca-Cola grande — que enchia dois copos e ainda não existia no Brasil. Pelo menos podia variar entre mussarela, calabresa e peperoni.
Mas logo se cansou das entregas e, principalmente, das pizzas. E foi trabalhar em uma fábrica de câmeras fotográficas, onde plastificava 3 mil caixas por dia. A grana era melhorzinha, mas o trabalho era mecânico e animalesco. Tim achou melhor voltar ao ramo de alimentos, como garçom de um pequeno restaurante. Começou então a procurar algum emprego que lhe garantisse, além da comida, uma casa. Talvez em uma escola, um hospital, um asilo.
Mas acabou encontrando algo melhor: um jovem casal amigo dos O’Meara precisava de alguém para tomar conta de seu filho de 3 anos, duas noites por semana. Tim se tornou baby-sitter e só teve alegrias na nova profissão: adorava crianças e desenhos animados na televisão e tinha uma farta geladeira à sua disposição.
Uma noite o garoto dormiu e Tim levou um susto quando viu na televisão a data de 28 de setembro. Era o dia de seu aniversário. Estava perdendo a noção do tempo, fazendo 19 anos sozinho em uma terra estranha, trabalhando como babá. Teve vontade de chorar e se sentiu profundamente triste e deprimido.
Uma tarde estava saindo do Music Hall depois de ver um filme e se assustou quando alguém tocou no seu ombro e chamou “Sebastião, Sebastião”, um nome que havia anos ele não ouvia. Era alguém que vira sua foto no jornalzinho brasileiro de Nova York, publicada pelo jornalista brasileiro Louis Serrano, que fora procurado por sua irmã Luzia, a pedido da mãe, quando dava uma entrevista no programa de rádio de Luís de Carvalho. Dona Maria estava desesperada, dez meses sem notícias do filho, não sabia se estava vivo ou morto, se tinha enlouquecido como suas duas avós, e o jornalista se dispusera a procurá-lo com uma mensagem aflita de sua mãe. Tim se arrependeu amargamente de seu descaso e escreveu uma longa carta para dona Maria Imaculada, contando suas aventuras americanas e lhe pedindo desculpas e a sua bênção.
No final de 1961, conheceu o ítalo-americano Felix De Masi, também músico e cantor, e começaram a fazer planos de um conjunto vocal. Felix trouxe seu amigo Roger Bruno e Tim chamou Cornelius, um jovem negro que conhecera cantando num bar. Nasciam The Ideals, dois brancos e dois pretos cantando rhythm-and-blues, com vocais à Four Tops.
A temporada de ensaios no muquifo de Tim foi longa e barulhenta, pontuada por brigas no conjunto e reclamações de vizinhos. Mas o som estava ficando bom, as garotas começaram a aparecer, atraídas pelo look italiano e o som negro. Os ensaios foram se transformando em festas e logo Tim foi obrigado a se mudar, e os Ideals passaram a ensaiar na garagem da casa de Felix.
Os gringos, tanto os pretos como os brancos, gostavam de ouvir Tim tocar e cantar sambas e bossas nos ensaios. Com ele o som dos Ideals ganhava um tempero tropical e um ritmo contagiante. Começaram a se apresentar em bares e festas de Tarrytown, ganhando 10, 15 dólares, mas comendo, bebendo e se divertindo. Tim reforçava o orçamento cantando em festinhas de amigos de Douglas, onde ficava fazendo fundo musical enquanto a garotada dançava e fazia o making-out. O pessoal se agarrando no escurinho e Tim cantando “Olê mulé rendeira, olê mulé rendá”.
Logo Tarrytown estava pequena demais para Tim, e ele se mudou para Nova York, onde teria 19 endereços diferentes nos dois anos seguintes.
Morou em hotéis piolhentos e em abrigos para homeless cheios de bêbados e loucos, onde todo mundo roubava todo mundo. Dormiu em hospedarias com e sem travesseiro, em vãos de escada, sótãos, depósitos e até em apartamentos carpetados e com aquecimento. No verão, ainda dava para dormir no parque, mas no inverno, com 10 graus abaixo de zero e o vento cortante do rio, era impossível ficar pela rua. Os vagões do metrô eram aquecidos e Tim podia passar a noite viajando sem destino, só pelo calorzinho, mas só quando tinha os 10 cents do bilhete. Ao contrário dos cobradores dos bondes da Tijuca, as catracas do metrô nova-iorquino eram implacáveis.
Afinal, conseguiu um ótimo emprego: faxineiro em um asilo de velhinhos, onde tinha casa, comida, 40 dólares por semana e muita sujeira e porcaria para limpar. Mas podia se dedicar mais à música, a tocar violão, a ouvir discos nas lojas e a freqüentar bares do Village e do Harlem e os shows do legendário Apollo Theater, na rua 125.
Mas a vida na América não era apenas soul e R&B. O ex-bossa-novista Tim viu a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto ser aclamada nos Estados Unidos, no histórico e caótico concerto no Carnegie Hall. Tim leu as notícias e mentiu para os amigos que tinha assistido ao show do balcão graças a um ingresso milagroso. Estava orgulhoso da música brasileira, que começava a ser gravada por muitos jazzistas importantes como Stan Getz, Gerry Mulligan e Miles Davis.
No verão de 1963, Tim estava muito feliz, contava em cartas para Erasmo. Finalmente arranjara uma namorada: Jeannie, filha de um pastor presbiteriano, uma moreninha animada que era fã dos Ideals. Aos domingos, namorava e comia peru na casa do pastor. Apaixonado, compôs a bossa-soul “New Love”, em parceria com Roger Bruno, e começou a ensaiá-la com o grupo, reforçado pelo baterista Milton Banana. Seria a primeira gravação dos Ideals:
“Yes I loved, more than I was supposed to love...”
Mas o inverno estava chegando, o frio e o vento cortavam, Nova York congelava. Com três amigos, decidiu correr atrás do sol e do calor. Num carro roubado, fazendo pequenos furtos em uma cidade e vendendo em outra, cruzaram o país e passaram por nove estados.
Negro e latino ao mesmo tempo, Tim já sentira na pele o preconceito e a discriminação quando tentava alugar um apartamento em Nova York. Pelo telefone, com seu sotaque perfeito e educado, tudo corria bem. Mas quando se apresentava no local, a pia estava sempre entupida, o cano furado, o apartamento já havia sido alugado. Em estados sulistas, como Geórgia, Alabama, Mississippi, havia banheiros para brancos e coloreds e lugares separados em restaurantes.
A viagem foi marcada por muitas garrafas, cinco prisões, três ligeiras, por brigas, desacatos e bebedeiras, e uma de dez dias, por roubo de gasolina em um posto. E terminou mal, na penitenciária agrícola de Daytona, na Flórida, onde os quatro foram trancafiados depois de presos pela polícia rodoviária e condenados pelo juiz por “felonious possession of illegal substances and car theft”, com a perspectiva de uma longa etapa atrás das grades, ou pior: era a quinta anotação no seu criminal record.
Trancado na cela, cercado de bandidos, Tim se desesperava. Se envolveu em uma briga braba com outro detento, que terminou com ele mordendo ferozmente a orelha do adversário, que lhe apertava o saco com mão de ferro, um não largava do outro e os dois urravam de dor quando finalmente foram separados. Em setembro, quando fez 21 anos, foi transferido para outro pavilhão, com comida razoável e roupa lavada duas vezes por semana. E conheceu pelo rádio a música sensacional do fenômeno Little Stevie Wonder, de 12 anos. Mas ninguém lhe dizia nada, lhe deram um advogado que não fazia nada. Ele se preparava para o pior. E, na Flórida, o pior era a cadeira elétrica, tremia de pensar.
Depois de um inverno infernal, mourejando nas plantações de sol a sol, como um escravo de E o vento levou, um dia o carcereiro gritou “Maia”, e Tim tremeu. Acompanhou-o até a sala do diretor como um prisioneiro que vai para o corredor da morte.
Mas não foi mandado para a cadeira elétrica, apenas deportado para o Brasil.
O concurso público da Prefeitura Municipal de Ponta Porã (MS - Mato Grosso do Sul) oferece salário inicial de até R$ 5.500,00 aos candidatos aprovados. São 523 vagas de empregos para candidatos com graduação escolar no ensino fundamental, médio ou superior. As inscrições para o concurso da Prefeitura de Ponta Porã devem ser feitas até o dia 16 de Janeiro de 2009. Mais informações sobre o edital e as inscrições podem ser obtidas no endereço a seguir: www.pontapora.ms.gov.br
Em 1962, Mortilal Kothari, um funcionário público indiano lotado em Londres, sugeriu que eu (Richard Attenborough) fizesse um filme sobre a vida do Mahatma. O que eu sabia a respeito de Gandhi e de seu papel como líder da luta do povo indiano pela independência era apenas o pouco que aprendera na escola. Então resolvi ler uma biografia e alguns de seus escritos.
Aos 23 anos, em 1893, logo depois de ter chegado à África do Sul como advogado de uma empresa exportadora indiana, Gandhi escreveu uma frase que me deixou impressionado: “Sempre foi um mistério para mim como os homens podem sentir prazer em humilhar seus semelhantes.” Ele acabara de ver indianos serem forçados a caminhar na sarjeta para que os brancos pudessem passar sem problemas pela calçada.
Suas palavras me abalaram de tal forma que, naquele momento, me comprometi a tentar fazer um filme sobre Mahatma Gandhi – um compromisso que mudaria os próximos 20 anos da minha vida. A partir de então, todas as decisões que tomei na minha carreira estiveram relacionadas ao meu caso de amor com esse projeto.
O filme Gandhi teve sua estréia mundial em Nova Délhi, em 30 de novembro de 1982.
Mohandas K. Gandhi nasceu em 1869, filho de hindus, no estado de Guzerate, no oeste da Índia. Aos 13 anos, uniu-se a Kasturba Makanji, de mesma idade, num casamento arranjado. Mais tarde, a família o enviou a Londres para estudar Direito e, em 1891, ele se tornou advogado. Na África do Sul, Gandhi foi incansável na luta pelos direitos dos imigrantes indianos. Foi lá que desenvolveu sua doutrina de resistência pacífica contra a injustiça – a satyagraha, ou “o caminho da verdade” – e que muitas vezes esteve preso por causa dos protestos que liderou. Quando retornou a seu país com a família em 1915, já havia mudado radicalmente a vida daqueles imigrantes.
Na Índia, logo passou a liderar a longa batalha com a Grã-Bretanha pela independência. Ele jamais teve abalada sua crença nos protestos não-violentos e na tolerância religiosa. Quando seus compatriotas muçulmanos ou hindus cometiam atos de violência – entre si ou contra os ingleses que governavam a Índia –, Gandhi jejuava até o conflito cessar. A independência, que chegou em 1947, não foi uma vitória militar, mas um triunfo da vontade humana. No entanto, para desespero de Gandhi, o país foi dividido em Índia hindu e Paquistão muçulmano. Ele passou seus últimos meses empenhado em extinguir a terrível violência que se seguiu. Para isso, jejuou até quase a morte, um ato que, finalmente, pôs fim aos conflitos. Em janeiro de 1948, aos 79 anos, Gandhi foi assassinado a tiros por um hindu no momento em que passava por um jardim apinhado de gente, em Nova Délhi, para fazer as preces vespertinas.
Muito já se falou sobre Gandhi, mas as palavras de Albert Einstein parecem traduzir bem a grandeza de sua personalidade: “Será difícil às gerações futuras acreditar que uma pessoa como essa, em carne e osso, andou sobre a Terra.”
Que esta coletânea possa oferecer a você uma boa introdução às idéias e à filosofia do Mahatma. As palavras de Gandhi presentes neste livro foram selecionadas de escritos publicados no período de quatro décadas e representam apenas uma pequena parte de seu volumoso trabalho.
Ao falar sobre o valor das próprias palavras, Gandhi destacava a relevância da ação:
“Nada tenho de novo a ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo o que tenho feito é realizar experiências em relação a uma e à outra, da forma mais abrangente possível. Ao fazê-lo, às vezes cometi erros – e aprendi com eles. A vida e seus problemas tornaram-se para mim experimentos na prática da verdade e da não-violência...”
“Toda a minha filosofia, se é que se pode chamá-la por esse nome pretensioso, está contida no que eu disse. Mas não a chamem ‘gandhismo’; não se trata de ‘ismo’. E não é necessário que haja a respeito qualquer crítica literária ou propaganda. Trechos das Escrituras têm sido citados como argumentos contra minha posição, mas me mantive, mais do que nunca, fiel à posição de que a verdade não pode ser sacrificada pelo que quer que seja. Aqueles que acreditam nas verdades singelas que professei só poderão propagá-las se viverem de acordo com elas.”
“Não tenho a menor sombra de dúvida de que qualquer pessoa, homem ou mulher, pode alcançar o que eu alcancei. Basta fazer o mesmo esforço e cultivar a mesma esperança e a mesma fé.”
O DIA-A-DIA
“A força não vem da capacidade física, mas de uma vontade indomável.”
“É pelo fato de todos reivindicarem o direito de livre consciência sem exercer qualquer disciplina que há tanta inverdade sendo dita a um mundo perplexo.”
“Aprendi, graças a amargas experiências, a única lição suprema: controlar a raiva. E assim como o calor armazenado se transforma em energia, a nossa raiva, controlada, pode se transformar em uma força capaz de mover o mundo.”
“A alegria reside na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido, não na vitória em si.”
“O homem tem de escolher entre dois caminhos: para cima ou para baixo. Como nele vive uma pessoa bruta, é mais provável que escolha o que conduz para baixo, sobretudo quando este aparece disfarçado em belos trajes. O homem se rende facilmente quando o pecado se veste de virtude.”
“A vida é maior que qualquer arte. E digo mais: o homem cuja vida mais se aproxima da perfeição é o maior artista de todos; pois o que é a arte sem a base e a estrutura de uma vida nobre?”
“A instrução deve ser um dos muitos meios para o desenvolvimento intelectual, mas tivemos no passado gigantes intelectuais iletrados.”
“Saber ler e escrever não é o fim da educação, sequer o início.”
“A educação formal deveria andar lado a lado com o ensino do trabalho manual – o único dom que distingue visivelmente o homem dos animais. É irracional crer que o completo desenvolvimento humano é impossível sem o conhecimento da arte de ler e escrever. Esse conhecimento, sem dúvida, adiciona graça à vida, mas não é de forma alguma indispensável para o seu crescimento moral, físico ou material.”
“Esquecer como cavar a terra e cultivar o solo é esquecer a si mesmo.”
“A música da vida corre o risco de se perder na música da voz.”
“Não se deslumbrem com o esplendor que lhes chega do Ocidente. Não se abalem com esse espetáculo passageiro. O Iluminado lhes disse, em palavras que não devem jamais ser esquecidas, que esta vida curta é apenas uma sombra passageira, algo efêmero. Se compreenderem a nulidade de tudo que aparece diante dos olhos, a nulidade desse mundo material, sempre em mutação, então realmente existirão tesouros para vocês lá em cima, e existirá paz para vocês aqui embaixo, a paz que possibilita a compreensão e a felicidade ainda desconhecidas para nós. Isso exige uma fé maravilhosa e divina e a renúncia a tudo que está diante dos olhos.”
“Na Índia, há três milhões de pessoas que têm de se satisfazer com uma única refeição por dia, que consiste em um chapati sem qualquer gordura e uma pitada de sal. Você e eu não temos direito a nada do que possuímos até que esses três milhões estejam mais bem vestidos e alimentados. Você e eu temos de adequar nossas vontades e até nos submeter à fome voluntária para que essas pessoas possam ser tratadas, alimentadas e vestidas.”
“Deus é o único juiz da verdadeira grandeza, porque Ele conhece o coração dos homens.”
“O que distingue a civilização moderna é a multiplicidade imprecisa dos desejos humanos. A característica da antiga civilização é a restrição imperativa desses desejos e sua rigorosa regulamentação.”
“Se prego contra a moderna vida artificial de prazer sensual e peço a homens e mulheres que retornem à vida simples simbolizada pela charkha, a roda de fiar, é porque sei que, sem o retorno à simplicidade, será inevitável descermos a um estado inferior à bestialidade.”
“A regra de ouro é se recusar resolutamente a ter o que milhões não podem ter. A capacidade de recusar não se apresentará a nós de repente. O primeiro passo é cultivar a atitude mental de não ter posses ou recursos negados a milhões; o segundo, reorganizar nossas vidas de acordo com essa mentalidade o quanto antes.”
“Este é o inequívoco ensinamento do Gita. Aquele que renuncia à ação cai. Aquele que renuncia apenas à recompensa se eleva. Mas a renúncia ao fruto de forma alguma significa indiferença quanto ao resultado. De cada ação deve-se saber que resultado esperar, como alcançá-lo e a capacidade para obtê-lo. Aquele que, tendo os meios necessários, não cobiça o resultado, mesmo estando totalmente envolvido no cumprimento da tarefa, renunciou aos frutos de sua ação.”
“Assim como não se deve receber, não se deve possuir nada que não seja realmente indispensável. Seria uma transgressão a esse princípio possuir alimentos, roupas ou móveis desnecessários. Por exemplo, não se deve manter uma cadeira se for possível viver sem ela. A observância desse princípio leva à progressiva simplificação da própria vida.”
“O amor é a força mais sutil do mundo.”
“Um homem não pode agir corretamente em uma área da vida enquanto estiver ocupado em agir errado em outra. A vida é um todo indivisível.”
“Toda a sua cultura, todo o seu estudo de Shakespeare e de Wordsworth seriam vãos se, além de possuírem o conhecimento, vocês não desenvolvessem seu caráter e não dominassem seus pensamentos e suas ações.”
“A pureza da vida é a arte mais elevada e autêntica.”
“Se não respeitarmos a lei do sacrifício, ou seja, a lei do nosso ser, em sua totalidade, mas realizarmos trabalho físico suficiente para obter o pão de cada dia, ainda assim deveremos percorrer um longo caminho em direção ao ideal. Se o fizéssemos, nossos desejos seriam minimizados, nosso alimento seria simples. Comeríamos para viver, não viveríamos para comer. Deixem quem duvida da exatidão dessa máxima tentar ganhar o pão com o suor do rosto; ele vai tirar grande prazer do produto de seu trabalho, vai aperfeiçoar sua fé e descobrir que muitas coisas que prezava eram supérfluas.”
“A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.”
“O único tirano que aceito neste mundo é a voz suave e serena em meu interior.”
“Tudo está bem com você, mesmo quando todas as coisas ao redor parecem dar errado, se você está em paz consigo mesmo. Por outro lado, nada está bem com você, embora tudo externamente pareça estar, quando não há essa paz.”
“Não mostra a história do mundo que, se não houvesse riscos, não haveria romance na vida?”
“O objetivo sempre nos escapa. Quanto maior o progresso, maior o reconhecimento de nossa insignificância. A satisfação está no esforço, não no prêmio. O esforço total é a vitória total.”
“O verdadeiro conhecimento proporciona prestígio e força moral.”
“Chamar às mulheres o sexo frágil é uma calúnia, uma injustiça dos homens para com elas.”
“A esposa não é escrava do marido, mas sua companheira e parceira em todas as alegrias e tristezas, tão livre quanto ele para escolher o próprio caminho.”
“Você deve resguardar a honra de sua esposa e ser não o seu senhor, mas seu verdadeiro amigo. Há de considerar seu corpo e sua alma sagrados, como, acredito, ela vai fazer com o corpo e a alma do marido. Para tal, vocês devem ter uma vida de piedosa labuta, simplicidade e moderação. Que nenhum dos dois considere o outro objeto de seu desejo.”
“Podemos constatar o amor entre pai e filho, irmão e irmã, entre amigos, mas temos de aprender a usar essa força entre todas as criaturas vivas. O uso do amor é o nosso conhecimento de Deus. Onde há amor, há vida; o ódio leva à destruição.”
“O amor é uma erva rara que transforma mesmo o pior inimigo em amigo; e essa erva nasce da não-violência.”
“A lei do amor poderia ser mais bem compreendida e aprendida observando-se as crianças.”
“Sou incapaz de odiar qualquer ser sobre a Terra. Por meio de um longo percurso de piedosa disciplina, faz mais de 40 anos que não odeio ninguém. Sei que parece uma alegação pretensiosa. Entretanto, faço-a com toda a humildade.”
“A serenidade absoluta não é a lei do oceano. O mesmo acontece com o oceano da vida.”
“Não é necessário dinheiro para ser limpo e digno.”
“A castidade não é cultivada em estufas.”
“A castidade é uma das maiores disciplinas, sem a qual a mente não atinge a estabilidade necessária.”
“Não acredito que uma pessoa possa progredir espiritualmente enquanto existirem pessoas que sofrem à sua volta. Acredito em advaita, acredito na unidade fundamental do homem e na de todos os seres vivos. Assim, acredito que, se um homem progride espiritualmente, o mundo inteiro ganha com ele, e, se um homem cai, o mundo todo cai.”
“Para um verdadeiro artista, só é belo o rosto que, independentemente do seu exterior, brilha com a verdade que existe na alma.”
“Nascimento e morte não são dois estados diferentes, mas aspectos diferentes do mesmo estado.”
“O conhecimento nos conduz por muitos estágios na vida, mas ele nos falta completamente nas horas de perigo e tentação.”
“Quando estiver em dúvida ou quando o ego se tornar muito inflado, tente o seguinte: lembre-se do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que você já viu e pergunte a si mesmo se o passo que você pretende dar será útil para ele. Ele vai se beneficiar de alguma forma? A decisão vai devolver a ele o controle sobre a própria vida e sobre o próprio destino? Em outras palavras, esse passo vai contribuir para a autonomia dos nossos milhares de conterrâneos famintos de alimentos e de vida espiritual? Então você verá suas dúvidas e o seu ego se desvanecerem.”
Tem certos dias em que a solidão convoca uma assembléia geral da minha vida. Eu nem vacilo, pego o carro, deixo para trás stress e infovidas, atravesso fazendas e herdades e, depois delas, a montanha.
Ah, esse mergulho no tempo, nas lembranças, esse revolver de emoções tão soterradas pelo burburinho infernal das metrópoles e pelo ritmo dos tempos.
As lembranças vão enchendo o buffer da memória e corro para chegar à cidade antes que amanheça e que o sol espante a magia. Chego ao jardim, reformado de acordo com o projeto original, e espreito os fantasmas que saem da bruma de uma noite fria. Dispo-me, então, das pompas contemporâneas, e entro na casa que não mais havia.
Lembro-me do quartão do fundo, onde abrigava minha solidão de recém-saído da infância buscando ansiosamente o mundo através das ondas curtas de um rádio de rabo quente. Ou o barracão que registrou momentos de festa. Ou ainda o outro quarto do quintal onde, em um período qualquer da minha infância, seu Oscar tentou fabricar a linha de perfumes Temarelu (de Teresa, Maria Regina e Luís). E ainda o telhado de fora, onde eu subia com um cavaquinho e despejava versos improvisados nas irmãs e primas mais novas.
Lembro-me especialmente das festas de Natal, em que se juntavam nossa família e a da tia Rosita. As primas preparavam prendas e missões que eram sorteadas. Ao meu pai coube dançar tango. Ao doutor Fabrino, que fora passar a noite conosco, um discurso sobre Papai Noel.
Mas as lembranças não param e, antes que pudesse sorrir da cena, desaba sobre minha memória o último contato com a casa. Hoje em dia anda meio largada, e me provoca indagações de antigamente. Nem me lembro de quem meu pai a adquiriu, logo que casou, antes de eu nascer, acho que de um senhor que enviuvou. Num dia qualquer de 1974 mudou de mãos, passando para novos donos. Era mês de julho, deixei São Paulo, onde morava desde 1970, subi a montanha e olhei pela última vez a casa, vazia, sem móveis, sem vida, enquanto o caminhão levava a mudança e o desgosto de dona Tereza e seu Oscar rumo à metrópole.
Até alguns anos atrás, quantas noites atravessei com pesadelos, com aquela imagem da casa vazia, sem vida, me atormentando o sono, sempre prenunciando alguma notícia ruim que viria em seguida.
Mas é nas sombras das árvores do jardim do Pálace, projetadas pela luz de uma lua forte, que revejo a casa, meus mortos mais amigos, a minha afinidade mais constante, em plena noite fria e remendada pelo infinito de tantos momentos. Aí o portão dos tempos escancara e eu me vejo infante e antigo.
Vejo dona Tereza mais nova do que hoje sou, e seu Oscar, que deveria ter a idade que hoje tenho. E essa invasão das fronteiras do tempo mistura tudo, dos conflitos que, adolescente, tive com meu pai para, em seguida, vê-lo de agora. E relembro da angústia, da crise financeira da Farmácia Central, herança da grande recessão da segunda metade dos anos 60, da impotência em não poder ajudá-lo mais do que metade do salário que ganhava em início de carreira.
Lembro-me mais, de uns dez anos atrás, em que sonhava com ele, tentando aconselhá-lo a reestruturar a farmácia, a reduzir o número de funcionários. E ele, no sonho, me dizendo angustiado que não podia dispensar o Rafael, a Neusa, o Januário. Depois, um tempo depois, lembro-me encontrando o filho do Rafael, que trabalhou com seu Oscar mais de trinta anos, para me comunicar que o pai havia morrido e que, pouco antes de morrer, sonhara com o antigo patrão angustiado, pedindo que o ajudasse a sair da crise. A data batia com a do meu sonho.
Assim, vou dispondo as lembranças como minha mãe escolhia arroz com as mãos. Separo mágoas vagas e concretas, as pedras das incompreensões. Aos poucos, a casa vai se povoando, ganhando vida, e a alma sendo acalmada. E limpos o arroz, a alma e a mente, o coração explode finalmente, pacificando as emoções.