sábado, 28 de fevereiro de 2009

Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 09 a 13-02-2009

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Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 09 a 13-02-2009

Taxas de juros em operações de crédito informadas pelas instituições financeiras abaixo listadas durante o período de 9 a 13 de fevereiro de 2009.

Posição --- Instituição --- Taxas de juros efetivas ao mês (%)

Cheque Especial (Pessoa física)

1 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 1,81
2 --- BANCO MATONE S A --- 1,92
3 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,01
4 --- BANCO FATOR S A --- 2,39
5 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,71
6 --- BANCO INTERCAP S A --- 2,93
7 --- BANCO ALFA S A --- 3,44
8 --- BANCOOB --- 3,53
9 --- BANCO PROSPER S A --- 3,84
10 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 4,48
11 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 4,69
12 --- BANCO INDUSVAL S A --- 5,35
13 --- BANCO PAULISTA S A --- 5,65
14 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 6,33
15 --- BANCO CAPITAL S A --- 6,52
16 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 6,70
17 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 7,25
18 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 7,44
19 --- BANCO SAFRA S A --- 7,54
20 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 7,62
21 --- BANCO DO BRASIL S A --- 8,00
22 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 8,31
23 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 8,35
24 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 8,42
25 --- JBS BANCO S/A --- 8,54
26 --- BANCO ITAU S A --- 8,61
27 --- BANCO BRADESCO S A --- 8,71
28 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 8,89
29 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 9,00
30 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 9,01
31 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 9,06
32 --- BANCO CITIBANK S A --- 9,07
33 --- BANCO SCHAHIN S A --- 9,08
34 --- BANCO BANESTES S A --- 9,08
35 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 9,54
36 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 9,97

Crédito Pessoal (Pessoa física)

1 --- BARIGUI S A CFI --- 1,61
2 --- BANCO ABC BRASIL S A --- 1,61
3 --- BANCO SOFISA --- 1,65
4 --- BANCO COOPERATIVO SICREDI S A --- 1,68
5 --- BANCO CALYON BRASIL S.A. --- 1,81
6 --- VIPAL FINANCEIRA --- 1,83
7 --- FINANC ALFA S A CFI --- 1,84
8 --- BANCO ALFA S A --- 1,99
9 --- BANCO INTERCAP S A --- 2,02
10 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL S A --- 2,04
11 --- BANCO BVA S A --- 2,11
12 --- BANCO INDUSTRIAL DO BRASIL S A --- 2,16
13 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,18
14 --- PARANA BANCO S A --- 2,20
15 --- BANCO BGN S A --- 2,23
16 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 2,24
17 --- UNILETRA S A CFI --- 2,26
18 --- BANCO ARBI S A --- 2,27
19 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,30
20 --- LECCA CFI --- 2,33
21 --- BANCRED S A CFI --- 2,34
22 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 2,35
23 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 2,36
24 --- BANCOOB --- 2,37
25 --- BANCO PECUNIA S A --- 2,38
26 --- BESC FINANCEIRA S A CFI --- 2,38
27 --- SANTINVEST S A CFI --- 2,39
28 --- BANCO VOLKSWAGEN S A --- 2,40
29 --- BANCO BMG S A --- 2,44
30 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 2,45
31 --- BANCO DO BRASIL S A --- 2,46
32 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 2,47
33 --- BANCO MORADA S A --- 2,49
34 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 2,57
35 --- BANCO SCHAHIN S A --- 2,63
36 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 2,64
37 --- PERNAMBUCANAS FINANC S A CFI --- 2,68
38 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 2,68
39 --- BANCO MATONE S A --- 2,69
40 --- BANCO RURAL S A --- 2,70
41 --- PARATI CFI S A --- 2,72
42 --- BV FINANCEIRA SA CFI --- 2,73
43 --- QUERO QUERO S A CFI --- 2,77
44 --- BANCO BANESTES S A --- 2,79
45 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 2,85
46 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 2,95
47 --- BANCO FINASA BMC S.A. --- 2,97
48 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 2,98
49 --- BANIF BRASIL --- 3,02
50 --- BANCO GMAC --- 3,16
51 --- BANCO FIBRA S A --- 3,18
52 --- BANCO CACIQUE S A --- 3,33
53 --- BANCO CITICARD --- 3,56
54 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 3,70
55 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 3,76
56 --- BANCO CEDULA S A --- 3,80
57 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 3,83
58 --- FINANSINOS S A CFI --- 3,91
59 --- BANCO A J RENNER S A --- 3,97
60 --- OMNI SA CFI --- 4,00
61 --- BANEX S/A CFI --- 4,05
62 --- BANCO SEMEAR --- 4,08
63 --- BANCO PAULISTA S A --- 4,12
64 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 4,14
65 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 4,31
66 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 4,44
67 --- BANCO ITAUCARD --- 4,47
68 --- BANCO GE CAPITAL S A --- 4,59
69 --- ROTULA S/A SCFI --- 4,62
70 --- BANCO CITIBANK S A --- 4,82
71 --- BANCO BRADESCO S A --- 4,83
72 --- BANCO ITAU S A --- 5,04
73 --- PORTOSEG S A CFI --- 5,09
74 --- BANCO INTERMEDIUM S/A --- 5,36
75 --- BRB CFI S A --- 5,82
76 --- BANCO SAFRA S A --- 6,56
77 --- FINAMAX S A CFI --- 7,19
78 --- CREDIARE CFI --- 7,24
79 --- AYMORE CFI --- 9,74
80 --- CIFRA S A CFI --- 9,94
81 --- PORTOCRED S A CFI --- 10,09
82 --- GRAZZIOTIN FINANCIADORA SA CFI --- 10,85
83 --- MIDWAY S.A. - SCFI --- 10,89
84 --- GOLCRED --- 11,06
85 --- BANCO FININVEST S A --- 11,25
86 --- DACASA FINANCEIRA S A SCFI --- 11,32
87 --- NEGRESCO S A CFI --- 12,74
88 --- KREDILIG --- 12,85
89 --- FAI S A CFI --- 13,92
90 --- BANCO AZTECA DO BRASIL S.A. --- 14,36
91 --- FIN ITAU CBD CFI --- 14,79
92 --- SAX CFI --- 14,86
93 --- BANCO ITAUCRED FINANC S A --- 15,32
94 --- BANCO IBI S A BM --- 15,38
95 --- CREFISA S A CFI --- 18,43
96 --- CETELEM BRASIL S A CFI --- 19,70
97 --- BANCO CARREFOUR S.A. --- 25,13

Fonte: Banco Central do Brasil

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

LG lança telefone celular com TV digital

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LG lança telefone celular com TV digital

A LG lançou o Telefone Celular Scarlet Phone, aparelho celular com TV digital, voltado ao consumidor que deseja usufruir das opções de entretenimento disponibilizadas pela recente transmissão digital de imagem e áudio fornecida pelas emissoras brasileiras.

O Celular Scarlet Phone é fino e tem tela colorida de 3 polegadas sensível ao toque. O aparelho permite conexão 3G, possui bluetooth, porta USB e sistema de reconhecimento de escrita, além de aceitar cartões de memória de até 8GB.

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Fevereiro 22, 2009

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Fevereiro 22, 2009

O Estado de São Paulo

livros a cabana william p young books

Ficção

01. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

02. ECLIPSE (3º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

03. CREPÚSCULO (1º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

04. LUA NOVA (2º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

05. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

06. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

07. A CIDADE DO SOL
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

08. O MENINO DO PIJAMA LISTRADO
John Boyne . leia um trecho do livro

09. O LEITOR
Bernhard Schlink

10. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak


livros comer rezar amar elizabeth gilbert books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. VENCENDO O PASSADO
Zibia Gasparetto

03. GOMORRA
Roberto Saviano

04. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

05. A ARTE DA GUERRA
Sun Tzu . leia um trecho do livro

06. MARLEY E EU
John Grogan . leia um trecho do livro

07. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

08. O CÓDIGO DA INTELIGÊNCIA
Augusto Cury . leia um trecho do livro

09. QUEM ME ROUBOU DE MIM?
Fábio de Melo

10. RESISTÊNCIA
Agnès Humbert . leia um trecho do livro


Conheça o primeiro capítulo do livro que deu origem ao filme Quem Quer Ser Um Milionário (vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2009).


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Trecho do Livro: Sua Resposta Vale Um Bilhão (filme Quem Quer Ser Um Milionário?)

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Trecho do Livro: Sua Resposta Vale Um Bilhão (livro que deu origem ao filme Quem Quer Ser Um Milionário?) | Vikas Swarup

Livros Quem Quer Ser Um Milionario Vikas Swarup BooksLivro: Sua Resposta Vale Um Bilhão

Saiba onde encontrar este livro

Estou preso. Por ter ganhado num programa de perguntas e respostas da TV.

Vieram me pegar ontem à noite bem tarde, quando até os cães sem dono já tinham ido dormir. Arrombaram minha porta, me algemaram e me carregaram para um jipe, que aguardava com uma luz vermelha piscando.

Não houve confusão. Nenhum morador saiu de seu barraco. Apenas a velha coruja do tamarindeiro piou quando me levaram preso.

Em Dharavi, é tão comum ocorrer uma prisão quanto alguém ser vítima dos batedores de carteira no trem. Não há dia em que algum infeliz morador não seja levado para a delegacia. Uns são arrastados pelos policiais, gritando e esperneando. Outros vão embora em silêncio. Acham natural a vinda da polícia, talvez até a esperem. Para eles, a chegada do jipe com a luz vermelha piscando é de fato um alívio.

Olhando para trás, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse esperneado e gritado. Protestado que era inocente, criado caso, mobilizado os vizinhos. Não que isso fosse mudar alguma coisa. Mesmo que eu conseguisse acordar alguns dos moradores, eles não teriam movido um dedo para me defender. Com os olhos pesados de sono, teriam assistido ao espetáculo fazendo algum comentário banal, como "lá vai mais um", bocejando e voltando para a cama na mesma hora. O fato de eu ser levado embora da maior favela da Ásia não alteraria suas vidas em absoluto. De manhã, haveria a mesma fila na bica de água, a mesma luta cotidiana para não perder o trem das sete e meia. Nem sequer se dariam ao trabalho de tentar descobrir o motivo da minha prisão.

Pensando bem, quando os dois policiais invadiram meu barraco, nem eu mesmo tentei.

Quando toda a sua existência é "ilegal", quando você vive a um passo da miséria num panorama de devastação urbana em que cada centímetro quadrado de espaço é disputado, em que é necessário entrar em fila até para ir ao banheiro, ser preso parece inevitável. Você é condicionado a acreditar que um dia chegará um mandado de prisão com seu nome nele, e que mais cedo ou mais tarde virá um jipe com uma luz vermelha piscando para pegá-lo.

Alguns dirão que a culpa foi minha. Que eu não tinha nada que me meter num programa de perguntas e respostas. Vão me apontar o dedo e lembrar o que dizem os velhos de Dharavi: nunca se deve cruzar a linha que separa os ricos dos pobres. Ora, onde já se viu um garçom sem um tostão participar de um teste de inteligência? O cérebro não é um dos órgãos que temos permissão de utilizar. Nós só devemos usar as mãos e as pernas.

Ah, se eles me vissem respondendo àquelas perguntas! Tendo testemunhado meu desempenho, passariam a me encarar com mais respeito. É uma pena o programa ainda não ter ido ao ar. Mas assim mesmo espalhou-se a notícia de que eu havia ganhado alguma coisa. Como numa loteria. Quando os outros garçons ficaram sabendo, resolveram dar uma grande festa para mim no restaurante. Cantamos, dançamos e bebemos até altas horas. Pela primeira vez, nosso jantar não foi a comida rançosa de Ramzi. Pedimos biryani de frango e seekh kebabs do hotel cinco estrelas da Marine Drive. O barman, um velho encarangado, me ofereceu a filha dele em casamento. Até o gerente mal-humorado sorriu para mim, tolerante, e finalmente me pagou os salários que estava me devendo. Naquela noite, não me chamou de vagabundo. Nem de cachorro danado.

Agora é Godbole que me xinga, e de coisas ainda piores. Estou sentado de pernas cruzadas dentro de uma cela de três metros por dois, com uma porta de metal enferrujada e uma janelinha quadrada com uma grade, pela qual entra um raio de sol empoeirado. A cadeia é quente e úmida. Moscas zumbem em torno dos restos de uma manga madura demais, esmigalhada no chão de pedra. Uma barata tristonha se arrasta até minha perna. Começo a sentir fome. Meu estômago ronca.

Fui avisado de que seria conduzido em breve à sala de interrogatórios, para ser questionado pela segunda vez desde que me prenderam. Após uma espera interminável, vem alguém para me levar. É o inspetor Godbole em pessoa.

Godbole não é muito velho, deve ter quarenta e tantos anos. Está ficando calvo, e o rosto redondo é dominado por um bigode espesso de pontas retorcidas. Ele anda com passos pesados, e o barrigão fornido cai por cima da calça cáqui. "Moscas desgraçadas", ele reclama, e tenta agarrar uma que está voando em círculos diante de seu rosto. Não consegue.

O inspetor Godbole não está de bom humor hoje. As moscas o incomodam. O calor o incomoda. Riachos de suor escorrem de sua testa. Ele os enxuga com a manga da camisa. Acima de tudo, o que o incomoda é meu nome. "Ram Mohammad Thomas - que diabo de nome maluco, que mistura todas as religiões! Será que a sua mãe não sabia direito quem era o seu pai?", diz ele, não pela primeira vez.

Ignoro o insulto. Já me habituei.

À porta da sala de interrogatório, dois policiais estão em posição de sentido, sinal de que há alguém importante lá dentro. Hoje de manhã os dois estavam mascando paan e trocando piadas cabeludas. Godbole literalmente me empurra para dentro da sala, onde há dois homens em pé diante de um gráfico afixado à parede, que representa o número total de seqüestros e assassinatos ocorridos durante o ano. Reconheço um deles. É o mesmo homem com cabelão de mulher - ou de roqueiro - que estava presente durante a gravação do programa de perguntas e respostas, dando instruções ao apresentador pelo ponto eletrônico. Não sei quem é o outro, que é branco e completamente careca. Usa um terno roxo e uma gravata de um laranja bem vivo. Só mesmo um branco usaria terno e gravata nesse calor sufocante. Ele me faz pensar no coronel Taylor.

O ventilador de teto está na velocidade máxima, e no entanto o ambiente é abafado, por não haver janela. O calor se desprende das paredes brancas e é capturado pelo teto baixo, de madeira. Uma viga comprida e fina divide a sala em duas partes iguais. Os únicos móveis são uma mesa enferrujada e três cadeiras em torno dela. Uma luminária de metal pende da viga de madeira, diretamente sobre a mesa.

Godbole me apresenta ao homem branco como um apresentador de circo faz com seu leão amestrado. "Este aqui é Ram Mohammad Thomas, senhor."

O branco enxuga a testa com um lenço e olha para mim como se eu fosse uma nova espécie de macaco. "Então este é o nosso famoso vencedor! Sabe, ele parece mais velho do que eu imaginava." Tento localizar o sotaque dele. O homem tem uma fala nasalada como a dos turistas ricos que já vi em bandos em Agra, gente que vem de lugares longínquos como Baltimore e Boston.

O americano acomoda-se numa cadeira. Tem olhos de um azul escuro, e o nariz é rosado. As veias esverdeadas da testa parecem ramos pequenos de uma árvore.

"Olá", me diz. "Meu nome é Neil Johnson. Eu represento a NewAge Telemedia, a companhia responsável pelo programa de perguntas. Este aqui é Billy Nanda, o produtor."

Permaneço em silêncio. Macaco não fala. Muito menos em inglês.

Ele se vira para Nanda. "Ele compreende o inglês, não é?"

"Você está maluco, Neil?", Nanda retruca. "Como você acha que ele pode falar inglês? Ele é um bocó, um garçom de um restaurante miserável, pelo amor de Deus!"

O som de uma sirene que se aproxima perfura o ar. Um policial entra correndo e cochicha alguma coisa no ouvido de Godbole. O inspetor sai apressado e volta com um homem baixo e corpulento, de uniforme de patente superior da polícia. Godbole sorri para Johnson, exibindo os dentes amarelados. "Senhor Johnson, o chefe de polícia Sahib chegou."

Johnson levanta-se. "Obrigado por vir, senhor. Creio que o senhor já conhece Billy."

O chefe de polícia faz que sim com a cabeça. "Vim para cá assim que recebi o comunicado do ministro do Interior."

"Ah, sim... Ele é um velho amigo do senhor Mikhailov."

"Pois bem, em que posso ajudá-lo?"

"Sahib, preciso da sua ajuda no caso do SRVB."

"SRVB?"

"Abreviação de Sua Resposta Vale um Bilhão."

"E o que é isso?"

"É um programa de perguntas e respostas que acaba de ser lançado - em trinta e cinco países - pela nossa companhia. Talvez o senhor tenha visto os nossos anúncios espalhados por toda Mumbai."

"Acho que não vi, não. Mas por que um bilhão?"

"Por que não? O senhor assistia a Quem Quer Ser Milionário?"

"Kaun Banega Crorepati? Esse programa foi uma obsessão nacional. Na minha família, assistir era obrigatório."

"E por que o senhor assistia?"

"Bom... porque era muito interessante."

"Teria sido tão interessante assim se o prêmio máximo fosse dez mil e não um milhão?"

"Bom... acho que não."

"Pois é. Como o senhor vê, o que mais chama a atenção no mundo não é sexo, é dinheiro. E, quanto maior a quantia, maior o atrativo."

"Entendi. Quem é o mestre-de-cerimônias do seu programa?"

"Quem apresenta é o Prem Kumar."

"Prem Kumar? Aquele ator de filme B? Mas a fama dele não chega aos pés da fama do Amitabh Bachchan, que apresentava o Crorepati."

"Não se preocupe, ele chega lá. Claro, em parte fomos obrigados a escolhê-lo porque ele tem vinte e nove por cento das ações da subsidiária indiana da NewAge Telemedia."

"O.k. Já entendi. Agora, onde é que esse sujeito, sei lá como ele se chama, Ram Mohammad Thomas, se encaixa nessa história?"

"Ele participou do nosso episódio número quinze na semana passada."

"E...?"

"E respondeu a todas as doze perguntas corretamente, ganhando assim um bilhão de rupias."

"O quê? O senhor deve estar brincando!"

"Não, não estou brincando. Ficamos tão surpresos quanto o senhor. Esse rapaz ganhou o maior prêmio da história. O programa ainda não foi ao ar, e assim poucas pessoas estão sabendo."

"O.k. Se o senhor diz que ele ganhou um bilhão, então ele ganhou um bilhão. Qual é o problema?"

Johnson fez uma pausa. "Será que eu e Billy podemos falar com o senhor em particular?"

O chefe de polícia faz sinal para que Godbole saia da sala. O inspetor me dirige um olhar feroz e sai. Eu permaneço na sala, mas todos ignoram a minha presença. Sou apenas um garçom. E os garçons não entendem inglês.

"Está bem. Agora me explique", diz o chefe de polícia.

"O problema, Sahib, é que o senhor Mikhailov não tem condições de pagar um bilhão de rupias no momento", diz Johnson.

"Então por que é que ele foi oferecer esse valor?"

"Foi... uma jogada comercial."

"Olha, eu continuo sem entender. Mesmo sendo uma jogada comercial, o seu programa não vai fazer ainda mais sucesso agora que alguém já ganhou o primeiro prêmio? Eu me lembro que, sempre que alguém ganhava um milhão no Quem Quer Ser Milionário?, a audiência dobrava."

"É uma questão de timing, Sahib, timing. Um show como o SRVB não pode ser comandado pelo acaso, por um lance de dados. Tem que seguir um roteiro. De acordo com nosso roteiro, ninguém deveria ganhar pelo menos durante os primeiros oito meses, quando então já teríamos recuperado a maior parte do nosso investimento graças aos comerciais. Mas agora esse tal de Thomas estragou todos os nossos planos."

O chefe de polícia assente com a cabeça. "Está bem. O que é que o senhor quer que eu faça?"

"Quero que me ajude a provar que Thomas não jogou limpo. Que seria impossível ele acertar todas as respostas das doze perguntas sem um cúmplice. Imagine só. Ele nunca cursou a escola. Nunca nem mesmo leu um jornal. Não tem como ele ganhar o primeiro prêmio."

"Bom... Eu não sei, não." O chefe de polícia coça a cabeça. "Já aconteceu de um rapaz de origem muito humilde se revelar um gênio. O Einstein não foi um que nem terminou o colegial?"

"Olha aqui, Sahib, podemos provar agora mesmo que esse cara não é nenhum Einstein", diz Johnson, fazendo um gesto dirigido a Nanda.

Nanda aproxima-se de mim passando os dedos pelo cabelão. Diz ele, em híndi: "Senhor Ram Mohammad Thomas, se o senhor é mesmo tão brilhante que conseguiu ganhar no nosso programa, gostaríamos que provasse sua inteligência participando de um outro questionário, agora. As perguntas são muito simples. Qualquer um que tenha inteligência mediana vai saber responder".

Ele me conduz a uma cadeira. "Está pronto? Eis a primeira pergunta: Qual é a moeda da França? As opções são: a) o dólar, b) a libra, c) o euro, e d) o franco."

Permaneço calado. De repente, a mão espalmada do chefe de polícia me acerta com força no rosto. "Você é surdo, seu cachorro? Responda, senão eu lhe quebro a cara", ele ameaça.

Nanda começa a pular de um lado para outro como um louco - ou como um roqueiro. "Por favor, não dá para fazer isso de maneira civilizada?", pergunta ele ao chefe de polícia. Então olha para mim. "E aí? Qual é a sua resposta?"

"Franco", respondo, aborrecido.

"Errado. A resposta correta é euro. Vamos para a segunda pergunta. Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua? Foi: a) Edwin Aldrin, b) Neil Armstrong, c) Iuri Gagárin, ou d) Jimmy Carter?"

"Não sei."

"Foi Neil Armstrong. Terceira pergunta: As pirâmides ficam em: a) Nova York, b) Roma, c) Cairo, ou d) Paris?"

"Não sei."

"Cairo. Quarta pergunta: Quem é o presidente dos Estados Unidos? a) Bill Clinton, b) Colin Powell, c) John Kerry, ou d) George Bush?"

"Não sei."

"George Bush. Lamento dizer, senhor Thomas, que nenhuma das suas respostas está certa."

Nanda vira-se para o chefe de polícia e volta a falar em inglês. "Está vendo? Eu disse que o cara é um idiota. Se ele respondeu àquelas perguntas na semana passada, foi porque ele armou algum esquema."

"Que espécie de esquema?", pergunta o chefe de polícia.

"Isso eu não sei. Fiz duas cópias do programa em DVD. Os nossos peritos passaram um pente fino na gravação, mas até agora não encontramos nada. Mais cedo ou mais tarde vamos achar alguma coisa."

A fome sobe da minha barriga para a garganta, deixando-me tonto. Tenho um acesso de tosse que me faz me dobrar.

Johnson, o americano careca, olha para mim fixamente. Então dirige-se ao chefe de polícia: "O senhor se lembra do caso do major do Exército que ganhou um milhão de libras em Quem Quer Ser Milionário? Aconteceu na Inglaterra, uns anos atrás. A companhia se recusou a pagar. A polícia abriu uma investigação e conseguiu incriminar o major. Descobriram que ele tinha um cúmplice na platéia, um professor universitário, que indicava qual era a resposta correta através de tosses codificadas. Não tenho dúvida de que o que aconteceu foi alguma coisa desse tipo".

"Então a gente devia procurar alguém tossindo na platéia?"

"Não. Ninguém estava tossindo. Ele deve ter usado outro método."

"E se ele estava com um pager ou celular?"

"Não. Temos certeza de que ele não tinha nenhum aparelho eletrônico. E naquele estúdio nem pager nem celular iam funcionar."

O chefe de polícia tem uma idéia. "Será que ele tem um chip de memória implantado no cérebro?"

Johnson suspira. "Acho que o senhor andou vendo muito filme de ficção científica. Olhe, seja o que for, o senhor precisa nos ajudar a descobrir. Não sabemos quem foi o cúmplice. Não sabemos qual foi o sistema usado. Mas tenho certeza absoluta de que esse garoto é um vigarista. O senhor precisa nos ajudar a provar."

"Já pensaram na possibilidade de comprar o sujeito?", sugere o chefe de polícia, animado. "Ele nem deve saber quantos zeros tem um bilhão. Imagino que ele ficaria muito satisfeito se vocês dessem a ele umas duas mil rupias."

Tenho vontade de dar um soco na cara do chefe de polícia. É bem verdade que antes desse programa eu não sabia quanto valia um bilhão. Mas isso são águas passadas. Agora eu sei. E estou decidido a receber meu prêmio. Com todos os nove zeros.

A resposta de Johnson me tranqüiliza. "Isso a gente não pode fazer", diz. "Corremos o risco de ser processados. A questão é a seguinte: ou bem ele ganhou de verdade ou bem é um vigarista. Assim, ou bem ele ganha um bilhão ou bem vai para cadeia. Não tem meio-termo possível. O senhor precisa nos ajudar a pôr esse sujeito na cadeia. Se o senhor Mikhailov tiver que pagar um bilhão agora, ele vai ter um infarto."

O chefe de polícia olha Johnson bem nos olhos. "Compreendo perfeitamente", responde, falando devagar. "Mas o que é que eu ganho com isso?"

Como se estivesse esperando por essa deixa, Johnson segura-o pelo braço e leva-o para um canto. Falam em voz baixa. Ouço apenas três palavras: "dez por cento". O chefe de polícia fica visivelmente entusiasmado com o que ouve. "Está bem, está bem, senhor Johnson, pode considerar o problema resolvido. Agora deixe eu chamar o Godbole."

O inspetor é chamado. "Godbole, o que é que você já conseguiu arrancar dele até agora?", pergunta o chefe de polícia.

Godbole me dirige um olhar ameaçador. "Nada, Sahib. O filho-da-mãe só faz repetir a mesma coisa: que ele simplesmente 'sabia' as respostas. Diz que foi uma questão de sorte."

"Sorte, é?", retruca Johnson, sarcástico.

"Sim, senhor. Até agora não utilizei nenhum método de pressão, senão ele já estaria cantando que nem um canário. Se o senhor me der permissão, Sahib, eu consigo o nome de todos os cúmplices dele em três tempos."

O chefe de polícia olha para Johnson e Nanda. "Vocês aprovam?"

Nanda sacode a cabeça vigorosamente, agitando o cabelão. "De jeito nenhum. Nada de tortura. Os jornais estão sabendo que ele foi preso. Se descobrem que ele foi maltratado, estamos liquidados. Já estou cheio de preocupações; só me faltava agora uma porcaria de uma ONG de direitos humanos cair em cima de mim."

O chefe de polícia dá tapinhas em suas costas. "Billy, você ficou igualzinho aos americanos. Não se preocupe. O Godbole é um profissional. Não vai ficar nenhuma marca no corpo do garoto."

A bile sobe no meu estômago como se fosse um balão. Tenho ânsia de vômito.

O chefe de polícia se prepara para ir embora. "Godbole, até amanhã de manhã quero que você descubra o nome do colaborador e todos os detalhes do golpe. Pode usar todo e qualquer meio que for necessário para extrair as informações. Mas tenha cuidado. Não esqueça que a sua promoção depende disso."

"Obrigado, Sahib. Obrigado." Godbole exibe um sorriso plástico. "Não se preocupe. Depois que esse garoto passar pelas minhas mãos, ele vai estar pronto para confessar até o assassinato do Mahatma Gandhi."

Tento me lembrar do nome do assassino do Mahatma Gandhi, que teria dito "Ei, Ram!" logo antes de morrer. Lembro-me disso porque, quando me contaram a história, exclamei: "É o meu nome!". E o padre Timothy, com todo o jeito, me explicou que era o nome do Senhor Ram, o deus hinduísta que havia sido expulso para a selva por catorze anos.

Enquanto isso, Godbole, tendo despachado o chefe de polícia e os dois homens, já voltou. Ele entra na sala de interrogatório e fecha a porta com força. Então estala os dedos diante de meu rosto. "O.k., seu moleque. Tire a roupa!"

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Trecho do Livro: Lições de um Cachorro Livre-Pensante | Ted Kerasote

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Trecho do Livro: Lições de um Cachorro Livre-Pensante | Ted Kerasote

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Ele surgiu no meio da noite, aparecendo de repente diante dos faróis, um cachorro grande de pêlo dourado, ofegante, com as patas dianteiras batendo no chão numa pequena dança ansiosa. Por trás dele, altos choupos na floração de abril. Além do arvoredo, o rio San Juan corria rápido, escuro e cheio pelo degelo da primavera.

Era quase meia-noite, e estávamos procurando um lugar para colocar nossos sacos de dormir antes de começar a excursão fluvial pela manhã. Junto de mim na cabine da picape sentava-se Benj Sinclair, tendo a seus pés um amontoado de embalagens de comida de estrada impregnado com os odores de cachorro-quente, cebola frita e burritos. Benj, com rosto redondo e barriga saliente, tinha 37 anos, passara sua juventude no Corpo da Paz, na África Ocidental, e chegara a ter um estômago capaz de digerir qualquer coisa. Atrás dele, no banco traseiro, estava Kim Reynolds, instrutora de atividades ao ar livre do Colorado, conhecida por sua competência num caiaque e por sua longa trança de cabelos castanhos, que exalavam o odor suave de uma mulher saudável de 32 anos, que tinha suado no deserto e não usara desodorante. Assim como Benj e eu, ela tinha jantado uma pizza em Moab, Utah, 160 quilômetros estrada acima, onde a tínhamos encontrado. E assim como nós, ela exalava odores de alho, cebola, molho de tomate, manjericão, orégano e anchovas.

No carro ao lado estavam Pam Weiss e Bennett Austin. Eles tinham vindo de Jackson Hole, em Wyoming, até Moab no próprio carro, nos ajudaram a equipar a balsa e comprar suprimentos, comeram pizza conosco e, como nós, não usavam perfume. Pam tinha 36 anos e era esquiadora olímpica, e Bennett, com 25 anos, estava tentando acompanhar o ritmo dela. Eles tinham acabado de se apaixonar, e exalavam uma mistura de endorfinas e feromônios.

As pessoas quase nunca descrevem as outras nesses termos — observando seus cheiros em primeiro lugar —, afinal, somos basicamente criaturas visuais e dependemos dos olhos para obter informações. Diferente de nós, para o grande cachorro dourado, fazendo sua pequena dança nos faróis, a única impressão realmente importante eram nossas assinaturas olfativas, que flutuavam até ele enquanto abríamos as portas.

Acho que foi por essa razão — o cheiro — que ele veio direto para a minha porta, inclinou a cabeça para a frente com cautela e cheirou minha coxa. Que mistura de aromas subiu por seu longo focinho naquele primeiro momento de nosso encontro? Que memórias atávicas, que possibilidades foram desencadeadas em sua visão canina de mundo à medida que ele desemaranhava os mistérios do meu suor?

O grande cachorro — que agora parecia avermelhado na luz interior do carro e estava sem coleira — inspirou novamente e me estudou com consideração entusiasmada. Poderia ter sido o que eu comi e o resíduo sutil que deixara nos meus poros o que o levou a ficar tão interessado em mim? Era a única coisa que eu podia ver (observe meu uso humano de “ver”, mesmo descrevendo um fenômeno olfativo) que me diferenciava de meus amigos. Assim como eles, eu esquiava, andava de bicicleta e escalava, e era solteiro. Eu tinha acabado de completar 41 anos, e era um homem enxuto com cabelos castanhos e olhos também castanhos e brilhantes. Mas, quando comia carne, era de animais selvagens, não de animais domésticos — na maior parte alce e antílope, junto com o eventual tetraz, pato, ganso ou truta.

Era a essência metabolizada disso tudo que o intrigava — algum bafo que nossos ancestrais paleolíticos compartilharam? O olfato é nosso sentido mais antigo. Foi o tecido olfativo no topo de nossos feixes nervosos primitivos que se transformou em nossos hemisférios cerebrais, onde se aloja o pensamento. Talvez o cachorro — um ser que vive através de seu olfato — soubesse muito mais sobre nossa ligação do que eu podia imaginar.

Seus profundos olhos castanhos fizeram de mim uma avaliação luminosa e disseram: “Você precisa de um cachorro, e eu sou ele.”

Perturbado por sua análise excepcional de mim — eu vinha procurando um cachorro há mais de um ano —, passei a mão de maneira cordial e respondi: “Bom menino.”

Seu rabo abanou com força e ele não se mexeu, com os olhos ainda dizendo: “Você precisa de um cachorro.”

Enquanto saíamos dos carros e começávamos a tirar nossas coisas, não o vi mais direito. Vislumbrei sua cabeça, depois o rabo, em seguida um flanco castanho-avermelhado, se movendo entre pernas e sandálias.

Joguei meu colchonete e o saco na areia sob um choupo, deslizei dentro de seu calor macio, virei de lado e vi o cachorro cavando um ninho do meu lado. Diligentemente, ele cavou a areia com as patas dianteiras, jogando-a entre as patas traseiras antes de virar, virar, virar e se acomodar para me olhar. À luz das estrelas, pude ver uma sobrancelha subir e a outra descer.

É claro que “sobrancelha” não é o termo correto, visto que cachorros transpiram apenas através das patas e não precisam de sobrancelhas para manter o suor longe dos olhos, como nós. Mesmo assim, algumas raças de cachorros têm pêlos mais escuros sobre os olhos, o que poderia ser chamado de “marcadores de sobrancelhas”, e ele os tinha.

Os Hidatsa, uma tribo nativa norte-americana das Grandes Planícies, acreditam que esses tipos de cachorros, que eles chamam de “Quatro Olhos”, são particularmente dóceis e têm poderes mágicos. Stanley Coren, o sagaz psicólogo canino da Universidade da Colúmbia Britânica, também observou que esses cachorros com “quatro olhos” obtiveram sua reputação de poderes mágicos “porque suas expressões eram mais fáceis de ler do que as de outros cachorros. As manchas de cores contrastantes fazem com que os movimentos dos músculos sobre o olho fiquem muito mais visíveis”.

À luz das estrelas, o cachorro deitado ao meu lado levantou uma sobrancelha enquanto abaixava a outra, indicando curiosidade misturada à preocupação com seu destino.

— Boa noite — eu disse, fazendo-lhe um afago. Depois fechei os olhos.

Quando os abri de manhã, ele ainda estava encolhido em seu ninho, olhando diretamente para mim.

— Oi — eu disse.

Uma sobrancelha subiu e a outra desceu.

“Eu sou seu”, os olhos diziam.

Dei um suspiro, desprevenido para o jeito como seu rosto simpático, ligeiramente semelhante ao de um cão de caça — que ia da felicidade à preocupação —, deixou um corte no meu coração. Eu estivera observando milhares de samoiedos, bolas de pêlo branco com olhos pretos brilhantes e travessos. Era a raça perfeita para uma pessoa introspectiva como eu, pensava. Mas eu não conseguia levar um para casa. Também havia pensado seriamente nos labradores, seduzido por suas personalidades exuberantes e sabendo que um cachorro tão robusto e enérgico compartilharia com facilidade minha vida ao ar livre, assim como o perdigueiro que eu acreditava querer. Mas nenhum filhote de labrador me dera aquele repuxo no coração que significava “Nós somos uma equipe”.

A sobrancelha direita do cachorro deitado ao meu lado baixou enquanto ele me olhava. A esquerda subiu, sugerindo: “Sua demora teve um bom motivo.”

— Talvez — disse eu, sentindo ceder meu desejo por um cachorro de pedigree. — Talvez — falei novamente para o cachorro cujos olhos cruzavam com os meus, voltavam e ficavam. Ele tinha o jeito de um labrador amarelo-arruivado, pensei, pelo menos de certos ângulos.

Ao ouvir minha voz ele enfiou a cabeça sob meu braço e aproximou o focinho do meu nariz. Surpreendentemente, ele não tentou me lamber naquele gesto efusivo que muitos cachorros usam com alguém que percebem dominá-los, seja uma pessoa ou outro cachorro — uma herança, alguns acreditam, de lobos jovens pedindo comida aos pais e outros lobos adultos. Os adultos, por não terem mãos para carregar provisões, trazem carne no estômago. Os filhotes lambem suas bocas, e os adultos regurgitam a carne parcialmente digerida. Filhotes que acabam se tornando líderes abandonam o lamber subordinado. Lobos de posição inferior continuam a demonstrar o comportamento para lobos de posição superior, assim como muitos cachorros domésticos fazem com seres humanos. Essa autoconfiança canina me fez pensar. Será que ele não estava me lambendo porque nos considerava iguais? Ou será que minha linguagem corporal — nós dois no mesmo nível — lhe permitiu se sentir de certa forma como um igual? Ele cheirou minha respiração de modo circunspecto e eu, por minha vez, cheirei a dele. Era doce.

O que quer que ele tenha farejado na minha lhe agradou. “Eu sou seu”, os olhos disseram novamente.

Confuso com a certeza dele a meu respeito, me levantei e me afastei. Não queria abandonar meus planos de encontrar um filhote que só tivesse de seis a oito semanas de nascido e que eu pudesse formar do meu jeito. O cachorro percebeu minha firmeza e não me seguiu. Em vez disso, foi ao encontro das outras pessoas, cumprimentando-as com o rabo balançando e grandes sorrisos de sua boca cheia de dentes. “Bom dia, bom dia, dormiram bem?”, ele parecia dizer.

Mas enquanto eu organizava meu equipamento, não conseguia manter o olhar longe dele. Apesar das costelas à mostra, ele parecia saudável e forte, e tinha a aparência de quem vinha vivendo ao ar livre há bastante tempo, com o pêlo cheio de pedaços de folhas e galhos. Ele devia pesar uns 25 quilos, ainda não totalmente crescido, com seu couro cor de raposa caindo em dobras, esperando pelo cachorro adulto que viria a ser. Tinha uma estria de pêlo mais escuro ao longo da espinha, plumas douradas curtas na parte traseira das pernas e um babadouro de pêlo no peito semelhante a um smoking — apenas um contorno — cheio de manchas brancas. Suas orelhas eram macias, parecidas com flanela, e caíam ligeiramente abaixo da mandíbula. O focinho era preto brilhante, ele tinha lábios igualmente brilhantes e os dentes cintilavam. O rabo era grande e vigoroso.

Toda vez que eu o olhava, ele parecia manifestar sua ancestralidade de quatro olhos, mudando de forma diante de mim: num momento o labrador que eu queria; depois um leão da Rodésia, brilhando sob o sol distante de Kalahari; um instante depois se tornava um coiote de focinho comprido, nascido do deserto de pedras vermelhas e criado no meio desses desfiladeiros e cactos. Quando olhava diretamente para mim — uma sobrancelha erguida, a outra para baixo, sua face se enrugava de preocupação — ele realmente parecia ter algum traço de cão de caça. Obviamente, já pertencera a alguém, pois não tinha testículos e a cicatriz da castração fechara completamente, deixando o pêlo crescer de volta.

Enquanto eu preparava o café-da-manhã numa das mesinhas de piquenique, ele voltou a ficar junto de mim, sentado pacientemente a poucos metros de distância e se comportando impecavelmente, à medida que olhava a salsicha de alce ir das minhas mãos para a frigideira. Ele não emitiu um único som, embora um ligeiro tremor tenha passado por seu corpo.

Quando as fatias ficaram prontas, perguntei:

— Quer um pouco?

Um tremor o fez estremecer novamente. Seus olhos brilharam; mas ele não se mexeu. Eu parti um pedaço e ofereci a ele. Seu focinho fez um meneio de prazer; ele o apanhou cuidadosamente da ponta dos meus dedos e engoliu. O rabo varria a areia, para a frente e para trás, em sinal de apreciação.

— Este cachorro — disse a guarda do Departamento de Gerência de Terras Públicas, que enquanto comíamos chegara para verificar nossa permissão para navegar no rio — tem estado por aqui há alguns dias. Acho que foi abandonado, o que é estranho, porque ele é bonito e muito amigável.

Todos nós concordamos.

— De onde ele veio? — perguntei.

— Ele simplesmente apareceu — ela respondeu.

O cachorro observou essa conversa com atenção, olhando do rosto da guarda para o meu.

Apanhei um pau, querendo ver como ele ia buscar. No momento em que movi meu braço para trás, ele se encolheu de medo, recuou alguns passos e me olhou desconfiado.

— Às vezes ele tem medo — disse a guarda. — Acho que alguém batia nele.

Joguei o pau para longe dele, na direção do rio. Ele aprovou calmamente, depois olhou para mim, com a mesma calma. “Eu não vou buscar”, seu olhar dizia. “Isso é para cachorros.”

— Ele não vai buscar — a guarda falou.

— Eu percebi.

Ela verificou nossa bandeja para fogo e o vaso sanitário portátil — ambos exigidos pelo Departamento para balseiros que navegavam no rio San Juan — enquanto o cachorro ficava por perto, esperançoso mas procurando parecer discreto.

— Eu ficaria com este cachorro se pudesse — a guarda disse, observando que eu olhava para ele. — Mas nós não podemos ter cachorros.

— Talvez nós devêssemos levá-lo na descida do rio — eu me ouvi dizendo.

— Eu faria isso — ela falou.

Quando eu levantei a questão com os outros, eles concordaram que podíamos ter um mascote, um cachorro de rio, para nossa viagem. Levar um cachorro numa excursão ao ar livre não é uma idéia nova. Na verdade, é uma tradição norte-americana. Alexander Mackenzie tinha um vira-lata adotivo que o acompanhou em sua famosa primeira jornada através do continente até o Pacífico em 1793, pelo sul do Canadá. O cachorro não recebeu nome no diário de Mackenzie, mas foi mencionado várias vezes por sobreviver a nados em corredeiras e por matar novilhos de bisão. Meriwether Lewis também teve um cachorro em sua jornada com William Clark, subindo o rio Missouri e descendo o rio Colúmbia de 1803 a 1806. O aclamado Seaman, da raça terra-nova, protegeu o acampamento de ursos-cinzentos e caçou vários esquilos para a caçarola, além de abater renas, antilocapras e gansos. Apesar de membros da expedição terem comido dezenas de outros cachorros (comprados de índios) quando a caça rareou, nunca se pensou em colocar o Seaman na grelha. Ele, que foi um membro honorário da expedição até o fim, pode ter mantido a sanidade de Lewis, com tendência a depressão, naquela difícil jornada. Três anos após retornar à civilização, e sem mencionar o que aconteceu com seu cachorro, Lewis se suicidou. John James Audubon também tinha um terra-nova, um incansável excursionista chamado Plato, que o acompanhava pelo campo e apanhava muitos pássaros que o artista abatia para suas pinturas. Audubon dizia que ele era “um animal bem treinado e extremamente sagaz”.

Com precedentes tão respeitáveis, teria sido uma vergonha não levar este cachorro tão bonito e bem-comportado conosco. Que mal poderia acontecer? Ninguém levantou a questão do que faríamos com ele quando saíssemos do rio em Clay Hills, acima de Lake Powell, dali a seis dias. Veríamos depois, na hora. Entretanto, não estávamos no século XIX. Não íamos viver da terra; precisávamos comprar ração. Benj e eu fomos até a cidade vizinha de Bluff, em Utah, e voltamos com um saco de Purina Dog Chow e uma caixa de biscoitos para cachorros.

O único que não sabia que o cachorro ia conosco era, é claro, o próprio. Após carregar a balsa com bolsas impermeáveis e isopores de comida, bati no lado e disse a ele:

— Pode entrar. Agora você é um cachorro de rio.

Eu fora designado para remar a balsa no primeiro dia, enquanto os outros andassem de caiaque.

Cheio de dúvidas, ele olhou para a balsa. “Nem pensar”, seus olhos diziam, “isto parece perigoso”.

Tentei acariciá-lo, mas ele se afastou, emitindo um “rá-rá-rá”, meio de brincadeira, meio com medo, enquanto subia e descia as patas dianteiras naquela dança enérgica que fizera na noite anterior, quando aparecera diante dos faróis.

— Você vai gostar — eu disse. — Desfiladeiros ensombrados, lugares bacanas para acampar, gravuras rupestres, nadar todo dia, biscoitos de cachorro, Purina Dog Chow e — falei em uma voz bem persuasiva — salsicha de alce.

Abri meu saco de comida à prova d’água, cortei um pedaço da salsicha de alce de verão e lhe ofereci. Ele chegou perto, baixou a cabeça e pegou.

— Vamos lá, pula pra dentro!

Ele estremeceu, sabendo muito bem que estava sendo enganado, mas apesar disso deixando que eu lhe fizesse carinho, dividido entre o desejo de ir junto e o medo da balsa. Cuidadosamente, coloquei os braços em volta dele, por baixo de seu peito, e o levantei. Ganindo em protesto, ele lutou. Eu consegui colocá-lo na balsa, enquanto Benj tentava nos empurrar.

O cachorro pulou do barco, mas em vez de fugir dançou para cima e para baixo na margem, arfando freneticamente “rá-rá-rá, rá-rá-rá”, que eu interpretei como “eu quero ir, mas não sei para onde vamos, não gosto da balsa e estou com medo”.

Falei com ele num tom baixo e suave e consegui acalmá-lo o suficiente para poder acariciá-lo de novo. Descansando a cabeça no meu joelho, ele deu um grande suspiro, como alguém que está emocionalmente exausto. Por um momento, pude sentir suas muitas esperanças frustradas e seu medo das pessoas e seus equipamentos — não sem razão, considerando como ele se assustara quando levantei a vara para que a pegasse.

Os outros estavam em seus caiaques, prontos para partir. Cuidadosamente, coloquei meus braços ao redor dele de novo, mas quando o levantei ele lutou com força, ganindo desesperadamente. Coloquei-o no barco, e Benj nos empurrou enquanto eu segurava o cachorro, até a correnteza nos levar. Então eu o soltei e comecei a remar. Estávamos a poucos metros da margem. Com um salto e algumas pernadas ele conseguiria voltar com facilidade para a terra. Ficar ou ir embora — a escolha era dele. O cachorro pulou para a amurada da balsa, colocou as patas sobre ela e olhou rio acima sem mostrar medo da água em movimento. Ao contrário, ele olhava para a margem que se afastava como se visse seu continente natal sumir para baixo da linha do horizonte.

Sua ambivalência enchia minha mente de perguntas. Ele fora abandonado ou se perdera? Em qualquer um dos casos, ele estava esperando fielmente seu dono voltar? Sua amizade com relação a mim seria sua maneira de pedir ajuda para encontrar essa pessoa? Eu teria me enganado ao interpretar seu olhar que parecia dizer “Você é a pessoa que eu estava esperando”? Seu olhar saudoso para a margem era simplesmente a ligação a um lugar conhecido — um cenário conhecido onde ele poderia ter sido maltratado, mas mesmo assim um lar? Quantas almas maltratadas — caninas ou humanas — já permaneceram em lugares onde não eram amadas porque ficar era muito menos aterrorizador do que ir embora?

— Calma, calma — murmurei quando ele começou a tremer.

Acariciei sua cabeça e seus ombros. Virando, ele me olhou com uma expressão que nunca esquecerei. Era uma mistura de perda, medo do desconhecido e esperança.

É claro que muitos dirão que eu estava sendo antropomórfico. Outros poderiam argumentar que eu estava projetando minhas emoções. Mas o que eu estava fazendo — lendo sua linguagem corporal — era aquilo de que os psicólogos precisam para analisar seus clientes. Todos nós usamos as mesmas técnicas quando tentamos entender os sentimentos dos que estão à nossa volta — amigos, familiares e colegas. Não haveria relações humanas, ou elas ficariam extremamente empobrecidas, sem nossa tentativa de usar nossas próprias emoções como modelos — como pontos de partida — para entender os sentimentos de outros.

Porém algo mais estava acontecendo entre o cachorro e eu. Uma quantidade crescente de pesquisas com diversas espécies — papagaios, chimpanzés, marmotas, golfinhos, lobos e cachorros domésticos — já demonstrou que elas têm a capacidade física e cognitiva para transmitir uma vasta série de informações não só entre si, mas também a outras espécies, por vezes até usando construções gramaticais semelhantes às empregadas nas linguagens humanas. Indivíduos de algumas dessas espécies também conseguem se identificar com assinaturas vocais — em termos humanos, um nome.

Esses estudos corroboraram o que eu sinto sobre cachorros há muito tempo — que eles são falantes de uma língua estranha e que, se prestarmos atenção a suas vocalizações, expressões oculares e faciais e posturas em mudança constante, poderemos traduzir o que eles estão dizendo. Por vezes fazemos a interpretação imediata (“Estou com fome”), por vezes fazemos uma suposição razoável (“Estou triste”), e ocasionalmente precisamos usar uma figura de linguagem para superar a lacuna entre a cultura deles e a nossa (“Amo tanto você que meu coração poderia explodir”).

Donos de cachorros que têm “conversas” com seus animais sabem exatamente o que quero dizer. Aqueles que não têm — assim como aqueles que consideram absurda a idéia de conversar com um cachorro — talvez queiram considerar que o ser humano compartilhou uma parceria mais longa e mais íntima com cachorros do que com qualquer outro animal doméstico, começando antes da existência da civilização. Nesses tempos remotos — antes que a fala e a escrita atingissem a influência atual — cachorros tiveram uma oportunidade maior de se fazerem entender por humanos que ainda se sentiam confortáveis se comunicando além das fronteiras da palavra falada e escrita.

Charles Darwin, um observador tão interessado em cachorros domésticos quanto em pintassilgos das ilhas Galápagos, comentou sobre a igualdade relativa que no passado existiu entre cachorros e homens, e que continua existindo, se você a procura: “A diferença entre a mente de um homem e a dos animais mais desenvolvidos, embora grande, certamente é de grau e não de gênero.” Darwin chegou a dizer que “não há diferença fundamental entre o homem e os animais mais desenvolvidos em termos de faculdades mentais”, acrescentando que os outros animais vivenciam felicidade, surpresa, vergonha, orgulho, curiosidade, ciúme, suspeita, gratidão e magnanimidade. “Eles praticam trapaça e são vingativos”, afirmou ele, e têm “qualidades morais”, cujos elementos mais importantes são “amor e a clara emoção de simpatia”. Essas foram noções surpreendentes quando ele as revelou em 1871, e continuam sendo inesperadas atualmente, até para muitos que acreditam que animais conseguem pensar.

O cachorro afastou os olhos dos meus, olhou para a margem e soltou um suspiro resignado — eu viria a aprender que ele suspirava muito. Ao descer na balsa, ele fez uma breve inspeção em nosso equipamento e finalmente fixou o olhar no isopor colocado na proa, cercada de bolsas impermeáveis. Andou até ele, pulou sobre ele e deitou com as costas para mim. Deixou outro suspiro escapar. Todavia, em poucos minutos eu o vi olhando a ribanceira e os choupos com crescente interesse, sua cabeça virando para um lado e para outro enquanto ele observava que o campo se movimentava e ele aparentemente não.

— Bem legal, não é?

Ele virou as orelhas para trás, reconhecendo minha voz sem virar a cabeça.

Quando entramos no primeiro desfiladeiro e os paredões esconderam o céu, ele olhou rio acima e estremeceu — a terra tinha desaparecido. Ele se virou para ficar sentado e olhou em volta de maneira apreensiva. De repente, ele virou o focinho para o céu e soltou um uivo choroso, começando num registro grave e passando para um alto crescendo melancólico. Dos paredões do desfiladeiro veio o eco: “Aaauuuuu, aaauuuuu, aaauuuu.”

Aturdido, ele ergueu a cabeça para o cachorro invisível que respondera.

Onde ele se escondia? Olhou para cima e para baixo do rio e para os paredões ensombrados. Parecia nunca ter ouvido um eco antes. Logo depois, ele uivou de novo, e mais uma vez ficou surpreso ao ouvir sua voz ricochetear nos paredões. Ele olhou em volta desconfiado antes de soltar outro uivo — desta vez como um teste e não para reclamar de sua situação. Quando o eco voltou, uma expressão de começo de entendimento passou por seu rosto. Era incrível ver a compreensão iluminar seus olhos. Seus lábios se arquearam para cima num sorriso, e ele uivou de novo, um uivo longo e profundo, mas sem nenhuma tristeza. Imediatamente, ele levantou a cabeça para ouvir seu eco. Quando os paredões do desfiladeiro enviaram sua voz de volta, ele começou a balançar o rabo de um lado para outro com muito entusiasmo. Ele se virou e me deu um olhar de prazer surpreso — a mesma expressão que as pessoas usam quando se ouvem pela primeira vez.

Eu me aproximei e pus a mão em seu peito.

— Você é mesmo o cantor — disse a ele.

Jogando a cabeça para trás, ele riu mostrando os dentes.

A partir daquele momento, ele não olhou mais para trás. Sentou no isopor como uma esfinge, virando a cabeça para olhar as escarpas e os desfiladeiros laterais passarem. Fez caminhadas conosco subindo até várias habitações dos povos indígenas pré-históricos anasazi nos penhascos escarpados, e ficou quieto, prestando atenção enquanto examinávamos inscrições nas rochas. No caminho de volta ao rio, ele vagueava para longe, desaparecendo por longos minutos, e reaparecia conforme nos aproximávamos dos barcos, correndo em nossa direção através dos cactos sem olhar para o caminho tortuoso que estava percorrendo. Parecia estar bem confortável no deserto.

No acampamento naquela noite, ele supervisionou o traslado do equipamento da balsa para um lugar mais alto e ficou olhando quando começamos a desempacotar nossas bolsas impermeáveis. Depois, convencido de que não íamos partir, ele desapareceu. Eu o vislumbrei explorando um grande perímetro ao redor de nosso acampamento, mexendo com a pata em algum objeto de interesse, cheirando a vegetação e levantando a perna para marcá-la. Quando comecei a colocar seu jantar numa das panelas, ele logo apareceu, tendo ouvido o tinir da ração no metal. Ele engoliu o jantar com voracidade, olhou para mim e balançou o rabo. Levantando a cabeça, ele ergueu uma sobrancelha e claramente acrescentou: “A entrada estava ótima. Agora onde está o resto?”

Coloquei mais um pouco, e depois de devorar tudo ele me lançou o mesmo olhar: “É só isso?” O mesmo aconteceu depois do prato seguinte.

— Chega — eu disse a ele, cruzando as mãos e separando-as da maneira como um juiz de beisebol faz o sinal para “chegou seguro”.

Ele ficou prostrado.

— Ainda temos mais cinco dias — expliquei. — Você não pode comer tudo hoje. — Enquanto guardava a comida, eu disse: — Vamos lá, me ajude com a latrina.

Ele me seguiu quando eu levei para cima uma grande caixa de munição — vazia — e a coloquei num banco de pedra com vista panorâmica do rio. Depois de forrá-la com um saco plástico forte, fiz o uso inaugural enquanto o cachorro permaneceu sentado a uns dois metros de distância, balançando o rabo de satisfação à medida que os aromas sopravam em sua direção. O saco de cada dia tinha de ser selado e levado rio abaixo para ser jogado fora corretamente no final da viagem, e nós tínhamos trazido uma lata de desinfetante com alvejante para borrifar o conteúdo de modo a reduzir a produção de odores e gás metano. Foi o que fiz, deixando a lata e o rolo de papel higiênico ao lado da caixa. Quando voltei para o acampamento, o grande cachorro dourado me seguiu, com o focinho para cima, narinas dilatadas.

Na hora do jantar sentamos em círculo ao redor dos fogões e das panelas, e o cachorro deitou entre Benj e eu, olhando com atenção para cada um de nós quando falávamos. Estávamos conversando sobre como chamá-lo, além de “psiu”.

Bennett propôs “Merlin”, visto que o cachorro parecia ter algo de mágico. Benj, que estava abrindo uma garrafa de vinho, queria algo relacionado com nossa excursão, como “Merlot”. Ele serviu uma taça para cada um de nós e ofereceu um pouco para o cachorro cheirar. Ele virou a cabeça para trás assustado e olhou para a taça com desdém.

— Não é um bebedor — Benj comentou.

— Que tal “Hintza”? — sugeri. — Ele era o leão da Rodésia do livro A Story Like the Wind (Uma história como o vento), de Laurens van der Post. Ele parece com Hintza.

Houve várias tentativas para chamar o cachorro de Hintza, e todas provocaram uma expressão de dor em seu rosto, como se a segunda sílaba vibratória, “tza”, pudesse provocar-lhe algum tipo de desconforto auditivo.

— Nada de heróis literários — disse eu.

Alguém sugeriu o nome do rio, “San Juan”. Isso provocou negações generalizadas.

O céu escureceu revelando as estrelas, o rio sussurrava ao longo da margem abaixo de nós. Entramos em nossos sacos de dormir. Fiquei olhando o cachorro ainda sem nome andar até o rio, beber água e depois desaparecer. Não sei quanto tempo passou até eu sentir seu dorso de encontro ao meu. Ele estava quente e firme, e soltou um suspiro longo e satisfeito. De manhã não se encontrava mais lá, mas apareceu logo depois que eu acordei. Saltitando na minha direção, ele rodopiou com animação, mexendo as patas dianteiras e arfando alegremente.

Eu acariciei o pêlo de seu pescoço, e ele fechou os olhos de prazer, ficando relaxado e dócil sob minhas mãos.

Tomamos o café-da-manhã e levantamos acampamento. Benj, que fora o último a usar a latrina, levou-a até a praia. O cachorro o seguia.

— Já sei que nome dar a ele — Benj gritou, fazendo uma careta de nojo. — Monsieur le M_erde. — Ele comeu a m_rda que estava na caixa.

— Blergh — disse Kim.

— Não! — exclamei sem acreditar, olhando para o cachorro para ver se ele estava com a boca espumando ou mostrando algum outro sinal de ter sido envenenado pelo desinfetante. Ele parecia ótimo, balançando o rabo alegremente.

— Tem certeza, Benj? — perguntei. — Você realmente o viu comendo f_zes?

— Não, mas está vazia, e quem mais teria feito isso? Eu o vi voltando da latrina ao me aproximar.

— Ele podia estar em outro lugar. — Ajoelhei-me na areia e disse “venha cá” para o cachorro.

Ele veio direto até mim, e eu me abaixei bem e cheirei sua boca.

— Credo! — explodi, caindo de costas à medida que o fedor me desarmava. — Você é um cachorro desprezível.

Ele abanou o rabo, contente.

— Você deve estar com muita fome — acrescentei.

— O problema é — disse Pam — quem vai remar com ele?

Nós resolvemos tirar a sorte nos palitinhos, e Benj perdeu.

— Pelo menos — disse ele, olhando para o palito curto — alguém nesta excursão tem hábitos alimentares piores do que os meus.

Nós remamos rio abaixo, sentindo a brisa fresca da manhã, o sol brilhando nas pequenas ondas. Quando o desfiladeiro se alargou, abrindo-se numa margem com vegetação, o cachorro sentou-se com elegância no isopor. Algumas vacas pastavam na margem esquerda, levantando a cabeça para nos ver passar. Eram gado dos Navajo, pois toda a margem esquerda do rio San Juan está na divisa norte da nação Navajo, que cobre grande parte dos estados de Utah, Arizona e Novo México.

O cachorro deu-lhes uma olhada penetrante e entusiasmada, e pulou para longe do isopor. Voando com as pernas dianteiras e traseiras estendidas, ele bateu na água num cogumelo de espuma. Emergiu e começou a nadar rapidamente para a margem. Escalando a margem rochosa, ele se sacudiu uma vez e, enquanto as vacas olhavam sem acreditar, ele correu na direção delas. Elas fizeram a volta e correram rio abaixo.

Com o focinho e o rabo estendidos, ele as seguiu em caçada, seu pêlo molhado avermelhado e dourado reluzindo na luz do sol. Através de salgueiros e cactos, ele correu a toda a velocidade, diminuindo a distância rapidamente e separando o bezerro menor com um movimento de atacar de flanco típico de um especialista. Aproximando-se do traseiro do bezerro, ele o forçou para longe da manada e na direção dos penhascos. Estava claro que ele pretendia acuá-lo nas rochas e matá-lo.

Atônitos, ficamos olhando em silêncio. Fora isso, o que mais podíamos fazer? Gritar “Pára, cachorro!”?

Mas algo com relação a seu comportamento me dizia que ele não tinha se perdido completamente naquele estado de excitação no qual cachorros desaparecem quando se fixam em presas que fogem. Focados apenas no animal fugindo à frente deles, eles podem correr por quilômetros, perdendo a noção de onde eles ou seus donos possam estar.

Este cachorro não estava fazendo isso. Enquanto corria ao lado do bezerro aterrorizado, ele olhava de relance na direção da balsa e dos caiaques. Estávamos indo rio abaixo, onde uma curva nos deixaria fora de seu alcance de vista. E eu podia ver que ele calculava dois resultados que se excluíam mutuamente: o bezerro apetitoso e a aproximação de rochedos onde ele o encurralaria, ou os barcos que se afastavam rapidamente e a família que ele encontrara.

Eu o vi olhar novamente a curva do rio onde nós desapareceríamos — e foi exatamente ali que percebi que cachorros conseguem pensar abstratamente. O bezerro era real, uma refeição potencial neste momento. As pessoas do barco, a ração Purina Dog Chow e a afeição que partilhavam com ele não passavam de memórias do passado e idéias sobre o futuro, ou como quer que essas palavras se traduzam na mente de um cachorro.

Gratificação imediata... benefícios futuros. As escolhas pareciam claras. E veja bem, nós não o estávamos chamando ou acenando para ele. Sem dizer uma palavra, nós flutuávamos silenciosamente rio abaixo.

Ele optou pelo futuro. Interrompeu sua caça no meio do caminho e virou à direita, passando pelo grupo de vacas assustadas, que se reunira para se proteger. Chegando à margem, ele correu ao longo da borda de pedras, tentando ganhar o máximo de terreno possível antes de ter que nadar. Em meio aos salgueiros, ele pulou — de novo pernas esticadas para a frente e para trás, orelhas batendo como asas — antes de dar de barriga na água. Deslocando-se com determinação, ele manteve um caminho rio abaixo que interceptaria nossa rota.

Após uma longa distância percorrida — de boca aberta, respiração pesada, olhos virados para nós — ele alcançou o barco de Kim, nadou até a amurada e tentou subir com a pata. Ela agarrou o pêlo solto nas costas dele e puxou-o até a saia do caiaque. De repente ele pareceu muito magro e molhado, principalmente quando se virou para olhar as vacas com melancolia. Soltou um grande suspiro de desapontamento quando as rochas bloquearam a vista, então virou para mim, flutuando a 9 metros de distância. Mergulhando do barco de Kim, ele nadou até o meu. Eu o ajudei a subir e ele me lançou um olhar que parecia ser de angústia.

— Parece que você já fez isso antes — eu disse.

Seus olhos se afastaram dos meus. Sentindo sua culpa, tentei elogiá-lo.

— Você é um nadador e tanto.

Pela primeira vez, ele chegou perto e lambeu minha boca — só uma vez antes de se jogar dos meus braços e cair na água. O banho pelo menos tinha limpado seu bafo. Ele nadou até a balsa, deixando Benj puxá-lo para dentro. Em pé sobre o isopor, sacudiu-se vigorosamente, depois reclinou-se na posição de esfinge para deixar o sol secar seu pêlo.

Remando até a balsa, ouvi Benj conversando com o cachorro e chamando-o de Monsieur le M_rde. O cachorro olhou direto para a frente, sem lhe prestar atenção. Bennett chegou no outro lado da balsa.

— Merlin, você é um matador de vacas — ele gritou.

O cachorro moveu os olhos nervosamente até Bennett, depois os afastou.

Tive uma inspiração. Este cachorro, apesar de um pouco grosseiro, era um sobrevivente. De maneira reservada, ele tinha orgulho e dignidade. Me lembrava alguns caubóis que eu conhecia.

— Acho que devíamos chamá-lo de Merle — eu disse. É um nome bom e prático.

Ao ouvir minha voz, o cachorro me olhou, avaliando minhas intenções. Ele me olhou por um segundo antes de afastar o olhar. Parecia saber que caçar gado não o faria conquistar amigos. Muito provavelmente, ele já se penalizara por isso ou passara um susto. Cachorros que caçam gado em território Navajo costumam levar tiros. Talvez ele tivesse sido ferido de leve por uma bala ou alguém lhe tivesse dado uma segunda chance, deixando-o ir embora depois de uma surra. Talvez fosse por isso que ele tivera medo quando eu levantei o graveto. Agora o cachorro parecia esperar estoicamente por nossa repreensão, e talvez tenha sido por isso que ele tentara me aplacar, lambendo minha boca.

— Merle — eu disse em voz baixa e calma. — Merle. — Ele me deu outra olhada rápida, uma sobrancelha para cima, a outra para baixo.

— Esse nome vai servir para você?

O cachorro desviou o olhar para o rio, tentando me ignorar. Em seguida começou a tremer, não por causa da água fria, mas por medo.

No centro e no sul da Itália, durante a década de 1980, cerca de 800 mil cachorros viviam soltos em vilarejos, entre gado, carneiros, porcos, galinhas, cervos, javalis, lebres, outros cachorros domésticos e lobos selvagens. Para avaliar o impacto desses cachorros livres no gado e na vida selvagem, em particular na pequena e ameaçada população de lobos, uma equipe de cientistas capturou, colocou coleiras com rádio e depois observou um grupo de cachorros na região das montanhas Velino-Sirente em Abruzzo. O grupo consistia em nove adultos — quatro machos e cinco fêmeas — de quem acabaram nascendo quarenta filhotes, com apenas dois sobrevivendo até a vida adulta, uma prova dos muitos perigos que cachorros soltos enfrentavam enquanto tentavam arranjar a vida. Eles foram mortos por pessoas — basicamente pastores —, assim como por raposas, lobos e aves de rapina.

Contrariando a crença popular, os biólogos descobriram que os cachorros não caçavam animais silvestres ou gado. Em vez disso, eles procuravam comida em lixões, como fazia a maioria dos lobos. Visto que grandes grupos de cachorros não deixavam as alcatéias menores se alimentar, por vezes os lobos ficavam famintos. Os pesquisadores também observaram que uma pequena porcentagem dos cachorros caçava cervos e outros animais silvestres — a caça variava de acordo com o lugar. Nas ilhas Galápagos, por exemplo, cachorros foram vistos soltos caçando iguanas-marinhos. De vez em quando, os pesquisadores italianos acrescentaram, esses cachorros matavam gado, em particular bezerros.

Entre esses cachorros havia alguns indivíduos que os pesquisadores descreveram como “perdidos” e outros como “selvagens”. Os dois são muito diferentes. “Cachorros perdidos”, os cientistas escreveram, “mantêm laços sociais com humanos, e mesmo quando não têm um dono óbvio, procuram por um. Cachorros selvagens vivem bem sem qualquer contato com humanos e seus laços sociais, quando os têm, são com outros cachorros”. Sem dúvida Merle — o nome logo pegou — era um cachorro perdido, e suas experiências anteriores com pessoas aparentemente o deixaram tanto amigável como desconfiado.

Chegando em terra naquela noite ele foi bem discreto, ainda tentando avaliar, de certa distância, nossa reação ao incidente de sua caça ao bezerro. Mesmo quando enchi seu prato com ração, ele me analisou com cuidado. Eu bati no quadril e chamei:

— Vamos lá, chegou o rango. — Eu sacudi o prato, coloquei-o no chão, bati palmas e apontei para seu jantar.

A desconfiança dele desapareceu num minuto. Num salto, devorou a comida. Quando acabou, me deixou acariciar suas costas. Coloquei meu rosto entre seus ombros e soprei o pêlo, fazendo barulho. Isso o fez se retorcer de prazer. Então abri meu saco de almoço e cortei para ele um pedaço de salsicha de alce. Ele se sentou na areia, balançando o rabo de um lado para outro, enquanto eu lhe dei o pequeno pedaço. Ele o tirou de meus dedos com cuidado.

Eu sabia que talvez estivesse lhe enviando uma mensagem confusa, visto que tanto alces como bois são carne vermelha. Mas se nós ficássemos juntos, seria possível resolver isso com o tempo.

Durante os dias seguintes, ele ficava em cima do isopor e nadava entre os caiaques. Ele dormia entre nós e sentava-se junto do fogão, o mais educado e amigável dos cachorros. O rio se tornava agitado, passando por desfiladeiros profundos, e não apareceu mais gado para tentá-lo. Também mantivemos a latrina coberta. Merle nos seguia até ela e sentava por perto, sua expressão se tornando tristonha quando o usuário da latrina se levantava e fechava a tampa.

Certa vez, depois de subirmos até um platô bem acima do rio, Benj, que é um ávido herpetólogo, apanhou um lagarto espinhoso do deserto. Eu já tinha visto Merle caçar várias lebres — sem sucesso —, mas quando Benj lhe ofereceu o lagarto de 25 centímetros, com a língua entrando e saindo, para avaliar sua reação, Merle deu vários passos para trás, com os olhos cheios de preocupação. “Esse é um animal perigoso”, eles pareciam dizer, o que era em parte verdadeiro — embora lagartos espinhosos do deserto geralmente comam insetos, e às vezes outros lagartos, eles têm mandíbulas fortes que podem dar uma mordida desagradável. Benj se aproximou com o lagarto, mas Merle recuou. Ele bufou várias vezes, continuando a se afastar.

— Talvez ele já tenha sido mordido por um — Benj disse —, ou simplesmente não goste de répteis.

Alguns dias depois, vi Merle comportar-se de uma maneira que confirmava tudo o que Benj tinha dito. Enquanto Merle e eu caminhávamos ao longo de um terraço natural acima do rio, juntou-se a nós uma cobra cascavel, cuja trilha se curvava pela areia. Merle deu uma cheirada na trilha, levantou a cabeça bruscamente e estudou com cuidado o terreno à nossa frente.

— Cobra — eu disse, tentando lhe ensinar a palavra em inglês.

Ele me olhou de volta, com apenas a ponta do rabo se mexendo, reconhecendo o que eu dissera. Depois deu vários passos para o lado da trilha da cascavel e andou paralelamente a ela, bem atento.

Na volta para o acampamento, passamos por excremento de coiote — dois resíduos, cada um com cerca de 10 centímetros de comprimento e 2,5 centímetros de diâmetro. A reação de Merle a eles foi completamente diferente. Ele cheirou, depois deu uma mexida com a pata direita, separando-o com as unhas. Deu outra cheirada profunda, como um conhecedor de vinhos que, depois de girar a taça, está apreciando o buquê. Seu olhar ficou entusiasmado.

— Coyoté — eu disse, dando à palavra a pronúncia espanhola.

Ele bateu o rabo com força, levantou a perna e esguichou sobre as f_zes de coiote antes de jogar um pouco de poeira com as patas traseiras. Empertigando-se, trotou pela trilha com a cabeça se virando de um lado para outro, toda sua linguagem corporal dizendo: “Acabo com vocês se aparecerem por aqui.”

Sua familiaridade com as criaturas do deserto me impressionou; seu pêlo dourado me atraiu; seus olhos me conquistaram. Entretanto, durante todo o tempo em que ficamos juntos, e apesar de dormir ao meu lado, Merle não demonstrava sua afeição. Não colocava a cabeça no colo de ninguém; não lambia; não oferecia a pata. Embora ainda fosse filhote, era reservado e sério. A vida lhe ensinara que a confiança precisava ser merecida.

Na última manhã, quando avistamos a praia barrenta em Clay Hills e os carros que nos aguardavam, que uma empresa de transportes tinha trazido para nós, comecei a imaginar se esse cachorro perdido, com sua mistura de medo e serenidade, ficaria por perto ou partiria para o deserto. Certa vez eu conhecera um cachorro perdido no Nepal que pensei estar ligado a mim, mas ele me enganou completamente.

Assim como Merle, ele simplesmente apareceu, entrando em nosso acampamento no remoto vale Hunku, no sopé da grande linha divisória da qual se ergue o monte Everest. Era um mastim tibetano jovem, de cor preta e marrom, que os tibetanos chamam de Do Khyi, e que também era bem-educado e tinha um sentido altamente desenvolvido de como providenciar o próprio conforto. Ele seguia as pessoas de perto, aceitando nossa comida e dormindo bem junto de meu saco de dormir, à medida que meus companheiros e eu subimos o vale.

No começo do vale, quando entramos numa queda de gelo, o cachorro (que tínhamos batizado de “o Khyi”) afastou-se para a esquerda; logo voltou, nos enviando olhares suplicantes enquanto se afastava de novo, tentando fazer que o seguíssemos. Nós o ignoramos, mantendo nossa trilha, que o mapa nos mostrava ser a rota direta para o desfiladeiro que tínhamos de escalar. Depois de muitas horas tortuosas, emergimos da queda de gelo e encontramos o Khyi, sentado, esperando por nós, com um olhar que dizia “bem que eu tentei avisar” no rosto. Obviamente, ele já estivera ali antes e conhecia um atalho.

No dia seguinte tivemos de escalar o Amphu Labtsa, um desfiladeiro no início do vale que é a única maneira de se sair de Hunku sem voltar para trás. Fica 5.700 metros acima do nível do mar e para se chegar ali é preciso subir campos de neve cada vez mais íngremes, que o Khyi, ainda nos seguindo, subiu sem dificuldade. Todavia, quando o último campo de neve transformou-se numa vala cheia de protuberâncias de gelo, o Khyi se deteve. Nós tínhamos cordas fixadas para nossos quatro carregadores, e eu vinha por último, utilizando um jumar (uma ferramenta mecânica com dentes para ajudar na subida) na corda e empurrando o Khyi na minha frente, impulsionando-o por cima das protuberâncias de gelo.

Por fim, chegamos a uma protuberância de gelo longa e íngreme demais para o Khyi transpor mesmo com minha ajuda. Ele sentou, incapaz de subir ou descer. Se tentasse fazer um dos dois, certamente teria escorregado, levado um tombo e morrido. Da mesma forma que Merle, ele era um cachorro de quatro olhos, com duas manchas marrons na testa preta, diretamente acima dos olhos castanhos. Ele não conseguia mexer somente um, como Merle, porém quando os franzia adquiria uma expressão de sobriedade e liderança. Agora, eles pareciam dizer: “Vocês sabem o que temos de fazer.”

Tirei minha mochila e a abri bem. Visto que as cordas e o equipamento para escalar o gelo estavam sendo usados na montanha, agora eu tinha mais espaço. Levantando o Khyi pelas axilas, coloquei-o dentro da mochila pelo traseiro. Ele não protestou, e eu continuei a subir pelas cordas. Ele não era tão grande quanto Merle, talvez pesasse uns 20 quilos. Mesmo assim, considerando o equipamento que eu estava carregando, o peso total devia chegar a uns 30 quilos. Vez por outra, a carga me fazia perder a postura, meus crampons raspando no gelo enquanto eu balançava na corda.

O Khyi não se mexia. Quando virava para trás, ele me fitava com um olhar firme; o ângulo íngreme não o perturbava. Ele não me lambeu nenhuma vez.

No topo, usamos os crampons ao longo da crista do espinhaço, procurando por uma saída e descobrindo que tínhamos chegado a um impasse. A única descida possível era através de uma saliência cujo limite se ligava a um campo de neve escarpado, que por sua vez levava à geleira e ao vale distantes. Entretanto, a saliência ficava a cerca de 30 metros abaixo de nós e não podíamos descer até lá, um fato que ficou bem claro quando um dos carregadores, mexendo nervosamente sua mochila, deixou cair seu saco de dormir. Nós o olhamos ficar sempre menor enquanto despencava por várias centenas de metros através do espaço até bater na geleira.

A única maneira de descer, conforme vimos, era seguir a queda do saco de dormir — um rapel livre, com nada abaixo de nossos pés a não ser a queda estonteante. Visto que meus amigos tinham liderado a subida, eu me ofereci para liderar a descida. Quando saltei no espaço, tendo como objetivo a pequena saliência, o Khyi, imóvel até então, emitiu um pequeno ganido. Freando na corda, virei e o vi olhando para o abismo, os olhos esbugalhados. Ele me olhou e esganiçou de novo. Não gostava de ficar tão exposto.

Quando cheguei à saliência de 60 centímetros de largura, tirei-o da mochila, pois ele tinha começado a lutar. Ele correu para a direita, onde a saliência acabava, e para a esquerda, onde ela se unia ao profundo campo de neve, onde, era óbvio, ele não conseguiria andar. Ele sentou, como se tivesse perdido o fôlego, e olhou para o vale distante. Quando os outros chegaram, ele veio até mim, sentou junto à mochila e me deixou colocá-lo ali dentro. Era um cachorro sem ilusões.

Fizemos mais dois trechos de rapel até que o ângulo escarpado do campo de neve diminuísse. Tirei o Khyi da mochila, e sem olhar para trás ele correu para a noite que chegava, sua forma escura desaparecendo na geleira abaixo de nós.

Sem água e quase sem comida, acampamos num terreno pantanoso e arenoso, felizes por termos descido, e ávidos pela chegada da manhã, quando poderíamos atravessar a geleira e a morena em segurança. Quando o sol despontou, encontramos um gotejo de gelo derretido, e enquanto bebíamos nosso chá, o Khyi chegou trotando. Ele cumprimentou cada pessoa rapidamente com um balançar de rabo, depois sentou na minha frente. Olhando-me nos olhos, ele levantou a pata. Apertei seu ombro com a mão, e ele colocou a pata no meu braço num gesto de camaradagem. Olhou-me nos olhos por um longo momento, depois se virou e desapareceu no gelo.

Nunca voltei a vê-lo, embora um bom amigo o tenha conhecido na estação seguinte de escaladas, quando o Khyi se aproximou do acampamento, a poucos quilômetros de onde ele nos deixara. Foi sociável e bem-educado, e se apegou ao grupo de meu amigo, acompanhando-o até o topo dos 6 mil metros de altura de Island Peak.

Agora, enquanto flutuávamos na direção de Clay Hills, eu observava Merle sentado no isopor e imaginava se ele iria embora deserto afora para esperar o próximo grupo de turistas fluviais — como o Khyi, um aventureiro e oportunista canino, um cachorro perdido profissional, que gostava de viagens panorâmicas, os olhos luminosos já tendo falado a tantos outros: “Eu sou seu... em troca de um pouco de salsicha de alce e um passeio gratuito.”

Nós desmontamos a balsa e a colocamos na caminhonete de Benj. Prendemos os caiaques, e Merle observava cada movimento com atenção e sem o menor indício de que iria embora. Reunimo-nos num círculo, e ele olhou para nós com curiosidade.

— O que deveríamos fazer com ele? — perguntei.

Pam tinha uma pequena husky chamada Kira e não podia assumir a responsabilidade por outro cachorro. Bennett não tinha certeza sobre seu futuro. Benj morava e trabalhava na Escola de Ciências de Teton, onde cachorros não eram permitidos, e Kim disse que um cachorro não se encaixava no seu jeito de viver. Eu me perguntei se um cachorro realmente se encaixaria no meu, e o que faria com ele quando viajasse a trabalho. Quando expressei essa preocupação, Pam e Benj se ofereceram para tomar conta dele.

Merle olhou para mim por baixo de suas sobrancelhas franzidas. De repente me dei conta de que a idéia de deixá-lo nesta ribanceira poderia ser um dos maiores erros que eu poderia cometer na vida.

— Você quer se tornar um cachorro de Wyoming? — perguntei, pensando em como suas costas tinham se encostado nas minhas à noite e na expressão de seu rosto quando ele tinha entendido que os uivos ecoando nas paredes do cânion eram os seus.

Ele mexeu o rabo de maneira vagarosa e incerta, tendo sentido o teor difícil de nossa conversa.

Nossa decisão foi adiada momentaneamente, quando Pam e Bennett, precisando ir embora, começaram uma rodada de abraços conosco. Depois de partirem, Kim embarcou na caminhonete, assim como Benj. Eu mantive a porta aberta para Merle.

— Vamos embora. Agora você é um cachorro de Wyoming. Se quiser.

Um sorriso largo e sentimental abriu-se em seu rosto. “Quem, eu? Eu mesmo?”

— Sim, você mesmo — respondi carinhosamente. — Vamos embora, vamos para casa.

Ele entrou e sentou no chão, atrás dos bancos dianteiros.

Depois de uma hora, me virei e perguntei:

— Como vão vocês aí atrás?

Kim fez um sinal positivo com o polegar, e Merle, que tinha dormido, abriu um olho e deu uma batida de rabo contente.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Fevereiro 15, 2009

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Fevereiro 15, 2009

O Estado de São Paulo

Livros Eclipse Stephenie Meyer Books

Ficção

01. ECLIPSE (3º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

02. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

03. CREPÚSCULO (1º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

04. LUA NOVA (2º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

05. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

06. A CIDADE DO SOL
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

07. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

08. O LEITOR
Bernhard Schlink

09. O MENINO DO PIJAMA LISTRADO
John Boyne . leia um trecho do livro

10. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak


Livros Comer Rezar Amar Elizabeth Gilbert Books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. VENCENDO O PASSADO
Zibia Gasparetto

03. MARLEY E EU
John Grogan . leia um trecho do livro

04. GOMORRA
Roberto Saviano

05. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

06. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

07. O CÓDIGO DA INTELIGÊNCIA
Augusto Cury . leia um trecho do livro

08. CASAIS INTELIGENTES ENRIQUECEM JUNTOS
Gustavo Cerbasi . leia um trecho do livro

09. A ARTE DA GUERRA
Sun Tzu . leia um trecho do livro

10. QUEM ME ROUBOU DE MIM?
Fábio de Melo

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Trecho do Livro: O Último Chef Chinês | Nicole Mones

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Trecho do Livro: O Último Chef Chinês | Nicole Mones

Livros O Ultimo Chef Chines Nicole Mones BooksLivro: O Último Chef Chinês

Saiba onde encontrar este livro

"Aprendizes já me perguntaram qual é o ponto máximo da culinária refinada. Seriam os ingredientes frescos, os sabores mais complexos? Seria o rústico, ou o raro? Não é nenhuma dessas coisas. O auge não é nem o comer nem o cozinhar, mas sim o oferecer e o compartilhar do alimento. Iguarias nunca devem ser consumidas em solidão. Que prazer uma pessoa pode tirar da culinária refinada se não convidar amigos queridos para comer, se não contar os dias até a realização do banquete e se não compuser um poema auspicioso para a carta com o convite?" (LIANG WEI, O Último Chef Chinês, Pequim, 1925)

Maggie McElroy sentiu sua alma rodopiar para longe no ano que se seguiu à morte do marido; ela se sentia deslocada em qualquer lugar. Precisava de paredes para contê-la. Não conseguia encontrar um apartamento pequeno o suficiente para morar. Acabou se mudando para um barco.

Primeiro, vendeu a casa. Isso era compreensível. Os amigos concordaram que era a atitude certa a se tomar. Ela se recolheu a um apartamento, e logo começou a achá-lo muito grande; precisava de uma cela. Encontrou um lugar ainda menor e reduziu mais ainda suas posses ao se mudar para lá. Cada ciclo de eliminação liberava um pouquinho de sua dor, mas, no fundo, o que a movia era a crença adicional, vinda não do conhecimento, mas de uma teimosia instintiva, de que alguma parte de sua alma poderia ser chamada de volta se ela pelo menos conseguisse abrir o caminho.

Até que ela encontrou o pequeno barco em seu atracadouro na Marina. Assim que subiu a bordo, percebeu que queria ficar ali, embaixo, observando as variações de luz, encontrando paz no estalo dos cabos, ignorando as mensagens no celular.

Aquela embarcação tinha uma pureza. Quando não estava trabalhando, ficava deitada no leito. Observava os bandos de pares de tênis andando para lá e para cá no píer. Escutava o estrondo do vento na lona, a água batendo no casco. Dormia no barco, dormia de verdade pela primeira vez desde que Matt morrera. Percebia que nada restara. Mais tarde, ao reavaliar a situação, perceberia que, se não tivesse chegado a este ponto, nunca poderia estar preparada para a mudança que já naquela época estava a caminho. Mas na ocasião parecia inevitável, ela simplesmente teria de aceitar: nunca mais se sentiria ligada a nada.

Ficava sozinha. Vamos jantar. Venha conosco ao cinema. Tem uma festa. Mesmo quando ela não respondia, as pessoas a perdoavam. Esperam-se coisas estranhas das pessoas de luto. Concessões são feitas. Quando precisava dar uma desculpa, dizia que estava viajando, e tudo bem, porque viajava com freqüência mesmo. Era jornalista de gastronomia. Viajava todo mês para visitar uma comunidade americana diferente em função de sua coluna. Adorava seu trabalho, precisava dele e não tinha intenção de perdê-lo. Todo mundo sabia disso, e por isso era possível simplesmente pedir desculpas, estaria fora, adeus, e então se deitava em seu pequeno leito para continuar a lembrar. As pessoas se preocupavam com ela, e ela se preocupava com as pessoas: isso não tinha mudado. Simplesmente não queria vê-las naquele exato momento. Sua vida estava diferente. Tinha se afastado para uma região distante, que elas não conheciam, onde todo o trabalho era a função do luto. Era difícil demais conversar com os outros. Por isso ficava sozinha, com sua vida encolhida até o tamanho da cabeça de um alfinete, e lentamente, dia após dia, ia achando que estava se sentindo melhor.

Na noite de setembro que marcou o início destes acontecimentos, ela estava saindo do barco para achar um lugar para jantar. Isso foi alguns dias depois de seu aniversário de 40 anos, pelo qual ela passou batido, evitando a data com cuidado. Deparou com o estacionamento vazio, pontuado apenas pelos gritos das gaivotas. Quando chegou ao carro, ouviu o telefone tocar.

O som era abafado. O aparelho estava no fundo da bolsa. Morar no barco fazia com que sua bolsa estivesse sempre sobrecarregada: um preço baixo a se pagar. Enfiou a mão lá dentro, seguindo a luzinha verde que tremelicava a cada toque. Ela não atendia o telefone com muita freqüência, mas sempre conferia quem estava ligando. Nunca deixava de atender algumas ligações: do trabalho, da melhor amiga, Sunny, da mãe.

Quando olhou para a tela, sentiu suas sobrancelhas se unirem na testa franzida. Não era um número que ela reconhecesse. A seqüência de números era longa. Abriu o aparelho.

— Alô?

— Maggie? Aqui é Carey James, de Pequim. Está lembrada de mim?

— Estou.

Ela tremeu de surpresa. O escritório de advocacia de Matt tinha filial em Pequim, e Carey era um dos advogados que trabalhavam lá em tempo integral. Matt viajara até lá um bom punhado de vezes, a negócios. Maggie chegara a ir com ele uma vez, três anos antes. Tinha conhecido Carey: alto, elegante, levemente desleixado. Matt dizia que ele era um negociador brilhante.

— Sim, estou lembrada.

— Que ano, hein — ele disse, deixando a formalidade um pouco de lado.

— Nem me diga.

Ela destrancou o carro e entrou.

— Está tudo bem com você?

— Estou sobrevivendo.

O que ele queria? Fazia meses que o assunto estava encerrado com a firma, até mesmo as ligações de gentileza tinham cessado, e também as ligações de preocupação dos amigos mais próximos de Matt aqui do escritório de Los Angeles. Fazia tempo que não recebia notícia nenhuma dessa gente.

— Na verdade, estou ligando porque dei de cara com uma coisa aqui. Eu realmente deveria ter visto isto antes. Infelizmente, não vi: é uma ação legal, aqui na China. Envolve Matt.

— Matt?

— É — Carey respondeu. — É um processo.

— Como assim? De que tipo?

Carey respirou fundo. Ela sentia a hesitação na voz dele.

— Eu estava torcendo para haver uma chance de que você já soubesse — ele disse.

— Saber o quê, Carey? Que tipo de processo é?

— De paternidade — ele respondeu.

Ela ficou imóvel por um longo momento. Parecia que um sino tinha caído em cima dela, isolando-a de todos os sons. Ficou olhando através do pára-brisa coberto de maresia para a fileira de palmeiras, a ciclovia, a areia de coloração irregular.

— Então tem alguém dizendo...

— Ela tem um filho dele. Então parece que você não sabia nada sobre isso.

Ela engoliu em seco.

— Não, não sabia. Você sabia? Sabia de alguma criança?

— Não — ele respondeu com firmeza. — Não sabia de nada.

— Então o que acha que é?

— Honestamente, não sei. Mas uma coisa eu sei: isto não pode ser ignorado. É sério. Um processo foi instaurado. De acordo com o novo Tratado dos Direitos das Crianças, tudo pode ser decidido aqui na China mesmo, de uma forma que afete você. E vai ser decidido mesmo, em breve. — Ela ouviu quando ele virou páginas. — Em... pouco menos de três semanas.

— E aí?

— Aí que, se a pessoa que entrou com o processo vencer, leva uma parcela dos bens dele. Tirando a casa, é claro, a residência principal.

A isto ela não respondeu nada. Tinha vendido a casa.

— Só me diga o seguinte, Carey: o que devo fazer?

— Só há uma opção. Fazer um exame para provar se é verdade ou mentira. Se for mentira, podemos dar conta do assunto. Se não for, aí a coisa muda de figura.

— Se for verdade, você quer dizer? Como é que pode ser verdade?

— Você não pode querer que eu responda a esta pergunta — ele disse.

Ela ficou em silêncio.

— A coisa mais importante agora é fazer um exame de DNA. Se eu tiver isto em mãos antes do julgamento, posso cuidar de tudo. Sem isto, nada.

— Então siga em frente. Mande fazer. Eu pago o escritório para realizar o teste.

— Não vai adiantar — Carey respondeu. — A questão já está na pauta do Ministério da Família, e nós somos um escritório de advocacia. Teríamos que encarar a burocracia toda: entrar com documentação para obter permissão da família da menina, por exemplo. Seria impossível fazer isso no prazo. Não daria para a gente. Mas outra pessoa poderia conseguir a permissão da família e mandar fazer o teste, e assim nós tomaríamos providências de acordo com os resultados. Dessa forma, daria tudo certo.

— Eu, você quer dizer — ela disse.

— Não sei quem mais pode ser. É importante, Maggie. Nós ajudamos. Conseguimos um tradutor. Você pode usar o apartamento da empresa. Ainda está com a chave de Matt?

— Acho que sim.

— Então, pegue um avião. Venha até o escritório quando chegar. — Ele fez uma pausa. — Sinto muito, Maggie — ele disse. — Por tudo, por Matt. Isto é terrível.

— É mesmo.

— Nada disso deveria estar acontecendo.

Ela respirou fundo. Ele está falando de Matt ter sido atropelado na calçada. Morto com mais duas outras pessoas. Uma fatalidade.

— Já me remoí muito por causa disso — ela respondeu. — Então, essa criança...

— Uma menininha.

Ela fechou os olhos.

— Essa menina tem quantos anos?

— Cinco.

Isso significa que alguma coisa teria acontecido seis anos atrás. Maggie retrocedeu no tempo, atordoada. Não fazia sentido. Eles eram felizes na época.

— Se você me der os meses em questão, eu dou uma olhada nos meus diários para ver se ele estava na China na ocasião. Quer dizer, talvez nem seja possível. Se ele não estava aí...

Desta vez Carey a interrompeu.

— Inverno de 2002 — ele disse baixinho. — Eu já conferi. Ele estava.

Na manhã seguinte, ela estava esperando no corredor quando Sarah, sua editora, saiu do elevador.

— O que você está fazendo aqui? — Sarah perguntou. — Está com uma cara péssima.

— Passei a noite em claro.

— Por quê?

— Más notícias sobre Matt.

— Matt?

Os olhos de Sarah se arregalaram. Matt estava morto. Não podia haver mais nenhuma má notícia.

— Alguém entrou com um processo.

O queixo de Sarah caiu, mas ela logo fechou a boca.

— Um processo de paternidade.

Sarah ficou pálida.

— Paternidade! Vamos entrar.

Ela destrancou a porta e guiou Maggie para a cadeira confortável na frente de sua mesa.

— Então, que história é essa?

— Uma mulher entrou com um processo na China, dizendo que tem uma filha dele.

— Está falando sério? Na China?

— É, e por causa dos acordos entre os nossos países, esse processo pode ser concluído na China e cobrado de lá.

— Cobrado — Sarah repetiu.

— Em somas generosas — Maggie respondeu.

— O que você vai fazer?

— Vou para lá, imediatamente. Não tenho escolha. Nunca te pedi, em 12 anos, nem quando Matt morreu, mas agora vou precisar de um mês de licença.

— Faça-me o favor! Querida! Publicamos colunas antigas o tempo todo, quando alguém tem uma emergência. Você é a única que nunca pediu. Nem se preocupe. E há um ano — Sarah olhou para ela, com os olhos doces de solidariedade há muito reservada — eu disse para você tirar uma folga. Está lembrada? Eu praticamente implorei.

— Eu sei. — Maggie esticou o braço e pegou a mão da amiga. — A verdade é que o trabalho me fez seguir em frente. Eu precisava dele. Sempre fui assim. Fico mais forte quando estou trabalhando. Não sei se teria conseguido sobreviver sem trabalhar. — Ela ergueu os olhos. — Ando melhor ultimamente. Só para você saber.

— Que bom. Aliás, seu último cheque voltou. — Sarah lhe mostrou o envelope. — Está de endereço novo?

— Tenho uma caixa postal nova, mais perto de onde estou morando.

— Onde você está morando?

— Na Marina — ela respondeu, e deixou assim.

Sarah anotou o novo endereço de correspondência.

— Obrigada. Aliás, claro que você pode ir, tire um mês de licença, nós usamos um texto antigo. Nem se preocupe com isso. Para falar a verdade, talvez seja bom para você. Veja se aproveita. Recarregue as baterias.

Maggie falou com cuidado.

— Você acha que eu estou precisando recarregar as baterias?

— Não, não é isso. É só que... — Sarah fez uma pausa, empacada entre a amizade e a responsabilidade. — É que, ultimamente, você não parece estar muito animada com a comida. Também já deve ter percebido. Não estou sentindo aquele velho gostinho de deslumbramento.

Eu também não, Maggie pensou, triste.

— Quais foram os textos que a incomodaram?

— Bom, aquele sobre os amish da Pensilvânia. Você não conseguiu achar nada charmoso neles, de verdade?

— Está falando de gente cuja principal contribuição à gastronomia é o pretzel. De um pessoal que faz pessoas totalmente desconhecidas se sentarem à mesa para compartilhar frango frito. Cuja idéia de salada é um tomate fatiado. E nem me faça começar a falar das tortas deles!

Sarah sorriu.

— Viu? Você continua ótima como sempre. Continue assim. Se solte.

Maggie deu risada.

— E também não se esqueça desta parte: você sempre achou alegria na comida.

— Vou tentar.

Mas então o pequeno sorriso de Sarah se desmanchou e foi substituído por preocupação.

— Você acha... não há chance de isso ser verdade, há?

— Está falando de Matt? Não faço idéia. Se ele me disse alguma coisa ou me fez pensar que houvesse alguma coisa? Não. Ele ia à China a negócios às vezes, mas o mesmo vale para todos os advogados do escritório dele.

— Você foi lá com ele.

— Fui uma vez, passei uma semana. Faz três anos. Nada. E você me conhece. Vivo de olho em tudo. Estar atenta é como eu consigo escrever, e isso afeta o resto. Não senti nada. Mas se isso aconteceu, deve ter sido alguns anos antes da minha viagem. Para falar a verdade, eu não consigo pensar assim, Sarah; eu ficaria louca. Preciso ir lá conseguir um teste de laboratório, e é isso. Daí eu vejo o que fazer.

— Vai ser uma viagem difícil — Sarah disse, agora falando como amiga.

Maggie fez que sim.

— E bem agora que eu estava conseguindo acomodar o sujeito na minha cabeça, sabe como é? E no meu coração. Além do mais, para ser sincera, Sarah, apesar de ser necessário e tudo o mais, realmente não é bom para mim não trabalhar, nem mesmo por um mês. Eu faço tudo melhor quando estou trabalhando.

— Está dizendo que preferia trabalhar? — Sarah perguntou.

— Claro que eu preferia trabalhar, mas não posso. Preciso ir até lá cuidar dessa questão.

Então um novo sorriso, diferente, o sorriso maroto de uma idéia, abriu-se no rosto de Sarah.

— Quer trabalhar enquanto estiver na China?

Maggie só ficou olhando para ela. Ela escrevia unicamente sobre comida americana.

— Como?

— Faça uma coluna de lá. Podemos publicar um texto antigo, eu já disse, não tem problema, você realmente tem alguns clássicos que eu gostaria de ver de novo... mas também temos uma pauta na China. Acabou de chegar. Posso passar para qualquer pessoa, e neste caso eu teria que mandar alguém para lá. Ou posso passar para você, já que vai viajar mesmo, e a reportagem pode virar uma das suas colunas.

— Você acha que tem a ver comigo? — Maggie perguntou.

Claro que ela escrevia sobre comida étnica. Dos pratos ao estilo do País Basco de San Joaquin Valley às lingüiças alemãs da região central do Texas, era impossível não fazê-lo. A culinária americana recebia muitos sabores afluentes. Ela conhecia todos. Mas nunca tinha escrito sobre comida estrangeira.

— É o perfil de um chef. É um sujeito americano, nascido e criado aqui, mas meio chinês.

— Hmm. Assim tem mais a ver.

— Ele não faz receitas americanas — Sarah disse. — É o oposto: está retomando as tradições antigas. Ele é descendente de um chef que cozinhava para o imperador e que, em 1925, escreveu um livro que se transformou em um grande clássico da culinária, O Último Chef Chinês. O nome dele era Liang Wei. O nome do neto também é Liang, Sam Liang; ele está traduzindo o livro para o inglês. É cozinheiro. Tudo que ele faz é ortodoxo, tudo de acordo com o avô, apesar de Pequim aparentemente estar seguindo na direção oposta, nova, global.

— Gostei — Maggie disse.

— Ele está para abrir um restaurante. Vai ser uma grande inauguração. A pauta é esta, o restaurante.

— Olhe, não vou mentir, para mim seria perfeito. Eu adoraria escrever essa reportagem — Maggie respondeu. — Isso sem falar que, assim, conservaria minha sanidade mental. É só que... não sei como você pode passar isso para mim. Eu sou a rainha da comida americana.

— Às vezes é bom misturar as coisas. E você vai para lá de qualquer forma. Quando viaja?

— Hoje à noite.

— Hoje à noite! Já deve estar com a passagem.

— Estou. E o meu visto de urgência sai ao meio-dia. Olhe só, Sarah, se você me pagar a passagem, eu dou conta de todos os outros gastos. Tenho que ir para lá, de qualquer forma.

E ela ainda tinha o apartamento da empresa.

— Posso providenciar — Sarah respondeu.

Ela reluzia de satisfação. Adorava resolver um problema.

— Então, estamos acertadas? Você está dizendo que vai fazer?

Elas se conheciam bem. Maggie só precisou colocar um sorrisinho no olhar para a amiga entender que ela estava de acordo.

— Ótimo — disse Sarah. — Então. — Entregou a pasta a Maggie. — Sam Liang.

Em Pequim, era tarde da noite. No entanto, as pessoas continuavam na rua, porque a noite de outono estava gostosa e fresca, levemente acentuada pelo perfume dos crisântemos que ladeavam a calçada. O que Sam Liang mais gostava na cidade que adotara era a vida local, como aqui, pessoas fazendo compras e passeando em Gulou, a rua que se estendia até o pagode escuro e silencioso de onde tirava seu nome. Sam mal olhava para a construção do século XV que se erguia no meio da rua mais à frente. Ele não olhava para as vitrines coloridas das lojas nem para o rosto dos camelôs que se instalavam aqui e ali pela calçada. Seu olhar se fixava adiante. Havia uma loja de utensílios de cozinha neste quarteirão. Xie, seu Terceiro Tio, tinha lhe falado dela. Xie morava em Hangzhou; quando viajava para o norte, até Pequim, sempre dava uma passada aqui.

Sam queria encontrar uma tábua de corte, pesada, redonda, uma fatia de tronco completa, do tipo que os chefs chineses sempre usaram. Ele tinha duas para o restaurante e precisava de uma terceira; um restaurante movimentado realmente precisava de três. Todas as lojas que visitara tinham tábuas de corte, mas eram as de plástico: a nova e moderna alternativa que tinha tomado conta de toda a capital. Diziam que o plástico era mais higiênico, mais seguro; era o futuro.

Sam não concordava. Não tinha se deslocado até a China para trocar o naco de árvore tradicional pelo plástico. O plástico acabava com uma bela lâmina. Além do mais, o que o avô dissera era verdade: a madeira é uma coisa viva embaixo da faca de um cozinheiro. Ela tem seu próprio vigor.

Ah, avistou a loja, logo à frente: as luzes estavam acesas, estava aberta. Se algum lugar fosse ter tábuas de corte à moda antiga, seria este.

Mais de uma vez, Xie lhe explicara como escolher: “Nunca compre uma tábua feita de uma árvore nova, só de uma antiga. Assegure-se de que os anéis estão bem próximos, devido à idade. Confira se a tábua foi condicionada adequadamente com óleo, que tem brilho. Não leve a escolha errada para casa.”

“E o tipo de madeira?”

“Quando eu era mais novo, todos os chefs usavam saboeiro. Agora, a maior parte usa um tipo de bétula, apesar de alguns gostarem da madeira do tamarineiro do Vietnã. Ouça seu Terceiro Tio. Escolha a madeira que lhe parecer mais agradável ao toque. Esqueça o resto.”

Sam abriu a porta da loja. Numa olhada esperançosa, registrou as prateleiras compridas com woks e grelhas e peneiras e suportes para cozinhar ao vapor empilhados. Viu as tábuas de corte, de plástico branco, em sua seção específica. Só viu plástico; nada de madeira, nada de troncos de árvore.

— Ni zhao shenmo? — disse uma voz de mulher. O que procura?

Era a dona do estabelecimento, uma senhora de cabelos brancos que Sam reconheceu pela descrição de Xie.

— Senhora Minha Irmã — Sam disse, com educação. — Procuro uma tábua de corte. Mas do tipo antigo, de madeira.

— Não temos mais.

— Mas por quê?

— Não são tão higiênicas quanto as de plástico. Principalmente agora, sabe como é, quando tudo precisa estar sempre limpo.

Ele sabia do que ela estava falando: das Olimpíadas.

— Mas, se me permite perguntar, quando pararam de vender, não sobrou nenhuma?

— Não — ela respondeu.

A esperança dele se esvaía.

— Zhen kelian. É uma pena. Meu tio Xie disse acreditar que eu conseguiria encontrar uma aqui. A senhora o conhece? Seu antigo cliente? Xie Er?

Os olhos envelhecidos da mulher se arregalaram.

— Você conhece Xie Er?

— Ele é meu tio.

Ela olhou para ele com firmeza. Dava para sentir que ela avaliava a mistura ocidental no rosto dele. Todo mundo fazia isso. Estava acostumado. Era a luz por cima da cabeça dele, a maneira como caminhava. Mas ela realmente não encontraria nada no rosto dele, porque Xie Er era seu tio não de sangue, mas por meio de outros laços.

— O pai dele e o meu avô eram irmãos no palácio.

— Você é um Liang — ela disse.

— Sou — ele respondeu, surpreso.

Ela desceu da banqueta e abriu uma porta atrás de si. Sam se aproximou. Ela acendeu um interruptor e iluminou um depósito de prateleiras abarrotadas e de caixas.

— Venha aqui — ela disse, e ele a seguiu. — Está aqui. — Afastou alguns papéis para o lado.

Assim que ele a viu, soube. Tinha uns 60 centímetros de diâmetro, de 15 a 18 centímetros de espessura, ainda com a casca da árvore, com acabamento de brilho fosco. Um anel de metal grosso estava fincado em um dos lados, para pendurar, já que uma tábua dessas tem que ser guardada na vertical quando não está em uso. Ele era capaz de imaginá-la dali a dez, vinte anos, a superfície de corte desgastada em uma sugestão sutil de concavidade, transformando-se junto com ele, com sua culinária, sob suas mãos. Ele a desejou.

— Posso pagar em dinheiro — disse. — Fico feliz de pagar assim.

— Você cozinha? — ela o observava. — Cozinha? — disse isso com um aceno enfático da cabeça. — Então, me dê só um momento. Vou pensar em um preço.

— Por favor, não se apresse — ele disse com delicadeza, mas por dentro estava transbordando. Passou a mão cheia de prática pela superfície de corte. — E, irmã, será que sabe que tipo de madeira é esta?

— Esta? — ela respondeu. — É do tipo antigo. Saboeiro.

Maggie estava no aeroporto, parada na frente do balcão de doces. Matt sempre lhe dava balas em forma de milho. Era o doce especial dos dois, e ela costumava dizer que todo relacionamento devia ter um. Para eles, era mais um sacramento do que um alimento. Na primeira vez que ele levou aquilo para casa, a intenção era fazer piada com a especialização dela em comida americana, mas isso logo foi esquecido e se transformou na marca de despedida dele. Ele dava um saquinho para ela sempre que ia sair de viagem. Ela ainda era capaz de visualizar uma certa manhã no quarto deles, quando ele estava de malas prontas, já vestido para partir sob a luz do amanhecer que entrava preguiçosa pela janela. Quando? Há um ano e meio? Os dois viajavam com tanta freqüência que raramente acordavam quando o outro saía cedo. Naquela manhã específica, ela estava meio acordada, devaneando; ouviu o roçar do tecido da calça dele e o barulhinho do plástico quando ele enfiou a mão no bolso à procura das balas. Ela ouviu quando ele colocou o doce ao lado do abajur de cabeceira dela e se abaixou para beijar seu cabelo. Só isso. Gentil demais para acordá-la. Então o barulho da porta fechando. O remorso fervilhou dentro de Maggie agora. Ela o deixara partir daquela maneira vezes sem conta.

Ela foi até o tubo transparente cheio de grãos de milho brancos e alaranjados e abriu um saquinho plástico embaixo dele. No dia em que ele viajou para São Francisco, a última vez que o vira, não lhe dera balas em forma de milho, pois iria voltar naquela mesma noite.

No ano que se passara desde então, ela não comera nenhuma bala dessas. Puxou a alavanca e o doce caiu no saquinho, cem, mil balas. Entrou no avião comendo sem parar, enfiando os grãos de milho macios na boca um por um e deixando que dissolvessem até seus dentes doerem e até parecer que sua cabeça se transformaria em um balão e sairia flutuando. Enjoada, farta, recusou as refeições quando foram servidas. Começou a assistir a um filme e desligou a tela. Ficou lá parada, banhada por ondas de culpa. Era a mesma culpa que sentira tantas vezes naquele ano, sempre que lhe vinha à mente a lembrança de que, para falar a verdade, ela e o marido sempre tinham se amado mais quando estavam longe um do outro. E agora era para sempre. Fechou os olhos.

Sentiu a bolsa com o computador entre os pés. Ainda não tinha pensado sobre a pauta. Com tantas providências para tirar o visto, recolher uma amostra de sangue de Matt do hospital para onde ele doara, entregar para o laboratório de DNA, pegar o kit de coleta, fazer a mala e sair correndo para o aeroporto, ela não tinha parado para pensar em sua entrevista com o chef. Na verdade, foi um alívio ter de se apressar tanto. O luto, que se tornara semi-reconfortante para ela, quase um companheiro, finalmente pareceu dar um passo atrás. Ela voltou a se sentir uma pessoa, mesmo mal tendo chegado ao portão a tempo com sua bolsa de mão.

E logo ela estava lá, com o cinto afivelado, com suas balas em forma de milho. Tentou encarar a situação. Será que era possível? Será que a alegação poderia ser verdadeira? Deixou que a mente retrocedesse mais uma vez. Demorou-se em cada obstáculo, em cada momento de discórdia; sabia onde cada um deles se localizava. Estavam todos dentro dela, organizados desde a morte de Matt, ao lado do amor, do arrependimento e da afeição. Neste momento, ela examinava tudo isso. Outra mulher? Uma criança? Simplesmente era impossível acreditar que ele podia ter guardado esse segredo dela. Ele confessava tudo. Era uma piada entre as pessoas que o conheceram. Esse era o tipo de coisa que ele nunca, jamais conseguiria guardar para si. Principalmente porque a questão de filhos era algo que tinha surgido entre eles. Originalmente, os dois estavam de acordo. Não queriam filhos. Mas, na metade da década que passaram juntos, Matt mudara de idéia.

No início, quando tudo começou, ela relembrou os motivos por que eles não seriam bons pais. Ela viajava todo mês, ele também. Se tivessem um filho, alguém precisaria parar. Obviamente, teria que ser ela; ele ganhava a maior parte do dinheiro. O negócio é que ela não queria parar, não por um bom tempo. Adorava sua coluna. Deixe-me trabalhar mais um ano, era o que dizia. Matt era paciente. Afinal, ele é que tinha mudado de idéia. Mas o assunto sempre retornava.

Ele nunca teria sido capaz de esconder uma filha. Essa idéia parecia clara a ela no silêncio do zumbido do avião. Os outros passageiros dormiam. Depois de um bom tempo agitando-se desconfortável na poltrona, ela se levantou e foi para o fundo do avião, para o espaço vazio onde sempre há uma janelinha. Olhou para a escuridão profunda através das linhas de umidade presas entre os vidros, refletindo. Finalmente, esgueirou-se de volta a seu assento e caiu no sono.

Quando aterrissaram em Pequim, ela se sentia um pouco enjoada por causa do açúcar e foi arrastando os pés até os agentes da Imigração que carimbaram seu passaporte e fizeram sinal para que ela seguisse em frente. Parou em um guichê de câmbio para trocar algumas centenas de dólares e, assim preparada, deixou a área restrita e entrou no saguão do aeroporto apinhado de gente.

Espertalhões se lançaram para cima dela.

— Olá? — disse um. — Quer táxi?

— Não, obrigada.

— Táxi. Por aqui.

— Não.

Arrastou a mala na direção das portas de vidro, através da qual enxergava pessoas em fila para pegar táxi. Pela direita, passou por um europeu.

— Quanto custa até Pequim? — ouviu-o dizer a um dos homens.

— Trezentos — o homem respondeu, e o europeu concordou.

Ela continuou em frente.

Nesse ínterim, o primeiro homem continuava atrás dela.

— Táxi — disse, e então de fato agarrou o braço dela, o que a aturdiu.

— Sai de perto de mim — disse, e o repeliu com tanta força que até ela mesma se surpreendeu.

Ele deu um passo atrás, o babaca, com um sorriso de escárnio. Ela caminhou até seu lugar na fila do táxi e aprumou o corpo um pouco mais.

Chegou sua vez e ela mostrou ao motorista o cartão de visita do escritório em Pequim, que trazia o endereço do apartamento, e então largou-se no banco de trás. Tinha conseguido, tinha chegado. Uma estrada navegava junto com ela do lado de fora, salpicada por outdoors iluminados em chinês e em inglês, anunciando software, metais, produtos químicos, aeronaves, café, logística. O que é logística? Sentiu-se velha por não saber.

Ainda tinha algumas pessoas queridas, pelo menos. Abriu o telefone. O aparelho reviveu com um apito. O primeiro número era de sua mãe. Maggie não ligava para ela com freqüência, mas, de todo modo, sempre que comprava um telefone novo, era o primeiro número que anotava, no topo da lista. A mãe a criara sozinha com eficiência, apesar de não ter sido exatamente capaz de criar um lar aconchegante para Maggie. Merecia ocupar a posição mais alta.

Em seguida vinha Sunny, sua melhor amiga e o número para o qual mais ligava. Depois Sarah; seus outros amigos. E os pais de Matt. O coração dela apertava, como sempre, ao pensar neles. O sofrimento deles tinha sido igual ao dela.

Fechou o telefone quando o carro saiu da via expressa e entrou na cidade. Logo viu que esta não era a Pequim de que se lembrava, de três anos antes. Os bulevares tinham sido alargados, os prédios de escritórios tomaram conta da paisagem, a iluminação pública tinha sido renovada. Talvez fosse a aproximação das Olimpíadas. Ou talvez fosse apenas o modo de Pequim crescer. Ela se lembrava de Matt dizendo que tudo estava sempre em obras, e isso remontava a mais de uma década. Sempre construindo, investindo, expandindo, ganhando dinheiro.

O motorista virou numa rua lateral e parou na frente do prédio de que ela se lembrava. Pagou a tarifa: 95 iuans. Sorriu ao se lembrar do sujeito no aeroporto que concordara em pagar 300. Era como se ela tivesse voltado a ser a velha e boa Maggie por um minuto: sempre adorara ser a turista esperta.

Entrou, subiu pelo elevador, abriu a porta do apartamento 426 e acendeu as luzes do teto. Continuava a mesma coisa. O sofá, a televisão, as janelas com vista para a cidade.

Ela arrastou a mala até a parede. Seus passos eram ruidosos naquele silêncio. Havia um envelope na mesinha de centro. Para a sra. Mason, dizia. Do escritório de advocacia. Ela abriu. Bem-vinda à China. Por favor, vá ao escritório pela manhã.

Só uma pessoa que não a conhecesse a chamaria de sra. Mason. Ela nunca mudara o sobrenome. Não havia dúvidas de que não a conheciam; provavelmente Carey era o único que ainda estava no escritório depois de passados os três anos de sua visita. Ela se lembrava de Matt lhe dizer que, à exceção de Carey, o escritório de Pequim nunca conseguiu segurar estrangeiros por muito tempo. Essa era uma das razões por que os advogados do escritório de Los Angeles, como Matt, precisavam ir sempre para lá. Então, nos últimos anos, tinham contratado dois advogados chineses que tinham estudado Direito nos Estados Unidos e depois retornaram a seu país, e assim a pressão acabou. Matt não tinha ido até lá nenhuma vez no ano e meio antes de morrer. Em todo caso (conferiu o telefone mais uma vez), era tarde demais para ligar para o escritório agora. A Calder Hayes estaria fechada.

Mas ainda era cedo o suficiente para ligar para o chef, só que, primeiro, precisaria ler um pouco. Pegou a pasta com a letra de Sarah na etiqueta, Sam Liang, e se aninhou com ela no sofá.

A primeira coisa que viu foi que se tratava de um chef de renome nacional, o que devia estar próximo dos melhores no sistema chinês, e havia uma lista de prêmios e distinções. Ele tinha subido rápido, pensou. Só fazia quatro anos que estava lá. Então reparou num trecho do livro do avô dele, O Último Chef Chinês.

"A comida chinesa tem características que a diferenciam de todas as outras comidas do mundo. Primeiro, seu equilíbrio conceitual. O domínio é exercido pelo fan, os grãos, sejam de arroz ou de trigo, transformados em massas e pães e bolinhos. Song ou cai é o alimento saboroso que o acompanha, verduras e legumes temperados, às vezes carne. Destas, o porco vem primeiro, seguido pelos animais aquáticos em toda sua variedade. A soja é usada em muitos produtos, fresca e fermentada. Dian xin são petiscos, que englobam tudo da cozinha dim sum cantonesa, além de castanhas e frutas. Ferver, cozinhar no vapor ou refogar são preferíveis, nesta ordem, empilhando os alimentos quando possível para economizar combustível. Pauzinhos são usados. Entre as culinárias do mundo, apenas a japonesa e a coreana compartilham estas características, e todos sabem que sua influência deriva da China."

Ela desviou o olhar para Pequim, além da janela. Os contornos urbanos do progresso reluziam para ela, os guindastes com suas luzinhas piscantes, os esqueletos altos e meio acabados. Aquela obviamente era uma cidade em movimento. E, no entanto, esse chef parecia estar se remetendo ao passado.

Ótimo, ela concluiu. Contradições prometiam. Conferiam profundidade. Esticou a mão para pegar o celular e digitou o número dele.

Tocou duas vezes, então alguém atendeu.

— Wei — foi o que ela ouviu.

— Olá, gostaria de falar com Sam Liang.

No mesmo instante, ele se transformou em americano.

— Sou eu.

— Aqui é Maggie McElroy. Da revista Mesa.

— Ah, sim — ele respondeu. — O artigo sobre o restaurante. Pera aí. Não acredito que você já chegou. Está em Pequim?

— Estou...

— Ainda não mandei o e-mail, nem liguei. Já deveria ter feito isso.

— Como assim?

Ele mexeu no telefone e então retornou.

— Espero que não tenha vindo até aqui só para falar comigo.

— Como?

Não era essa a idéia? Não era isso que ela deveria fazer? Sarah lhe dissera que ele já estava pronto para recebê-la.

— Apenas em parte — ela disse a ele então ao telefone. — Tenho outro assunto de que tratar.

— Fico feliz em saber — ele disse. — Porque neste momento, desde hoje de manhã, meu restaurante não vai mais abrir.

— Por quê?

— Parece que perdi meu investidor.

— Mas você vai conseguir outro, com certeza... não vai?

— Espero que sim. Vou tentar. Mas enquanto isso não ocorrer e estiver tudo incerto, sinto muito, não vou poder fazer a matéria.

Maggie não raciocinava bem de bate-pronto. Sempre descobria a reação adequada posteriormente, quando já era tarde demais. Escrever dava mais certo: assim ela tinha tempo para refletir sobre as coisas; por isso escolhera aquela profissão.

Mas agora precisava inventar algo bem rápido.

— A matéria não precisa ser sobre o restaurante. Um perfil seu seria ótimo.

— Um perfil meu? Falando que o meu restaurante não vai abrir?

— Não é bem isso...

— Com o que acabou de acontecer, não posso dizer que considere esta uma boa idéia. Espero que compreenda.

— Pode ser um erro. — A cabeça dela era um redemoinho, buscava estratégias e não encontrava nenhuma. — De verdade.

— Por favor... srta. McElroy, é isso?

— Maggie.

— Aceite minhas desculpas. E por favor diga também à sua editora que sinto muito, de verdade. Eu não fazia idéia de que isto aconteceria.

— Compreendo — Maggie respondeu. — Não quer pelo menos dar uma pensada sobre o assunto? Porque vou ficar aqui alguns dias.

— Vou pensar, se prefere assim. Mas não sei como posso dar uma entrevista sobre um restaurante que não vai abrir. Nem como o meu perfil pode ser publicado depois disso que acaba de acontecer.

— Compreendo — ela respondeu.

Estava decepcionada, mas também se compadecia. A inauguração tinha requisitado muito da atenção dele.

— Aproveite a sua viagem.

Aquilo era uma coisa muito americana de se dizer, educada, levemente forçada, distante. Ele quer se livrar de mim.

— Em todo caso, anote meu telefone.

— Certo — ele respondeu.

Anotou o número obedientemente e agradeceu quando ela lhe desejou boa sorte. Então os dois se despediram, sorriram para o telefone e desligaram.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Filme: Up (Pixar) | Trailer

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Filme: Up (Pixar) | Trailer

Up (2009), filme em animação 3D do sempre muito competente estúdio Pixar, criador dos maiores sucessos do cinema em animação computadorizada: Toy Story (1995), Vida de Inseto (1998), Toy Story 2 (1999), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003), Os Incríveis (2004), Carros (2006), Ratatouille (2007) e WALL·E (2008). Até a presente data a Pixar nunca lançou mais de um longa-metragem por ano, e o projeto de cada um dos seus filmes dura em média quatro anos. Até hoje os filmes da Pixar geraram receita de cerca de 7 bilhões de dólares.

Up é dirigido por Pete Docter e Bob Peterson, e é estrelado por Christopher Plummer, Edward Asner, Delroy Lindo e John Ratzenberger (que participou de todos os filmes do estúdio Pixar). O filme tem previsão de estréia nos cinemas do Brasil no dia 4 de Setembro de 2009.

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Filme: Transformers 2 | Trailer

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Transformers 2: Revenge of the Fallen (2009), seqüência do filme Transformers. Película dirigida por Michael Bay, estrelada por Megan Fox, Shia LaBeouf, Rainn Wilson, Josh Duhamel e John Turturro. Estréia nos cinemas brasileiros prevista para 26 de Junho de 2009.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Trecho do Livro: Magya (Septimus Heap) | Angie Sage

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Trecho do Livro: Magya (Septimus Heap) | Angie Sage

Livros Magya Septimus Heap Angie Sage BooksLivro: Magya

Saiba onde encontrar este livro

Alguma Coisa na Neve

Silas Heap se enrolou melhor na capa para se proteger da neve. Tinha feito uma longa caminhada pela Floresta e estava enregelado até os ossos. Mas trazia nos bolsos as ervas que Galen, a Curandeira, lhe tinha dado para seu filho mais novo, Septimus, nascido naquele mesmo dia.

Silas foi se aproximando do Castelo e pôde ver, através das árvores, as luzes bruxuleantes provenientes das velas postas nas janelas das casas altas e estreitas aglomeradas ao longo das muralhas externas. Era a noite mais longa do ano, e as velas arderiam até o amanhecer, para ajudar a afastar a escuridão. Silas sempre adorava essa caminhada até o Castelo. Não tinha o menor medo da Floresta durante o dia e apreciava o percurso tranqüilo pela trilha estreita que abria caminho, quilômetro após quilômetro, através do bosque fechado. Estava agora perto dos limites da Floresta; as árvores altas começavam a rarear. À medida que a trilha descia para chegar ao fundo do vale, Silas podia ver o Castelo inteiro, exposto à sua frente. O rio largo e sinuoso contornava as velhas muralhas que ziguezagueavam para cercar as casas agrupadas sem nenhuma ordem. Todas eram pintadas de cores vivas; e as que eram voltadas para o oeste pareciam estar pegando fogo por causa do reflexo dos últimos raios do sol de inverno nas janelas.

O Castelo tinha começado como uma pequena aldeia. Por sua localização tão próxima à Floresta, os aldeões tinham levantado altas muralhas de pedra como proteção contra carcajus, bruxas e bruxos que não viam nada de mais em roubar seus carneiros, galinhas e ocasionalmente seus filhos. Com a construção de um maior número de casas, as muralhas foram ampliadas e um fosso profundo foi escavado para que todos se sentissem em segurança.

Logo o Castelo estava atraindo artífices qualificados vindos de outras aldeias. Ele cresceu e prosperou tanto que começou a faltar espaço para os moradores, até alguém decidir construir os Emaranhados. Os Emaranhados, onde Silas, Sarah e os meninos moravam, era uma enorme construção de pedra que se erguia ao longo da beira-rio. Ela se estendia por quase cinco quilômetros e era voltada para dentro do Castelo. Era um lugar barulhento e movimentado, com um labirinto de corredores e aposentos, com pequenas fábricas, escolas e lojas misturadas com quartos de famílias, minúsculos jardins de terraço e até mesmo um teatro. Não havia muito espaço nos Emaranhados, mas as pessoas não se importavam. Sempre se encontrava boa companhia e alguém para brincar com as crianças.

Enquanto o sol ia caindo abaixo das muralhas do Castelo, Silas apressava o passo. Precisava chegar ao Portão Norte antes que o trancassem e erguessem a ponte levadiça, antes do anoitecer.

Foi nesse instante que Silas sentiu alguma coisa ali por perto. Algum ser vivo, mas que quase já não estava vivo. Ele se deu conta de uma leve pulsação humana em algum lugar ali perto. Silas parou. Como Mago Ordinário, era capaz de sentir coisas; mas, como não era um Mago Ordinário muito competente, precisava de uma forte concentração. Ficou ali parado, imóvel, com a neve caindo ao redor, já encobrindo suas pegadas. E então ouviu algo: uma fungada, um gemido, uma leve respiração? Não sabia ao certo, mas foi o suficiente.

Por baixo de um arbusto ao lado do caminho havia uma trouxa. Silas apanhou a trouxa e, para seu espanto, descobriu que estava contemplando os olhos solenes de uma neném diminuta. Ele aconchegou a neném nos braços e se perguntou como era possível que ela tivesse ido parar na neve no dia mais frio do ano. Alguém a tinha envolvido bem numa pesada manta de lã, mas ela já estava com muito frio. Os lábios estavam com um tom de azul sombrio; e os cílios, salpicados de neve. Enquanto os olhos escuros, cor de violeta, o contemplavam atentamente, Silas teve a sensação desconfortável de que ela, naquela sua curta vida, já tinha visto coisas que nenhum bebê deveria ver.

Pensando em sua Sarah em casa, aconchegada e segura com Septimus e os meninos, Silas decidiu que eles simplesmente teriam de criar espaço para mais uma criancinha. Abrigou com cuidado a neném por baixo da sua capa azul de Mago, segurando-a bem perto do corpo, enquanto corria em direção ao portão do Castelo. Chegou a ponte levadiça no exato instante em que Gringe, o Guarda-portão, estava prestes a gritar para o Auxiliar da Ponte começar a içá-la.

- Desta vez foi por um triz - resmungou Gringe. - Mas vocês, Magos, são esquisitos. Que vocês todos querem fazer lá fora num dia como hoje eu num sei.

- É? - Silas queria passar por Gringe o mais rápido possível, mas antes precisava molhar sua mão. Encontrou rápido uma moeda de prata num bolso e a entregou a Gringe.

- Obrigado, Gringe. Boa-noite.

Gringe olhou para a moedinha como se fosse um besouro bastante repulsivo.

- Márcia Overstrand, essa me deu uma meia coroa 'gorinha mesmo. Mas a verdade é que ela tem classe, principalmente porque agora é a Maga ExtraOrdinária.

- O quê?- Silas quase engasgou.

- É. Classe, é o que ela tem.

Gringe deu um passo atrás, e Silas passou rápido. Por mais que quisesse descobrir por que Márcia Overstrand de repente era a Maga ExtraOrdinária, Silas estava sentindo a trouxa começar a se mexer no calor da capa; e algo lhe dizia que seria melhor se Gringe não tivesse conhecimento da neném.

Quando Silas sumiu pelas sombras do tunel que levava aos Emaranhados, um vulto alto vestido de roxo se adiantou e lhe impediu o caminho.

- Márcia! - exclamou Silas, espantado. - O que...

- Nao conte a ninguém que você a encontrou. Ela nasceu de vocês. Entendeu?

Abalado, Silas fez que sim. Antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa, Márcia tinha desaparecido num tremeluzir de névoa roxa. Silas completou o resto do percurso longo e sinuoso através dos Emaranhados em estado de total perturbação. Quem era essa neném? O que Márcia tinha a ver com ela? E por que Márcia agora era a Maga ExtraOrdinária? E, quando se aproximava da grande porta vermelha que dava para o aposento já superlotado da família Heap, outra pergunta, mais premente, surgiu na sua cabeça: o que Sarah ia dizer de ter ainda mais uma criança para cuidar?

Silas não teve muito tempo para pensar sobre esta última questão. Quando chegou a porta, ela se abriu com violência, e uma mulher grandona, de rosto vermelho, usando as vestes azul-escuras de uma Parteira-Chefe, saiu correndo, quase derrubando-o no chão enquanto ia embora. Ela também carregava uma trouxa, só que essa trouxa estava enfaixada da cabeça aos pés; e a levava debaixo do braço como se fosse um embrulho e ela estivesse atrasada para a saída do correio.

- Está morto! - gritou a Parteira-Chefe, afastando Silas do caminho com um tremendo empurrão e seguindo veloz pelo corredor. Dentro do aposento, Sarah Heap estava aos berros.

Silas entrou, com o coração acabrunhado. Viu Sarah cercada por seis menininhos de rosto muito branco, todos apavorados demais para chorar.

- Ela levou meu menino - disse Sarah, desconsolada. Septimus morreu e ela o levou embora.

Nesse instante, uma umidade morna se espalhou da trouxa que Silas ainda trazia escondida por baixo da capa. Silas não encontrava palavras para o que queria dizer. Por isso, simplesmente tirou a trouxa de dentro da capa e a colocou nos braços de Sarah.

Sarah Heap desfez-se em lágrimas.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 26 a 30-01-2009

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Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 26 a 30-01-2009

Taxas de juros em operações de crédito informadas pelas instituições financeiras abaixo listadas durante o período de 26 a 30 de janeiro de 2009.

Posição --- Instituição --- Taxas de juros efetivas ao mês (%)

Cheque Especial (Pessoa física)

01 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL S A --- 1,63
02 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 1,81
03 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,01
04 --- BANCO FATOR S A --- 2,66
05 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,72
06 --- BANCO ALFA S A --- 2,91
07 --- BANCO MATONE S A --- 3,12
08 --- BANCOOB --- 3,45
09 --- BANCO PROSPER S A --- 3,84
10 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 4,15
11 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 4,81
12 --- BANCO INDUSVAL S A --- 5,06
13 --- BANCO INTERCAP S A --- 5,08
14 --- BANCO PAULISTA S A --- 5,64
15 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 5,88
16 --- BANCO SAFRA S A --- 6,38
17 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 6,46
18 --- BANCO CAPITAL S A --- 6,53
19 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 6,75
20 --- BANCO PANAMERICANO S A --- 7,33
21 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 7,44
22 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 7,63
23 --- BANCO DO BRASIL S A --- 7,97
24 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 8,34
25 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 8,36
26 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 8,43
27 --- BANCO ITAU S A --- 8,46
28 --- JBS BANCO S/A --- 8,54
29 --- BANCO CITIBANK S A --- 8,60
30 --- BANCO BRADESCO S A --- 8,72
31 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 8,81
32 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 8,87
33 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 9,01
34 --- BANCO BANESTES S A --- 9,11
35 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 9,12
36 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 9,80
37 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 9,96
38 --- BANCO SCHAHIN S A --- 10,13

Crédito Pessoal (Pessoa física)

01 --- BANCO SOCIETE GENERALE BRASIL --- 1,00
02 --- ASB S A CFI --- 1,29
03 --- BARIGUI S A CFI --- 1,58
04 --- BANCO COOPERATIVO SICREDI S A --- 1,77
05 --- BANCO MERCEDES-BENZ S.A. --- 1,79
06 --- BANCO CALYON BRASIL S.A. --- 1,81
07 --- FINANC ALFA S A CFI --- 1,85
08 --- BANCO ALFA S A --- 1,94
09 --- BANCO INTERCAP S A --- 2,13
10 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 2,13
11 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL S A --- 2,18
12 --- BANCO INDUSTRIAL DO BRASIL S A --- 2,20
13 --- BANCOOB --- 2,22
14 --- BANCO BVA S A --- 2,22
15 --- BANCO GUANABARA S A --- 2,24
16 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 2,30
17 --- BANCO SOFISA --- 2,32
18 --- PARATI CFI S A --- 2,35
19 --- BANCO BGN S A --- 2,35
20 --- UNILETRA S A CFI --- 2,36
21 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 2,36
22 --- BANCO VOLKSWAGEN S A --- 2,39
23 --- BANCRED S A CFI --- 2,39
24 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,40
25 --- BESC FINANCEIRA S A CFI --- 2,41
26 --- BANCO BMG S A --- 2,42
27 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 2,44
28 --- BANCO MORADA S A --- 2,45
29 --- LECCA CFI --- 2,46
30 --- BANCO PECUNIA S A --- 2,49
31 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 2,49
32 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 2,51
33 --- BANCO DO BRASIL S A --- 2,53
34 --- SANTINVEST S A CFI --- 2,54
35 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 2,57
36 --- PERNAMBUCANAS FINANC S A CFI --- 2,58
37 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 2,66
38 --- BANCO TRICURY S A --- 2,69
39 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,70
40 --- BANCO RURAL S A --- 2,71
41 --- BANCO ARBI S A --- 2,73
42 --- BANCO MATONE S A --- 2,76
43 --- PARANA BANCO S A --- 2,77
44 --- BV FINANCEIRA SA CFI --- 2,80
45 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 2,80
46 --- BANCO BANESTES S A --- 2,81
47 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 2,93
48 --- BANIF BRASIL --- 2,96
49 --- BANCO CACIQUE S A --- 2,98
50 --- BANCO GMAC --- 3,01
51 --- BANCO FIBRA S A --- 3,06
52 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 3,07
53 --- BANCO FINASA BMC S.A. --- 3,09
54 --- BANCO A J RENNER S A --- 3,38
55 --- DIRECAO S A CFI --- 3,40
56 --- BRB CFI S A --- 3,43
57 --- BANCO CITICARD --- 3,50
58 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 3,50
59 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 3,56
60 --- MÚLTIPLA CFI S/A --- 3,71
61 --- BANCO PAULISTA S A --- 3,73
62 --- BANCO SCHAHIN S A --- 3,82
63 --- BANEX S/A CFI --- 3,83
64 --- BANCO SEMEAR --- 3,83
65 --- OMNI SA CFI --- 3,89
66 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 3,91
67 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 3,91
68 --- BANCO INTERMEDIUM S/A --- 4,10
69 --- FINANSINOS S A CFI --- 4,12
70 --- BANCO SAFRA S A --- 4,16
71 --- BANCO GE CAPITAL S A --- 4,18
72 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 4,27
73 --- BANCO ITAUCARD --- 4,30
74 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 4,31
75 --- BANCO BRADESCO S A --- 4,68
76 --- BANCO CITIBANK S A --- 4,69
77 --- ROTULA S/A SCFI --- 4,71
78 --- BANCO ITAU S A --- 4,92
79 --- CREDIARE CFI --- 5,14
80 --- BANCO PANAMERICANO S A --- 5,33
81 --- PORTOSEG S A CFI --- 5,49
82 --- SUL FINANCEIRA S A CFI --- 6,65
83 --- FINAMAX S A CFI --- 7,37
84 --- BANCO CEDULA S A --- 8,25
85 --- QUERO QUERO S A CFI --- 8,54
86 --- GRAZZIOTIN FINANCIADORA SA CFI --- 9,22
87 --- AYMORE CFI --- 9,43
88 --- CIFRA S A CFI --- 10,33
89 --- PORTOCRED S A CFI --- 10,74
90 --- BANCO FININVEST S A --- 11,03
91 --- MIDWAY S.A. - SCFI --- 11,10
92 --- DACASA FINANCEIRA S A SCFI --- 11,26
93 --- NEGRESCO S A CFI --- 11,92
94 --- KREDILIG --- 12,60
95 --- FAI S A CFI --- 13,29
96 --- BANCO IBI S A BM --- 14,14
97 --- BANCO AZTECA DO BRASIL S.A. --- 14,32
98 --- FIN ITAU CBD CFI --- 14,42
99 --- BANCO ITAUCRED FINANC S A --- 14,55
100 --- SAX CFI --- 15,10
101 --- CETELEM BRASIL S A CFI --- 19,22
102 --- CREFISA S A CFI --- 23,32
103 --- BANCO CARREFOUR S.A. --- 25,53

Fonte: Banco Central do Brasil

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Fevereiro 08, 2009

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Fevereiro 08, 2009

O Estado de São Paulo

Livros Eclipse Stephenie Meyer Books

Ficção

01. ECLIPSE (3º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

02. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

03. CREPÚSCULO (1º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

04. LUA NOVA (2º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

05. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

06. O MENINO DO PIJAMA LISTRADO
John Boyne . leia um trecho do livro

07. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak

08. A CIDADE DO SOL
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

09. O CAÇADOR DE PIPAS
Khaled Hosseini . leia um trecho do livro

10. OS CONTOS DE BEEDLE, O BARDO
J. K. Rowling (autora de Harry Potter) . leia um trecho do livro


Livros Comer Rezar Amar Elizabeth Gilbert Books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. VENCENDO O PASSADO
Zibia Gasparetto

03. MARLEY E EU
John Grogan . leia um trecho do livro

04. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

05. O CÓDIGO DA INTELIGÊNCIA
Augusto Cury . leia um trecho do livro

06. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

07. QUEM ME ROUBOU DE MIM?
Fábio de Melo

08. GOMORRA
Roberto Saviano

09. MENTES PERIGOSAS - O PSICOPATA MORA AO LADO
Ana Beatriz Barbosa Silva

10. RESISTÊNCIA
Agnès Humbert . leia um trecho do livro

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Trecho do Livro: A Zona Morta | Stephen King

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Trecho do Livro: A Zona Morta | Stephen King

Livros A Zona Morta Stephen King BooksLivro: A Zona Morta

Saiba onde encontrar este livro

Na época de sua formatura na universidade, John Smith já tinha esquecido completamente do tombo que levara na neve naquele dia de janeiro em 1953. Na realidade já era difícil se lembrar daquilo quando acabou a escola primária. Sua mãe e seu pai nunca ficaram sabendo de nada.

Estavam patinando num trecho limpo da lagoa Runaround, em Durham. Os garotos maiores jogavam hóquei com velhos bastões emendados e usavam duas cestas de batata como gols. Os garotos pequenos apenas matavam o tempo como fazem os garotos desde que o mundo é mundo — os tornozelos se viravam comicamente para um lado e para o outro, a respiração formava nuvens de vapor nos gélidos seis graus negativos. Num canto do gelo limpo, dois pneus de borracha ardiam, soltando uma fumaça preta, e alguns pais observavam os filhos de perto. A era do Snowmobile estava longe e a diversão de inverno ainda consistia em exercitar o corpo em vez de acelerar um motor a gasolina.

Johnny tinha vindo de casa, bem na divisa Pownal, com os patins pendurados no ombro. Aos seis anos, era um patinador razoavelmente bom. Ainda não o bastante para entrar nos jogos de hóquei dos garotos maiores, mas capaz de ficar dando voltas ao redor da maioria dos outros alunos de primeira série, que ficavam sempre abrindo os braços para manter o equilíbrio ou se estatelando de bunda no chão.

Agora patinava devagar, contornando os limites do trecho limpo. Desejava saber deslizar para trás como Timmy Benedix, ouvir o gelo martelar e estalar misteriosamente sob a cobertura de neve além da orla. Ouvia também os gritos dos jogadores de hóquei, o ronco de um caminhão de concreto atravessando a ponte a caminho da U. S. Gypsum, a fábrica de gesso em Lisbon Falls, e o murmúrio da conversa dos adultos. Ele se sentia muito contente por estar vivo naquele gostoso dia frio de inverno. Não havia nada de errado com ele, nada perturbava sua mente, não queria nada... exceto ser capaz de patinar para trás, como Timmy Benedix.

Patinou ultrapassando o fogo, viu dois ou três marmanjos passando de um para outro uma garrafa de bebida.

— Dá um pouco disso! — gritou para Chuck Spier, que estava encapotado com uma japona de lenhador e uma calça verde, de flanela grossa.

— Sai daqui, pirralho! — disse Chuck, mostrando os dentes num sorriso amarelo. — Tô ouvindo sua mãe te chamar.

Sorrindo, o Johnny Smith de seis anos de idade continuou patinando. E, no lado da área de patinação que dava para a estrada, viu o próprio Timmy Benedix descendo a rampa na frente do pai.

— Timmy! — gritou. — Dá uma olhada!

Virando para trás, começou a patinar desajeitadamente de costas. Sem se dar conta, estava avançando para a área do jogo de hóquei.

— Ei, moleque! — alguém gritou. — Sai da frente!

Johnny não ouviu. Estava conseguindo! Estava patinando para trás! Tinha pegado o jeito — de uma hora para a outra. Tudo dependia do ritmo no vaivém das pernas...

Olhou para baixo, fascinado, querendo ver o que suas pernas estavam fazendo.

O disco de hóquei dos grandões, velho, lascado e afiado nas beiras, passou zunindo por ele, desapercebido. Um dos mais velhos, que não era um patinador dos melhores, se lançou atrás do disco numa espécie de mergulho de cabeça quase cego.

Chuck Spier viu o que ia acontecer. Ele se levantou e gritou:

— Johnny! Cuidado!

John ergueu a cabeça... e um instante depois o desengonçado patinador, com todos os seus 73 quilos, bateu a toda velocidade no pequeno John Smith.

Johnny saiu voando, braços estendidos. Uma fração mínima de segundo e sua cabeça fez contato com o gelo. Ele apagou.

Apagado... gelo escuro... apagado... gelo escuro... apagado. Apagado.

Disseram que ele apagou. A única coisa da qual ele tinha certeza era um estranho pensamento que não parava de se repetir e a repentina visão de um círculo de faces debruçadas sobre ele — jogadores de hóquei assustados, adultos nervosos, garotos curiosos. Timmy Benedix com um sorriso afetado. E Chuck Spier, que o segurava.

Gelo escuro. Escuro.

— Ei! — Chuck chamou. — Johnny... Você está bem? Levou uma tremenda pancada.

— Escuro — disse Johnny num tom meio rouco. — Gelo escuro. Não pule mais em cima dele, Chuck.

Chuck olhou em volta, um tanto apavorado, depois retornou a Johnny. Pôs a mão no grande galo que estava se formando na testa do garoto.

— Desculpe — disse o estabanado jogador de hóquei. — Eu nem cheguei a ver o garoto. Os moleques devem ficar longe do hóquei. São as regras. — Olhou ao redor para ver se estava recebendo apoio.

— Johnny? — disse Chuck. Não estava gostando daquele ar nos olhos de Johnny. Pareciam escuros e distantes, inexpressivos e frios. — Você está bem?

— Não pule mais em cima dele — disse Johnny, sem saber o que estava dizendo, pensando só no gelo... no gelo escuro. — A explosão. O ácido.

— Não acha que devemos levá-lo ao médico? — Chuck perguntou a Bill Gendron. — Não está dizendo coisa com coisa.

— Dê um minuto a ele — Bill aconselhou.

Deram um minuto e a cabeça de Johnny realmente clareou.

— Estou bem — ele murmurou. — Me levanta. — Timmy Benedix continuou com aquele sorriso afetado. Miserável. Johnny decidiu mostrar a Timmy com quantos paus se faz uma canoa. No final da semana já estaria patinando em círculo ao redor de Timmy... para trás e para a frente.

— Vem com a gente se sentar um pouco perto do fogo — disse Chuck. — Levou uma tremenda pancada.

Johnny deixou que o ajudassem a se aproximar do fogo. O cheiro de borracha derretendo era forte, ácido, fazendo Johnny sentir um pouco de enjôo no estômago. Estava com dor de cabeça. Tocou o galo sobre a vista esquerda com curiosidade. Teve a impressão de que havia crescido um quilômetro.

— Consegue se lembrar de quem é etc.? — Bill perguntou.

— Claro. Claro que consigo. Estou bem.

— Como é o nome do seu pai e da sua mãe?

— Herb e Vera. Herb e Vera Smith.

Bill e Chuck entreolharam-se e deram de ombros.

— Acho que está tudo bem com ele — disse Chuck, e então, pela terceira vez —, mas sem dúvida levou uma tremenda pancada, não foi? Uau!

— Cara — disse Bill, procurando afetuosamente com os olhos suas irmãs gêmeas de oito anos, que patinavam de mãos dadas, e logo voltando a Johnny —, a coisa provavelmente teria matado um adulto.

— Não um polaco — Chuck respondeu, e os dois deram uma gargalhada. A garrafa de Bushmill’s começou a rodar de novo.

Dez minutos depois, Johnny estava de volta ao gelo, a dor de cabeça já quase passando, a contusão com o galo despontando na testa como estranha marca distintiva. Quando foi para casa almoçar, já tinha esquecido completamente da queda e do momento em que ficou apagado. Estava dominado pela alegria de ter aprendido a patinar para trás.

— Pelo amor de Deus! — disse Vera Smith quando olhou para ele. — Como você fez isso na testa?

— Caí! — disse Johnny, começando a tomar ruidosamente a sopa de tomate Campbell.

— Você está bem mesmo, John? — ela perguntou, encostando suavemente a mão nele.

— Claro, mãe. — Estava muito bem... exceto pelos pesadelos que teve ocasionalmente durante o mês seguinte... os pesadelos e a tendência a ficar sonolento em alguns momentos do dia em que não costumava ter sono antes. Aliás, uma sonolência que parou de acontecer mais ou menos na mesma época em que os pesadelos pararam.

Ele estava bem.

Certa manhã, em meados de fevereiro, Chuck Spier descobriu ao acordar que a bateria de seu velho De Soto 48 estava descarregada. Tentou carregá-la usando a bateria do caminhão da fazenda. Quando prendeu o segundo pólo na bateria do De Soto, ela explodiu em seu rosto, fazendo chover fragmentos e um ácido corrosivo. Perdeu um olho. Vera disse que, se não fosse pela misericórdia de Deus, ele teria perdido os dois. Johnny achou que aquilo era uma terrível tragédia e foi com o pai visitar Chuck no Hospital Geral de Lewiston, uma semana depois do acidente. A imagem do Grande Chuck deitado naquela cama de hospital, todo debilitado e mirrado, foi extremamente chocante — e de noite Johnny sonhou que era ele quem estava deitado lá.

De vez em quando, nos anos que se seguiram, Johnny tinha pressentimentos — sabia qual ia ser a próxima música no rádio antes que o DJ a tocasse, esse tipo de coisa —, mas nunca relacionou isso com seu acidente no gelo. Já tinha se esquecido dele.

E os pressentimentos nunca lhe causavam sobressaltos, nem eram muito freqüentes. Foi só na noite da feira regional e da máscara que algo de muito assustador aconteceu. Antes do segundo acidente. Mais tarde, pensaria freqüentemente nisso.

A coisa com a Roda da Fortuna acontecera antes do segundo acidente. Como uma advertência vinda de sua infância.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 19 a 23-01-2009

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Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 19 a 23-01-2009

Taxas de juros em operações de crédito informadas pelas instituições abaixo durante o período de 19 a 23 de janeiro de 2009.

Posição --- Instituição --- Taxas de juros efetivas ao mês (%)

Cheque Especial (Pessoa física)

01 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL S A --- 1,97
02 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,01
03 --- BANCO FATOR S A --- 2,31
04 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,35
05 --- BANCO ALFA S A --- 2,89
06 --- BANCO BANCOOB --- 3,70
07 --- BANCO PROSPER S A --- 3,84
08 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 4,31
09 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 4,64
10 --- BANCO INTERCAP S A --- 5,09
11 --- BANCO PAULISTA S A --- 5,65
12 --- BANCO CAPITAL S A --- 6,52
13 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 6,69
14 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 6,78
15 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 7,09
16 --- BANCO SAFRA S A --- 7,22
17 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 7,44
18 --- BANCO DO BRASIL S A --- 8,04
19 --- BANCO PANAMERICANO S A --- 8,09
20 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 8,38
21 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 8,44
22 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 8,52
23 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 8,52
24 --- JBS BANCO S/A --- 8,54
25 --- BANCO ITAU S A --- 8,58
26 --- BANCO BRADESCO S A --- 8,77
27 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 8,88
28 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 9,01
29 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 9,12
30 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 9,12
31 --- BANCO BANESTES S A --- 9,13
32 --- BANCO CITIBANK S A --- 9,32
33 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 9,90
34 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 10,02
35 --- BANCO SCHAHIN S A --- 10,13

Crédito Pessoal (Pessoa física)

01 --- BANCO SOCIETE GENERALE BRASIL --- 1,02
02 --- BARIGUI S A CFI --- 1,69
03 --- SUL FINANCEIRA S A CFI --- 1,70
04 --- BANCO MERCEDES-BENZ S.A. --- 2,03
05 --- FINANC ALFA S A CFI --- 2,06
06 --- BANCO BANCOOB --- 2,22
07 --- BANCO RIBEIRAO PRETO S A --- 2,26
08 --- BANCO TRICURY S A --- 2,29
09 --- BANCO BVA S A --- 2,32
10 --- BANCO INTERCAP S A --- 2,35
11 --- BANCO LUSO BRASILEIRO S A --- 2,37
12 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL S A --- 2,45
13 --- BESC FINANCEIRA S A CFI --- 2,45
14 --- BANCO INDUSTRIAL DO BRASIL S A --- 2,48
15 --- BANCO SOFISA --- 2,49
16 --- BANCO MATONE S A --- 2,54
17 --- BANCO MORADA S A --- 2,55
18 --- BANCO ALFA S A --- 2,55
19 --- PARATI CFI S A --- 2,57
20 --- BANCO BGN S A --- 2,59
21 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 2,60
22 --- BANCO VOLKSWAGEN S A --- 2,63
23 --- PERNAMBUCANAS FINANC S A CFI --- 2,63
24 --- UNILETRA S A CFI --- 2,63
25 --- BANCO VOTORANTIM S A --- 2,63
26 --- BANCRED S A CFI --- 2,64
27 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL S A --- 2,68
28 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 2,70
29 --- LECCA CFI --- 2,70
30 --- BANCO PECUNIA S A --- 2,72
31 --- BANCO BMG S A --- 2,72
32 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 2,76
33 --- PARANA BANCO S A --- 2,76
34 --- BANCO DO EST DE SE S A --- 2,76
35 --- BANCO DO BRASIL S A --- 2,80
36 --- BANCO BANESTES S A --- 2,81
37 --- BANCO SAFRA S A --- 2,82
38 --- BANCO DA AMAZONIA S A --- 2,82
39 --- SANTINVEST S A CFI --- 2,84
40 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL S A --- 2,85
41 --- BANCO ARBI S A --- 2,92
42 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL S A --- 2,94
43 --- BANCO RURAL S A --- 3,01
44 --- BANCO FIBRA S A --- 3,06
45 --- BV FINANCEIRA SA CFI --- 3,09
46 --- BANCO FINASA BMC S.A. --- 3,25
47 --- BRB BANCO DE BRASILIA S A --- 3,26
48 --- BANCO CACIQUE S A --- 3,34
49 --- BANIF BRASIL --- 3,34
50 --- BANCO NOSSA CAIXA S A --- 3,37
51 --- BANCO GE CAPITAL S A --- 3,48
52 --- BANCO GMAC --- 3,51
53 --- BANCO PAULISTA S A --- 3,72
54 --- BANCO CITICARD --- 3,81
55 --- FINANSINOS S A CFI --- 3,86
56 --- BANCO DO EST DO RS S A --- 3,92
57 --- BANCO ABN AMRO REAL S A --- 3,99
58 --- BANEX S/A CFI --- 4,10
59 --- BANCO DO EST DO PA S A --- 4,18
60 --- BRB CFI S A --- 4,20
61 --- UNIBANCO UNIAO BANCOS BRAS S A --- 4,26
62 --- BANCO SCHAHIN S A --- 4,27
63 --- OMNI SA CFI --- 4,28
64 --- BANCO SANTANDER S.A. --- 4,59
65 --- BANCO ITAUCARD --- 4,80
66 --- BANCO SEMEAR --- 4,88
67 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 4,92
68 --- BANCO ITAU S A --- 4,98
69 --- BANCO CITIBANK S A --- 5,03
70 --- BANCO A J RENNER S A --- 5,12
71 --- BANCO BRADESCO S A --- 5,27
72 --- PORTOSEG S A CFI --- 5,48
73 --- BANCO INTERMEDIUM S/A --- 5,82
74 --- BANCO PANAMERICANO S A --- 5,82
75 --- CREDIARE CFI --- 7,12
76 --- FINAMAX S A CFI --- 8,06
77 --- QUERO QUERO S A CFI --- 8,70
78 --- BANCO CEDULA S A --- 9,20
79 --- AYMORE CFI --- 9,97
80 --- GRAZZIOTIN FINANCIADORA SA CFI --- 10,26
81 --- NEGRESCO S A CFI --- 11,03
82 --- CIFRA S A CFI --- 11,20
83 --- MIDWAY S.A. - SCFI --- 12,11
84 --- GOLCRED --- 12,23
85 --- DACASA FINANCEIRA S A SCFI --- 12,38
86 --- BANCO FININVEST S A --- 12,43
87 --- PORTOCRED S A CFI --- 12,46
88 --- KREDILIG --- 13,72
89 --- FAI S A CFI --- 13,78
90 --- BANCO ITAUCRED FINANC S A --- 14,73
91 --- FIN ITAU CBD CFI --- 14,76
92 --- BANCO AZTECA DO BRASIL S.A. --- 15,71
93 --- BANCO IBI S A BM --- 16,01
94 --- SAX CFI --- 16,55
95 --- CETELEM BRASIL S A CFI --- 20,38
96 --- BANCO CARREFOUR S.A. --- 25,14
97 --- CREFISA S A CFI --- 25,44

Fonte: Banco Central do Brasil

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Song lyrics: Phil Collins | No Way Out (Letra e Vídeo)

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Song lyrics: Phil Collins | No Way Out (Letra e Vídeo)

irmao urso brother bear

No Way Out“ - Phil Collins
CD: Irmão Urso (Brother Bear/Trilha Sonora)
DVD: Irmão Urso

Everywhere I turn, I hurt someone
But there's nothing I can say to change
the things I've done
Of all the things I hid from you
I cannot hide the shame
And I pray someone, something will come
to take away the pain

There's no way out of this dark place
No hope, no future
I know I can't be free
But I can't see another way
I can't face another day

Tell me where, did I go wrong
Everyone I loved, they're all gone
I'd do everything so differently
but I can't turn back the time
There's no shelter from the storm inside of me

There's no way out of this dark place
No hope, no future
I know I can't be free
But I can't see another way
Oh, I can't face another day

I can't believe the words I hear
It's like an answer to a prayer
When I look around I see
This place, this time, this friend of mine

I know it's hard but you found somehow
To look into your heart and to forgive me now
You've given me the strength to see
just where my journey ends
You've given me the strength to carry on

I see the path from this dark place
I see my future
Your forgiveness has set me free
On and I can see another way
I can face another day

I see the path, I can see the path
I see the future
I see the path from this dark place
I see my future

I see the path, I can see the path
I see the future

Assista ao videoclipe | Watch the video clip

No Way Out | Phil Collins



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Turismo: Hotéis 5 Estrelas | Rio de Janeiro

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Turismo: Hotéis 5 Estrelas | Rio de Janeiro

Relação dos hotéis classificados como sendo de luxo (cinco estrelas) na cidade do Rio de Janeiro.

Hotel Copacabana Palace
Av. Atlântica, 1702 - Praia de Copacabana
Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21)2548-7070
Reservas: 0800-21-1533
www.copacabanapalace.com.br

Hotel Fasano Rio de Janeiro
Av. Vieira Souto, 80 - Ipanema
Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21)3202-4000
www.fasano.com.br

Hotel JW Marriott
Av. Atlântica, 2600 - Praia de Copacabana
Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21)2545-6500
Reservas: 0800-703-1512
www.marriott.com.br/riomc

Hotel Sofitel Rio de Janeiro
Av. Atlântica, 4240 - Praia de Copacabana
Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21)2525-1232
Reservas: 0800-703-7000
www.sofitel.com.br

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil | Fevereiro 01, 2009

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Livros | Brasil: Lista dos livros mais vendidos no Brasil
Fevereiro 01, 2009

O Estado de São Paulo

Livros Eclipse Stephenie Meyer Books

Ficção

01. ECLIPSE (3º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

02. LUA NOVA (2º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

03. CREPÚSCULO (1º livro da série)
Stephenie Meyer . leia um trecho do livro

04. A CABANA
William P. Young . leia um trecho do livro

05. O VENDEDOR DE SONHOS
Augusto Cury . leia um trecho do livro

06. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Markus Zusak

07. O MENINO DO PIJAMA LISTRADO
John Boyne . leia um trecho do livro

08. OS CONTOS DE BEEDLE, O BARDO
J. K. Rowling (autora de Harry Potter) . leia um trecho do livro

09. A SOMBRA DO VENTO
Carlos Ruiz Zafón . leia um trecho do livro

10. O GUARDIÃO DE MEMÓRIAS
Kim Edwards . leia um trecho do livro


Livros Comer Rezar Amar Elizabeth Gilbert Books

Não-Ficção

01. COMER, REZAR, AMAR
Elizabeth Gilbert . leia um trecho do livro

02. VENCENDO O PASSADO
Zibia Gasparetto

03. MARLEY E EU
John Grogan . leia um trecho do livro

04. O CÓDIGO DA INTELIGÊNCIA
Augusto Cury . leia um trecho do livro

05. GOMORRA
Roberto Saviano

06. UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO
Geoffrey Blainey . leia um trecho do livro

07. MENTES PERIGOSAS - O PSICOPATA MORA AO LADO
Ana Beatriz Barbosa Silva

08. O SEGREDO
Rhonda Byrne

09. O MONGE E O EXECUTIVO
 James C. Hunter . leia um trecho do livro

10. MAYSA
Lira Neto

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Filme Lua Nova (Stephenie Meyer) estréia em Novembro de 2009

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Filme Lua Nova (Stephenie Meyer) estréia em Novembro de 2009

O filme Lua Nova (New Moon), inspirado no segundo livro da série Crepúsculo, da autora Stephenie Meyer, está em fase de pré-produção e tem previsão de estréia nos Estados Unidos para o dia 20 de novembro de 2009.

Até a presente data estão confirmados os atores Robert Pattinson (Edward Cullen), Kristen Stewart (Bella Swan), Nikki Reed (Rosalie Hale), Ashley Greene (Alice Cullen), Jackson Rathbone (Jasper Hale) e Kellan Lutz (Emmett Cullen).

twilight crepusculo

Para os que ainda não conhecem a série Crepúsculo (Twilight), tanto os livros quanto o primeiro filme foram um grande sucesso. Os livros são:

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Carros: Ferrari F60 F1-2009 | Papel de Parede | Wallpaper

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Carros: Ferrari F60 F1-2009 | Papel de Parede | Wallpaper

O piloto brasileiro Felipe Massa vai acelerar dentro desta máquina na temporada 2009 da Fórmula 1. O carro F60 está em fase de testes desde janeiro deste ano na pista da Ferrari em Maranello, Itália.

A Ferrari F60 F1-2009 possui 7 marchas (mais a ré), injeção eletrônica digital e motor de 8 cilindros com 32 válvulas.

ferrari f60 f1 2009


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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Trecho do Livro: O Conde de Monte Cristo | Alexandre Dumas

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Trecho do Livro: O Conde de Monte Cristo | Alexandre Dumas

Livros O Conde de Monte Cristo Alexandre Dumas BooksLivro: O Conde de Monte Cristo

Saiba onde encontrar este livro

COMPLÔ

Danglars seguiu Edmond e Mercedes com os olhos até os dois noivos desaparecerem num dos ângulos do forte Saint-Nicolas; em seguida, voltando-se outra vez, percebeu que Fernand afundara novamente pálido e trêmulo na cadeira, enquanto Caderousse balbuciava a letra de uma canção de bêbado.

— E essa agora, meu caro senhor! — disse Danglars a Fernand. — Eis um casamento que não me parece fazer a felicidade de todo mundo...

— Estou desesperado — disse Fernand.

— Então ama Mercedes?

— Adoro.

— Há muito tempo?

— Desde que nos conhecemos, sempre a amei.

— E fica aí arrancando os cabelos em vez de procurar um remédio para a situação! Que diabos! Não era assim que eu imaginava que agiam as pessoas da sua nação.

— Que quer que eu faça? — perguntou Fernand.

— Eu é que vou saber? Em que isso me diz respeito? Não sou eu, me parece, que estou apaixonado pela srta. Mercedes, mas o senhor. Procura e acharás, diz o Evangelho.

— Já achei.

— O quê?

— Vou apunhalar o homem, mas a mulher me disse que se acontecesse alguma desgraça ao seu noivo ela se mataria.

— Bah! A gente diz essas coisas, mas não faz.

— O senhor não conhece Mercedes, cavalheiro; a partir do momento em que ameaça, ela executa.

— Imbecil! — murmurou Danglars. — Para mim tanto faz ela se matar ou não, contanto que Dantès não seja capitão.

— E, antes que Mercedes morra — continuou Fernand no tom de uma decisão inflexível —, eu mesmo morrerei.

— Quanto amor! — exclamou Caderousse, com uma voz cada vez mais alcoolizada. — Uma imensidão, quem diria!

— Vejamos... — disse Danglars —, o senhor me parece um rapaz gentil, e eu gostaria, mas que diabos! O senhor me dá pena; mas...

— Isso mesmo — repetiu Caderousse —, vejamos.

— Meu caro — continuou Danglars —, você está noventa e nove por cento bêbado: termine a garrafa e ficará completamente. Beba e não se intrometa. É preciso estar com a cabeça em ordem para o que vamos fazer.

— Eu, bêbado? — indignou-se Caderousse. — Imagine! Eu beberia ainda quatro das suas garrafas, que não são maiores que frascos de água-de-colônia! Seu Pamphile, mais vinho!

E para dar fé às suas intenções, Caderousse bateu com o copo na mesa.

— O que dizia então, cavalheiro? — perguntou Fernand, esperando com avidez a continuação da frase interrompida.

— O que era mesmo? Não lembro mais. Esse beberrão do Caderousse me fez perder o fio do pensamento.

— Beberrão com muita honra; coitado de quem teme o vinho, deve cultivar algum mau pensamento e receia que a bebida o exponha à luz do dia.

E Caderousse pôs-se a cantar os dois últimos versos de uma canção muito em voga na época: “Todos os maus bebem água da chuva/ Está mais que provado depois do dilúvio.”

— O senhor dizia — retomou Fernand — que gostaria de aliviar o meu sofrimento, mas, ia acrescentando...

— Sim, mas eu acrescentava... para isso basta que Dantès não se case com aquela a quem o senhor ama; e o casamento pode muito bem malograr, ao que me parece, sem que Dantès morra.

— Apenas a morte os separará — replicou Fernand.

— O senhor raciocina igual a um caracol, meu amigo — interveio Caderousse —, e aqui está Danglars, que é um finório, um esperto, um grego, que não me deixa mentir. Prove, Danglars, boto a mão no fogo por você. Diga-lhe que Dantès não precisa morrer; aliás, eu não queria que Dantès morresse. É um bom rapaz, gosto dele, de Dantès, um abraço, Dantès. À sua saúde, Dantès.

Fernand ergueu-se com impaciência.

— Deixe-o falar — continuou Danglars, segurando o rapaz —, aliás, por mais bêbado que esteja, ele não está muito errado. A ausência desune tanto quanto a morte. Suponha que houvesse entre Edmond e Mercedes as muralhas de uma prisão; eles ficariam tão separados quanto se houvesse entre eles a pedra de um túmulo.

— É, mas da prisão a gente sai — disse Caderousse, que, com o resto de sua inteligência, aferrava-se à conversa —, e quando a gente sai da prisão e se chama Edmond Dantès, a gente se vinga.

— Não interessa! — murmurou Fernand.

— A propósito — continuou Caderousse —, por que mandariam Dantès para a prisão? Ele não roubou, não matou, não assassinou...

— Cale-se — disse Danglars.

— Não quero me calar — respondeu Caderousse. — Quero que me digam: por que colocariam Dantès na prisão? À sua saúde, Dantès!

E engoliu mais um copo de vinho.

Danglars acompanhava nos olhos opacos do alfaiate os progressos da embriaguez, e, voltando-se para Fernand:

— Compreende então que não há necessidade de matá-lo?

— É possível, como o senhor dizia agorinha, se tivéssemos um motivo para fazer com que prendessem Dantès. Mas, este motivo, o senhor o tem?

— Procurando bem — disse Danglars —, poderíamos encontrá-lo. Mas — prosseguiu —, por que diabos vou me intrometer nessa história? Por acaso isso me diz respeito?

— Não sei se lhe diz respeito — respondeu Fernand, segurando seu braço —, o que sei é que o senhor tem algum motivo especial para odiar Dantès: quem odeia não se engana quanto aos sentimentos dos outros.

— Eu, motivo para odiar Dantès? Nenhum, dou-lhe minha palavra. Percebi a infelicidade do senhor e seu drama me interressou, apenas isso; mas uma vez que acredita que ajo por interesse, adeus, meu caro amigo, resolva seu problema como puder.

E Danglars fez menção de se levantar.

— Não! — disse Fernand, retendo-o. — Fique! No final, tanto faz o senhor odiar ou não odiar Dantès: eu o odeio, admito altivamente. Esboce um plano que eu o executo, contanto que não inclua a morte do homem, pois Mercedes afirmou que se mataria caso matassem Dantès.

Caderousse, que deixara a cabeça cair sobre a mesa, levantou a fronte e, contemplando Fernand e Danglars com olhos pesados e estupidificados, exclamou:

— Matar Dantès! Quem está falando aqui em matar Dantès? Mas não quero que o matem, é meu amigo; ofereceu para dividir seu dinheiro comigo hoje de manhã, como eu dividi o meu com ele: não quero que matem Dantès.

— E quem está falando em matá-lo, imbecil! — volveu Danglars. — É só uma piada. Beba à saúde dele — acrescentou enchendo o copo de Caderousse —, e deixe-nos em paz.

— Sim, sim, à saúde de Dantès! — bradou Caderousse, esvaziando o copo. — À sua saúde! À sua saúde! Viva!

— Mas o plano... o plano? — insistiu Fernand.

— Então ainda não tem um?

— Não, o senhor se encarregou disso.

— É verdade — continuou Danglars —, os franceses têm esta superioridade sobre os espanhóis: os espanhóis ruminam, os franceses criam.

— Ora, pois então crie — rosnou Fernand com impaciência.

— Garçom, pena, tinta e papel! — ordenou Danglars.

— Pena, tinta e papel? — murmurou Fernand.

— Sim, sou contador; pena, tinta e papel são meus instrumentos e, sem meus instrumentos, sou uma nulidade.

— Pena, tinta e papel! — gritou então Fernand.

— O que o senhor deseja está naquela mesa — disse o garçom, apontando para os objetos pedidos.

— Pegue-os para nós, então.

O garçom pegou o papel, a tinta e a pena e depositou-os sobre a mesa do caramanchão.

— E pensar — disse Caderousse, deixando a mão cair no papel — que temos aqui com que matar um homem mais seguramente do que se o esperássemos no fundo de um bosque para assassiná-lo! Sempre tive mais medo de uma pena, de um tinteiro e de uma folha de papel que de uma espada ou uma pistola.

— O paspalhão ainda não está tão bêbado quanto parece — disse Danglars. — Sirva-lhe mais uma bebida, Fernand.

Fernand encheu o copo de Caderousse, e este, como autêntico beberrão que era, tirou a mão de cima do papel e a levou ao copo.

O catalão acompanhou o gesto até o momento em que Caderousse, quase vencido por aquele novo ataque, descansou, ou melhor, deixou o copo cair novamente sobre a mesa.

— E então? — insistiu o catalão, ao perceber que o que sobrara da razão de Caderousse começava a se diluir com aquele último copo de vinho.

— Ora, eu dizia, por exemplo —, prosseguiu Danglars —, que, se após uma viagem como esta que acaba de fazer Dantès, na qual pisou em Nápoles e na ilha de Elba, alguém o denunciasse ao procurador do rei como agente bonapartista...

— Vou denunciá-lo! — disse vivamente o rapaz.

— Sim; mas aí irão obrigá-lo a assinar uma declaração, irão confrontá-lo com aquele a quem o denunciou. Posso lhe fornecer algo com o que sustentar sua acusação, isso não é problema; mas Dantès não pode permanecer eternamente na prisão, um dia ou outro ele sai, e, no dia em que sair, coitado de quem o fez entrar!

— Oh, não peço senão uma coisa — gabou-se Fernand —, é que ele venha bulir comigo!

— Acredito! Mas e Mercedes!? Mercedes, que irá odiá-lo para sempre, bastando para isso que se atreva a arranhar a epiderme do seu bem-amado Edmond!

— Tem razão — disse Fernand.

— Não, não — emendou Danglars —, se decidíssemos fazer uma coisa dessas, preste atenção, seria mais interessante simplesmente pegar, como faço agora, esta pena, embebê-la na tinta e escrever com a mão esquerda, para que a letra não fosse reconhecida, uma denunciazinha assim concebida.

E Danglars, juntando a prática à teoria, escreveu com a mão esquerda e com uma letra invertida, sem nenhuma semelhança com sua letra habitual, as seguintes linhas, que entregou ao catalão e que Fernand leu a meia-voz:

O senhor procurador do rei fica avisado, por um amigo do trono e da religião, que o assim chamado Edmond Dantès, imediato do navio Pharaon, recém-chegado de Esmirna esta manhã, antes de fazer escalas em Nápoles e Porto Ferraio, foi encarregado, por Murat, de uma carta para o usurpador, e pelo usurpador, de uma carta para o comitê bonapartista de Paris.
A prova de seu crime pode ser obtida com sua detenção, pois a carta será encontrada com ele, ou na casa de seu pai, ou em sua cabine a bordo do Pharaon.

— Desta forma — continuou Danglars —, a sua vingança se esconderá sob o senso comum, pois não haverá como fazê-la recair sobre o senhor, e a coisa andará pelas próprias pernas. Não seria necessário nada além de dobrar esta carta, como o faço agora, e escrever no verso: “Ao sr. procurador do rei”. Tudo estaria dito.

E Danglars escreveu o destinatário, divertindo-se.

— Sim, tudo estaria dito — exclamou Caderousse, que num esforço de inteligência acompanhara a leitura, compreendendo instintivamente o quanto tal denúncia poderia acarretar de desgraça —, sim, tudo estaria dito: só que seria uma infâmia.

E esticou o braço para pegar a carta.

— Porém — disse Danglars, empurrando-a para fora do alcance de sua mão —, porém, o que digo e faço é mera brincadeira; e seria o primeiro a ficar chateado se acontecesse alguma coisa com Dantès, esse bom Dantès! Pode ficar com ela.

Pegou a carta, amassou-a nas mãos e atirou-a num canto do caramanchão.

— A propósito — disse Caderousse —, Dantès é meu amigo e não quero que lhe façam mal.

— Mas que diabos! Quem pensaria numa coisa dessas, em lhe fazer mal! Nem eu, nem Fernand! — disse Danglars, levantando-se e observando o rapaz, que permanecera sentado mas cujo olhar oblíquo espreitava o papel comprometedor jogado num canto.

— Nesse caso — acalmou-se Caderousse —, mais vinho; quero beber à saúde de Edmond e da bela Mercedes.

— Já bebeu demais, pau-d’água — disse Danglars —, e se continuar vai ser obrigado a dormir aqui, pois não vai conseguir ficar de pé.

— Eu? — disse Caderousse, levantando-se com a fanfarronice do homem bêbado. — Eu, não conseguir ficar de pé! Aposto que escalo o campanário das Accoules, e sem tropeçar!

— Claro, claro — disse Danglars —, também aposto, mas amanhã. É hora de ir para casa; dê-me o braço e vamos.

— Vamos — disse Caderousse —, mas não preciso do seu braço para isto. Você vem, Fernand, volta conosco para Marselha?

— Não — respondeu Fernand —, quanto a mim, volto para os catalães.

— Você está errado, venha conosco para Marselha, venha.

— Não preciso de nada de Marselha, e não quero ir para lá.

— Como pode dizer uma coisa dessas? Como pode não querer, homenzinho! Pois bem, faça como quiser! Liberdade para todos! Venha, Danglars, deixemos o cavalheiro voltar para os catalães, já que é isso que ele quer.

Danglars aproveitou-se desse momento de boa vontade de Caderousse para arrastá-lo na direção de Marselha; entretanto, a fim de abrir um atalho e facilitar as coisas para Fernand, em vez de voltar pela Rive-Neuve voltou pela porta Saint-Victor. Caderousse o seguia, cambaleando, pendurado em seu braço.

Mal deu uns vinte passos, Danglars voltou-se e observou Fernand precipitar-se para o papel e guardá-lo no bolso; em seguida, lançando-se para fora do caramanchão, o rapaz tomou a direção do Pillon.

— Ora, mas o que faz ele? — disse Caderousse. — Mentiu para nós: falou que ia para os catalães e foi para a cidade! Ei, Fernand! Está no caminho errado, meu rapaz!

— É você que está vendo coisas — disse Danglars —, ele acaba de tomar o caminho das Vieilles-Infirmeries.

— Sério? — perguntou Caderousse. — Eu teria jurado que ele virou à direita. Realmente, o vinho é um traidor.

— Ótimo, ótimo — murmurou Danglars —, acho que agora a coisa está bem encaminhada, e não há mais nada a fazer além de deixá-la andar com as próprias pernas.

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