Taxa de Juros: Cheque Especial | Crédito Pessoal | 30-05-2009
Taxas de juros em operações de crédito informadas pelas instituições financeiras listadas abaixo entre o período de 13 a 19 de Maio, publicadas no dia 30 de Maio de 2009.
Posição --- Instituição --- Taxas de juros efetivas ao mês (%)
Cheque Especial (Pessoa física)
01 --- BANCO VOTORANTIM SA --- 2,01 02 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL SA --- 2,63 03 --- BANCO RIBEIRAO PRETO SA --- 2,72 04 --- BANCO ALFA SA --- 3,00 05 --- BANCO INTERCAP SA --- 3,10 06 --- BANCO FATOR SA --- 3,11 07 --- BANCOOB --- 3,53 08 --- BANCO PROSPER SA --- 3,55 09 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 3,80 10 --- BANCO CEDULA SA --- 4,31 11 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL SA --- 4,55 12 --- BANCO INDUSVAL SA --- 4,88 13 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 5,48 14 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 6,21 15 --- BANCO LUSO BRASILEIRO SA --- 6,52 16 --- BANCO CAPITAL SA --- 6,53 17 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL SA --- 6,74 18 --- BANCO DA AMAZONIA SA --- 6,78 19 --- BANCO SAFRA SA --- 7,05 20 --- BANCO DO EST DO PA SA --- 7,44 21 --- BANCO DO BRASIL SA --- 7,84 22 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA --- 7,85 23 --- BANCO LA NACION ARGENTINA --- 7,86 24 --- BANCO NOSSA CAIXA SA --- 7,99 25 --- BANCO SCHAHIN SA --- 8,25 26 --- BANCO DO EST DE SE SA --- 8,50 27 --- JBS BANCO S/A --- 8,54 28 --- BANCO BRADESCO SA --- 8,59 29 --- BANCO ITAU SA --- 8,61 30 --- BANCO CITIBANK SA --- 8,67 31 --- BRB BANCO DE BRASILIA SA --- 8,86 32 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 8,92 33 --- BANCO BANESTES SA --- 8,96 34 --- BANCO DO EST DO RS SA --- 8,98 35 --- BANCO SANTANDER (BRASIL) S.A. --- 9,04
Crédito Pessoal (Pessoa física)
01 --- BANCOOB --- 1,20 02 --- BANCO ABC BRASIL SA --- 1,29 03 --- BANCO CRUZEIRO DO SUL SA --- 1,31 04 --- BANCO MERCEDES-BENZ S.A. --- 1,72 05 --- VIPAL FINANCEIRA --- 1,73 06 --- FINANC ALFA SA CFI --- 1,83 07 --- BANCO COOPERATIVO SICREDI SA --- 1,87 08 --- BRB CFI SA --- 1,95 09 --- BARIGUI SA CFI --- 2,01 10 --- BANCO BVA SA --- 2,08 11 --- BANCO ALFA SA --- 2,08 12 --- BANCO INTERCAP SA --- 2,19 13 --- BANCO INDUSTRIAL DO BRASIL SA --- 2,23 14 --- BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL SA --- 2,25 15 --- CAIXA ECONOMICA FEDERAL --- 2,26 16 --- SANTINVEST SA CFI --- 2,26 17 --- BANCO DO NORDESTE DO BRASIL SA --- 2,26 18 --- BV FINANCEIRA SA CFI --- 2,29 19 --- BANCO SOFISA --- 2,36 20 --- BANCO BGN SA --- 2,44 21 --- BANCO DAYCOVAL S.A --- 2,44 22 --- BANCO MATONE SA --- 2,44 23 --- BANCO DO BRASIL SA --- 2,46 24 --- BANCO VOTORANTIM SA --- 2,50 25 --- BANCO VOLKSWAGEN SA --- 2,50 26 --- BANCO BMG SA --- 2,51 27 --- BANCO PECUNIA SA --- 2,51 28 --- PARATI CFI SA --- 2,52 29 --- BANCO DA AMAZONIA SA --- 2,52 30 --- BANCO BANESTES SA --- 2,54 31 --- LECCA CFI --- 2,54 32 --- PARANA BANCO SA --- 2,55 33 --- BANCO FATOR SA --- 2,56 34 --- BANCO TRICURY SA --- 2,57 35 --- BANCO NOSSA CAIXA SA --- 2,58 36 --- BANCO BONSUCESSO S.A. --- 2,58 37 --- BANCO SCHAHIN SA --- 2,60 38 --- BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA --- 2,65 39 --- BANCO RURAL SA --- 2,69 40 --- UNILETRA SA CFI --- 2,75 41 --- BANCO DO EST DE SE SA --- 2,76 42 --- BANCO CAPITAL SA --- 2,81 43 --- BANCO FIBRA SA --- 2,83 44 --- BANCO LUSO BRASILEIRO SA --- 2,88 45 --- BRB BANCO DE BRASILIA SA --- 2,88 46 --- BANCO CACIQUE SA --- 2,91 47 --- BANCO FINASA BMC S.A. --- 2,95 48 --- BANCO GMAC --- 3,01 49 --- BANCO RIBEIRAO PRETO SA --- 3,05 50 --- BANCO MAXINVEST SA --- 3,11 51 --- BANIF BRASIL --- 3,16 52 --- PERNAMBUCANAS FINANC SA CFI --- 3,30 53 --- BANCO A J RENNER SA --- 3,41 54 --- BANCO PAULISTA SA --- 3,50 55 --- FINANSINOS SA CFI --- 3,64 56 --- BANCO DO EST DO RS SA --- 3,70 57 --- BANCO DO EST DO PA SA --- 3,77 58 --- BANCO SANTANDER (BRASIL) S.A. --- 3,78 59 --- SOCINAL --- 3,85 60 --- ROTULA S/A SCFI --- 3,86 61 --- BANCO CITICARD --- 3,91 62 --- BANCO INTERMEDIUM S/A --- 3,94 63 --- OMNI SA CFI --- 4,02 64 --- QUERO QUERO SA CFI --- 4,02 65 --- BANCO CITIBANK SA --- 4,06 66 --- BANCO SEMEAR --- 4,11 67 --- BANEX S/A CFI --- 4,22 68 --- BANCO ITAU SA --- 4,47 69 --- CREDIARE CFI --- 4,56 70 --- DIRECAO SA CFI --- 4,56 71 --- BANCO ITAUCARD --- 4,58 72 --- HSBC BANK BRASIL SA BANCO MULTIP --- 4,69 73 --- BANCO BRADESCO SA --- 4,86 74 --- BANCO SAFRA SA --- 5,06 75 --- GOLCRED --- 5,19 76 --- PORTOSEG SA CFI --- 5,43 77 --- BANCO GE CAPITAL SA --- 5,55 78 --- FINAMAX SA CFI --- 6,96 79 --- AYMORE CFI --- 9,96 80 --- CIFRA SA CFI --- 10,03 81 --- GRAZZIOTIN FINANCIADORA SA CFI --- 10,13 82 --- PORTOCRED SA CFI --- 10,61 83 --- BANCO CARREFOUR S.A. --- 10,71 84 --- KREDILIG --- 11,36 85 --- MIDWAY S.A. - SCFI --- 11,55 86 --- NEGRESCO SA CFI --- 11,62 87 --- DACASA FINANCEIRA SA SCFI --- 11,89 88 --- BANCO CEDULA SA --- 13,74 89 --- FAI SA CFI --- 15,04 90 --- BANCO ITAUCRED FINANC SA --- 15,41 91 --- BANCO IBI SA BM --- 15,46 92 --- SAX CFI --- 15,50 93 --- BANCO AZTECA DO BRASIL S.A. --- 18,43 94 --- CETELEM BRASIL SA CFI --- 19,08 95 --- CREFISA SA CFI --- 19,25
Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que era acionado sempre que parte dele tentava perguntar: Mas por que você está fazendo isso? Um pedaço da sua mente ficava escuro. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo. A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu. Tudo está bem. Vamos continuar, Freddy — onde estávamos?
Ele estava andando até o ponto de ônibus quando viu a placa que dizia:
LOJA DE ARMAS DO HARVEY
REMINGTON WINCHESTER COLT SMITH & WESSON
CAÇADORES SÃO BEM-VINDOS
Nevava um pouco de um céu cinza. Era a primeira neve do ano e ela caía na calçada como punhados brancos de bicarbonato de sódio, então derretia. Ele viu um menininho com um gorro vermelho de lã passar com a boca aberta e a língua para fora, tentando pegar um floco. Vai só derreter, Freddy, pensou ele, olhando para o garoto, mas o menino continuou do mesmo jeito, com a cabeça jogada para trás, apontando para o céu.
Ele parou em frente à Loja de Armas do Harvey, hesitante. Havia uma máquina de jornais com edições de última hora na entrada, e a manchete dizia:
FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA
Abaixo dessas palavras, na máquina, havia uma placa branca suja que informava:
POR FAVOR, PAGUE PELO SEU JORNAL! ESTA MÁQUINA É ALUGADA O REVENDEDOR PAGA POR TODOS OS EXEMPLARES
Estava quente lá dentro. A loja era comprida, mas não muito larga. Havia apenas um corredor. Depois da porta, à esquerda, havia um mostruário de vidro cheio de caixas de munição. Ele reconheceu os cartuchos calibre 22 imediatamente, pois tivera um rifle .22 de apenas um tiro quando era criança em Connecticut. Passou três anos querendo aquele rifle e, quando enfim o ganhou, não conseguia pensar em nada para fazer com ele. Atirou em algumas latas, depois em um gaio-azul. A morte do pássaro não foi limpa. Ele ficou caído na neve, cercado por uma mancha de sangue rosa, seu bico abrindo e fechando devagar. Depois disso, ele pendurou o rifle na parede e ele ficou lá por três anos, até ser vendido para um garoto da rua por nove dólares e uma caixa de papelão de livros de piadas.
As outras munições lhe eram menos familiares. Calibre 36, .30-06 e algumas que pareciam balas de canhão em miniatura. Que tipo de animal você matava com aquilo?, ele se perguntou. Tigres? Dinossauros? Ainda assim, elas o fascinavam, paradas lá dentro do mostruário de vidro como docinhos em uma loja de artigos gerais.
O balconista ou dono estava conversando com um gordo de calças verdes e camisa do Exército também verde. Eles falavam sobre uma pistola que estava em cima de outro mostruário de vidro, desmontada. O gordo puxou o ferrolho para trás com o polegar e os dois olharam para a câmara lubrificada. O gordo disse algo e o balconista ou dono riu.
— Automáticas sempre travam? Isso você aprendeu com seu pai, Mac. Admita.
— Harry, você é um cascateiro de marca maior.
Você é um cascateiro, Fred, pensou ele. De marca maior. Sabia disso, Fred? Fred disse que sabia.
À direita, havia um mostruário de vidro que corria por toda a extensão da loja. Estava cheio de rifles pendurados. Conseguiu reconhecer as espingardas de dois canos, mas todo o resto era um mistério para ele. Ainda assim, algumas pessoas — como os dois no balcão do outro lado, por exemplo — dominavam aquele mundo com a mesma facilidade com que ele dominara contabilidade geral na faculdade.
Ele adentrou mais a loja e olhou para o interior de um mostruário cheio de revólveres. Viu algumas pistolas de ar comprimido, algumas .22, uma .38 com cabo de madeira, algumas .45 e uma arma que reconheceu como sendo uma Magnum .44, a arma que Dirty Harry carregava naquele filme. Ele tinha ouvido Ron Stone e Vinnie Mason falando sobre o filme na lavanderia, e Vinnie dissera: Nunca que eles iriam deixar um policial carregar uma arma daquelas na cidade. Dá para abrir um buraco em um homem a mais de um quilômetro e meio de distância com ela.
O gordo, Mac, e o balconista ou dono, Harry (como Dirty Harry), montaram a arma de volta.
— Me dê uma ligada quando aquela Menschler chegar — disse Mac.
— Pode deixar... mas seu preconceito contra automáticas é irracional — disse Harry. (Ele decidiu que Harry devia ser o dono — um balconista jamais chamaria um cliente de irracional.) — Você precisa daquela pistola Cobra para a semana que vem?
— Seria bom — disse Mac.
— Não posso prometer.
— Você nunca pode... mas é o melhor vendedor de armas da cidade, e sabe disso.
— Claro que sei.
Mac deu um tapinha na arma em cima do mostrador de vidro e se virou para ir embora. Esbarrou nele — Preste atenção, Mac. Sorria quando fizer uma coisa dessas — e continuou andando até a porta. O jornal estava enfiado debaixo do braço de Mac, e ele conseguia ler:
FRÁGIL CES
Harry se voltou para ele, ainda sorrindo e balançando a cabeça.
— Posso ajudá-lo?
— Espero que sim. Mas vou logo avisando, não entendo nada de armas.
Harry deu de ombros.
— E tem alguma lei que obrigue você a entender? É presente para alguém? De Natal?
— É, isso mesmo — disse ele, aproveitando a deixa. — Eu tenho um primo... Nick, é o nome dele. Nick Adams. Ele mora em Michigan e se amarra em armas. Sabe como é. Adora caçar, mas é mais que isso. É tipo um, bem, um...
— Um hobby? — perguntou Harry, sorrindo.
— É, isso. — Ele tinha quase dito fetiche. Baixou os olhos para a caixa registradora, onde um adesivo de pára-choque velho estava colado. O adesivo dizia:
SE ARMAS FOSSEM ILEGAIS, SÓ OS FORA-DA-LEI TERIAM ARMAS
Ele sorriu para Harry e disse:
— Isso é bem verdade, sabia?
— Com certeza — disse Harry. — Este seu primo...
— Bem, é meio uma questão de quem tem mais bala na agulha. Nick sabe que eu adoro andar de barco e, juro pra você, ele me deu de presente um motor Evinrude de sessenta cavalos de potência no Natal passado. Mandou pra mim por Correio Expresso. Eu dei a ele um colete de caça. Me senti o cocô do cavalo do bandido.
Harry assentiu com simpatia.
— Bem, eu recebi uma carta dele há umas seis semanas, e ele parecia uma criança que ganhara um passe livre para o circo. Parece que ele e mais uns seis amigos juntaram uma grana e compraram uma viagem para um lugar no México, tipo uma zona de tiro livre...
— Uma reserva onde a caça é liberada?
— É, isso aí. — Ele deu uma risadinha. — Você atira o quanto quiser. Eles criam os animais lá. Veados, antílopes, ursos, bisões. Tem de tudo.
— O lugar se chama Boca Rio?
— Pior que eu não me lembro. Acho que o nome era um pouco maior do que isso.
Os olhos de Harry ficaram um pouco sonhadores.
— Aquele cara que acabou de sair, eu e mais dois fomos para Boca Rio em 1965. Eu matei uma zebra. Mandei colocar a cabeça dela na sala de jogos lá de casa. Foi a coisa mais divertida que fiz na vida, sem comparação. Invejo o seu primo.
— Bem, eu conversei com a minha mulher — disse ele — e ela falou vá em frente. Tivemos um ano muito bom na lavanderia. Trabalho na lavanderia Blue Ribbon, lá em Western.
— Sim, eu sei onde fica.
Ele achou que poderia continuar conversando com Harry o dia inteiro, bordando as verdades e as mentiras em uma bela e reluzente tapeçaria. Deixe o mundo pra lá. Que se danem a falta de gasolina, o preço da carne nas alturas e o frágil cessar-fogo. Vamos conversar sobre primos que nunca existiram, certo, Fred? É isso aí, Georgie.
— Conseguimos a conta do Hospital Central este ano, além do hospício e de três novos motéis.
— O Quality Motor Court na Franklin Avenue é de vocês?
— É, sim.
— Fiquei lá algumas vezes — disse Harry. — Os lençóis estavam sempre limpinhos. Engraçado, você nunca pensa em quem lava os lençóis quando fica em um motel.
— Bem, tivemos um bom ano. E então eu pensei, talvez eu possa dar a Nick um rifle e uma pistola. Sei que ele sempre quis uma Magnum .44, lembro que ele já falou dela...
Harry pegou a Magnum e a deitou com cuidado em cima do mostruário de vidro.
Ele a apanhou. Gostou do peso dela. Parecia coisa de gente grande. Ele a colocou de volta no mostruário de vidro.
— A câmara desta... — começou a falar Harry.
Ele riu e ergueu uma das mãos.
— Nem precisa me vender. Já estou convencido. Um leigo sempre se convence sozinho. Quanta munição eu devo levar com ela?
Harry deu de ombros.
— Que tal dar dez caixas para o seu primo? Se quiser, ele sempre pode comprar mais. O preço desta arma é 289 dólares mais o imposto, mas eu lhe vendo por 280, com a munição incluída. O que você acha?
— Maravilha — disse ele, falando sério. E então, porque parecia necessário algo mais, acrescentou: — É uma bela arma.
— Se ele estiver indo para Boca Rio, vai ser bem aproveitada.
— Agora o rifle...
— O que ele tem?
Ele deu de ombros e espalmou as mãos.
— Sinto muito. Não sei mesmo. Duas ou três espingardas e algo que ele chama de automática...
— Remington? — perguntou-lhe Harry tão depressa que ele teve medo; era como se estivesse andando com água até a cintura e tivesse afundado de repente num buraco.
— Acho que sim. Posso estar errado.
— As Remington são as melhores — disse Harry, meneando a cabeça e voltando a acalmá-lo. — Até quanto você quer gastar?
— Bem, vou ser franco com você. O motor deve ter custado quatrocentos para ele. Eu gostaria de chegar pelo menos a quinhentos. Seiscentos no máximo.
— Você e esse seu primo se dão bem mesmo, hein?
— Crescemos juntos — disse ele, com sinceridade. — Acho que daria meu braço direito para Nick se ele pedisse.
— Bem, deixe-me lhe mostrar uma coisa — falou Harry. Ele pegou uma chave do molho no seu chaveiro e foi até um dos armários de vidro. Abriu-o, subiu em um banco e desceu um rifle longo e pesado com uma coronha entalhada. — Isso talvez vá um pouco além do que você quer gastar, mas é uma bela arma.
Harry a entregou para ele.
— O que é?
— Este é um Weatherbee calibre 460. Atira munição mais pesada do que eu tenho na loja no momento. Eu teria que encomendar quantos cartuchos você quisesse de Chicago. Eles chegariam daqui a mais ou menos uma semana. É uma arma perfeitamente equilibrada. O impacto dessa belezinha é de mais de três toneladas e meia... é como bater em algo com um ônibus de aeroporto. Se você atingir um veado na cabeça com ela, vai ter que levar o rabo como troféu.
— Não sei — disse ele, soando em dúvida, embora já estivesse decidido a levar o rifle. — Sei que Nick quer troféus. Faz parte do...
— É claro que faz — disse Harry, pegando o Weatherbee e abrindo a câmara. O buraco parecia grande o suficiente para caber um pombo-correio dentro. — Ninguém vai para Boca Rio atrás de carne. Então seu primo vai mirar na barriga. Com essa arma, você não precisa se preocupar em seguir o animal por 20 quilômetros de planalto, com o bicho sofrendo o tempo todo e você ainda por cima perdendo a hora da janta. Essa belezinha vai espalhar as tripas dele por um raio de 6 metros.
— Quanto?
— Bem, vou ser sincero. Não consigo repassá-la na cidade. Quem quer uma maldita de uma arma antitanque quando não há mais nada para se caçar além de faisões? E se você colocá-los na mesa, parece que está comendo fumaça de cano de descarga. No varejo, ela sai por 950 dólares, no atacado, 630. Eu vendo pra você por setecentos.
— Isso dá... quase mil pratas.
— Nós damos dez por cento de desconto em compras acima de trezentos dólares. Isso já baixa de volta para novecentos. — Ele deu de ombros. — Dê essa arma para seu primo, eu garanto que ele não tem uma. Se tiver, compro de volta por 750. Pode escrever o que eu digo, pra você ver como eu tenho certeza.
— Sério?
— Sem dúvida. Sem dúvida. Claro que, se for demais para o seu bolso, é demais para o seu bolso. Podemos olhar outras armas. Mas se ele for realmente fissurado, não devo ter mais nada que ele já não tenha em dobro.
— Entendo. — Ele colocou uma expressão pensativa no rosto. — Você tem um telefone?
— Claro, nos fundos. Quer ligar para sua esposa e conversar a respeito?
— Acho que seria melhor.
— Claro. Venha.
Harry o conduziu até um quarto de fundos entulhado. Havia um banco e uma mesa de madeira riscada cheia de peças de armas, molas, produtos de limpeza, panfletos e frascos rotulados com balas de chumbo dentro.
— Lá está o telefone — disse Harry.
Ele se sentou, pegou o telefone e discou enquanto Harry voltava para pegar a Magnum e colocá-la na caixa.
— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST — disse a voz alegre, gravada. — A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir até uma neve fraca à noite...
— Alô, Mary? — disse ele. — Olhe, estou aqui na Loja de Armas do Harvey. Isso, é sobre aquele negócio do Nicky. Comprei aquela pistola de que a gente falou, sem problemas. Tinha uma bem no mostruário. Então o cara me mostrou um rifle...
— ...clareando amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima de um grau negativo a 4 graus e, amanhã, máxima de 7 a 9 graus. Probabilidade de chuva à noite...
— ...então, o que você acha que eu devo fazer? — Harry estava parado no batente da porta, atrás dele; ele conseguia ver sua sombra.
— É — falou ele. — Eu sei disso.
— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST, e não deixe de ouvir as Notícias das Seis com Bob Reynolds, de segunda a sexta, às seis da tarde, para mais informações sobre o tempo. Até logo.
— Você não está brincando, eu sei que é muito dinheiro.
— Obrigado por ligar para o número da previsão do tempo da WDST. A previsão desta tarde é de pancadas de neve que tendem a diminuir...
— Tem certeza, querida?
— Probabilidade de chuva hoje à noite: oitenta por cento. Amanhã...
— Bem, está certo. — Ele se virou no banco, sorriu para Harry e fez um círculo com o polegar e o indicador direitos. — Ele é gente boa. Me garantiu que Nick não teria um daqueles.
— ...amanhã à tarde. Hoje à noite, mínima...
— Eu também te amo, Mare. Tchau. — Ele desligou. Nossa, Freddy, você mandou bem. Eu sei, George. Eu sei.
Ele se levantou.
— Por ela tudo bem se eu disser ok. Então, ok.
Harry sorriu.
— O que você vai fazer se ele lhe der um Thunderbird?
Ele retribuiu o sorriso.
— Eu devolvo sem abrir.
Enquanto eles andavam de volta, Harry perguntou:
— Cheque ou cartão?
— American Express, se você aceitar.
— Pra mim é dinheiro.
Ele pegou seu cartão. No verso, escrito na tira especial, lia-se:
BARTON GEORGE DAWES
— Tem certeza que a munição chega a tempo para eu mandar tudo para o Fred?
Harry ergueu os olhos do formulário de compra.
— Fred?
O sorriso dele se alargou.
— Nick é Fred e Fred é Nick — disse ele. — Nicholas Frederic Adams. É uma brincadeira com o nome. De quando éramos garotos.
— Ah. — Ele sorriu com educação, como fazem as pessoas quando estão por fora da piada. — Pode assinar aqui?
Ele assinou.
Harry pegou outro livro debaixo do balcão, um livro pesado com uma corrente de aço enfiada na extremidade superior esquerda, perto da lombada.
— E o seu nome e endereço aqui, para o governo.
Ele sentiu seus dedos se apertarem em volta da caneta.
— Claro — disse ele. — Olhe só para mim, nunca comprei uma arma na vida e já sou um maníaco. — Ele escreveu seu nome e endereço no livro:
Barton George Dawes 1.241 Crestallen Street West
— Eles se metem em tudo — falou.
— Isso não é nada perto do que gostariam de fazer — disse Harry.
— Eu sei. Sabe o que eu ouvi no noticiário um dia desses? Eles querem aprovar uma lei que obriga os motociclistas a usar um protetor bucal. Um protetor bucal, onde já se viu? E por acaso é da conta do governo se um homem quiser correr o risco de arrebentar seu tratamento de canal?
— No meu modo de ver, não mesmo — disse Harry, colocando seu livro debaixo do balcão.
— Ou então essa extensão da auto-estrada que estão construindo lá em Western. Algum topógrafo metido a besta diz “Ela vai passar por aqui”, e o estado manda um monte de cartas dizendo “Sentimos muito, mas a extensão 784 vai passar por aqui. Você tem um ano para encontrar uma casa nova”.
— É uma vergonha.
— E é mesmo. O que quer dizer “domínio eminente” para alguém que viveu vinte anos na mesma droga de casa? Criou os filhos nela e voltou para ela das viagens que fez? Isso é só um termo jurídico qualquer que eles inventaram para sacanear melhor a gente.
Cuidado. Cuidado. Mas o disjuntor não foi rápido o suficiente e acabou escapando um pouco.
— Você está bem? — perguntou Harry.
— Estou. Não devia ter comido aquele sanduíche de baguete no almoço. Fico cheio de gases.
— Tome um desses — disse Harry, tirando um frasco de comprimidos do bolso da camisa. O rótulo dizia:
ANTIÁCIDOS ROLAIDS
— Obrigado — disse ele, pegando um e jogando-o para dentro da boca, ignorando o pedacinho de algodão no comprimido. Olhe para mim, estou em um comercial de tevê. Um comprimido absorve 47 vezes seu próprio peso de excesso de ácido gástrico.
— Para mim, eles sempre adiantam — disse Harry.
— Sobre a munição...
— Sim. Uma semana. No máximo duas. Vou encomendar setenta cartuchos para você.
— Bem, por que você não deixa essas armas guardadas aqui? Coloque uma etiqueta com meu nome nelas, ou algo assim. Acho que é bobagem, mas não quero que elas fiquem na minha casa. Bobagem minha, não é?
— Cada um na sua — disse Harry, sem mudar de tom.
— Ok. Vou lhe dar meu telefone do trabalho. Quando as balas chegarem...
— Cartuchos — interrompeu Harry. — Cartuchos ou projéteis.
— Cartuchos — disse ele, sorrindo. — Quando eles chegarem, me dê uma ligada. Daí eu pego as armas e tomo as providências para enviá-las. Eu posso mandar armas por Correio Expresso, não posso?
— Claro. Seu primo só vai ter que assinar para recebê-las.
Ele escreveu seu nome em um dos cartões de Harry. O cartão dizia:
Harold Swinnerton 849-6330 LOJA DE ARMAS DO HARVEY
— Ei — disse ele. — Se você é o Harold, quem é Harvey?
— Harvey era meu irmão. Ele morreu há oito anos.
— Sinto muito.
— Todos nós sentimos. Ele veio para cá um dia, abriu a loja, esvaziou a caixa registradora e então teve um infarto e morreu. Um dos homens mais gentis que você poderia conhecer. Conseguia derrubar um cervo a 200 metros de distância.
Ele estendeu o braço por cima do balcão e eles trocaram um aperto de mãos.
— Eu ligo — prometeu Harry.
— Cuide-se bem.
Ele saiu para a neve novamente, passando pelo FRÁGIL CESSAR-FOGO CONTINUA. Nevava um pouco mais forte e ele tinha deixado as luvas em casa.
O que você estava fazendo lá dentro, George?
Claque, fez o disjuntor.
Quando chegou ao ponto de ônibus, aquilo poderia ter sido um incidente sobre o qual ele lera em algum lugar. Nada mais que isso.
Crestallen Street West era uma rua longa que descia em curva e costumava oferecer uma bela vista do parque e uma vista maravilhosa do rio até o progresso intervir na forma de um programa de construção de arranha-céus. Eles tinham sido erguidos na Westfield Avenue dois anos antes e bloquearam boa parte da vista.
O número 1.241 era uma casa de vários níveis com uma garagem lateral para um carro. Tinha um longo jardim da frente que no momento estava seco e esperando que a neve — neve de verdade — o cobrisse. A entrada para carros era de asfalto, recém-aplicado na primavera anterior.
Ele entrou e ouviu a tevê ligada, o novo modelo de gabinete da Zenith que eles tinham comprado no verão. Havia uma antena motorizada no telhado que ele mesmo tinha instalado. Mary não quis que ele fizesse aquilo, por conta do que supostamente estava para acontecer, mas ele insistiu. Se ela podia ser montada, argumentara ele, também podia ser desmontada quando eles se mudassem. Bart, não seja bobo. Vai ser só uma despesa a mais... trabalho a mais para você. Mas ele a venceu pelo cansaço e ela finalmente disse que sim, só para “agradá-lo”. Era isso que ela falava nas raras ocasiões em que ele fazia questão o suficiente de algo para forçá-lo contra o melaço pegajoso das suas argumentações. Dessa vez, vou “agradar” a você.
Naquele momento, ela assistia a Merv Griffin conversando com uma celebridade. A celebridade era Lorne Greene, que falava sobre sua nova série policial, Griff. Lorne dizia a Merv como estava adorando fazer o programa. Logo uma cantora negra da qual ninguém nunca tinha ouvido falar apareceria para cantar uma música. I Left My Heart in San Francisco, talvez.
— Olá, Mary — gritou ele.
— Olá, Bart.
Correspondência na mesa. Ele a folheou. Uma carta para Mary da sua irmã ligeiramente psicopata de Baltimore. Uma fatura de cartão de crédito — 38 dólares. Um extrato bancário: 49 débitos, 9 créditos, saldo 954,47 dólares. Que bom que ele havia usado o American Express na loja de armas.
— O café está quente — gritou Mary. — Ou você quer um drinque?
— Um drinque — disse ele. — Deixe que eu pego.
Três outras correspondências: um aviso de atraso da biblioteca. Facing the Lions, de Tom Wicker. Wicker tinha dado uma palestra em um almoço no Rotary Club um mês antes. Havia anos eles não viam um palestrante tão bom.
Uma mensagem pessoal de Stephan Ordner, um dos manda-chuvas administrativos da Amroco, a corporação que passara a ser dona da Blue Ribbon quase inteira. Ordner queria que ele fosse até lá conversar sobre o negócio de Waterford — sexta estava bom, ou ele estava planejando viajar no feriado de Ação de Graças? Se estiver, me ligue. Se não, traga Mary. Carla sempre gosta de encontrá-la e blablablá, conversa fiada etc. et al. E outra carta do Departamento de Estradas.
Ele ficou um bom tempo parado olhando para ela sob a luz cinza da tarde que atravessava as janelas e então colocou toda a correspondência no aparador. Preparou um uísque com gelo e foi com ele até a sala de estar.
Merv ainda estava conversando com Lorne. A cor da nova tevê Zenith era mais do que boa; era quase sobrenatural. Ele pensou: se nossos mísseis balísticos intercontinentais forem tão bons quanto nossas televisões em cores, um dia teremos um big bang dos infernos. O cabelo de Lorne era prateado, o tom mais impossível de prateado que se pode imaginar. Ah, se eu arranco essa sua peruca, pensou ele e deu uma risadinha. Não sabia dizer por que a imagem de Lorne Greene careca era tão engraçada. Um pequeno ataque histérico tardio por conta do episódio na loja de armas, talvez.
Mary ergueu os olhos com um sorriso nos lábios.
— Qual é a graça?
— Nada — disse ele. — Coisa da minha cabeça.
Ele se sentou ao lado dela e apertou sua bochecha. Ela era uma mulher alta, de 38 anos, e naquela crise de aparência em que a beleza juvenil está decidindo o que vai ser na meia-idade. Ela comia bastante, mas seu metabolismo acelerado a mantinha magra. Não estaria apta a tremer diante da idéia de vestir um traje de banho em uma praia dali a dez anos, independente do destino que os deuses resolvessem dar ao resto do seu caso. Isso o fazia ter consciência da sua barriga de cerveja. Ora, Freddy, todo executivo tem barriga de cerveja. É um símbolo de sucesso, como um Delta 88. Isso mesmo, George. Tome cuidado com o velho coração e com os tubinhos de câncer e você chega aos 80.
— Como foi seu dia? — perguntou ela.
— Bom.
— Você foi ver o lugar novo em Waterford?
— Hoje não.
Ele não ia a Waterford desde o final de outubro. Ordner sabia — um passarinho devia ter lhe contado —, e daí a mensagem. O lugar novo era uma fábrica de tecidos vazia e o corretor irlandês espertinho encarregado da negociação não parava de ligar para ele. Temos que fechar este contrato, vivia lhe dizendo. Vocês não são os únicos em Westside de olho na propriedade. Estou indo o mais rápido que posso, disse ele ao irlandês espertinho. Você precisa ter paciência.
— E quanto àquele lugar em Crescent? — perguntou-lhe Mary. — A casa de alvenaria?
— Está cara demais pra gente — disse ele. — Estão pedindo 48 mil.
— Por aquele lugar? — perguntou ela, indignada. — Que assalto!
— Com certeza. — Ele bebeu um gole generoso do seu drinque. — O que a velha Bea de Baltimore tem para contar?
— O de sempre. Agora está fazendo hidroterapia de conscientização em grupo. É ou não é uma piada? Bart...
— Com certeza — ele se apressou a dizer.
— Bart, temos que correr. Vinte de janeiro já está chegando e vamos acabar na rua.
— Estou indo o mais rápido que posso — disse ele. — Precisamos ter paciência.
— Aquela casinha colonial na Union Street...
— ...está vendida — completou ele, terminando seu drinque.
— Bem, é disso que eu estou falando — disse ela, irritada. — Ela teria servido perfeitamente para nós dois. Com o dinheiro que a Prefeitura está nos dando por esta casa e pelo terreno, poderíamos ter saído na frente.
— Eu não gostei dela.
— Você não parece estar gostando de muita coisa ultimamente — disse Mary, com uma amargura surpreendente. — Ele não gostou — falou ela para a tevê. A cantora negra estava na tela, cantando Alfie.
— Mary, estou fazendo todo o possível.
Ela se virou para encará-lo, séria.
— Bart, eu sei como você se sente a respeito desta casa...
No dia 18 de fevereiro de 1564, o Renascimento morreu em Roma.
Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, conhecido por todos simplesmente como “Michelangelo”, faleceu aos 89 anos em sua casa modesta, onde é hoje a Piazza Venezia. Seu corpo foi preparado para o sepultamento na vizinha Basílica dos Santos Apóstolos. Atualmente, esta igreja, cujo nome italiano é Santissimi Apostoli, é uma amálgama de várias épocas e estilos: seu andar superior data do século XIX, o do meio é do Barroco seiscentista e o andar térreo é em estilo puramente renascentista da segunda metade do século XV. Porém, o mais interessante a respeito do local proposto para o sepultamento de Michelangelo é que a parte original da igreja – a única que existia em 1564 – foi desenhada por ninguém menos que Baccio Pontelli, o mesmo homem que planejou a estrutura da Capela Sistina. O local onde Michelangelo deveria ser enterrado é importante também por outras razões.
Abaixo do andar térreo da igreja há uma cripta que abriga os túmulos de São Tiago e São Filipe, dois dos apóstolos, ou seja, da época de Jesus. Se pudéssemos escavar mais profundamente, encontraríamos logo abaixo da cripta vestígios da antiga Roma imperial, e abaixo desta, da Roma republicana, e talvez finalmente algum resquício da Roma da Idade do Bronze.
Isto faz com que a igreja seja uma metáfora de toda a Cidade Eterna: um lugar com camadas e camadas de história, de inúmeras culturas acumuladas, de confrontos entre o sagrado e o profano, entre o santo e o pagão, e de uma multiplicidade de segredos ocultos.
Entender Roma é perceber que é uma cidade repleta de segredos, com mais de três milênios de mistérios. E não há nenhuma parte de Roma que encerra mais segredos do que o Vaticano.
O próprio nome “Vaticano” tem uma origem surpreendente. Não vem do latim ou do grego, nem tem origem bíblica. Na verdade, a palavra que associamos à Igreja tem origem pagã. Há mais de 28 séculos, antes mesmo da lendária fundação de Roma por Rômulo e Remo, havia um povo chamado de etrusco. Muito do que pensamos ser da cultura e civilização romanas na verdade vem dos etruscos, e apesar de ainda estarmos tentando compreender sua língua complexa, já descobrimos muito a respeito deles. Sabemos que, assim como os hebreus e os romanos, os etruscos não enterravam seus mortos dentro dos muros de suas cidades. Por este motivo, eles construíram um cemitério enorme em uma encosta de uma colina fora dos limites de sua antiga cidade, no local que posteriormente se tornaria a cidade de Roma. O nome da deusa etrusca pagã que protegia sua necrópole, ou cidade dos mortos, era Vatika.
Vatika tem vários outros significados correlatos em etrusco antigo. Era o nome de uma uva de gosto amargo que crescia naturalmente na encosta, usada pelos camponeses na fabricação do vinho que adquiriu a má fama de ser um dos piores e mais ordinários do mundo antigo. O nome deste vinho, que também se referia à colina onde era produzido, era Vatika. Era ainda o nome de uma erva estranha que crescia naturalmente na encosta do cemitério. Quando ingerida, provocava alucinações e delírios semelhantes aos efeitos do cogumelo peiote. Por isso, vatika representava o que hoje chamaríamos de “um barato louco”, e deste modo, a palavra se incorporou ao latim como sinônimo de “visão profética”.
Bem mais tarde, no local foi construído o circus (o circo particular ou estádio) de Nero, o imperador louco. Foi neste circo, segundo a tradição da igreja, que São Pedro foi executado, crucificado de cabeça para baixo e enterrado em uma área próxima. Este local se tornou o lugar de visitação de um número tão grande de peregrinos, que o imperador Constantino, ao converter-se parcialmente ao cristianismo, fundou ali um santuário, que os romanos continuaram a chamar de colina Vaticana. Um século depois de Constantino, os papas começaram a erguer neste lugar o palácio papal.
O que significa “Vaticano” nos dias de hoje? Por causa de sua história, este nome tem conotações variadas. Pode se referir à Basílica de São Pedro; ao Palácio Apostólico dos papas, com mais de 14 mil aposentos; ao complexo dos Museus Vaticanos com mais de 2 mil salas; à hierarquia sociopolítico-religiosa, considerada a liderança espiritual de cerca de um quinto da raça humana; ou ao menor país do mundo, a Città del Vaticano (Cidade do Vaticano). É de fato estranho se pensarmos que o menor país do planeta, com uma área aproximada de um oitavo do Central Park de Nova York, abriga a maior e mais valiosa igreja do mundo, o maior e mais suntuoso palácio do planeta e um dos maiores museus da Terra.
SUBSTITUINDO O TEMPLO
O local mais fascinante de todos, porém, é provavelmente um situado dentro dos muros da antiga fortaleza da Cidade do Vaticano, cujo significado simbólico quase todos os visitantes ignoram. Sua importância teológica pode ser mais bem compreendida se percebermos que esta realização católica era algo expressamente proibido aos judeus. No Talmude, a coletânea antiga de comentários sagrados dos grandes sábios judeus que se estendem por mais de cinco séculos, a lei claramente proíbe qualquer pessoa de construir uma réplica em tamanho real do Templo Sagrado de Jerusalém em outro local que não seja o próprio monte do Templo (Tratado Megilá, 10a). Esta lei foi decretada para impedir sangrentos cismas religiosos, como os que aconteceram mais tarde no Cristianismo (entre o catolicismo romano, a ortodoxia oriental e grega e o protestantismo, e seus séculos de guerras mutuamente destrutivas) e no Islã (entre sunitas e xiitas, que tristemente continuam se matando uns aos outros em vários pontos do planeta).
Há seis séculos, porém, um arquiteto católico que não estava sob o jugo das leis talmúdicas fez exatamente o que era proibido. Ele desenhou e construiu uma incrível cópia em tamanho real do compartimento mais recôndito do templo, o Santo dos Santos, do Templo Sagrado do rei Salomão em Jerusalém – exatamente no meio da Roma renascentista. Para chegar às medidas e proporções exatas, o arquiteto estudou os escritos do profeta Samuel da Bíblia Hebraica, nos quais ele descreve o primeiro Templo Sagrado, cúbito por cúbito (1 Reis 6:2). Esta reprodução maciça do heichal, a parte posterior do primeiro Templo, ainda existe hoje. É chamada de la Cappella Sistina – a Capela Sistina. É este o destino de mais de quatro milhões de visitantes por ano, que vêm para ver os incríveis afrescos de Michelangelo e reverenciar um local sagrado do cristianismo.
Antes da criação desta réplica do templo judeu, existiu durante a Idade Média uma outra capela exatamente no mesmo local. Era chamada de la Cappella Palatina (Capela Palatina), ou Capela Palaciana. Como todos os governantes europeus tinham suas próprias capelas reais para rezar em particular com seu séquito real, julgou-se necessário que o papa também tivesse uma em seu próprio palácio. O objetivo era mostrar o poder da Igreja, que tinha de ser visto como maior que o de qualquer soberano secular. Não é nenhuma coincidência o fato de que a palavra palatina derive da colina Palatina, lar dos seres humanos mais poderosos da história ocidental naquela época – os imperadores pagãos da antiga Roma. Segundo a tradição romana, foi na colina Palatina que Rômulo fundou a cidade em 21 de abril de 753 a.C. Desde então, todos os governantes de Roma moraram na colina Palatina, construindo palácios espetaculares, um após o outro. A Igreja estava determinada a provar que era o novo poder reinante na Europa e esperava espalhar a cristandade, ou seja, o império do cristianismo, por todo o globo. Esta capela foi projetada para ser um indício da glória e do triunfo futuros, e por isso o papa desejava que sua opulência ofuscasse todas as outras capelas reais da Terra.
Além da magnífica Palatina, existia também a Niccolina, uma pequena capela particular estabelecida pelo papa Nicolau V em 1450 e decorada pelo grande pintor renascentista Fra Angelico. Esta é uma pequena sala em uma das partes mais antigas do Palácio Papal, com a capacidade de abrigar o papa e alguns de seus assessores pessoais. Por esta razão, a Palatina também era chamada de Cappella Maggiore, ou Capela Maior, porque podia abrigar toda a corte papal e seus convidados mais importantes.
A história da Capela Sistina, entretanto, teve início com um pontífice que desejou que a capela fosse ainda maior e mais suntuosa que a Cappella Palatina.
O GRANDE PLANO DO PAPA SISTO IV
O nome de batismo de Sisto era Francesco della Rovere. Nasceu em uma família humilde do noroeste da Itália, em uma cidade próxima a Gênova. O sacerdócio foi o seu caminho natural, pois quando jovem tinha inclinação intelectual, mas nenhum dinheiro. Ele se tornou um monge franciscano e aos poucos galgou os degraus da escada administrativa e educacional da Igreja, e por fim chegou a ser cardeal, em Roma no ano de 1467. Foi eleito sem muito alarde por um conclave de apenas 18 cardeais e adotou o nome de Sisto IV, o primeiro papa com este nome em mais de mil anos. Seus primeiros atos nada tiveram a ver com as várias crises que o Vaticano enfrentava: ele se ocupou inicialmente em suprir sua família com títulos, propriedades e privilégios. Ele dotou vários de seus sobrinhos de uma riqueza obscena, ordenando-os como cardeais (um deles tinha apenas 16 anos) ou casando-os com representantes de famílias nobres e ricas. Porém, isto estava longe de ser incomum. Durante a Idade Média, o Renascimento e até o final do século XVIII, os papas corruptos costumavam escolher seus sobrinhos mais decadentes para fazer todo o trabalho sujo necessário para elevar o status material de todas as suas famílias de “abastado” para “astronomicamente rico”. Em italiano medieval, a palavra para “sobrinho” é nepote, e o sistema de poder e corrupção absolutos tornou-se conhecido como nepotismo. O sobrinho mais famoso de Sisto foi Giuliano, que mais tarde se tornou o papa Júlio II, o homem que forçou Michelangelo a pintar o teto da Capela Sistina.
Quando o papa Sisto IV iniciou seu reinado em 1471, a Capela Palatina corria o risco de desmoronar. Era uma construção pesada, assentada em um local perigoso, o solo mole do antigo cemitério etrusco da encosta da colina Vaticana. Esta situação simbolizava perfeitamente a crise da própria igreja quando Sisto assumiu o poder: estava repleta de complôs, escândalos e cismas. Governantes estrangeiros, como Luís XI da França, guerreavam contra o Vaticano pelo direito de escolher e nomear cardeais e bispos. Territórios inteiros da Itália rejeitavam a jurisdição papal. O pior de tudo, porém, era a ameaça dos turcos otomanos, que estavam a caminho. Apenas 18 anos antes, Constantinopla caíra nas mãos dos muçulmanos, marcando a morte do Império Cristão Bizantino. As ondas de choque reverberaram por toda a Europa cristã. Em 1480, os otomanos invadiram a península Itálica e capturaram a cidade de Otranto na costa sudeste. Mataram o arcebispo e muitos padres na catedral, forçaram a conversão dos habitantes da cidade, decapitaram 800 que se recusaram a se converter e serraram o bispo ao meio. Depois disso, atacaram várias outras cidades da costa. Muitos temiam que Roma pudesse sofrer o mesmo destino de Constantinopla.
Apesar de todas estas ameaças à existência do cristianismo, Sisto gastou grandes quantidades do ouro do Vaticano na revitalização dos esplendores de Roma, reconstruindo igrejas, pontes, ruas, fundando a Biblioteca Vaticana e começando uma coleção de arte que se tornaria o Museu Capitolino, hoje o mais antigo do mundo em funcionamento. Seu projeto mais famoso, porém, foi a reconstrução da Capela Palatina.
Há muito sobre a história da Capela Sistina que parece obra do destino. Segundo as fontes mais confiáveis, o trabalho de renovação da capela teve início em 1475. Neste mesmo ano, na cidade toscana de Caprese, nasceu Michelangelo Buonarroti. Seus destinos se uniriam ainda mais fortemente nos anos a seguir.
A NOVA CAPELA
O papa Sisto decidiu não apenas reconstruir a capela papal decadente, mas aumentá-la e torná-la mais suntuosa. Ele contratou um jovem arquiteto florentino de nome Bartolomeo (“Baccio”) Pontelli. A especialidade de Pontelli era a construção e o reforço de fortalezas, como as das cidades de Ostia e Senigallia, ainda em boas condições. Isto era especialmente importante para Sisto, pois o pontífice tinha medo tanto dos muçulmanos turcos quanto das turbas católicas de Roma. Foi desenhado o projeto de uma capela enorme, maior que a maioria das igrejas, com um bastião de fortaleza no topo para a defesa do Vaticano.
Talvez nunca saibamos ao certo de quem foi a idéia de construir a Capela Sistina como uma cópia do Templo Sagrado dos judeus. Sisto, instruído nas Escrituras, conhecia as dimensões exatas, encontradas nos escritos sobre o profeta Samuel no segundo Livro dos Reis. Com isto em mente, ele talvez tenha se sentido ansioso para dar expressão concreta ao conceito teológico de “sucessionismo”, uma idéia que já ocupava um lugar de destaque no pensamento cristão. Sucessionismo significa que uma fé pode substituir outra anterior que deixou de ter efeito. Em termos religiosos, é comparável ao que Darwin mais tarde postularia na teoria da evolução: os dinossauros deram lugar aos homens de Neandertal, por sua vez substituídos pelo homo sapiens totalmente desenvolvido. A crença, segundo o sucessionismo, era de que as filosofias pagãs greco-romanas foram substituídas pelo judaísmo, por sua vez superado pela Igreja triunfante, a fé verdadeira que invalida todas as outras. O Vaticano pregava que os judeus, por terem matado Jesus e rejeitado seus ensinamentos, foram punidos com a perda de seu Templo Sagrado, da cidade de Jerusalém e também de sua terra natal. Além disso, foram condenados a vagar pela Terra para sempre, como um alerta divino a todos que se recusassem a obedecer a Igreja. É importante observar que este ensinamento foi rejeitado e proibido categoricamente no Segundo Concílio do Vaticano de 1962.
Baccio Pontelli não era um grande erudito religioso; entretanto, era um florentino; e naquela época, Florença se mostrava uma das cidades mais liberais e tolerantes, não só da Itália, como também da Europa. A comunidade judaica local, embora contasse com apenas algumas centenas de pessoas, era bem aceita e muito influente na pulsante vida cultural e intelectual da cidade. Pontelli deve ter conhecido muitos artistas e arquitetos habituados a incorporar temas judaicos em seus trabalhos.
Independente de quem teve a idéia, a nova Capela Palatina foi elaborada para substituir o antigo templo judeu, na qualidade de Novo Templo Sagrado da Nova Ordem Mundial da Nova Jerusalém, que a partir de então seria a cidade de Roma, a capital do cristianismo. Suas medidas são 40,93 metros de comprimento por 13,41 de largura e 20,70 de altura, exatamente como as do heichal, a seção posterior retangular e longa do primeiro Templo Sagrado completado pelo rei Salomão e seu arquiteto, o rei Hiram de Tiro (Líbano) no ano 930 a.C.
Um fato ainda mais notável, que a maioria dos visitantes não percebe, é que em conformidade com a intenção de reproduzir o local sagrado que existia na antiga Jerusalém, o santuário foi construído em dois níveis. A metade ocidental, que abriga o altar e a área particular destinada ao papa e seu séquito, tem cerca de 15 centímetros a mais de altura do que a metade oriental, originalmente reservada aos espectadores comuns. Esta seção mais alta corresponde ao recesso mais recôndito do Templo Sagrado original, o Kodesh Kodoshim, o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar, e somente uma vez ao ano, no Yom Kippur, o Dia da Expiação ou Dia do Perdão. O sumo sacerdote passava simbolicamente pela parochet, a cortina espessa e decorada de linho torcido, chamada pelos evangelhos de véu, para fazer as orações de grande importância pelo perdão e pela redenção do povo. Para mostrar exatamente onde este véu era localizado no Templo de Jerusalém, foi construída uma enorme parede divisória de mármore branco em forma de grade, com sete “chamas” de mármore no topo, para corresponder à menorá sagrada, o candelabro de sete braços que iluminava o santuário judeu nos templos bíblicos.
DO TETO AO CHÃO
O teto original era ilustrado com um tema simples, comum em muitas sinagogas: um céu noturno pontilhado de estrelas douradas. A cena é uma alusão ao sonho que Jacó teve enquanto dormia sob as estrelas (Gênesis 28: 11-19), logo após fugir da casa de seu pai. Esta passagem narra que Jacó teve uma visão de “uma escada pela qual anjos subiam e desciam”. Ele deu ao lugar onde dormiu o nome de Beit-el, a Casa de Deus. Segundo a tradição judaica, este teria sido o local exato onde o templo foi erigido. Ao fazer esta referência simbólica à história do sonho de Jacó, o teto expressava uma outra ligação com o Templo Sagrado de Jerusalém.
Para tornar a capela ainda mais singular, foi dada grande atenção também ao seu piso. Trata-se de uma obra-prima impressionante que geralmente passa despercebida aos olhos do visitante comum, pois sua visão é encoberta pelos pés de milhares de turistas e ignorada por causa dos afrescos do teto, mundialmente conhecidos. O piso é uma retomada no século XV do estilo medieval de mosaico cosmatesco. A família Cosmati desenvolveu sua técnica inconfundível em Roma nos séculos XII e XIII. Este estilo decorativo era uma criação imaginativa de formas geométricas e espirais em peças cortadas de mármore e vidro colorido (muitas delas “recicladas” de templos e palácios romanos pagãos). Há exemplos maravilhosos destas decorações e assoalhos cosmatescos autênticos em alguns dos conventos e das igrejas e basílicas mais antigas e belas em Roma e no sul da Itália. Um dos últimos artesãos da família Cosmati foi levado a Londres no século XIII para fazer os mosaicos místicos do assoalho da abadia de Westminster.
É de consenso geral que estes assoalhos muito especiais eram apreciados não apenas por sua beleza e riqueza de cores e materiais, que incluíam o pórfiro roxo, de valor inestimável, mas também por sua espiritualidade esotérica. Muito já se escreveu sobre estes mosaicos, e disso já se ocuparam teólogos, arquitetos e até mesmo matemáticos. Em parte, os mosaicos conferem a qualquer santuário uma sensação de espaço, ritmo e fluidez de movimento. Indubitavelmente, eles também servem como instrumento de meditação, de maneira semelhante aos labirintos comuns nas igrejas da Idade Média. Na Capela Sistina, o piso é uma variação destes assoalhos cosmatescos, pois foram elaborados dois séculos após a renomada família Cosmati finalizar o seu último projeto. Seu desenho teve como base algumas partes que restaram de uma capela anterior, mas adquiriram um estilo e um significado próprios.
O desenho do piso da Sistina foi elaborado para servir a quatro funções principais. Primeiro, embeleza a capela com uma graça toda especial. Segundo, ajuda arquitetonicamente a definir o espaço, ao mesmo tempo em que o alonga e dá a sensação de fluidez de movimento. Ela também “dirige” os movimentos e a ordem dos ritos durante uma missa da corte papal, mostrando onde o papa deve se ajoelhar, onde a procissão deve parar durante o canto de certos salmos e hinos, onde os celebrantes do serviço religioso devem ficar, onde o incenso deve ser colocado, entre outras coisas. Por fim, a função menos conhecida de todas é de instrumento de meditação cabalística, que mais uma vez conecta a capela às fontes judaicas antigas. Dentro dela, há uma gama variada de símbolos místicos: as esferas da Árvore da Vida, os caminhos da alma, as quatro camadas do universo e os triângulos de Filo de Alexandria.
Cabala significa literalmente em hebraico “aquilo que se recebe”, e se refere às tradições místicas que compreendem os segredos da Torá, as verdades esotéricas que revelam o conhecimento mais profundo do mundo, da humanidade e do Todo-Poderoso. Filo era um místico judeu de Alexandria, no Egito, que escreveu dissertações sobre a Cabala no século I da era cristã. Ele é comumente considerado o elo central entre a filosofia grega, o judaísmo e o misticismo cristão. Seus triângulos apontam para cima ou para baixo para mostrar o fluxo de energia entre a ação e a recepção, o masculino e o feminino, Deus e a humanidade, e entre o mundo inferior e o superior. Na verdade, o nome latino para este tipo de decoração com mosaicos é opus alexandrinum (obra alexandrina) por ser repleto de simbolismo cabalístico concebido originalmente por Filo de Alexandria.
Por causa deste nome latino, muitos historiadores da arte e arquitetos crêem erroneamente que o piso em estilo cosmatesco teria se originado em Alexandria, no Egito, ou que foi popularizado pelo papa Alexandre VI Borgia, no final do século XV. Entretanto, não há nenhuma prova de que este tipo de desenho tenha existido na antiga Alexandria; e quanto à alegada relação com o papa Alexandre VI, este entrou em cena mais de duzentos anos após o auge do piso cosmatesco. Acreditamos que a conclusão mais lógica é a de que foi a ligação com a Cabala alexandrina que deu o seu nome ao desenho cosmatesco.
Uma outra ligação com o templo judeu é o fato notável de que o Selo de Salomão é um símbolo recorrente nos pisos cosmatescos, e encontrado nos desenhos do piso da Capela Sistina. Este símbolo era considerado a chave para a sabedoria esotérica antiga dos judeus. O selo, composto de uma combinação dos dois triângulos de Filo sobrepostos, apontando para cima e para baixo, é chamado hoje de Magen David, ou Estrela de Davi. A estrela é praticamente um emblema universal do judaísmo, e foi escolhida para ser a figura central da bandeira do estado moderno de Israel. Porém, no final do século XV, ainda não era um símbolo representativo do povo judeu, mas de seu conhecimento místico arcano. Até mesmo Rafael escondeu um Selo de Salomão em seu afresco místico gigante A Escola de Atenas.
O entendimento do significado mais profundo do selo enquanto parte da Capela Sistina requer uma contextualização. A evidência arqueológica mais antiga do uso judeu deste símbolo é a de uma inscrição atribuída a Josué ben Asayahu no final do século VII a.C. A lenda por trás desta associação com o rei Salomão – e daí o seu outro nome, Selo de Salomão – é bastante fantasiosa e muito provavelmente falsa. Nas lendas medievais judaicas, muçulmanas e cristãs, assim como em um dos contos das Mil e Uma Noites, o Selo de Salomão, com seu formato hexagonal, era um anel-sinete mágico que supostamente pertencera ao rei e que lhe concedia o poder sobre os demônios (ou jinni), ou de falar com os animais. Segundo alguns pesquisadores, a razão pela qual este símbolo é mais comumente atribuído ao rei Davi é porque o hexagrama representa a carga astrológica da hora do nascimento de Davi ou de sua unção como rei. Porém, o significado mais profundo e certamente o mais correto é a interpretação mística que o associa ao sete, o número sagrado, com suas seis pontas ao redor de seu centro.
O número sete tem uma importância religiosa especial no judaísmo. Na Criação, temos os seis dias seguidos do sétimo, o Sabá, o dia de descanso declarado santo por Deus e dotado de uma bênção singular. Todo sétimo ano é um ano sabático, no qual a terra não pode ser cultivada, e após sete ciclos de sete anos, o ano Jubileu traz liberdade aos que tinham sido vendidos como escravos e aos que se tornaram escravos por causa de dívidas, e o retorno das propriedades aos seus donos originais. Porém, o fato mais importante de todos para a compreensão do significado do uso do número sete nos mosaicos do chão da Capela Sistina é a sua ligação com a menorá do antigo Templo, cujas sete lâmpadas de óleo se apóiam em três braços que saem de cada lado de uma haste central. Já foi sugerido enfaticamente que a Estrela de Davi se tornou um símbolo padrão nas sinagogas justamente por ser elaborada segundo o esquema 3+3+1: um triângulo para cima, um para baixo e o centro; e isto corresponde precisamente à estrutura da menorá. Esta menorá é exatamente o item representado tão vividamente no Arco de Tito, construído para celebrar a vitória do Império Romano sobre o que considerava um povo derrotado do qual nunca mais se ouviria falar.
Entretanto, graças a artistas, como os da família Cosmati e Michelangelo, o simbolismo judeu continuaria a ser conhecido cada vez mais, por meio de todas as suas obras mais famosas. O segredo mais estranho da capela mais católica do mundo é que o mosaico gigante de seu chão está repleto de Estrelas de Davi.
OS AFRESCOS ORIGINAIS DO SÉCULO XV — AS APARÊNCIAS ENGANAM
A atração principal da nova capela, porém, não era nem o seu chão nem o seu teto, mas as suas paredes. Partindo da parede frontal do altar, começam duas séries de painéis – uma sobre a vida de Moisés e outra sobre a de Jesus, duas histórias bíblicas contadas de maneira semelhante ao formato de histórias em quadrinhos.
Para pintar tantos afrescos de execução tão trabalhosa, foi trazida uma equipe formada pelos principais pintores de afrescos do século XV. Se quisermos ser mais precisos, diríamos que a equipe foi enviada. É importante saber disso por conta de quem os enviou: ninguém menos que Lorenzo de’ Medici, o homem mais rico de Florença e seu governante não-oficial. Ele foi o mesmo homem que mais tarde descobriria Michelangelo e o criaria como um de seus filhos.
O papa Sisto IV odiava Lorenzo e sua família, e lutara contra eles por muitos anos. Sisto desejava tomar o controle de Florença, capital do livre-pensamento, e de sua grande riqueza, para que pudesse então assumir o controle de toda a Itália central. Em 1478, o papa tentou eliminar Lorenzo e todo o clã de’ Medici de uma vez por todas. Sisto deu início a uma primeira versão de assassinato mafioso. A única diferença é que esta conspiração em particular era algo que nem mesmo o Poderoso Chefão ousaria empreender. Sisto planejou assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano na Catedral de Florença, em frente ao altar principal, durante a missa de Páscoa. Um elemento ainda mais blasfemo do plano era o sinal escolhido para marcar o momento da matança: a elevação da hóstia. Até mesmo assassinos profissionais de sangue frio recusaram este trabalho, e o papa teve de contar com a ajuda de um padre e do arcebispo de Pisa. Estes dois tramaram os detalhes juntamente com Girolamo Riario, o sobrinho mais corrupto de Sisto. O papa se recusou a ouvir os pormenores, dizendo de maneira evasiva: “Façam o que for necessário, contanto que ninguém seja morto”. Entretanto, ele ordenou a seu líder militar Federico da Montefeltro, o duque de Urbino, que reunisse 600 soldados nas colinas ao redor de Florença e esperasse pelo sinal da morte de Lorenzo. O ataque vergonhoso seguiu conforme o planejado... até certo ponto. Giuliano de’ Medici morreu no local, ferido com 19 punhaladas. Lorenzo, embora ferido gravemente, conseguiu escapar por um túnel secreto e sobreviveu. O sinal para a invasão de Florença nunca foi dado. Os florentinos enfurecidos, ao invés de se levantar contra o clã de’ Medici, como Sisto esperava, assassinaram os conspiradores. Foi necessário que o próprio Lorenzo intercedesse pessoalmente para que os cidadãos não matassem o cardeal Raffaele Riario, outro sobrinho do papa que não tivera nenhum envolvimento no golpe. Dois anos mais tarde, o papa cedeu e o Vaticano e Florença declararam uma trégua. Foi exatamente nesta ocasião que a nova capela estava pronta para ser redecorada.
Por que então Lorenzo enviou seus pintores mais talentosos para decorar a capela, glorificando o homem que matara seu amado irmão e tentara também assassiná-lo? Segundo as fontes oficiais, este gesto foi uma “oferta de paz”, um ato de perdão e reconciliação. Porém, a explicação oficial é equivocada. O motivo real é essencial para se entenderem as mensagens dos afrescos, de conteúdo nem um pouco conciliatório.
Lorenzo de fato enviou a elite artística: Sandro Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico Ghirlandaio, que mais tarde seria professor de Michelangelo por um breve período, e Perugino, pintor da Umbria, que posteriormente seria mestre de Rafael. Além de ter de revestir todas as quatro paredes da capela com as séries de painéis sobre a vida de Moisés e a de Jesus, eles foram encarregados de acrescentar uma faixa superior de pinturas retratando os primeiros trinta papas e também um grande afresco da Assunção da Virgem Maria ao Céu na parede frontal do altar, entre as duas janelas. Com tantos afrescos a executar, a equipe de artistas posteriormente trouxe Pinturicchio, Luca Signorelli, Biagio d’Antonio e alguns assistentes. Este grupo compõe a lista do “Quem é quem” dos principais pintores de afrescos da pintura italiana do século XV. Todos eles eram florentinos orgulhosos, com exceção de Perugino e seu pupilo Pinturicchio.
O papa planejara o seu próprio desenho com várias camadas de simbolismo para a capela. Este tinha o objetivo de ilustrar o sucessionismo para o mundo, provando que a Igreja era a herdeira legítima do monoteísmo, por substituir o judaísmo. Para atingir este intento, cada painel da história de Moisés foi emparelhado com um da história de Jesus. A série de painéis de afrescos da parte norte narra a vida de Jesus, de esquerda para direita, na ordem cristã. A série da parte sul conta a história de Moisés, mas da direita para a esquerda, na ordem hebraica. Esta disposição resultou em oito “pares”:
A descoberta de Moisés bebê no Nilo | O nascimento de Jesus na manjedoura
A circuncisão do filho de Moisés | O batismo de Jesus
A ira de Moisés e sua fuga do Egito | As tentações de Jesus
A separação das águas do mar Vermelho | O milagre de Jesus caminhando sobre as águas
Moisés no monte Sinai | O sermão da montanha de Jesus
A revolta de Coré | Jesus entregando as chaves a Pedro
O último discurso e morte de Moisés | A última ceia de Jesus
Anjos defendendo o túmulo de Moisés | Jesus ressurgido do túmulo
Algumas das “conexões” requerem um esforço de imaginação, mas a idéia era demonstrar que a vida de Moisés serviu apenas para prenunciar a vida de Jesus.
Um outro objetivo do papa era promover o culto da Virgem Maria. Sisto IV queria dedicar a capela à Assunção de Maria ao Céu, celebrada todos os anos no calendário católico no dia 15 de agosto. Por este motivo, Perugino pintou o afresco gigante da subida de Maria ao Céu na parede do altar, retratando o próprio papa Sisto IV ajoelhado diante dela.
O último desejo do papa – e provavelmente o mais caro de seu coração – era glorificar e solidificar a sua própria autoridade suprema e a de sua família, os della Rovere. O papado ainda se refazia de séculos de cismas, escândalos, antipapas, intrigas e assassinatos. Havia apenas cinquenta anos que a corte pontifícia retornara a Roma, após o assim chamado “exílio babilônico” dos papas em Avignon, na França. O papa Sisto estava ansioso para demonstrar não só a supremacia do cristianismo sobre o judaísmo e da autoridade divina dos papas sobre o mundo cristão, como também a sua superioridade pessoal sobre todos os papas que o precederam. Foi por esta razão que, por sua ordem, Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, e Pedro, o primeiro papa, foram vestidos de roupas azuis e douradas, as cores heráldicas da família della Rovere. É por isso também que a capela está repleta de desenhos de carvalhos e bolotas em todos os cantos: “rovere” significa “carvalho”, e esta árvore é o símbolo do brasão da família. Pelo mesmo motivo, Sisto também colocou o seu próprio retrato acima da série de pinturas dos primeiros trinta papas, bem no centro da parede frontal, junto à Virgem Maria no Céu.
Com isto em mente, voltemos à nossa questão: por que Lorenzo enviou seus melhores artistas a Roma para executar este trabalho de auto-engrandecimento para o homem que tramara contra ele e sua família? Conforme demonstraremos, a resposta é muito simples: para sabotar a amada capela de Sisto.
Muito provavelmente, foi Botticelli o agitador e coordenador do grupo do projeto de pintura dos afrescos. Os textos oficiais sobre a Capela Sistina apontam Perugino como o líder, mas uma análise rápida demonstra que ele – o único que não era de Florença – não fazia parte da trama. Seu estilo e esquema de cores são completamente diferentes de todos os outros painéis, e seu simbolismo não contém nenhuma mensagem antipapal; ao passo que, por toda a capela, os outros artistas parecem livres para dar vazão às suas críticas.
Cosimo Rosselli tinha um cachorrinho branco que se tornou o mascote dos artistas da Toscana. Não sabemos se permitiam que o cachorro brincasse dentro da capela enquanto os pintores trabalhavam, mas podemos vê-lo fazendo travessuras em todos os painéis de afrescos, exceto os de Perugino, da Umbria. Na Última Ceia, ele aparece saltando junto aos pés de seu dono. No afresco Adoração do Bezerro de Ouro, ele parece na verdade estar saindo do painel e entrando na capela.
Temos que admitir que a presença de um cachorro no santuário não é um grande insulto, e não é mais que uma possível impureza ritual. Porém, os florentinos inseriram imagens bem mais fortes em seus trabalhos para seu ajuste de velhas contas com o papa. Botticelli era quem tinha o maior ressentimento. Após a execução dos conspiradores que atacaram os irmãos de’ Medici, Botticelli fizera um afresco mostrando seus cadáveres pendurados na catedral para exibição pública. Esta pintura continha legendas sarcásticas atribuídas ao próprio Lorenzo de’ Medici. Como parte do tratado de paz oficial entre o Vaticano e Florença em 1480, Sisto insistiu para que este afresco fosse totalmente destruído. Botticelli certamente não estava inclinado a esquecer ou perdoar isso. Por esta razão, em seu painel da Fuga de Moisés do Egito, ele inseriu um carvalho – o símbolo da família della Rovere – acima das cabeças dos arruaceiros pagãos que Moisés afugenta. Perto dos carneiros inocentes e da visão sagrada da Sarça Ardente, entretanto, ele colocou uma laranjeira com um cesto de laranjas, o símbolo da família florentina de’ Medici. Na Revolta de Coré, Botticelli vestiu o rebelde Coré de azul e dourado, as cores do clã della Rovere, e bem ao fundo retratou dois barcos: um naufragado, representando Roma, e um outro navegando tranquilamente, com a bandeira de Florença orgulhosamente tremulando em seu topo. No quadro das Tentações de Cristo, ele inseriu o amado carvalho de Sisto em dois lugares: um junto a Satanás quando este é desmascarado, e outro cortado e pronto para ser queimado no Templo.
Biagio d’Antonio, outro filho orgulhoso de Florença, não queria ser deixado para trás. Em seu painel, a Separação das Águas do Mar Vermelho, ele mostra o mau faraó usando as cores da família della Rovere e uma construção de aparência suspeita, semelhante à própria capela, sendo tragada pelas águas vermelhas revoltas.
A nova capela, ainda chamada de Palatina, foi consagrada na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1483. O papa, orgulhoso, oficiou a cerimônia. Ele estava contente e totalmente alheio à grande quantidade de insultos secretos contra ele.
Sisto IV podia ser tudo, menos um grande estrategista ou diplomata. Ele fez várias alianças precipitadas e conflituosas, e estava claramente mais preocupado em aumentar a riqueza e o poder de sua família do que em fortalecer a Igreja. Felizmente, a invasão muçulmana da Itália chegou a um fim inesperado. Maomé II, o sultão do Império Otomano, morreu na primavera de 1481, mas Sisto tomou os créditos do fim da invasão para si. Ele faleceu um ano mais tarde, feliz e sem saber que Lorenzo conseguira ridicularizar sua intenção de fazer da capela um serviço à sua egolatria.
Visto em retrospecto, é surpreendente notar o quanto os primeiros artistas puderam agir livremente dentro da Capela Sistina. Entretanto, o verdadeiro mestre das mensagens ocultas surgiria uma geração mais tarde... e com muito mais a dizer.
Papel de parede do filme Lua Nova, baseado no livro Lua Nova (New Moon), sucesso mundial de vendas da autora Stephenie Meyer, também autora dos livros Crepúsculo, Eclipse e Amanhecer. Em todo o mundo já foram vendidos mais de 40 milhões de exemplares dos livros da série Twilight.
Lua Nova é a sequência do filme Crepúsculo (Twilight) - continuação da saga de Edward Cullen e Bella Swan - e será lançado nos cinemas dos Estados Unidos e do Brasil no dia 20 de Novembro de 2009.
You'll remember me when the west wind moves Upon the fields of barley You'll forget the sun in his jealous sky As we walk in fields of gold
So she took her love for to gaze awhile Upon the fields of barley In his arms she fell as her hair came down Among the fields of gold
Will you stay with me, will you be my love Among the fields of barley? We'll forget the sun in his jealous sky As we lie in fields of gold
See the west wind move like a lover so Upon the fields of barley Feel her body rise when you kiss her mouth Among the fields of gold
I never made promises lightly And there have been some that I've broken But I swear in the days still left We'll walk in fields of gold We'll walk in fields of gold
Many years have passed since those summer days Among the fields of barley See the children run as the sun goes down Among the fields of gold
You'll remember me when the west wind moves Upon the fields of barley You can tell the sun in his jealous sky When we walked in fields of gold
Justo quando eu achava que meu dia não tinha como piorar, vi o cara parado perto do meu armário. Kayla estava falando sem parar as baboseiras de sempre e nem reparou nele. De início, agora que parei para pensar de verdade, ninguém havia reparado nele antes que começasse a falar, o que reforça tragicamente minha esdrúxula incapacidade de me encaixar no grupo.
– Não, Zoey, juro por Deus que Heath não ficou tão bêbado depois do jogo. Você não devia ser tão dura com ele.
– É – disse eu distraidamente. – Claro – então tossi. Outra vez me senti um lixo. Eu devia estar sofrendo daquilo que o senhor Wise, meu “mais insano que o normal” professor de biologia do curso preparatório, chamava de Praga Adolescente.
Será que se eu morresse conseguiria escapar da prova de geometria de amanhã? A esperança é a última que morre.
– Zoey, por favor. Você está ouvindo? Acho que ele só tomou umas quatro, sei lá, cinco cervejas, e talvez umas três doses de licor. Mas isso não vem ao caso. Ele provavelmente nem teria bebido nada se os seus pais não a tivessem feito voltar para casa logo depois do jogo.
Trocamos um longo olhar de resignação e de total concordância em relação à última injustiça cometida contra mim por minha mãe e pelo infeliz do meu padrasto, com quem ela se casara há três longos anos. Então, após mal parar para respirar, K. continuou a tagarelar.
– Além do que, ele estava comemorando. Ou seja, nós derrotamos o Union! – K. sacudiu meu ombro e levou o rosto para perto do meu. – Hello! Seu namorado...
– Meu quase-namorado – eu a corrigi, tentando ao máximo não tossir sobre ela.
– Que seja. Heath é nosso zagueiro, então é claro que ele ia comemorar. Fazia um milhão de anos que o Broken Arrow não derrotava o Union.
– Dezesseis – sou um desastre em matemática, mas K. me faz parecer um gênio.
– Mais uma vez, que seja. A questão é: ele estava feliz. Você devia dar um desconto para o garoto.
– A questão é que ele estava bêbado pela quinta vez na semana. Desculpe, mas não quero sair com um cara cujo principal foco na vida passou de jogar futebol no time do colégio a enxugar uma caixa de cerveja sem engasgar. Para não mencionar que ele vai ficar gordo com tanta cerveja – tive de fazer uma pausa para tossir. Estava me sentindo meio tonta e forcei-me a respirar lenta e profundamente quando passou a crise de tosse. Não que a tagarela da K. tivesse reparado.
– Eca! Heath gordo! Tô fora desse visual.
Eu dei um jeito de ignorar outra vontade de tossir.
– Beijá-lo é como beijar um pudim de cachaça.
K. fez uma careta.
– Tá certo, sua doente. Pena que ele é tão gostoso.
Eu revirei os olhos sem fazer questão de esconder minha irritação com sua típica superficialidade.
– Você fica tão irritadiça quando está doente. Enfim, você não faz idéia da cara de cachorrinho abandonado de Heath depois que você o ignorou no almoço. Ele nem conseguia...
Então eu vi o cara novamente. Morto. Tudo bem, eu logo me dei conta que ele não estava tecnicamente “morto”. Ele era um morto-vivo. Ou não humano. Sei lá. Os cientistas diziam uma coisa, as pessoas diziam outra, mas no final era sempre a mesma coisa. Não havia dúvida do que ele era, e mesmo se eu não tivesse sentido o poder e a escuridão que irradiavam dele, não havia como deixar de perceber sua Marca, a lua crescente azul-safira em sua testa e a tatuagem adicional de um nó entrelaçado que lhe emoldurava os olhos igualmente azuis. Ele era um vampiro, e pior... ele era um Rastreador.
Bem, bobagem! Ele estava ao lado do meu armário.
– Zoey, você não está ouvindo nada do que estou dizendo!
Então o vampiro falou e suas palavras cerimoniosas deslizaram pelo espaço entre nós, perigosas e sedutoras, como sangue misturado a chocolate derretido.
– Zoey Montgomery! Fostes escolhida pela Noite; tua morte será teu nascimento. A Noite te chama; preste atenção para escutar Sua doce voz. Teu destino aguarda por ti na Morada da Noite!
Ele ergueu um dedo longo e branco e apontou para mim. Minha testa explodia de dor e Kayla abriu a boca e gritou.
Quando as manchas brilhantes finalmente sumiram de minha visão eu levantei os olhos e vi o rosto pálido de K. me olhando fixamente.
Como de costume, eu disse a primeira coisa ridícula que me veio à cabeça.
– K., seus olhos estão pulando para fora de sua cabeça como os de um peixe.
– Ele Marcou você. Ah, Zoey! Você está com o desenho daquela coisa na sua testa! – então ela apertou a mão trêmula contra os lábios brancos, tentando, sem sucesso, suprimir o choramingo.
Eu me sentei e tossi. Estava com uma dor de cabeça de matar e esfreguei a marca deixada entre minhas sobrancelhas. Era como se eu tivesse sido picada por uma abelha; a dor descia irradiando ao redor dos olhos, chegando às maçãs do rosto. Senti que ia vomitar.
– Zoey! – K. agora estava chorando de verdade, falando entre pequenos soluços.
– Ah... Meu... Deus... Aquele cara era um Rastreador – um vampiro Rastreador!
– K. – pisquei os olhos com dificuldade, tentando fazer desaparecer a dor de minha cabeça –, pare de chorar. Você sabe que eu odeio quando você chora – estiquei o braço para tentar reconfortá-la com um tapinha nos ombros, mas ela automaticamente se encolheu e afastou-se de mim.
Eu não conseguia acreditar naquilo. Ela se encolheu mesmo, como se estivesse com medo de mim. Ela deve ter visto nos meus olhos que fiquei magoada, pois imediatamente começou a soltar um monte de suas típicas baboseiras.
– Ah, meu Deus, Zoey! O que você vai fazer? Você não pode ir àquele lugar. Não pode ser uma daquelas coisas. Isso não pode estar acontecendo! Com quem irei aos nossos jogos de futebol?
Percebi que ela não se aproximou nem um pouquinho de mim enquanto tagarelava. Reprimi as sensações de enjoo e mágoa que ameaçavam me levar às lágrimas. Meus olhos secaram instantaneamente. Eu era boa em esconder lágrimas. Era para ser mesmo; tive três anos de treino para ficar boa nisso.
– Tudo bem. Vou dar um jeito. Deve ser algum... algum erro bizarro – menti.
Eu não estava realmente falando; estava apenas soltando palavras pela boca. Ainda fazendo careta de dor de cabeça, levantei-me. Olhei ao redor e senti um leve alívio por K. e eu sermos as únicas pessoas na sala de matemática, e então tive de engolir uma gargalhada que eu sabia ser de nervoso. Se eu não estivesse totalmente maluca por causa daquela maldita prova de geometria, marcada para o dia seguinte, e tivesse corrido até meu armário para pegar meu livro e tentar obsessiva e inutilmente estudar à noite, o Rastreador teria me encontrado em frente à escola, em meio à maioria dos 1.300 garotos e garotas que deixavam naquele momento o Colégio Broken Arrow, esperando o que a idiota da minha irmã “clone de Barbie” gostava de chamar, toda metida, de “grandes limusines amarelas”. Eu tenho carro, mas ficar junto dos menos afortunados que tinham de pegar ônibus é uma tradição respeitada, além de ser uma excelente maneira de ver quem está dando em cima de quem. Supostamente, só havia outro garoto na sala de matemática – um nerd alto e magro de dentes estragados que eu, infelizmente, pude ver bem demais, pois ele estava lá parado com a boca escancarada, olhando para mim como se eu tivesse dado à luz uma ninhada de porcos voadores.
Tossi de novo, desta vez uma tosse bem molhada e nojenta. O nerd fez um barulhinho rangente e saiu correndo em direção à sala da senhora Day, apertando uma tábua de xadrez contra o peito esquelético. Acho que haviam mudado o encontro do clube de xadrez para segunda-feira depois da escola.
Vampiros jogam xadrez? Vampiros eram nerds? E vampiras chefes de torcida estilo Barbie? Algum vampiro tinha banda? Será que os vampiros eram emos esquisitos do tipo que usam calças de garotas e aquelas franjas tenebrosas que cobrem metade da cara? Ou seriam todos que nem aqueles góticos que não gostam de tomar banho? Será que eu ia virar gótica? Ou pior, será que eu ia virar emo? Eu não gostava muito de usar preto, pelo menos não o tempo todo, nem estava sentindo súbita aversão por água e sabão, e nem estava com nenhuma vontade obsessiva de mudar o estilo do meu cabelo e exagerar no delineador.
Tudo isso girava em um turbilhão em minha mente quando senti novamente a vontade de gargalhar e deixar escapar o nervoso que estava preso em minha garganta. Quase agradeci por ter saído apenas como tosse.
– Zoey? Você está bem? – a voz de Kayla soou tão alta, como se alguém a estivesse beliscando, e ela deu mais um passo para trás, afastando-se de mim.
Eu suspirei e senti minha primeira faísca de raiva. Eu não havia pedido por nada disso. K. e eu éramos melhores amigas desde a terceira série e agora ela estava olhando para mim como se eu tivesse virado um monstro.
– Kayla, sou eu. A mesma de dois segundos atrás e duas horas atrás e dois dias atrás – fiz um gesto de frustração em direção à minha cabeça latejante. – Isto não muda quem eu sou!
Os olhos de K. ficaram molhados de novo, mas felizmente o telefone celular dela começou a tocar Material Girl, de Madonna. Automaticamente, ela deu uma olhada para ver quem estava ligando. Pela cara de espanto dela, eu podia jurar que era Jared, seu namorado.
– Vá – eu disse com voz cansada e inexpressiva – pegue carona para casa com ele.
Seu olhar de alívio foi como um tapa na minha cara.
– Ligue para mim – disse ela, olhando rapidamente para trás e batendo em retirada pela porta ao lado.
Fiquei olhando enquanto ela saiu correndo pelo gramado leste em direção ao estacionamento. Deu para ver que ela estava com o celular grudado na orelha e conversando toda animadinha com Jared. Tenho certeza que ela já estava contando a ele que eu estava virando um monstro.
O problema, claro, era que me transformar em monstro era a mais luminosa dentre minhas duas opções. Opção número um: eu viro vampira, o que significa monstro na cabeça de praticamente todo ser humano. Opção número dois: meu corpo rejeita a mudança e eu morro. Para sempre.
Então a boa notícia é que eu não teria que fazer a prova de geometria amanhã.
A má notícia é que eu teria que me mudar para a Morada da Noite, um internato no centro de Tulsa que era conhecido entre todos os meus amigos como Escola de Aperfeiçoamento de Vampiros, onde durante os próximos quatro anos eu passaria por transformações bizarras e mudanças físicas indescritíveis, bem como uma total, permanente e drástica mudança de vida. Isso se o processo todo não me matasse.
Ótimo. Eu não queria fazer nenhuma das duas coisas. Só queria tentar ser normal, apesar do fardo de meus pais mega-conservadores, do ogro do meu irmão mais novo e da minha irmã tão perfeitinha. Eu queria passar em geometria. Queria manter minhas notas altas para ser aceita no curso de veterinária da Universidade de Oklahoma e queria cair fora de Broken Arrow, Oklahoma. Mas o que mais queria era me encaixar – ao menos na escola. Em casa era esperança perdida, de modo que tudo que me restou foram meus amigos e minha vida longe da família.
Agora isso também estava sendo tirado de mim.
Eu esfreguei a testa e me descabelei até cobrir parcialmente meus olhos e, com sorte, a marca que aparecera sobre eles. Mantendo a cabeça abaixada, corri até a porta que dava para o estacionamento dos alunos.
Mas parei pouco antes de sair. Pelas janelas abertas que ladeavam as portas de aparência institucional pude ver Heath. As garotas se aglomeravam ao redor dele, fazendo pose e jogando os cabelos, enquanto os caras do lado de fora faziam manobras ridículas em suas enormes picapes, tentando (mas geralmente não conseguindo) parecer descolados. Não dá para entender como eu escolheria isso para me atrair? Não, para ser justa comigo mesma, devo lembrar que Heath costumava ser incrivelmente doce, e ainda agora ele tinha seus momentos. Principalmente quando se dava ao trabalho de se manter sóbrio.
Os risinhos histéricos e agudos das garotas voaram rapidamente do estacionamento até mim. Ótimo. Kathy Richter, a maior cachorra da escola, estava fingindo que dava um tapa em Heath. Até mesmo de onde eu estava ficava óbvio que ela achava que bater nele era algum tipo de ritual de acasalamento. Como sempre, o sem-noção do Heath só ficou parado, rindo. Ora, que inferno, pelo jeito meu dia não ia melhorar em nada. E meu fusca 1966 azul-ovo-de-pintarroxo estava bem no meio deles. Não, eu não podia ir até lá. Não podia caminhar no meio de todos eles com este troço na minha testa. Jamais conseguiria ser parte deles outra vez. Já sabia muito bem o que eles fariam. Lembrei-me do último garoto que um Rastreador escolhera na escola.
Acontecera no começo do ano letivo passado. O Rastreador chegara antes da escola começar suas atividades e escolheu o garoto como alvo quando ele estava caminhando para sua primeira aula. Eu não vi o Rastreador, mas depois vi o garoto, só por um segundo, depois que ele largou os livros e saiu correndo do edifício com sua nova Marca brilhando na testa pálida e com suas bochechas muito brancas lavadas por lágrimas. Jamais me esqueci como os corredores estavam cheios naquela manhã e como todo mundo se afastou quando ele tentou fugir pela porta da frente da escola, como se ele tivesse alguma doença contagiosa. Eu fui uma das que recuou e ficou olhando quando ele passou, apesar de sinceramente sentir muito por ele. Só não queria ser rotulada como uma daquelas “garotas amigas de esquisitos”. Meio irônico, não é?
Ao invés de ir para o meu carro, fui para o toalete mais próximo que, felizmente, estava vazio. Havia três cabines – sim, eu conferi duas vezes para ver se via os pés de alguém. Em uma das paredes havia duas pias, sobre as quais estavam pendurados dois espelhos de tamanho médio. Em frente às pias havia uma parede coberta por um enorme espelho sob o qual existia uma prateleira para colocar escovas, maquiagem e qualquer outra coisa. Pus minha bolsa e meu livro de geometria sobre ela, respirei fundo e, com um só movimento, levantei a cabeça e escovei meus cabelos para trás.
Era como olhar para o rosto de um estranho familiar. Sabe aquela pessoa que você vê no meio da multidão e jura que conhece, mas não conhece? Agora esta pessoa era eu: a estranha conhecida.
Ela tinha os meus olhos, que ostentavam o mesmo tom de avelã que parecia indeciso entre o verde ou o castanho. Mas meus olhos nunca foram tão grandes e redondos. Ou foram? Ela tinha os meus cabelos – longos e lisos e quase tão escuros quanto os de minha avó antes de começarem a ficar grisalhos. A estranha tinha as minhas pronunciadas maçãs do rosto, nariz longo e lábios fartos – mais traços de vovó e seus antepassados Cherokee. Mas meu rosto jamais fora tão pálido... talvez apenas parecesse pálido em comparação com o desenho azul-escuro de uma lua crescente perfeitamente posicionada no meio de minha testa. Ou quem sabe fosse aquela horrenda luz fluorescente. Torci para que fosse a luz.
Olhei fixo para a exótica tatuagem. Misturada às minhas feições Cherokee, parecia uma marca de bestialidade... como se eu pertencesse a tempos ancestrais, quando o mundo era maior... mais bárbaro.
Depois deste dia minha vida nunca mais seria a mesma. E por um momento – só por um instante – me esqueci do horror de ser excluída e senti um chocante estouro de prazer, enquanto internamente regozijava o sangue do povo de minha avó.
Leia o 1° capítulo do livro Traída, continuação de Marcada
O trabalho aumenta de modo a preencher o tempo disponível para sua conclusão. A prova disso está na expressão proverbial de que “os mais atarefados é que têm tempo disponível.” Assim, uma ociosa senhora de idade pode passar o dia inteiro para escrever e remeter um cartão-postal a sua sobrinha em Bognor Regis. Uma hora será gasta procurando o cartão; outra, caçando os óculos; meia hora para achar o endereço; uma e um quarto na redação e vinte minutos para decidir se carrega ou não o guarda-chuva para ir à caixa do correio na rua próxima. O esforço total, que para um homem atarefado ocuparia três minutos, pode deixar outra pessoa prostrada após um dia de dúvidas, ansiedade e fadiga.
Admitindo-se que o trabalho (e especialmente o trabalho com papéis) é elástico na sua exigência de tempo, é claro que haverá pequena ou nenhuma relação entre o trabalho a ser feito e a quantidade de pessoas a executá-lo. A falta de atividade não significa lazer, nem é a indolência que revela, necessariamente, a falta de trabalho. As coisas a serem feitas aumentam de importância e complexidade em proporção com o tempo a ser gasto. Esse fato é largamente reconhecido. Mas, pouca atenção foi dispensada às suas amplas implicações, mais especialmente no campo da administração pública. Políticos e contribuintes acreditam piamente (com fases ocasionais de dúvida) que um aumento do número de empregados públicos deve refletir um aumento do serviço a ser feito. Cínicos, questionando essa crença, imaginaram que a multiplicação de funcionários deve ter deixado alguns deles desocupados ou todos eles em condições de trabalhar horas mais curtas.
Mas esse é um assunto no qual a fé e a dúvida parecem estar igualmente deslocadas. O fato é que o número de funcionários e a quantidade de serviço não guardam relação entre si. O aumento do total dos empregados é governado pela Lei de Parkinson; e seria o mesmo, quer o volume de serviço aumentasse, diminuísse, ou mesmo desaparecesse. A importância da Lei de Parkinson reside no fato de que é uma lei de crescimento baseada numa análise dos fatores pelos quais esse crescimento é controlado.
A validade desta Lei recentemente descoberta apóia-se, principalmente, em provas estatísticas que se seguirão. Ao leitor comum, o que interessa é a explicação dos fatores que alicerçam a tendência geral definida por essa Lei. Abandonando detalhes técnicos, que são muitos, podemos distinguir, de início, duas “forças-motivo” que podem ser representadas por duas verdades quase axiomáticas:
1. “Um funcionário quer aumentar o número de seus subordinados, desde que não sejam seus rivais” e
2. “Funcionários inventam trabalho uns para os outros.”
Para compreendermos o Fator 1, precisamos imaginar um funcionário público que chamaremos A e que se acha com excesso de trabalho. Que esse excesso de trabalho seja real ou imaginário, não vem ao caso. Lembremo-nos de que essa sensação (ou ilusão) poderia ser ocasionada por uma diminuição das energias de A. Um sintoma normal da meia-idade. Para esse mal real ou imaginário existem três possíveis soluções: A poderá se afastar; A poderá dividir o seu trabalho com um colega, a quem chamaremos B; A poderá pedir dois subordinados, que chamaremos C e D.
Provavelmente não há caso na história em que a escolha de A não seja admitir dois subordinados. Se ele se afastar, perderá o direito à pensão; se consentir em dividir o trabalho com um colega do mesmo nível hierárquico, estará criando um rival que poderá ser promovido em vez dele, quando W (finalmente!) se aposentar. Portanto, A escolherá C e D, dois jovens que trabalharão para ele. Além disso, dividindo o trabalho em duas categorias, entre C e D, ele passará a ser o único homem capaz de compreender os dois. Precisamos notar que C e D têm que ser inseparáveis. Admitir apenas C seria impossível. Por quê? Porque C sozinho iria dividir o trabalho com A, e, conseqüentemente, assumiria um status de igualdade, o que foi recusado a B logo de saída. Este status ficaria mais destacado ainda, porquanto C seria o único sucessor possível de A. Os subordinados devem ser sempre dois ou mais, cada um mantido sob controle por medo da promoção do outro. Quando C, por sua vez, queixar-se de excesso de trabalho (e isso irá acontecer certamente), A recomendará, com a concordância de C, a admissão de dois ajudantes para C, mas A, para evitar aborrecimentos, será obrigado a recomendar também dois ajudantes para D. Com o recrutamento de E, F, G e H, a promoção de A é agora praticamente certa.
Temos então sete funcionários fazendo o trabalho que antes era feito por um. É quando o Fator 2 entra em operação. Pois esses sete criam tanto trabalho uns para os outros que todos vivem ocupadíssimos, e A então está trabalhando mais do que nunca. Qualquer documento que entre poderá eventualmente ser examinado por todos eles. O funcionário E conclui que o assunto é da competência de F, que rascunha uma resposta para C, que a modifica drasticamente antes de consultar D, que por sua vez pede a G para tratar do caso. Mas, a esta altura, G sai de férias e entrega a pasta a H, que prepara a minuta que D assina e devolve a C, que revisa devidamente o texto e entrega a nova versão a A.
A, por sua vez, poderia assinar em cruz, pois está trabalhando como nunca na sua vida. Sabendo que deverá suceder W no ano seguinte, A tem que decidir quem será seu sucessor: C ou D. Ele concordou com a ausência de G, apesar de este ainda não ter direito a férias. Está preocupado se não seria H quem deveria ter saído por motivo de saúde. H, ultimamente anda meio pálido e abatido por motivos (mas não só) de ordem particular. Além disso, existe o problema de salário extra para F na época das conferências e o pedido de transferência que E fez, para o Ministério das Aposentadorias. A ouviu dizer que D está apaixonado por uma datilógrafa casada e que G e F não se falam, ninguém sabe por quê. Então, A se vê tentado a assinar o memorando preparado por C e liquidar o assunto. Mas A é homem de consciência. Cercado como está de problemas criados por seus colegas para eles mesmos e para ele – criados pelo simples fato de existirem os funcionários – não é homem de fugir ao dever. Lê e estuda com cuidado o memorando, corta os parágrafos desnecessários incluídos por C e H e restabelece a forma primitiva adotada por F, sujeito capaz (posto que brigão). Corrige a redação – nenhum desses rapazes sabe escrever gramaticalmente – e por fim ele mesmo faz a resposta que teria escrito se os funcionários C até H não tivessem nascido.
Muito mais gente levou muito mais tempo para produzir o mesmo resultado. Ninguém ficou parado. Todos fizeram tudo o melhor que podiam.
E já é tarde da noite quando A enfim deixa o escritório a caminho de casa no subúrbio. As últimas luzes se apagam no crepúsculo que marca o fim de outra jornada cheia de trabalho administrativo. Entre os últimos a sair, A reflete que trabalho além do expediente e cabelos grisalhos fazem parte das penalidades do êxito.
Da descrição acima dos fatores em ação, o estudante de ciência política reconhecerá que administradores são mais ou menos fadados a se multiplicar. Nada foi dito ainda sobre o tempo que provavelmente escoará entre a nomeação de A e a aposentadoria de H. Vastas quantidades de dados foram cotejados estatisticamente e foi desses dados que se deduziu a Lei de Parkinson. O espaço não permite análise detalhada, mas interessará ao leitor saber que a pesquisa começou nas estimativas orçamentárias da Marinha Britânica. A escolha deveu-se a que as responsabilidades do Almirantado são mais facilmente mensuráveis que, digamos, as do Ministério do Comércio. É uma simples questão de números e tonelagem. Eis alguns dados típicos: O efetivo da Marinha em 1914 era de 146 mil oficiais e marinheiros, 3.249 funcionários e escriturários e 57 mil operários de docagem e estaleiros. Em 1928, havia apenas 100 mil oficiais e marinheiros e 62.439 operários, mas o pessoal administrativo das docas e estaleiros aumentou para 4.558. Quanto às belonaves, o poderio em 1928 era uma pequena fração do que fora em 1914 – menos de 20 grandes navios contra 62. No mesmo período, o funcionalismo do Almirantado aumentara de 2 mil para 3.569, criando uma “magnífica Marinha de terra,” como notou alguém.
A crítica da época centrou-se na razão entre o efetivo disponível para o combate e o disponível para administração. Mas essa comparação não é o nosso propósito. Note-se que os 2 mil funcionários de 1914 passaram a 3.569 em 1928, e que este aumento não teve relação com qualquer possível aumento de serviço. A Marinha naquele período diminuíra 1/3 em pessoal e 2/3 em navios.
Tampouco, a partir de 1922, sequer se esperava alguma expansão; pois seu total de navios (mas não o de funcionários) foi limitado pelo Acordo Naval de Washington daquele ano. Temos aqui, então, um aumento de 78% num período de 14 anos; média de 5,6% de aumento por ano no pessoal que lidava com papel. Se formos examinar em detalhe, veremos que o aumento não foi regular. Mas a nós só interessa, no momento, a comparação dos dois períodos.
Como pode o aumento contínuo de funcionários ser explicado, a não ser pelo fato de que tal crescimento sempre se dará de acordo com uma lei própria? Devemos salientar que este período foi de um rápido desenvolvimento em técnica e engenharia naval. Nessa época o avião já começava a deixar de ser um “negócio de doidos,” os aparelhos elétricos já se estavam aperfeiçoando, os submarinos já eram tolerados, se não aprovados, e os técnicos começavam a ser considerados como seres quase humanos.
Em tal época revolucionária, poderíamos esperar que os almoxarifados tivessem inventários mais complicados para fazer. Não seria de admirar que tivéssemos, na folha de pagamento, mais projetistas, técnicos e cientistas. Entretanto, essa classe dos estaleiros aumentou apenas 40%, enquanto o pessoal de escritório do ministério aumentou 80%. Cada engenheiro novo em Portsmouth implicava a admissão de dois auxiliares de escritório em Londres. Isso poderia ser uma tentação para concluirmos que o aumento dos funcionários da administração deve ser o dobro do aumento dos técnicos, num momento em que o efetivo realmente de combate naval (neste caso, de marinheiros) era reduzido em 31,5%. Entretanto, está provado estatisticamente que esta última percentagem é irrelevante. Os funcionários da administração aumentariam nas mesmas proporções mesmo que não existissem marinheiros combatentes nos navios.
Seria interessante prosseguir o estudo e descobrir por que os 8.118 funcionários do Almirantado de 1935 se transformaram nos 33.788 de 1954. Mas o funcionalismo do Ministério das Colônias oferece um campo de estudo melhor, durante um período de declínio imperial. As estatísticas do Almirantado são complicadas por fatores como a Força Aérea Naval, que torna a comparação difícil entre um ano e o seguinte. O crescimento do Ministério das Colônias é mais significativo pelo fato de ser mais puramente burocrático.
Antes de mostrar a taxa de aumento, devemos observar que as responsabilidades deste ministério não foram constantes durante esses 20 anos. Os territórios coloniais não se alteraram muito em área e população entre 1935 e 1939. Diminuíram consideravelmente em 1943, tendo caído certas áreas em mãos inimigas. Aumentaram de novo em 1947. Mas, desde então, encolheram de ano para ano, à medida que sucessivas colônias adquiriram independência. Seria lógico supor que essas mudanças no escopo do Império se refletissem no tamanho de sua administração central. Mas basta uma olhada nos números para ver que os totais da equipe representam apenas etapas de um crescimento inevitável. E esse crescimento, ainda que relacionado com o que se observa noutros departamentos, nada tem a ver com o tamanho – ou mesmo com a existência – do Império. Quais são as percentagens do aumento? Devemos ignorar, para esse fim, o rápido aumento de pessoal que acompanhou a diminuição das responsabilidades durante a Segunda Guerra Mundial.
Melhor anotar o aumento em tempo de paz: mais de 5,24% entre 1935e 1939 e 6,55% entre 1947e 1954. Dá um aumento médio de 5,89% por ano, marcadamente similar ao já encontrado no aumento do funcionalismo do Almirantado entre 1914 e 1928.
Um maior número de estatísticas comparadas seria impróprio nesta obra. Entretanto, esperamos chegar a uma conclusão no que se refere ao tempo que deve passar entre a nomeação de um funcionário e a nomeação de seus dois ou mais assistentes. Tratando o problema da pura acumulação de funcionários, todas as nossas pesquisas revelam um aumento médio de 5,75% ao ano. Estabelecido esse fato, torna-se possível determinar a Lei de Parkinson em fórmula matemática.
A descoberta desta fórmula e dos princípios gerais em que ela se apóia não tem qualquer valor político. Nenhuma tentativa foi feita de descobrir se os departamentos precisam crescer em tamanho. Quem sustenta que esse crescimento é essencial a fim de alcançar o pleno emprego tem total direito a sua opinião. Os que duvidam da estabilidade de uma economia baseada na leitura de memorandos uns dos outros também têm direito à opinião. Provavelmente seria prematura neste estágio qualquer pesquisa para determinar o quociente que deve existir entre administradores e administrados. Admitido, porém, que exista uma razão máxima, breve deveria ser possível determinar pela matemática quantos anos se passarão até que essa razão, em qualquer comunidade dada, seja atingida. A previsão desse resultado também não tem valor político. Nunca será demais reafirmar que a Lei de Parkinson é uma descoberta puramente científica, inaplicável, exceto em teoria, à política em vigor no dia. Não é assunto do cientista botânico eliminar as ervas daninhas. Já é o bastante que nos diga com que rapidez elas crescem.
Era quase dezembro e Jonas estava começando a ficar assustado. Não. Usara a palavra errada, pensou ele. "Assustado" queria dizer aquela sensação intensa e nauseante de que algo horrível está prestes a acontecer. Assustado fora como se sentira no ano anterior quando uma aeronave não identificada sobrevoara duas vezes a comunidade. Ele a viu em ambas as vezes. Apertando os olhos para o céu, viu passar o jato esguio e brilhante, quase um borrão por causa da alta velocidade, e, um segundo depois, escutou a explosão de som que se seguiu. Então, novamente, da direção oposta, veio o mesmo avião.
Primeiro ele ficou apenas fascinado. Nunca vira uma aeronave de tão perto, pois era contra as regras os Pilotos voarem por cima da comunidade. Vez por outra, quando aviões de carga entregavam provisões no campo de pouso do outro lado do rio, as crianças iam de bicicleta até a margem e observavam, curiosas, a descarga e, em seguida, a decolagem rumo ao oeste, sempre para longe da comunidade.
Mas o avião do ano passado tinha sido diferente. Não era um daqueles aviões de sempre, atarracados, de bojo largo, mas um jato de nariz fino e próprio para um único tripulante. Quando olhou em torno de si, ansioso, Jonas viu outras pessoas, adultos também, além das crianças, interromperem o que faziam e esperarem, confusos, por uma explicação sobre o acontecimento assustador.
Então todos os cidadãos ouviram a ordem para entrarem no prédio mais próximo e permanecerem lá. Imediatamente, disse a voz rascante através dos alto-falantes. Deixem suas bicicletas onde estão.
No mesmo instante, obediente, Jonas deixou sua bicicleta no caminho, atrás da residência de seus pais. Correu para dentro e ficou lá, sozinho. Seus pais estavam no trabalho e sua irmãzinha, Lily, estava no Centro de Cuidados à Infância, onde costumava ficar depois do horário escolar.
Ao espiar pela janela da frente, não viu ninguém: nenhuma pessoa das equipes de Limpadores de Ruas, de Funcionários de Paisagismo ou de Entregadores de Alimentos que, todas as tardes, naquela hora do dia, circulavam atarefadas pela comunidade. Avistou apenas bicicletas abandonadas, deitadas de lado aqui e ali; a roda de uma delas, virada para cima, ainda girava devagar.
Naquela ocasião ele tinha ficado assustado. A impressão causada por sua comunidade silenciosa, esperando alguma coisa, dera-lhe um aperto no estômago. Fizera-o tremer.
Mas não fora nada. Em poucos minutos os alto-falantes estalaram de novo e a voz, tranqüilizadora dessa vez e menos urgente, explicara que um Piloto-em-Treinamento não compreendera direito suas instruções de vôo, fizera um percurso errado e, ansiosamente, tentara voltar antes que seu erro fosse percebido.
Evidentemente ele será dispensado, disse a voz, seguida de silêncio. Havia um tom irônico na mensagem final, como se o Locutor estivesse achando graça; e Jonas sorriu de leve, mesmo sabendo como aquela declaração era soturna. Afinal, um cidadão contribuinte ser dispensado da comunidade era uma decisão definitiva, uma punição terrível, uma constatação esmagadora de fracasso.
Até as crianças eram repreendidas se usavam a palavra levianamente, no meio de uma brincadeira, para zombar de um companheiro que deixasse de apanhar uma bola ou tropeçasse numa corrida. Jonas fizera isso uma vez, gritando para seu melhor amigo: "É isso aí, Asher! Você está dispensado!" – quando, com um erro tolo, ele havia feito seu time perder uma partida. O treinador chamou Jonas num canto para uma conversa séria e rápida, ele baixou a cabeça, envergonhado e cheio de culpa, e foi pedir desculpas a Asher depois do jogo.
Agora, pensando na sensação de medo enquanto pedalava para casa ao longo do caminho do rio, lembrou aquele momento de terror palpável, do aperto no estômago, quando a aeronave cortara o céu acima de sua cabeça. Não era igual ao que estava sentindo nesse momento com a chegada do mês de dezembro. Procurou a palavra certa para definir o que sentia.
Jonas era cuidadoso com a linguagem; ao contrário de seu amigo Asher, que falava depressa demais e misturava as coisas, fazendo uma salada com as palavras e as frases, de tal modo que mal se compreendia o que ele dizia, embora de vez em quando soasse muito engraçado.
Jonas deu um sorriso largo, lembrando o dia em que Asher entrara correndo e ofegante na sala de aula, atrasado como sempre, quando todos já entoavam o cântico da manhã. Quando a turma se sentou, no fim do hino patriótico, Asher permaneceu de pé para apresentar suas desculpas em público, como era de praxe.
– Peço desculpas por incomodar minha comunidade de ensino.
Asher disse depressa e de uma vez só a frase-padrão de desculpas, ainda sem fôlego. O Instrutor e a turma esperaram pacientemente pelas explicações dele. Todos os colegas estavam sorrindo: já tinham escutado as explicações de Asher muitas vezes antes.
– Saí de casa na hora certa, mas, quando ia passando de bicicleta perto do criadouro de peixes, a tripulação estava separando uns salmões. Acho que fiquei desorientado observando-os, foi só. Peço desculpas a meus colegas – concluiu Asher. Ele alisou o uniforme amassado e sentou-se.
– Aceitamos suas desculpas, Asher. – A turma recitou em uníssono a resposta-padrão. Muitos mordiam os lábios para não rir.
– Aceito suas desculpas, Asher – disse o Instrutor, sorrindo. – E obrigado, porque mais uma vez você nos forneceu uma oportunidade para uma lição sobre a língua. "Desorientado" é um adjetivo forte demais para descrever a observação de salmões. – Virou-se e escreveu "desorientado" no quadro-negro. Ao lado, escreveu "distraído".
Jonas, já próximo de casa, sorriu recordando aquilo. Ainda pensando a respeito ao fazer sua bicicleta entrar no estreito bicicletário ao lado da porta, ele se deu conta de que "assustado" era uma palavra errada para definir seus sentimentos, agora que dezembro estava quase chegando. Era um adjetivo forte demais.
Havia esperado um tempo enorme por aquele dezembro especial. Agora que quase o alcançara, ele não estava assustado, mas sim... ansioso, decidiu. Estava ansioso para que chegasse logo. E também excitado, certamente. Todos os que pertenciam ao grupo de Onze estavam excitados com o acontecimento que logo viria. Mas teve um ligeiro estremecimento de nervosismo ao pensar naquilo, no que poderia acontecer.
Apreensivo, concluiu Jonas. É assim que estou.
– Quem quer ser o primeiro desta noite a falar dos sentimentos? – perguntou o pai de Jonas quando terminaram a refeição.
Era um dos rituais, o relato noturno dos sentimentos.
Às vezes Jonas e a irmã, Lily, disputavam quem falaria primeiro. Os pais deles, é claro, participavam do ritual: eles também falavam sobre seus sentimentos a cada noite. Como todos os pais, entretanto – todos os adultos –, eles não discutiam nem engambelavam ninguém para ter a vez.
Nem Jonas fez isso naquela noite. Seus sentimentos estavam muito confusos. Queria partilhá-los com os outros, mas não se sentia muito disposto a começar o processo de peneirar suas emoções complicadas, nem mesmo com a ajuda que sabia que os pais poderiam lhe dar.
– Você primeiro, Lily – vendo a irmã muito mais nova do que ele (ainda uma Sete) contorcer-se de impaciência na cadeira.
– Fiquei muito zangada esta tarde – contou Lily. – Meu grupo do Centro de Cuidados à Infância estava na área de recreação e recebemos a visita de um grupo de Sete que não obedecia às regras de jeito nenhum. Um deles, um menino, não sei o seu nome, furava a fila do escorregador o tempo todo, apesar de todos nós estarmos esperando. Fiquei com muita raiva dele. Fechei a mão para ele assim. – E levantou o punho cerrado, fazendo o resto da família rir de seu pequeno gesto de desafio.
– Por que acha que os visitantes não obedeceram às regras? – perguntou a Mãe.
Lily refletiu um pouco e sacudiu a cabeça.
– Não sei. Eles agiam como... como...
– Animais? – sugeriu Jonas. E deu uma risada.
– Isso mesmo – disse Lily, rindo também –, como animais.
Nenhuma das duas crianças sabia o significado exato da palavra, que ali costumava ser usada para descrever pessoas mal-educadas ou desajeitadas, pessoas que destoavam da comunidade.
– De onde eram esses visitantes? – perguntou o Pai.
Lily franziu a testa, tentando lembrar.
– Nosso líder nos disse quando fez a apresentação de boas- vindas, mas não consigo lembrar. Acho que não estava prestando atenção. Eram de uma outra comunidade. Tiveram de sair muito cedo e fizeram a refeição do meio-dia no ônibus.
A Mãe balançou a cabeça:
– Não acha que talvez as regras deles possam ser diferentes? E que, sendo assim, eles simplesmente não sabiam quais eram as regras de vocês na área de recreação?
Lily deu de ombros e concordou:
– Imagino que sim.
– Você já visitou outras comunidades antes, não foi? – perguntou Jonas. – O meu grupo já visitou. Várias vezes.
Lily concordou novamente:
– Quando éramos do Seis, passamos um dia inteiro com um outro grupo de Seis numa escola da comunidade deles.
– Como você se sentiu quando estava lá?
Lily franziu as sobrancelhas:
– Meio esquisita. Porque os métodos deles eram diferentes. Estavam aprendendo costumes que meu grupo ainda não tinha aprendido e por isso nos sentimos burros.
O Pai escutava com interesse.
– Estou pensando, Lily – disse ele –, no menino que não obedeceu às regras hoje. Não acha possível ele ter se sentido esquisito e burro por estar num lugar novo com regras que ele ignorava?
Lily ponderou a questão.
– Acho – respondeu, afinal.
– Sinto um pouco de pena dele – disse Jonas –, mesmo sem ao menos o conhecer. Tenho pena de qualquer pessoa que está num lugar onde se sente esquisita e burra.
– Como se sente agora, Lily? – perguntou o Pai. – Ainda está com raiva?
– Acho que não – concluiu Lily. – Acho que estou com um pouco de pena. E arrependida por ter mostrado o punho para ele.
Jonas devolveu o sorriso para a irmã. Os sentimentos de Lily eram sempre sinceros, espontâneos, bastante simples, geralmente fáceis de solucionar. Imaginava que os seus também tinham sido quando era um Sete.
Escutou educadamente, apesar de sem grande atenção, seu pai descrever, por sua vez, um sentimento de preocupação que o acometera naquele dia no trabalho: preocupação com uma das crianças-novas que não ia bem. O título do pai de Jonas era Criador. Ele e outros Criadores eram responsáveis por todas as necessidades físicas e emocionais de cada criança-nova no início da vida. Era uma atividade muito importante, Jonas sabia, mas que não o interessava muito.
– De que gênero é? – perguntou Lily.
– Masculino – respondeu o Pai. – É um machinho encantador com uma índole excelente. Mas não está crescendo com a rapidez que deveria e não dorme bem. Nós o colocamos na seção de cuidados especiais para que tenha nutrição suplementar, mas o comitê está começando a falar em dispensá-lo.
– Ah, não... – murmurou a Mãe, compreensiva. – Imagino como isso deve deixá-lo triste.
Jonas e Lily também balançaram a cabeça, solidários com o Pai. A dispensa de crianças-novas era sempre triste, porque elas ainda não tinham tido oportunidade de desfrutar a vida na comunidade. E não tinham feito nada de errado. Havia apenas duas ocasiões de dispensa que não constituíam castigo: a dispensa dos velhos, que era um momento de celebração por uma vida plena e bem vivida, e a dispensa de uma criança-nova, sempre acompanhada da sensação de o-que-poderia-ter-sido. Era algo especialmente penoso para os Criadores, como o Pai, que se sentiam como se tivessem fracassado de alguma forma. Mas isso acontecia muito raramente.
– Bem – disse o Pai –, vou continuar tentando. Posso pedir permissão ao comitê para trazê-lo para cá à noite, se vocês não se importarem. Sabem como são as equipes noturnas de Criadores. Acho que aquele rapazinho necessita de algo mais.
– É claro – disse a Mãe. Jonas e Lily assentiram.
Já tinham ouvido o Pai queixar-se da equipe noturna antes. Era considerada uma função inferior fazer parte da equipe noturna de Criadores, atribuída àquelas pessoas desprovidas de interesses, habilidades ou visão para os trabalhos mais imprescindíveis do período diurno. A maioria delas sequer recebia um cônjuge, porque lhes faltava, de alguma forma, a capacidade essencial de se relacionar com os outros, indispensável para a criação de uma unidade familiar.
– Talvez até a gente possa ficar com ele – sugeriu Lily com ar meigo, tentando parecer inocente. O olhar era fingido, Jonas sabia; todos sabiam.
– Lily – lembrou a Mãe, sorrindo –, você sabe muito bem quais são as regras.
Duas crianças, um menino e uma menina, para cada unidade familiar. Estava claramente escrito.
Lily deu uma risadinha.
– Ora – disse ela –, quem sabe, só desta vez.
Em seguida, a Mãe, que ocupava um cargo proeminente no Departamento de Justiça, falou sobre seus sentimentos. Naquele dia, um infrator reincidente fora levado a ela, alguém que já desrespeitara as regras antes. Alguém que ela esperava ter sido convenientemente punido, com justiça, e que fora reintegrado em sua posição: em seu trabalho, em seu lar, em sua unidade familiar. Vê-lo diante de si pela segunda vez despertou nela sentimentos avassaladores de frustração e de raiva. Até de culpa, por não ter exercido influência alguma na vida dele.
– Fiquei assustada, também, por ele – admitiu. – Vocês sabem que não existe uma terceira oportunidade. As regras dizem que, se ocorrer uma terceira transgressão, a pessoa simplesmente tem de ser dispensada.
Jonas estremeceu. Sabia que isso de fato acontecia. Havia um menino em seu grupo de Onze cujo pai fora dispensado anos atrás. Ninguém jamais comentava o assunto; a desonra era inexprimível, difícil de imaginar.
Lily levantou e aproximou-se da mãe. Acariciou-lhe o braço.
De seu lugar à mesa, o Pai segurou uma das mãos dela. Jonas segurou a outra.
Um por um, todos a consolaram. Logo ela sorriu, agradeceu-lhes e murmurou que se sentia aliviada.
O ritual continuou.
– Jonas? – perguntou o Pai. – Você é o último hoje.
Jonas suspirou. Naquela noite, ele teria preferido manter ocultos os seus sentimentos. Mas era contra as regras, claro.
– Estou me sentindo apreensivo – confessou, satisfeito por finalmente ter encontrado a palavra adequada para descrever o que sentia.
– E por que, filho? – seu pai tinha um ar preocupado.
– Sei que não há realmente motivo algum para apreensão – explicou Jonas – e que todos os adultos já passaram por isso. Sei que você já passou, Pai, e você também, Mãe. Mas é a Cerimônia que está me deixando apreensivo. Já estamos quase em dezembro.
Lily levantou o rosto, os olhos arregalados.
– A Cerimônia de Doze – sussurrou ela com reverência na voz. Até as crianças pequenas, da idade de Lily e menores ainda, sabiam que o mesmo as esperava no futuro.
– Estou contente por você ter falado sobre o que está sentindo – disse o Pai.
– Lily – disse a Mãe, acenando para a garotinha. – Vá agora e vista sua roupa de dormir. O Pai e eu vamos ficar aqui conversando um pouco com Jonas.
Lily suspirou, mas levantou-se, obediente, de sua cadeira.
– Em particular? – perguntou ela.
A Mãe fez sinal que sim com a cabeça.
– É – disse ela –, essa conversa com Jonas vai ser em particular.
Amanhecer é o quarto e último volume da famosa série Crepúsculo, criada pela escritora Stephenie Meyer. Leia o primeiro capítulo dos três primeiros livros da série: Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse.
PRÓLOGO: Eu já tivera mais do que uma quota justa de experiências de quase morte; isso não é algo com que você se acostume.
Mas parecia estranhamente inevitável enfrentar a morte outra vez. Como se eu estivesse mesmo marcada para o desastre. Eu havia escapado repetidas vezes, mas ela continuava me rondando. Ainda assim, dessa vez foi diferente.
Pode-se correr de alguém de quem se tenha medo; pode-se tentar lutar com alguém que se odeie. Todas as minhas reações eram preparadas para aqueles tipos de assassinos — os monstros, os inimigos. Mas quando se ama aquele que vai matá-la, não lhe restam alternativas. Como se pode correr, como se pode lutar, quando essa atitude magoaria o amado? Se sua vida é tudo o que você tem para dar ao amado, como não dá-la? Quando ele é alguém que você ama de verdade.
NOIVA
Ninguém está olhando para você, garanti a mim mesma. Ninguém está olhando para você. Ninguém está olhando para você.
Como eu não conseguia mentir para mim mesma, tive de verificar.
Enquanto esperava que um dos três sinais de trânsito da cidade abrisse, olhei para a direita — na minivan, a Sra. Weber tinha se virado toda para me olhar. Os olhos perfuravam os meus e eu me encolhi, perguntando-me por que ela não virava a cara, não parecia constrangida. Encarar as pessoas continuava sendo falta de educação? Isso não se aplicava mais a mim?
Depois me lembrei de que aquelas janelas eram tão escuras que ela não devia fazer idéia de que era eu ali, e menos ainda ter me flagrado olhando de volta. Tentei me reconfortar um pouco com o fato de que ela não estava encarando a mim, só o carro.
Meu carro. Suspiro.
Olhei para a esquerda e gemi. Dois pedestres estavam paralisados na calçada, perdendo a oportunidade de atravessar enquanto fitavam o carro. Atrás deles, o Sr. Marshall olhava feito um bobo pela vitrine de sua lojinha de suvenires. Pelo menos não estava com o nariz espremido no vidro. Ainda.
O sinal ficou verde e, na pressa para fugir daquilo, pisei fundo no acelerador sem pensar — como normalmente teria feito para colocar em movimento minha antiga picape Chevy.
O motor rugiu como uma pantera caçando, o carro deu um solavanco tão abrupto para a frente que meu corpo bateu no encosto do banco de couro preto e meu estômago se achatou na coluna.
— Ai! — Resmunguei ao me atrapalhar com o freio. Para evitar problemas, apenas encostei no pedal. O carro balançou e ficou completamente imóvel.
Não consegui olhar a reação ao meu redor. Se houvesse alguma dúvida de quem estava dirigindo o carro, ela se acabara. Com a ponta do sapato, cutuquei o pedal do acelerador meio milímetro e o carro se lançou para a frente de novo.
Consegui chegar ao meu objetivo, o posto de gasolina. Se não tivesse ficando sem combustível, não teria vindo à cidade. Estava sem muita coisa ultimamente, como Pop-Tarts e cadarços de sapatos, porque não queria aparecer em público.
Agindo como se estivesse numa corrida, abri a tampa do tanque, passei o cartão e encaixei a mangueira de combustível em segundos. É claro que não havia nada que eu pudesse fazer para que os números no medidor se acelerassem. Eles mudavam lentamente, quase como se quisessem me irritar.
Não era um dia de sol — um típico dia chuvoso em Forks, Washington —, mas eu ainda sentia que havia um holofote focado sobre mim, chamando a atenção para a delicada aliança em minha mão esquerda. Em ocasiões como aquela, sentindo olhares nas minhas costas, parecia que a aliança piscava como uma placa de néon. Olhem para mim, olhem para mim.
Era idiotice ficar tão sem graça, e eu sabia disso. Além de meu pai e minha mãe, será que importava mesmo o que as pessoas diziam sobre meu noivado? Sobre meu carro novo? Sobre minha misteriosa admissão numa universidade da Ivy League? Sobre o cartão de crédito preto e reluzente que agora pareciam arder no meu bolso de trás?
— É, quem liga para o que eles pensam? — murmurei.
— Hmmm, moça? — disse uma voz de homem.
Eu me virei e desejei não ter feito aquilo.
Dois homens estavam parados atrás de um 4X4 caro, com caiaques novos em folha no rack. Nenhum deles olhava para mim; os dois fitavam o carro.
Pessoalmente, não entendi. Além disso, já estava orgulhosa de conseguir distinguir os logos da Toyota, da Ford e da Chevy. Aquele carro era preto, reluzente e lindo, mas para mim ainda era só um carro.
— Desculpe incomodá-la, mas poderia me dizer que modelo é esse que está dirigindo? — perguntou o alto.
— Hmmm, é uma Mercedes, não é?
— Sim — disse o homem com educação, enquanto o amigo mais baixo revirava os olhos para a minha resposta. — Eu sei. Mas eu estava me perguntando... Está dirigindo um Mercedes Guardian? — O homem disse o nome com reverência. Tive a sensação de que o sujeito ia se dar bem com Edward Cullen, meu... meu noivo (ultimamente não havia como fugir da verdade do casamento). — Eles ainda não devem estar disponíveis nem na Europa — continuou o homem —, que dirá aqui.
Enquanto meus olhos acompanhavam as linhas do meu carro — não me parecia muito diferente de outros sedãs Mercedes, mas o que eu entendia do assunto? —, contemplei brevemente meus problemas com palavras como noivo, casamento, marido etc.
Eu não conseguia me entender com aquilo.
Por um lado, fui criada para me encolher só de pensar em vestidos e buquês de noiva. Mais do que isso, porém, eu não conseguia harmonizar um conceito sóbrio, respeitável e obtuso como marido com meu conceito de Edward. Era como imaginar um arcanjo como um contador; eu não o conseguia visualizar em nenhum papel comum.
Como sempre, assim que comecei a pensar em Edward, fui tomada de fantasias vertiginosas. O estranho teve de dar um pigarro para chamar minha atenção; ainda esperava por uma resposta sobre a fabricação e o modelo do carro.
— Não sei — eu lhe disse com sinceridade.
— Posso tirar uma foto dele?
Precisei de um segundo para processar aquilo.
— É mesmo? Quer tirar uma foto do carro?
— Claro... Ninguém vai acreditar em mim se eu não tiver a prova.
— Hmmm. Tudo bem. Pode tirar.
Rapidamente tirei a mangueira de gasolina e me esgueirei para o banco da frente a fim de me esconder enquanto o cara fissurado pegava na mochila uma câmera que parecia profissional. Ele e o amigo se revezavam posando junto ao capô e depois tiraram fotos da traseira.
— Estou com saudade da minha picape — choraminguei comigo mesma.
Mas era mesmo muito conveniente — conveniente demais — que minha picape desse seu último suspiro semanas depois de Edward e eu concordarmos com nosso acordo torto, e um detalhe do acordo era que Edward podia substituir minha picape quando ela morresse. Ele jurou que era apenas o esperado; que a picape teve uma vida plena e longa e depois faleceu de causas naturais. Isso é o que ele diz. E, é claro, eu não tinha como verificar sua história ou tentar, sozinha, levantar a picape dos mortos. Meu mecânico preferido...
Parei nesse pensamento, recusando-me a levá-lo a uma conclusão. Em vez disso, ouvi as vozes dos homens do lado de fora, abafadas pelos muros do carro. — ... atacado com um lança-chamas num vídeo online. Nem enrugou a pintura.
— É claro que não. Até dá para passar com um tanque por cima desse bebê. Mas não tem muito mercado por aqui. Projetado principalmente para diplomatas do Oriente Médio, traficantes de armas e chefões das drogas.
— Acha que ela é alguma coisa? — perguntou o mais baixo num tom mais delicado. Eu baixei a cabeça com o rosto em brasa.
— Hmmm — disse o alto. — Talvez. Nem imagino para que alguém precisa de vidro à prova de mísseis e duzentos quilos de blindagem por aqui. Deve estar indo a um lugar mais perigoso.
Blindagem. Duzentos quilos de blindagem. E vidro à prova de mísseis? Que ótimo. O que aconteceu com o bom e velho vidro à prova de balas?
Bom, pelo menos isso fazia algum sentido — para quem tem um senso de humor meio distorcido.
Não é que eu não esperasse que Edward tirasse proveito de nosso acordo, pesando a balança para o lado dele, dando-me muito mais do que receberia. Eu concordei que ele substituiria minha picape quando fosse necessário, sem esperar que esse momento viesse tão cedo, é claro. Quando fui obrigada a admitir que a picape não passava de um tributo em natureza-morta aos Chevys clássicos no meu meio-fio, eu sabia que ficaria constrangida com a idéia que ele fazia de substituição. Ia me tornar o foco de olhares e cochichos. Eu tinha razão quanto a essa parte. Mas mesmo em minha imaginação mais doentia eu não previ que ele me daria dois carros.
O carro de "antes" e o carro de "depois", explicou-me ele quando eu me assustei.
Esse era só o carro de "antes". Ele me disse que era emprestado e prometeu que devolveria depois do casamento. Não fazia nenhum sentido para mim. Até então.
Rá rá. Ao que parecia, porque eu era frágil de tão humana, tendia tanto a me acidentar, tão vítima de minha própria falta de sorte perigosa, precisava de um carro que resistisse a tanques para me manter segura. Hilário. Tinha certeza de que ele e os irmãos riram da piada pelas minhas costas.
Ou talvez, só talvez, sussurrou uma vozinha em minha cabeça, não seja uma piada, sua boba. Talvez ele realmente se preocupe com você. Não seria a primeira vez que ele exageraria um pouco tentando protegê-la.
Eu suspirei.
Ainda não vi o carro de "depois". Estava escondido embaixo de uma lona no canto mais distante da garagem dos Cullen. Eu sabia que àquela altura a maioria das pessoas teria dado uma espiada, mas eu não queria.
Provavelmente não haveria blindagem naquele carro — porque eu não precisaria depois da lua-de-mel. A quase indestrutibilidade era só uma das muitas vantagens a que eu ansiava. O melhor de ser uma Cullen não eram os carros caros e cartões de crédito impressionantes.
— Ei — chamou o alto, colocando as mãos em concha no vidro, tentando me enxergar. — Já acabamos. Muito obrigado!
— Não há de quê — eu disse, depois fiquei tensa enquanto ligava o motor e pisava no pedal — muito delicadamente...
Não importava quantas vezes eu tivesse dirigido pela conhecida estrada para casa, eu ainda não conseguia fazer com que os cartazes desbotados pela chuva desaparecessem ao fundo. Cada um deles, colados nos postes telefônicos e em placas de rua, era como um novo tapa na cara. Um merecido tapa na cara. Minha mente foi levada de volta ao pensamento que interrompi tão rapidamente. Eu não conseguia evitar aquela estrada. Não com as imagens de meu mecânico preferido voando por mim a intervalos regulares.
Meu melhor amigo. Meu Jacob.
Você viu esse garoto? Os cartazes não foram idéia do pai de Jacob. Foram do meu pai, Charlie, que os imprimiu e espalhou por toda a cidade. E não só por Forks, mas por Port Angeles, Sequim, Hoquiam, Aberdeen e em cada cidade da península de Olympic. Ele se assegurou de que todas as delegacias no estado de Washington tivessem o mesmo cartaz pendurado na parede. Sua própria delegacia tinha um quadro de cortiça, especialmente dedicado a encontrar Jacob. Um quadro de cortiça que estava praticamente vazio, para decepção e frustração dele.
Meu pai não estava decepcionado só com a falta de resposta. Estava muito decepcionado com Billy, o pai de Jacob — e melhor amigo de Charlie.
Porque Billy não está envolvido nas buscas por seu filho "foragido" de 16 anos. Porque Billy se recusa a colocar os cartazes em La Push, a reserva na costa que era o lar de Jacob. Porque ele parece ter se resignado com o desaparecimento de Jacob, como se não houvesse nada que pudesse fazer. Por ele dizer: "Agora Jacob é adulto. Se quiser, ele vai voltar para casa."
E ele estava frustrado comigo, por ficar do lado de Billy.
Eu também não colocaria os cartazes. Porque Billy e eu sabíamos mais ou menos onde Jacob estava e também sabíamos que ninguém tinha visto aquele garoto.
Os cartazes me deram o habitual nó na garganta, as habituais lágrimas arderam em meus olhos, e fiquei feliz por Edward ter saído para caçar naquele sábado. Edward ficaria péssimo se visse minha reação.
É claro que havia desvantagens por ser sábado. Enquanto eu entrava devagar e com cuidado na minha rua, pude ver a viatura de meu pai na entrada de nossa casa. Não tinha ido pescar de novo. Ainda chateado com o casamento.
Então eu não ia conseguir usar o telefone de casa. Mas precisava telefonar...
Estacionei no meio-fio atrás da escultura de Chevy e peguei no porta-luvas o celular que Edward me dera para as emergências. Disquei, mantendo o dedo no botão "End" enquanto o telefone tocava. Só por garantia.
— Alô? — Seth Clearwater atendeu e eu suspirei de alívio. Eu era covarde demais para falar com a irmã mais velha dele, Leah. A expressão "arrancar minha cabeça" não era somente uma figura de linguagem quando se tratava dela.
— Oi, Seth. É a Bella.
— Ora, viva, Bella! Como você está?
Engasgada. Desesperada para que alguém me tranqüilize.
— Bem.
— Querendo saber das últimas?
— Você é um paranormal.
— Nem tanto. Não sou a Alice... Você é que é previsível — brincou ele.
Do grupo quileute de La Push, só Seth ficava à vontade em mencionar os Cullen pelo nome, que dirá brincar com coisas como minha futura cunhada onisciente.
— Sei que sou. — Hesitei por um minuto. — Como ele está?
Seth suspirou.
— O mesmo de sempre. Ele não fala, embora a gente saiba que ouve. Está tentando não pensar como humano, sabe como é. Só seguir seus instintos.
— Sabe onde ele está agora?
— Em algum lugar ao norte do Canadá. Não sei lhe dizer que província. Ele não presta muita atenção nas divisas entre os estados.
— Alguma sugestão de que ele possa...
— Ele não vai voltar, Bella. Desculpe.
Engoli em seco.
— Está tudo bem, Seth. Eu sabia antes mesmo de perguntar. Só não consigo deixar de querer isso.
— É. Todos sentimos o mesmo.
— Obrigada por me suportar, Seth. Sei que os outros devem criar dificuldades para você.
— Eles não são seus maiores fãs — concordou ele, descontraído. — Mas eu acho meio idiota. Jacob tomou a decisão dele, você tomou a sua. O Jake mesmo não gostou da atitude deles com relação a isso. É claro que ele não está superemocionado que você fique procurando saber dele também.
Eu arfei.
— Pensei que ele não estivesse falando com você.
— Ele não consegue esconder tudo de nós, por mais que tente.
Então Jacob sabia que eu estava preocupada. Eu não tinha certeza de como me sentia com relação a isso. Bom, pelo menos ele sabia que eu não fugira ao pôr-do-sol e me esquecera completamente dele. Podia ter imaginado que eu era capaz disso.
— Acho que verei você no... casamento — eu disse, obrigando a palavra a sair por entre meus dentes.
— É, eu e minha mãe estaremos lá. Foi gentil de sua parte nos convidar.
Eu sorri com o entusiasmo na voz dele. A idéia de convidar os Clearwater foi de Edward. Fiquei feliz que ele tenha pensado nisso. Ter Seth ali seria ótimo — um elo, embora tênue, com meu padrinho desaparecido.
— Não seria o mesmo sem vocês.
— Diga a Edward que mandei lembranças, está bem?
— Pode ter certeza.
Eu sacudi a cabeça. A amizade que surgiu entre Edward e Seth era algo que ainda me perturbava. Era uma prova, porém, de que as coisas não tinham de ser daquele jeito. Que vampiros e lobisomens podiam conviver bem, muito obrigada, sem se importarem com isso. Nem todo mundo gostava dessa idéia.
— Ah — disse Seth, a voz subindo uma oitava. — Er, Leah chegou.
— Ah! Tchau!
O telefone ficou mudo. Deixei-o no banco e me preparei psicologicamente para entrar em casa, onde Charlie estaria esperando.
Agora meu pobre pai tinha muito o que fazer. Jacob-o-fugitivo era só um dos fardos em suas costas sobrecarregadas. Ele estava quase tão preocupado comigo, sua filha que mal-era-legalmente-adulta e estava prestes a se tornar uma senhora em alguns dias. Andei lentamente pela chuva fina, lembrando-me da noite em que contei a ele...
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Ao ouvir a viatura de Charlie anunciando sua chegada, de repente a aliança pesou cinqüenta quilos em meu dedo. Eu queria enfiar a mão esquerda num bolso, ou talvez sentar nela, mas o aperto firme e frio de Edward a mantinha à frente.
— Deixe de ficar inquieta, Bella. Por favor, procure se lembrar de que não vai confessar nenhum assassinato.
— Para você, é fácil falar.
Eu ouvi o som agourento das botas de meu pai batendo na calçada. A chave sacudindo na porta já aberta. O som me lembrou daquela parte de um filme de terror em que a vítima percebe que esqueceu de passar a tranca.
A porta bateu e eu me encolhi como se tivesse levado um tiro.
— Oi, Charlie — disse Edward, inteiramente relaxado.
— Não! — protestei em voz baixa.
— Que foi? — sussurrou Edward.
— Espere até ele pendurar a arma!
Edward riu e passou a mão livre em seu cabelo desgrenhado cor de bronze.
Charlie virou no corredor, ainda de uniforme, ainda armado, e tentou não fazer uma careta quando nos viu sentados juntos no sofá de dois lugares. Ultimamente ele andava despendendo muito esforço para gostar mais de Edward. É claro que aquela revelação daria um fim imediato e certo a esse esforço.
— Oi, meninos. O que foi?
— Gostaríamos de falar com você — disse Edward, muito sereno. — Temos uma boa notícia.
A expressão de Charlie foi da amizade forçada à desconfiança sombria em um segundo.
— Boa notícia? — resmungou Charlie, olhando diretamente para mim.
— Sente-se, pai.
Ele ergueu uma sobrancelha, fitando-me por uns cinco segundos, depois foi até a cadeira reclinável e se sentou na beira, as costas retas feito uma tábua.
— Não fique agitado, pai — eu disse depois de um momento de silêncio pesado. — Está tudo bem.
Edward fez uma careta e eu sabia que era em objeção às palavras tudo bem. Ele teria usado algo como maravilhoso, perfeito ou glorioso.
— Claro que está, Bella, claro que está. Se tudo está tão bem, por que você está suando em bicas?
— Eu não estou suando — menti.
Eu me afastei de sua careta feroz e me encolhi junto de Edward, e por instinto passei as costas da mão direita na testa para retirar as provas.
— Você está grávida! — explodiu Charlie. — Está grávida, não é?
Embora a pergunta claramente fosse dirigida a mim, ele agora fuzilava Edward com os olhos e eu podia jurar ter visto a mão dele se retorcer na direção da arma.
— Não! É claro que não! — Eu queria dar uma cotovelada nas costelas de Edward, mas sabia que essa atitude só me provocaria um hematoma. Eu disse a Edward que as pessoas chegariam a essa conclusão de imediato! Que outro motivo haveria para pessoas sãs se casarem aos 18 anos? (A resposta dele me fez revirar os olhos. Amor. Sei.)
O olhar de Charlie se iluminou um pouco. Em geral ficava muito claro no meu rosto quando eu contava a verdade e ele agora acreditava em mim.
— Ah. Desculpe.
— Desculpas aceitas.
Houve uma longa pausa. Depois de algum tempo, percebi que todos esperavam que eu dissesse alguma coisa. Tomada de pânico, olhei para Edward. Não havia como eu conseguir pronunciar as palavras.
Ele sorriu para mim, endireitou os ombros e se virou para meu pai.
— Charlie, percebo que estou tratando disso da forma errada. Por tradição, eu devia lhe pedir primeiro. Não é minha intenção desrespeitá-lo, mas uma vez que Bella já disse sim e eu não quero diminuir sua decisão a esse respeito, em vez de lhe pedir a mão dela, estou lhe pedindo sua bênção. Nós vamos nos casar, Charlie, eu a amo mais do que qualquer coisa no mundo, mais do que minha própria vida, e... por um milagre... ela me ama da mesma forma. Você nos daria sua bênção?
Ele parecia tão seguro, tão calmo. Por um segundo, ouvindo a confiança absoluta em sua voz, vivi um raro momento de insight. Eu podia ver, de modo fugaz, como o mundo olhava para ele. Por uma batida do coração, essa notícia fazia perfeito sentido.
E depois vi a expressão de Charlie, os olhos agora fixos na aliança.
Prendi a respiração enquanto sua pele mudava de cor — do branco para o vermelho, do vermelho ao roxo, do roxo ao azul. Comecei a me levantar — não sabia bem o que eu pretendia fazer; talvez usar a manobra de Heimlich para ter certeza de que ele não sufocava — mas Edward apertou minha mão e murmurou: "Dê-lhe um minuto", tão baixo que só eu podia ouvir.
O silêncio dessa vez foi mais prolongado. Depois, aos poucos, tom por tom, a cor de Charlie voltou ao normal. Seus lábios enrugaram e as sobrancelhas franziram; reconheci sua expressão de "imerso em pensamentos". Ele nos examinou por um bom tempo e senti Edward relaxar ao meu lado.
— Acho que não estou surpreso — grunhiu Charlie. — Eu sabia que teria de lidar com algo assim muito em breve.
Eu expirei.
— Tem certeza disso? — perguntou Charlie, olhando para mim.
— Tenho completa certeza sobre Edward — eu lhe disse sem hesitar.
— Mas se casar? Por que a pressa? — Ele me olhou com desconfiança de novo.
A pressa se devia ao fato de que eu estava me aproximando do décimo nono aniversário a cada maldito dia, enquanto Edward permanecia paralisado em toda sua perfeição de 17 anos, como era havia mais de noventa anos. Não que esse fato significasse casamento em meu dicionário, mas o casamento era necessário devido ao acordo delicado e complicado que Edward e eu fizemos para finalmente chegar a esse ponto, à beira de minha transformação de mortal a imortal.
Não eram coisas que eu pudesse explicar a Charlie.
— Vamos juntos para Dartmouth no outono, Charlie — lembrou-lhe Edward. — Eu gostaria de fazer isso, bem, da maneira correta. Eu fui criado assim. — Ele deu de ombros.
Ele não estava exagerando; na época da Primeira Guerra Mundial, a moral era antiquada.
A boca de Charlie se retorceu de lado. Procurando um ângulo de onde argumentar. Mas o que ele poderia dizer? Prefiro que vocês vivam em pecado primeiro? Ele era pai; suas mãos estavam atadas.
— Eu sabia que isso aconteceria — murmurou consigo mesmo, a testa franzida. Depois, de repente, sua cara ficou perfeitamente lisa e inexpressiva.
— Pai? — perguntei com ansiedade. Olhei para Edward, mas tampouco consegui ler seu rosto enquanto ele observava Charlie.
— Rá! — Charlie explodiu. Eu pulei no sofá. — Rá, rá, rá!
Fiquei olhando, incrédula, enquanto Charlie se dobrava de rir, todo o corpo se sacudindo.
Olhei para Edward procurando por uma tradução, mas Edward estava com os lábios cerrados, como se tentasse reprimir ele mesmo o riso.
— Muito bem, então — Charlie disse com a voz embargada. — Casem-se. — Mais uma gargalhada sacudiu seu corpo. — Mas...
— Mas o quê? — perguntei.
— Mas é você quem vai contar a sua mãe! Não vou dizer uma só palavra a Renée! É com você! — ele explodiu de rir novamente.
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Parei com a mão na maçaneta, sorrindo. É evidente que, na época, as palavras de Charlie me apavoraram. O Juízo Final: contar a Renée. Em sua lista negra, casar-se cedo era pior do que cozinhar cachorrinhos vivos.
Quem poderia prever a reação dela? Eu não. Certamente não Charlie. Talvez Alice, mas não pensei em perguntar a ela.
— Bem, Bella — disse Renée depois de eu sufocar e me atrapalhar com as palavras impossíveis: Mãe, vou me casar com Edward. — Estou com um pouco de rancor por ter esperado tanto tempo para me contar. As passagens aéreas só ficam mais caras. Aaaah — ela se enervou. — Acha que até lá Phil já tirou o gesso? Vai estragar as fotos se ele não estiver de smoking...
— Espere um segundo, mãe. — eu disse, ofegando. — O que quer dizer com esperar tanto tempo? Eu só fiquei no-no... — Eu fui incapaz de dizer a palavra noiva — As coisas se ajeitaram, sabe como é, hoje.
— Hoje? É mesmo? Mas isto sim é uma surpresa. Imaginei...
— O que você imaginou? Quando você imaginou?
— Bem, quando veio me visitar em abril, parecia que as coisas estavam bem costuradas, se me faço entender. Não é difícil ler seus pensamentos, meu amor. Mas eu não disse nada porque sabia que não faria bem nenhum. Você é igualzinha ao Charlie. — Ela suspirou, resignada. — Depois que se decide por uma coisa, não dá para argumentar com você. É claro que, exatamente como Charlie, você também se prende a sua decisão.
E então ela disse a última coisa que eu esperaria ouvir de minha mãe.
— Não está cometendo nenhum erro, Bella. Você parece que está apavorada e acho que é porque tem medo de mim. — Ela riu. — Do que eu vou pensar. E eu sei que disse muita coisa sobre o casamento e essas idiotices... e não vou retirar o que disse... mas você precisa entender que aquelas coisas se aplicavam especificamente a mim. Você é uma pessoa totalmente diferente. Você comete seus próprios erros e tenho certeza de que tem sua cota de arrependimentos na vida. Mas comprometer-se nunca foi um problema para você, meu amor. Você tem mais chance de fazer isso dar certo do que eu nos meus mais de quarenta anos de vida. — Renée riu de novo. — Minha filhinha de meia-idade. Felizmente, você parece ter encontrado outra alma velha.
— Você não está... chateada? Não acha que estou cometendo um erro imenso?
— Bem, claro que sim. Eu queria que esperasse mais alguns anos. Quer dizer, eu pareço velha o bastante para ser uma sogra? Não responda. Mas não se trata de mim. Trata-se de você. Você está feliz?
— Não sei. Agora estou tendo uma experiência fora do corpo.
Renée deu uma gargalhada.
— Ele a fez feliz, Bella?
— Sim, mas...
— Já pensou em querer outra coisa?
— Não, mas...
— Mas o quê?
— Mas você não vai dizer que eu sou como qualquer outra adolescente apaixonada desde a aurora dos tempos?
— Você nunca foi adolescente, meu bem. Sabe o que é melhor para você.
Nas últimas semanas, Renée mergulhou inesperadamente nos planos do casamento. Passou horas todo dia ao telefone com a mãe de Edward, Esme — sem se preocupar em se entender com os outros parentes de casamento. Renée adorou Esme, mas eu duvidava de que alguém pudesse deixar de reagir dessa maneira a minha adorável quase-sogra.
Isso me tirou de uma enrascada. A família de Edward e a minha família estavam cuidando das núpcias sem que eu precisasse fazer, saber ou pensar muito no assunto.
É claro que Charlie ficou furioso, mas o bom foi que ele não ficou furioso comigo. A traidora era Renée. Ele contava que ela bancasse a durona. O que ele podia fazer agora, quando sua ameaça definitiva — contar à mamãe — tinha se revelado completamente vazia? Não podia fazer nada e sabia disso. Então ele lamentava pela casa, resmungando coisas sobre não se poder confiar em mais ninguém nesse mundo...
— Pai? — chamei enquanto abria a porta da frente. — Cheguei.
— Espere aí, Bella, fique onde está.
— Hein? — perguntei, parando automaticamente.
— Me dê um segundo. Ai, você me furou, Alice.
— Alice?
— Desculpe, Charlie — respondeu a voz vibrante de Alice. — Como está isso?
— Estou sangrando.
— Você está bem. Não rompa a pele... Confie em mim.
— O que está acontecendo? — perguntei, hesitando na soleira da porta.
— Trinta segundos, Bella, por favor — disse-me Alice. — Sua paciência será recompensada.
— Humpf — acrescentou Charlie.
Bati o pé, contando cada batida. Antes que chegasse a trinta, Alice disse:
— Tudo bem, Bella, entre!
Andando com cautela, entrei em nossa sala de estar.
— Ah — eu bufei. — Ai. Pai. Você está tão...
— Bobo? — interrompeu Charlie.
— Eu estava pensando mais em encantador.
Charlie corou. Alice o pegou pelos cotovelos e o fez girar lentamente para mostrar o smoking cinza-claro.
— Agora pare com isso, Alice. Eu pareço um idiota.
— Ninguém vestido assim vai parecer um idiota.
— Ela tem razão, pai. Você está incrível! Qual é a ocasião?
Alice revirou os olhos.
— É a última prova da roupa. Para os dois.
Eu afastei os olhos de meu em geral deselegante Charlie e pela primeira vez vi o temido saco branco colocado com cuidado no sofá.
— Aaah.
— Vá para seu refúgio feliz, Bella. Não vou demorar.
Respirei fundo e fechei os olhos. Mantendo-os fechados, subi aos tropeços a escada para meu quarto. Tirei minha roupa e estendi os braços.
— Você achou que eu ia enfiar farpas de bambu por baixo de suas unhas — murmurou Alice consigo mesma enquanto me seguia.
Não prestei atenção nela. Eu estava em meu refúgio feliz.
Em meu refúgio feliz, toda a confusão do casamento tinha acabado. Estava para trás. Já reprimida e esquecida.
Estávamos sozinhos, só Edward e eu. O ambiente era vago e se alterava constantemente — metamorfoseava-se de uma floresta nevoenta para uma cidade nublada na noite ártica — porque Edward mantinha o local de nossa lua-de-mel em segredo para me surpreender. Mas eu não estava especialmente preocupada com a parte do onde.
Edward e eu estávamos juntos e eu cumpria à perfeição minha parte no trato. Ia me casar com ele. Essa era a parte grande. Mas também aceitei todos os seus presentes exorbitantes e estava matriculada, embora inutilmente, para freqüentar Dartmouth no outono. Agora era a vez dele.
Antes que ele me transformasse em vampira — sua parte maior no trato — havia mais uma condição a cumprir.
Edward tinha uma espécie de preocupação obsessiva com as coisas humanas de que eu estaria abrindo mão, as experiências que ele não queria que me fizessem falta. A maioria delas — como o baile, por exemplo — parecia tola para mim. Aquela era a única experiência humana cuja ausência me preocupava. É claro que era a única que ele queria que eu esquecesse completamente.
Mas ali estava a questão. Eu sabia um pouco como seria quando não fosse mais humana. Vi em primeira mão vampiros recém-criados e ouvi todas as histórias de minha futura família sobre aqueles primeiros tempos bárbaros. Por vários anos, minha principal característica seria a sede. Levaria algum tempo para eu poder ser eu de novo. E mesmo quando estivesse controlada, nunca sentiria exatamente o que sinto agora.
Humana... e amando apaixonadamente.
Eu queria concluir a experiência antes de trocar meu corpo quente, frágil e cheio de feromônios por algo bonito, forte... e desconhecido. Eu queria uma lua-de-mel de verdade com Edward. E, apesar do perigo que temia impor a mim, ele concordou em tentar.
Eu só estava vagamente atenta a Alice e deixei que o cetim escorregasse por meu corpo. Não me importei, naquele momento, que toda a cidade estivesse falando de mim. Eu não pensava no espetáculo que teria de estrelar muito em breve. Não me preocupava com tropeçar na cauda, rir na hora errada, ser nova demais, encarar os convidados ou até o lugar vazio onde meu melhor amigo deveria estar.
Eu estava com Edward em meu refúgio feliz.
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Rumores, boatos, folclore. Fosse qual fosse a forma como uma pluma branca pousasse ou descansasse, diziam que indicava a visita de um anjo.
Na manhã de quarta-feira, 12 de julho de 1939, eu vi uma. Era comprida e fina, diferente de qualquer tipo de pluma que eu já tivesse visto. Rodeou a quina da porta quando abri, quase como se tivesse aguardado pacientemente para entrar, e a correnteza do corredor a carregou para o meu quarto. Peguei-a, segurei-a com cuidado, depois a mostrei a minha mãe. Ela disse que era de um travesseiro. Fiquei um bom tempo pensando naquilo. Fazia sentido travesseiro ser recheado de plumas de anjos. Era daí que vinham os sonhos — das lembranças dos anjos se infiltrando na cabeça da gente quando dormimos. A pluma me deixou pensando nessas coisas. Coisas como Deus. Coisas como Jesus morrendo na cruz por nossos pecados, sobre as quais ela tantas vezes me contava. Jamais gostei da idéia, nunca fui um garoto religioso. Mais tarde, anos depois, eu entenderia a hipocrisia. Era como se minha infância fosse infestada de gente que dizia uma coisa e fazia outra. Até nosso ministro, que percorria a paróquia a cavalo para fazer suas pregações, o reverendo Benedict Rousseau, era hipócrita, um charlatão, uma fraude: uma das mãos indicando o Caminho dos Livros Sagrados, a outra, perdida nas pregas sem fim da saia da irmã. Naquela época, quando eu era criança, nunca via realmente essas coisas. As crianças, embora perspicazes, têm visão seletiva. Vêem tudo, não se discute, mas escolhem interpretar o que vêem de uma forma que convenha às suas sensibilidades. E assim foi com a pluma: nada demais, mas, de alguma forma, um presságio, um agouro. Meu anjo viera me visitar. Eu estava plenamente convencido, então os acontecimentos do dia pareceram, todos, ainda mais disparatados e incongruentes. Pois esse foi um dia em que tudo mudou.
A morte chegou naquele dia. Profissional, metódica, indiferente aos costumes e às conveniências; sem respeitar Páscoa, Natal, práticas religiosas ou qualquer tradição. A morte chegou — fria e insensível, a coletora dos impostos da vida, o pagamento devido pelo ato de respirar. E quando a Morte chegou eu estava no quintal no meio da terra solta e seca, cercado de molugos, cerástios e gaulthérias. Ela veio pela High Road, acho eu, acompanhando a divisa entre a terra do meu pai e a dos Kruger. Acho que caminhava, porque mais tarde, quando olhei, não havia rastro de cavalo, nem marca de bicicleta, e a menos que a Morte pudesse andar sem tocar o chão, presumi que tivesse vindo a pé.
A morte veio para buscar meu pai.
O nome do meu pai era Earl Theodore Vaughan. Ele nasceu em 27 de setembro de 1901, em Augusta Falls, Geórgia, quando Roosevelt era presidente — daí seu nome do meio. Ele fez o mesmo comigo, deu-me o nome de Coolidge em 1927, e lá estava eu — Joseph Calvin Vaughan, filho de meu pai —, parado no meio dos molugos, quando a morte veio fazer uma visita no verão de 39. Mais tarde, depois do choro, do funeral e do velório sulino, amarramos a camisa de algodão dele a um galho de sassafrás e tocamos fogo. Ficamos vendo aquilo se consumir totalmente, a fumaça representando a alma dele passando desta terra mortal para um plano mais elevado, mais justo e mais eqüitativo. Então, minha mãe me pegou de lado, e com seus olhos inchados e marcados de olheiras contou-me que meu pai morrera de reumatismo no coração.
— A febre o levou — disse, a voz embargada de emoção. — A febre chegou aqui, no inverno de 29. Você era só um bebezinho, Joseph, e seu pai tinha muco e saliva suficiente para irrigar meio hectare de terra boa. Quando a febre agarra o coração da gente, ele enfraquece, não consegue mais se recuperar, e houve uma época, talvez um mês ou mais, em que só estávamos apostando quantas horas faltavam para ele morrer. Mas ele não foi nessa ocasião, Joseph. O Senhor achou por bem deixá-lo aqui por mais alguns anos; quem sabe o Senhor estivesse imaginando que ele deveria esperar até você começar a virar adulto. — Tirou um trapo cinzento do bolso do avental e enxugou os olhos, borrando de kohl metade do rosto; tinha o jeito abatido de um lutador de boxe sem luvas, desanimado e derrotado numa noite de sábado. — A febre estava no coração dele — murmurou —, e foi sorte a gente ficar com ele esses anos todos.
Mas eu sabia que o reumatismo não o tinha levado. A Morte o levou, chegando pela High Road, voltando pelo mesmo caminho, deixando somente seu rastro na terra junto à cerca.
Mais tarde, minhas lembranças de meu pai ficariam fragmentadas e ampliadas com a dor; mais tarde, eu pensaria nele como Juan Gallardo, talvez, corajoso como aquele personagem de Sangue e Areia, mas nunca inconstante, e sem a beleza de Valentino.
Ele foi sepultado num caixão largo, de pinho simples e empenado, e os fazendeiros das glebas vizinhas, Kruger, o alemão, entre eles, levaram seu corpo pela estrada do interior numa picape de carroceria aberta. Mais tarde reuniram-se, tristes e paramentados, em nossa cozinha, em meio ao cheiro de cebola frita em gordura de frango, ao aroma de bolo, ao perfume da água de lavanda num jarro de cerâmica ao lado da pia. E falaram de meu pai, expondo suas reminiscências, suas histórias, contando lendas dentro de narrativas mais amplas, cada uma enfeitada e embelezada com fatos que eram ficção.
Minha mãe estava sentada muda e vigilante, com uma expressão simples e ingênua, os olhos delineados com kohl mais fundos que poços, as pupilas dilatadas negras como piche.
— Uma vez o vi a noite toda com a égua — disse Kruger. — Ficou ali deitado até o sol nascer alimentando a pobrezinha com punhados de alétris para parar a cólica.
— Vou contar uma história sobre Earl Vaughan e Kempner Tzanck — disse Reilly Hawkins.
Inclinou-se à frente, as mãos vermelhas calejadas como pencas de alguma fruta seca exótica, movendo os olhos para cá e para lá como se sempre à cata de algo que tivesse o objetivo de evitá-lo. Reilly Hawkins cultivava uma gleba ao sul da nossa, e já lá estava bem antes de nossa chegada. Recebeu-nos logo no primeiro dia como amigos que havia muito não encontrava, levantou um celeiro com meu pai, e não aceitou nada além de uma jarra de leite pelo trabalho. A vida lhe deixara uma pátina, feições gretadas com rugas finas, escleras feito madrepérola, o tipo dos olhos lavados pelas lágrimas derramadas por amigos falecidos. Familiares também, todos mortos havia muito, e quase esquecidos; uns em guerras, incêndios ou inundações, outros em acidentes ou em fatalidades bobas. Não deixava de ser irônico o fato de momentos impulsivos — em si mesmos nada mais que esforços para animar e dar vida à existência — terminarem em morte. Como com o irmão caçula de Reilly, Levin, aos dezenove anos, na Feira Estadual da Geórgia. Havia um piloto acrobático meio bêbado e falador que tinha um Stearman ou um Curtiss Jenny e fazia fumigações quando era a época; saía para assustar a copa das árvores e dar rasantes nos telhados dos celeiros, com suas piruetas malucas e arrogantes, e Reilly tinha desafiado e seduzido Levin a voar com o homem. O diálogo entre os irmãos foi um pas de deux, uma dança a dois precisa, um tango de desafios e provocações, cada frase um passo, um pé esticado, uma inclinação do tronco, um ombro agressivo. Levin não queria ir, disse que tinha a cabeça e o coração feitos para observar do chão, mas Reilly ficou insistindo, apelou para o lado fraternal, apesar da experiência que tinha, apesar da aura de malte que envolvia o piloto, apesar do fim da luz do poente. Levin cedeu, subiu rezando para dar tudo certo por um quarto de dólar, e o piloto, bem mais corajoso do que capaz, tentou uma parabólica descendente seguida de uma manobra acrobática: um estol hammerhead. O motor morreu no ápice. Longo silêncio sem respirar, lufada de vento, depois um estrondo de choque de trator em muro. Morreram os dois. O piloto e Levin Hawkins chamuscados feito dois bichos atropelados na estrada. Espiral de fumaça de cem metros de altura e uma sombra dela persistindo até o raiar do dia. O pau para toda a obra que trabalhava com o piloto, um garoto entre dezesseis e dezessete anos, no máximo, ficou rondando horas com cara de morto, e aí também sumiu.
Os pais de Reilly Hawkins morreram logo depois. Ele tentou manter a fazendinha depois da morte deles, os dois arrasados com a perda de Levin, mas até os porcos pareciam olhá-lo de esguelha, como se entendessem sua culpa. Nenhuma palavra para recriminar Reilly, mas o velho Hawkins, mascando sem cessar seu fumo Heidsieck sabor champanhe, observava o irmão mais velho como se houvesse uma dívida a ser paga, e ele estivesse esperando Reilly se imolar. Contraía os olhos como ex-fumante em loja de charuto. Nenhuma palavra dita, mas a palavra sempre presente.
Reilly Hawkins nunca se casara, segundo alguns, porque não podia ter filhos, e não se envergonhava de admitir isso. Acho que Reilly nunca se casou porque teve um desgosto amoroso, e achou que um segundo o mataria. Diziam que era uma garota do condado de Berrien, bonitinha como um bebê chinês. Ele preferiu não se aventurar, pois tinha outras razões para viver. Poderia ter escolhido uma garota falastrona de uma família muito numerosa, uma garota que usasse vestido de chita, enrolasse os próprios cigarros e bebesse direto da garrafa — isso, ou a solidão. Parece que optara pela última, mas nunca falara disso abertamente, e eu nunca perguntara abertamente também. Esse era Reilly Hawkins, o pouco que eu sabia dele na época, e não dava para adivinhar seu objetivo nem seu rumo, pois em geral parecia um homem cuja teimosia superava a sensatez.
— Earl foi um lutador — disse Reilly naquele dia lá na cozinha, o dia do enterro.
Olhou para minha mãe. Ela não se mexeu muito, mas sua expressão e a forma como retribuiu o olhar dele eram uma autorização para que prosseguisse.
— Earl e Kempner foram para lá de Race Pond, até Hickox, no condado de Brantley. Foram lá falar com um homem chamado Einhorn, se não me falha a memória, um homem chamado Einhorn que tinha um alazão para vender. Pararam num lugar no caminho só para beber alguma coisa, e quando estavam descansando um brutamontes entrou e começou a gritar, como uma banshee* de cocar. (* Espírito feminino do folclore gaélico cujos gritos anunciam uma morte na família.) Era um sujeito que perturbava, perturbou os dois e irritou e enfezou o pessoal, aí Earl sugeriu que ele fosse gritar no mato, onde ninguém o ouvisse.
Reilly tornou a olhar para minha mãe, depois para mim. Não me mexi, queria ouvir o que meu pai tinha feito para acalmar aquele brutamontes perto de Hickox, no condado de Brantley. Minha mãe não levantou a mão nem a voz, e Reilly sorriu.
— Para encurtar a história, aquele brutamontes tentou derrubar Earl com um soco. Earl se esquivou e o cara voou porta afora e se estatelou na terra. Fui atrás dele, tentei chamá-lo à razão, mas o homem tinha um coração e uma cabeça agressivos e não dava para dialogar com ele. Kempner foi lá fora bem na hora em que o homem se levantou de novo e partiu para cima de Earl com uma tábua. Earl era como um daqueles acrobatas chineses de circo, dançando e rodando, os punhos parecendo pistões, e um desses pistões pegou o nariz do grandão, e deu para ouvir o osso quebrando em dez lugares. Cascata de sangue, o homem com a camisa toda ensopada, ajoelhado ali na terra gritando feito um porco ferido.
Reilly Hawkins inclinou-se para trás e sorriu.
— Ouvi dizer que o nariz do garotão nunca mais parou de sangrar... ficou escorrendo até ele se esvair todo...
— Reilly Hawkins — disse minha mãe. — Essa história nunca foi verdade, e você sabe.
Hawkins ficou encabulado.
— Não quis ofender, minha senhora — disse, e inclinou a cabeça com deferência. — Longe de mim querer irritar a senhora num dia desses.
— A única coisa que me irrita são inverdades, meias-verdades e mentiras deslavadas, Reilly Hawkins. Você está aqui para se despedir do meu marido, que parte ao encontro do Senhor, e eu agradeceria se tomasse cuidado com seu palavreado, com seus modos, e não abrisse a boca para contar balela, especialmente na frente do menino.
Olhou para mim. Eu estava ali sentado, de olhos arregalados, admirado, mais curioso ainda para saber os detalhes sangrentos relacionados com meu pai: um homem capaz de quebrar o nariz de um brutamontes com um gancho de direita e provocar a morte por sangria.
Mais tarde eu me lembraria do enterro de meu pai. Lembraria aquele dia em Augusta Falls, condado de Charlton — uma excrescência de antes da guerra civil às margens do rio Okefenokee —, me lembraria de uma gleba que era mais pântano que terra; da maneira como a terra simplesmente sugava tudo, sempre com fome, insaciável. Aquela terra inchada absorveu meu pai, e eu o vi partir; eu com onze anos, ele apenas com trinta e sete, e minha mãe em pé com um grupo de fazendeiros ignorantes e solidários dos quatro cantos do mundo, as mangas dos paletós lhes cobrindo todo o dorso da mão, as calças de sarja grosseira deixando à mostra um bom pedaço das meias puídas. Toscos, talvez, mais simplórios que afetados, mas fortes de coração, saudáveis e generosos. Minha mãe segurou minha mão com um pouco de força demais, mas eu não disse nada nem retirei a mão. Eu era seu filho único, porque — a acreditar nas histórias, e eu não tinha motivo para duvidar delas — fora um filho difícil, resistente à expulsão, e o esforço do parto estragou os aparelhos internos que ensejariam uma família maior.
— Só você e eu, Joseph — murmurou ela depois. As pessoas haviam ido embora (Kruger e Reilly Hawkins, outros com caras conhecidas e nomes incertos) e estávamos parados lado a lado olhando pela porta da frente de nossa casa, uma casa erguida à mão à custa de suor e boa madeira. — Só você e eu de agora em diante — disse mais uma vez, e aí entramos e fechamos a porta para a noite.
Mais tarde, deitado na cama, o sono me fugindo, pensei na pluma. Quem sabe, pensei, havia anjos que entregavam e anjos que levavam.
Gunther Kruger, um homem que apareceria mais na minha vida com o passar do tempo, me disse que o Homem vinha da terra, que se não voltasse para a terra haveria um desequilíbrio universal. Reilly Hawkins disse que Gunther era alemão, e que os alemães não conseguiam ter uma visão maior das coisas. Disse que as pessoas eram espíritos.
— Não, Joseph — murmurou. — Não como fantasmas... mais como anjos.
— Então meu pai virou anjo?
Hawkins ficou calado um instante, a cabeça inclinada, olhando de forma estranha.
— Seu pai, anjo? — disse, e deu um sorriso esquisito, como se um músculo tivesse se contraído num lado do seu rosto e não pudesse ser relaxado com muita facilidade. — Talvez um dia... acho que tem que trabalhar um pouco, mas, sim, talvez um dia ele vire anjo.
Inimigos Públicos (2009), filme do excelente diretor Michael Mann (mesmo diretor de O Informante, entre outros), estrelado por Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup e Giovanni Ribisi. Lançamento nos cinemas brasileiros previsto para o dia 3 de Julho de 2009.
Uma Thurman está confirmada no filme O Ladrão de Raios (Percy Jackson)
A talentosa atriz Uma Thurman, estrela de diversos filmes de sucesso, já faz parte do elenco do filme O Ladrão de Raios (Percy Jackson), baseado no livro campeão de vendas nos Estados Unidos: O Ladrão de Raios, primeiro volume da série de cinco livros chamada Percy Jackson e os Olimpianos, criada pelo escritor Rick Riordan.
Além de Uma Thurman, que fará o papel de Medusa, outros atores conceituados integrarão o elenco: Pierce Brosnan (ex-007), Sean Bean, Kevin McKidd, Melina Kanakaredes e Catherine Keener são alguns destes nomes, e representarão respectivamente: Quíron, Zeus, Poseidon, Atena e Sally Jackson (a mãe de Percy).
O Ladrão de Raios está previsto para estrear nos cinemas dos Estados Unidos em fevereiro de 2010.
Os três primeiros livros da série já foram lançados no Brasil:
A ciência deve começar com os mitos, e com a crítica dos mitos. -- Karl Popper
Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, de razão e de intelecto possa desejar que deixemos de usá-los. -- Galileu Galilei
Viver na Terra pode ser dispendioso, mas inclui uma viagem anual gratuita em torno do Sol. -- Anônimo
A física não é uma religião. Se fosse, seria muito mais fácil conseguir verbas para ela. -- Leon Lederman
Nosso universo é pontilhado com mais de 100 bilhões de galáxias e cada uma contém aproximadamente 100 bilhões de estrelas. Não está claro quantos planetas orbitam essas estrelas, mas é certo que, em pelo menos um deles, a vida evoluiu. E, em especial, existe uma forma de vida que tem a capacidade e a audácia de especular sobre a origem deste vasto universo.
Os seres humanos vêm observando o espaço há milhares de gerações, mas nós temos o privilégio de fazer parte da primeira geração que alega ter uma descrição coerente, racional e respeitável para a criação e a evolução do universo. O modelo do Big Bang (Grande Explosão) oferece uma explicação elegante para a origem de tudo o que vemos no céu noturno, o que o transforma numa das maiores realizações do espírito e do intelecto humanos. Trata-se do resultado de uma curiosidade insaciável, de uma imaginação fabulosa, da observação aguçada e de uma lógica implacável.
E, o que é ainda mais maravilhoso, o modelo do Big Bang pode ser entendido por todos. Quando tomei conhecimento do Big Bang, ainda adolescente, fiquei admirado com sua beleza e simplicidade, e pelo fato de ser baseado em princípios que, em sua maior parte, não iam além da física que eu já aprendia no colégio. Exatamente como a teoria da seleção natural de Charles Darwin é ao mesmo tempo fundamental e compreensível para a maioria das pessoas inteligentes, o modelo do Big Bang pode ser explicado em termos que farão sentido para não-especialistas sem que precisem mergulhar nos conceitos-chave dos meandros da teoria.
Mas, antes de abordarmos os primeiros indícios do modelo do Big Bang, é necessário estabelecer alguns fundamentos. O modelo do Big Bang para o universo foi desenvolvido nos últimos cem anos, e isso só foi possível porque as descobertas do século XX se ergueram sobre os alicerces de uma astronomia desenvolvida nos séculos anteriores. Por sua vez, essas teorias e observações do céu foram realizadas em uma estrutura científica montada continuamente durante dois milênios. Recuando ainda mais, o método científico, como um caminho em direção a uma verdade objetiva a respeito do mundo natural, só pôde surgir quando o papel dos mitos e do folclore começou a declinar. Em resumo, as raízes do modelo do Big Bang e a busca de uma teoria científica para o universo têm suas origens no declínio da visão mitológica ancestral do mundo.
De criadores gigantes aos filósofos gregos
De acordo com um mito chinês da criação datado de 600 a.C., Phan Ku, o Criador Gigante, saiu de um ovo e começou a criar o mundo usando um cinzel para esculpir os vales e montanhas da paisagem. Em seguida ele colocou o Sol, a Lua e as estrelas no céu e morreu assim que essas tarefas tinham terminado. A morte do Criador Gigante era uma parte essencial do processo de criação, porque os fragmentos de seu próprio corpo ajudaram a completar o mundo. O crânio de Phan Ku formou a abóbada celeste, sua carne deu origem ao solo, seus ossos se transformaram nas rochas e seu sangue criou os rios e mares. Seu último suspiro produziu o vento e as nuvens, enquanto seu suor transformava-se na chuva. Seu cabelo caiu na Terra, criando a vida vegetal, e os piolhos escondidos em seus cabelos forneceram a base para a raça humana. E, como o nosso nascimento exigiu a morte de nosso criador, fomos amaldiçoados com a tristeza eterna.
Em contraste, no mito épico Prose Edda, da Islândia, a criação começou não com um ovo e sim com a Fenda Aberta. Esse vazio separou os reinos contrastantes de Muspell e Niflheim, até que um dia o calor brilhante e intenso de Muspell derreteu a neve congelante e o gelo de Niflheim, e a umidade caiu na Fenda Aberta, produzindo a vida na forma do gigante Imir. Só então a criação do mundo pôde começar.
O povo krachi, de Togo, no oeste da África, fala de outro gigante, o imenso deus azul Wulbari, mais conhecido entre nós como o céu. Houve um tempo em que ele se deitava logo acima da Terra, mas uma mulher socando grãos com um longo pau o cutucava e espetava de modo que ele se ergueu acima deste incômodo. Contudo, Wulbari permanecia ao alcance dos humanos, que usavam sua barriga como uma toalha e arrancavam fragmentos de seu corpo azul para temperarem a sopa. Gradualmente, Wulbari subiu cada vez mais alto, até que o céu azul ficou fora do alcance, e lá permaneceu desde então.
Para os iorubá, também da África ocidental, Olorum era o Dono do Céu. Quando ele olhou para baixo, para o pântano sem vida, pediu a outro ser divino que levasse uma concha de caramujo até a Terra primordial. A concha continha um pombo, uma galinha e uma pequena quantidade de solo. O solo foi salpicado sobre os pântanos da Terra e então o pombo e a galinha começaram a ciscar até que o pântano virou um terreno sólido. Para testar o mundo, Olorum enviou o Camaleão, que mudou da cor azul para o marrom enquanto ia do céu até a terra, sinalizando que a galinha e o pombo tinham completado com sucesso a sua tarefa.
No mundo inteiro, cada cultura desenvolveu seus próprios mitos sobre a origem do universo e como ele foi formado. Esses mitos da criação diferem bastante, cada um refletindo o ambiente e a sociedade onde se originou. Na Islândia, são as forças vulcânicas e meteorológicas que formam o cenário para o nascimento do Imir. Mas, de acordo com os iorubás, do oeste africano, são a galinha e o pombo familiares que dão origem à terra sólida. Não obstante, todos esses mitos da criação têm algumas características comuns. Seja Wulbari, grande, azul e machucado, ou o gigante moribundo da China, esses mitos inevitavelmente invocam pelo menos um ser sobrenatural para desempenhar um papel crucial na explicação da criação do universo. Da mesma forma, cada mito representa a verdade absoluta dentro de sua sociedade. A palavra "mito" vem do grego mythos, que pode significar "estória", mas também significa "palavra" no sentido de "palavra final". De fato, qualquer um que se atrevesse a questionar essas explicações estaria sujeito a acusações de heresia.
Nada mudou muito até o século VI a.C., quando houve um súbito surto de tolerância nos meios intelectuais. Pela primeira vez os filósofos ficaram livres para abandonar as explicações mitológicas aceitas para o universo e desenvolverem suas próprias teorias. Anaximandro, de Mileto, por exemplo, argumentava que o Sol era um buraco num anel cheio de fogo que circundava a Terra e girava em torno dela. De modo semelhante, ele acreditava que a Lua e as estrelas nada mais eram do que buracos no firmamento, revelando fogos de outro modo escondidos. De modo contrário, Xenófanes de Colofon acreditava que a Terra liberava gases combustíveis que se acumulavam durante a noite até atingirem uma massa crítica, quando então se incendiavam produzindo o Sol. A noite caía novamente quando a bola de gás queimara todo o seu combustível, deixando para trás apenas as poucas centelhas que chamamos de estrelas. Ele explicava a Lua de modo semelhante, com gases se acumulando e queimando num ciclo de 28 dias.
O fato de Xenófanes e Anaximandro não estarem perto da verdade não tem importância, porque o principal é que eles desenvolviam teorias que explicavam o mundo natural sem recorrer a deuses ou artefatos sobrenaturais. Teorias dizendo que o Sol é um fogo celeste visto através de um buraco no firmamento ou uma bola de gás se queimando eram qualitativamente diferentes do mito grego que explicava o Sol invocando uma carruagem dirigida através do céu pelo deus Hélio. Isso não quer dizer que a nova geração de filósofos quisesse necessariamente negar a existência dos deuses. Eles apenas se recusavam a acreditar que a interferência divina fosse responsável pelos fenômenos naturais.
Esses filósofos foram os primeiros cosmólogos, na medida em que estavam interessados no estudo científico do universo físico e de suas origens. A palavra "cosmologia" deriva da antiga palavra grega kosmeo, que significa "ordenar" ou "organizar", refletindo a crença de que o universo pode ser entendido e merece um estudo analítico. O cosmos apresentava padrões, e era ambição dos gregos reconhecer esses padrões, esmiuçá-los e compreender o que havia por trás deles.
Seria um grande exagero chamar Xenófanes e Anaximandro de cientistas no sentido moderno do termo, e seria lisonjeiro considerar suas idéias como teorias científicas plenamente desenvolvidas. Não obstante, eles certamente contribuíram para o nascimento do pensamento científico, e seu ethos tinha muito em comum com a ciência moderna. Tal como as idéias na ciência moderna, por exemplo, as idéias dos cosmólogos gregos podiam ser criticadas e comparadas, melhoradas ou abandonadas. Os gregos adoravam uma boa discussão e assim a comunidade dos filósofos examinava as teorias, questionava o raciocínio subjacente e finalmente escolhia a mais convincente. Em contraste, os indivíduos de muitas outras culturas não se atreviam a questionar a própria mitologia. Cada mitologia era um ato de fé dentro de sua própria sociedade.
Pitágoras de Samos ajudou a consolidar os fundamentos desse novo racionalismo por volta do ano 540 a.C. Como parte de sua filosofia ele desenvolveu uma paixão pela matemática e demonstrou como os números e as equações podiam ser usados para ajudar a formular teorias científicas. Uma de suas primeiras conquistas foi explicar a harmonia da música através da harmonia dos números. O instrumento mais importante na música helênica antiga era o tetracórdio ou lira de quatro cordas, mas Pitágoras desenvolveu sua teoria fazendo experiências com um monocórdio. A corda era mantida sob tensão constante, mas seu comprimento podia ser alterado. Um certo comprimento da corda produzia uma determinada nota, e Pitágoras percebeu que dividindo pela metade o comprimento da mesma corda, ela produzia uma nota que era uma oitava mais alta e em harmonia com a nota da corda original. De fato, mudando o comprimento da corda por qualquer fração simples ou proporção, criava-se uma nota harmoniosa com a primeira. (Por exemplo, uma proporção de 3:2, agora chamada de quinta musical). Mas, se o comprimento fosse mudado numa proporção aleatória (por exemplo 15:37), o resultado seria a desarmonia.
Já que Pitágoras tinha mostrado que a matemática podia ser usada para ajudar a explicar e descrever a música, gerações subseqüentes de cientistas usaram os números para explorar todo tipo de coisas, da trajetória de uma bala de canhão aos padrões caóticos do clima. Wilhelm Röntgen, que descobriu os raios X em 1895, era um fiel adepto da filosofia pitagórica da ciência matemática e certa vez declarou: "Ao se preparar para o seu trabalho, o físico precisa de três coisas: matemática, matemática e matemática".
O mantra de Pitágoras era "tudo é número". Alimentado por essa crença, ele tentou descobrir as regras matemáticas que regeriam os corpos celestes. Ele afirmava que os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas através do céu geravam notas musicais especiais, que seriam determinadas pelo comprimento de suas órbitas. E a partir daí Pitágoras concluiu que essas órbitas e notas teriam proporções numéricas específicas para que o universo permanecesse em harmonia. Isso se tornou uma teoria popular em sua época. Podemos reexaminá-la a partir de uma perspectiva moderna e ver como ela enfrenta os rigores do método científico atual. Do lado positivo, a afirmação de Pitágoras de que o universo estava repleto de música não depende de nenhuma força sobrenatural. Sua teoria também é bem simples e muito concisa, duas qualidades muito valorizadas na ciência. De modo geral, uma teoria apoiada em uma única equação, curta e bonita, é preferível a outra teoria que depende de várias equações feias e imprecisas, cheias de parênteses complicados e espúrios. Como disse o físico Berndt Matthias: "Se você vir uma fórmula na revista Physical Review que ocupe um quarto de página, pode esquecê-la. Está errada. A Natureza não é tão complicada". Entretanto, a simplicidade e a concisão são secundárias diante da característica mais importante de qualquer teoria científica: ela deve corresponder à realidade e estar aberta à verificação. E é aí que a teoria da música celeste fracassa completamente. De acordo com Pitágoras, somos constantemente envolvidos por essa música celestial, mas não podemos percebê-la porque a ouvimos desde que nascemos e ficamos acostumados com ela. Para concluir, qualquer teoria que prevê uma música que nunca pode ser ouvida ou qualquer coisa que jamais poderá ser detectada é uma teoria científica muito pobre.
Toda teoria científica verdadeira precisa fazer uma previsão sobre o universo que possa ser observada ou medida. Se os resultados de uma experiência ou observação corresponderem à previsão teórica, teremos um bom motivo para que a teoria se torne aceita e seja incorporada à estrutura maior da ciência. Por outro lado, se a previsão teórica for imprecisa e entrar em conflito com a experiência ou a observação, então a teoria deve ser rejeitada, ou pelo menos modificada, a despeito de suas qualidades no que se refere à beleza ou à simplicidade. Esse é o desafio supremo, um desafio brutal, mas toda teoria científica deve poder ser testada e ser compatível com a realidade. No século XIX, o naturalista Thomas Huxley disse que "a grande tragédia da ciência é a morte de uma bela hipótese diante de uma feia realidade".
Felizmente os seguidores de Pitágoras ampliaram suas idéias e aperfeiçoaram sua metodologia. Aos poucos, a ciência foi se tornando uma disciplina sofisticada e poderosa, capaz de realizações impressionantes, como a medida dos verdadeiros diâmetros do Sol, da Lua e da Terra e das distâncias que os separam. Essas medições foram marcos na história da astronomia, representando os primeiros passos vacilantes na estrada para a compreensão de todo o universo. Por isso tais medidas merecem ser descritas em detalhes.
Antes que qualquer distância celeste ou tamanho pudessem ser calculados, os antigos gregos já tinham determinado que a Terra é uma esfera. Tal noção ganhou ampla aceitação na antiga Grécia à medida que os filósofos se familiarizavam com a noção de que os navios desaparecem gradualmente no horizonte até que apenas a ponta do mastro pode ser vista. E isso só fazia sentido se a superfície do mar se curvasse, mergulhando atrás do horizonte. Se o mar tinha uma superfície curva, então, presumivelmente, a Terra também a teria, o que significava que talvez fosse uma esfera. Essa visão era reforçada pela observação dos eclipses da Lua, quando a Terra projeta uma sombra em forma de disco sobre a Lua, na forma exata que se esperaria de um objeto esférico. De significado semelhante era o fato de que todos podiam ver que a própria Lua era redonda, sugerindo que a esfera era a forma natural, o que acrescentava mais munição à hipótese de uma Terra redonda. Tudo começava a fazer sentido, incluindo os escritos do viajante e historiador grego Heródoto, que falava de pessoas no extremo norte que dormiam durante metade de um ano. Se a Terra fosse esférica, então partes diferentes do globo seriam iluminadas de modo diferente, de acordo com suas latitudes, o que naturalmente dava origem ao inverno polar e às noites que duravam seis meses.
Mas uma Terra esférica dava origem a uma pergunta que ainda incomoda as crianças hoje em dia. O que impede que as pessoas no hemisfério Sul "se desprendam" e caiam? A solução grega para esse enigma baseava-se na crença de que o universo tinha um centro e tudo seria atraído para este centro. O centro da Terra supostamente coincidiria com o centro universal hipotético, assim a Terra era estática e tudo sobre sua superfície seria puxado em direção ao centro. Portanto, os gregos ficariam presos ao chão por essa força, assim como tudo o mais no mundo, mesmo se vivesse lá embaixo.
A façanha de medir o tamanho da Terra foi realizada em primeiro lugar por Eratóstenes, que nasceu em 276 a.C., em Cirene, na atual Líbia. Mesmo quando ainda era um menino parecia evidente que Eratóstenes tinha uma mente brilhante, que podia se voltar para qualquer disciplina, da poesia à geografia. Ele até mesmo recebeu o apelido de Pentatlos, o que significa um atleta que participa das cinco competições do pentatlo, numa sugestão da amplitude de seus talentos. Eratóstenes passou muito tempo como bibliotecário-chefe em Alexandria, o posto acadêmico de maior prestígio no mundo antigo. A cosmopolita Alexandria tinha tomado o lugar de Atenas como centro intelectual do Mediterrâneo, e a biblioteca da cidade era a instituição de ensino mais respeitada no mundo. Esqueça qualquer imagem de bibliotecários burocráticos, carimbando livros e sussurrando uns com os outros, porque aquele era um lugar vibrante e excitante, cheio de estudiosos inspiradores e estudantes empolgados.
Na biblioteca, Eratóstenes ficou sabendo da existência de um poço com notáveis propriedades, situado perto da cidade de Siena, no sul do Egito, perto da atual Assuã. A cada ano, ao meio-dia de 21 de junho, o dia do solstício de verão, o Sol brilhava diretamente dentro do poço e iluminava tudo até o fundo. Eratóstenes percebeu que, naquele dia em especial, o Sol deveria estar diretamente acima, algo que nunca acontecia em Alexandria, que ficava a várias centenas de quilômetros ao norte de Siena. Hoje sabemos que Siena fica perto do Trópico de Câncer, a latitude mais ao norte em que o Sol pode aparecer bem no zênite.
Ciente de que a curvatura da Terra era o motivo de o Sol não brilhar do mesmo modo acima de Siena e Alexandria ao mesmo tempo, Eratóstenes imaginou se não poderia usar isso para medir a circunferência da Terra. Ele não pensou no problema do mesmo modo como pensaríamos, já que sua interpretação da geometria e sua notação eram diferentes.
Livro Amanhecer (Stephenie Meyer) já está em pré-venda
O livro Amanhecer, quarto volume da série Crepúsculo, da autora Stephenie Meyer, já está em pré-venda. Os fãs brasileiros já podem encomendá-lo, porém, a editora somente liberará a entrega a partir do mês de Julho de 2009 (previsão).
Mais informações sobre como adquirir o livro podem ser obtidas através do link a seguir: Amanhecer.
Amanhecer (Breaking Dawn) foi lançado em Agosto de 2008 nos Estados Unidos e vendeu quase 1 milhão e meio de cópias nas primeiras 24 horas após o seu lançamento.
Se você quiser saber um pouco mais sobre a saga de Edward Cullen e Bella Swan na série Crepúsculo, leia o primeiro capítulo dos três primeiros livros da série: Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse; e conheça também o trailer do filme baseado no livro Crepúsculo.
ATUALIZAÇÃO: Leia o primeiro capítulo de Amanhecer, último volume da saga de Bella Swan e Edward Cullen (Crepúsculo).
Música: Chico Buarque - Construção (Letra e Vídeo) "Construção" é uma obra-prima da música brasileira, considerada uma das mais belas e importantes canções da Língua Portuguesa. Note que cada final de verso acaba com uma palavra proparoxítona, que é, em termos de tonicidade, a menos comum em nosso idioma.
Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Tudo bem. Não entre em pânico. É só uma conta do VISA. Só um pedaço de papel; alguns números. Quero dizer, que poder têm uns poucos números para nos amedrontar?
Pela janela do escritório, olho para um ônibus descendo a Oxford Street. Quero abrir o envelope branco sobre minha escrivaninha desarrumada. “É só um pedaço de papel”, repito para mim mesma pela milésima vez. E não sou burra, sou? Sei exatamente qual é o valor desta conta do VISA.
Mais ou menos.
Vai ser cerca de... 200 libras. Talvez trezentas. Sim, talvez trezentas. Trezentas e cinqüenta no máximo.
Indiferente, fecho os olhos e começo a calcular. Teve aquele tailleur na Jigsaw. E aquele jantar com Suze no Quaglino’s. E aquele lindo tapete vermelho e amarelo. O tapete foi 200 libras, imagine. Mas definitivamente valeu cada centavo — todos o admiraram. Pelo menos a Suze.
E o tailleur da Jigsaw estava em liquidação — por 30% a menos. Portanto, na verdade, foi uma economia de dinheiro.
Abro meus olhos e estico a mão para a conta. Quando meus dedos alcançam o papel, lembro-me das novas lentes de contato. Noventa e cinco libras. Um bocado. Mas, afinal, tive que comprar, não tive? O que devo fazer, andar por aí sem enxergar nada?
E precisei comprar umas loções novas, uma caixinha bonitinha e um delineador hipoalergênico. Isto eleva para... quatrocentos?
De sua mesa de trabalho na sala ao lado, Clare Edwards olha para mim. Está separando todas as suas cartas em pilhas como faz todas as manhãs. Embrulha cada uma num elástico e as classifica com dizeres do tipo "Responder imediatamente" e "Responder sem urgência". Odeio Clare Edwards.
— Tudo bem, Becky? — diz ela.
— Tudo bem — digo com um ar leve. — Só estou lendo uma carta.
Com um ar feliz, enfio a mão no envelope, mas meus dedos não tiram a conta. Ficam grudados nela enquanto minha mente fica tomada — como acontece todo mês — por um sonho secreto.
Quer saber do meu sonho secreto? Ele se baseia numa história que li uma vez no jornal a respeito de uma confusão ocorrida num banco. Gostei tanto que recortei e fixei na porta do meu armário. Duas contas de cartão de crédito foram enviadas para pessoas erradas e — imagine só — as duas pagaram a conta errada sem perceber. Elas pagaram as contas uma da outra sem nem mesmo examiná-las.
Desde que li aquela história, tenho um sonho secreto: que o mesmo acontecerá comigo. Alguma velhinha caduca em Cornwall vai receber minha conta colossal e pagar sem nem mesmo olhar para ela. E eu receberei sua conta de três latas de comida de gato, a 59 centavos cada uma. Que, naturalmente, pagarei sem questionar. Justiça é justiça, afinal.
Um sorriso toma conta do meu rosto quando olho pela janela. Estou convencida de que este mês isto vai acontecer — meu sonho secreto está para se tornar realidade. Mas quando, finalmente, tiro a conta do envelope — irritada com o olhar curioso de Clare — meu sorriso esmaece, depois desaparece. Uma quentura bloqueia minha garganta. Acho que pode ser pânico.
A folha fica preta com a quantidade de letras. Uma série de nomes familiares passam pelos meus olhos como um shopping. Quero entender mas eles se movem muito rapidamente. Thorntons, consigo enxergar por um instante. Thorntons Chocolates? Que diabos eu estava fazendo na Thorntons Chocolates? Eu deveria estar de dieta. Esta conta não pode estar certa. Isto não pode ser meu. Não posso ter gasto todo esse dinheiro.
Não se desespere, grito por dentro. O segredo é não entrar em pânico. É só ler cada nome devagar, um por um. Inspiro profundamente e me forço para ler com calma, começando do alto da lista.
WH Smith (tudo bem. Todo mundo precisa de artigos de papelaria)
Boots (idem)
Specsavers (essencial)
Oddbins (garrafa de vinho — essencial)
Our Price (Our Price? Ah, sim. O novo CD dos Charlatans. Bem, eu precisava tê-lo, não é?)
Bella Pasta (jantar com Caitlin)
Oddbins (garrafa de vinho — essencial)
Esso (gasolina não conta)
Quaglino’s (caro — mas foi imperdível)
Pret à Manger (naquele dia eu estava sem dinheiro vivo)
Oddbins (garrafa de vinho — essencial)
Rugs to Riches (o quê? Ah sim, o tapete. Tapete danadinho)
La Senza (roupa de baixo sexy para sair com James)
Agent Provocateur (uma roupa de baixo mais sexy ainda para sair com James. Ah. Eu precisava disso)
Body Shop (aquele negócio de escovar a pele que eu preciso usar)
Next (saia branca bem sem graça — mas estava em liquidação)
Millets...
Paro ali. Millets? Eu nunca entro na Millets. Que diabos estaria eu fazendo na Millets? Intrigada fixo o olhar no extrato, franzo a sobrancelha e procuro pensar — e então, de repente, a verdade aparece. É óbvio. Alguém mais está usando meu cartão.
Ah, meu Deus. Eu, Rebecca Bloom, fui vítima de um crime.
Agora tudo faz sentido. Algum criminoso roubou meu cartão de crédito e forjou minha assinatura. Quem sabe onde mais eles o usaram? Não é para menos que meu extrato está tão preto de números! Alguém resolveu farrear por Londres à custa do meu cartão — e achou que conseguiria escapar.
Mas como conseguiram? Procuro minha carteira de dinheiro na bolsa, abro-a — e ali está meu cartão VISA me fitando. Pego e olho para ele. Alguém certamente o roubou de minha carteira, usou — e depois devolveu. Deve ser alguém que conheço. Ah, meu Deus. Quem?
Examino pelo escritório com um olhar desconfiado. Quem quer que tenha sido não prima pela inteligência. Usar meu cartão na Millets! É quase uma piada. Como se algum dia eu fosse comprar ali.
— Nunca nem entrei na Millets! — digo alto.
— Entrou sim — diz Clare.
— O quê? — viro para ela, nada contente por ter sido interrompida. — Não, não entrei.
— Você comprou o presente de despedida de Michael na Millets, não foi?
Olho para ela e sinto meu sorriso desaparecer. Ah, estraga-prazeres. Claro. O casaco azul para Michael. O casaco de neve azul brega da Millets.
Três semanas atrás quando Michael, agente de nossa editora, foi embora, voluntariei-me para comprar-lhe o presente. Levei o envelope marrom cheio de moedas e notas para a loja e escolhi um casaco de neve (acredite-me, ele é esse tipo de homem). E, no último minuto, agora me lembro, decidi pagar com o cartão e guardar o trocado para meu uso.
Recordo-me muito bem de ter escolhido as quatro notas de 5 libras e tê-las cuidadosamente guardado na minha carteira, separando as moedas grandes e colocando-as no compartimento de moedas, despejando o resto do trocado no fundo da bolsa. "Ah, que bom", lembro-me de ter pensado. "Não vou precisar ir ao caixa eletrônico." Pensei que aquelas sessenta libras durariam semanas.
Então o que aconteceu? Não posso simplesmente ter gasto sessenta libras sem perceber, posso?
— Por que está perguntando afinal? — diz Clare inclinando-se para mim. Seus olhos de raios X brilhando atrás dos óculos. Ela sabe que estou olhando para minha conta do VISA.
— Nenhuma razão — digo eu e, de uma forma brusca, virando para a segunda folha do extrato.
Mas algo me interrompe. Em vez de fazer o de sempre — fixar os olhos no valor do Pagamento Mínimo e ignorar completamente o total — me vejo fixando o número no pé da página.
Novecentas e quarenta e nove libras, sessenta e três centavos. Em branco-e-preto bem nítido.
Em silêncio, contemplo durante trinta segundos, logo depois empurro a conta de volta para dentro do envelope. Naquele momento sinto como se aquele pedaço de papel não tivesse nada a ver comigo. Talvez se, por algum descuido, o deixasse cair no chão atrás do meu computador, ele desaparecesse. O pessoal da limpeza o varrerá e eu poderei dizer que nunca o recebi. Não podem me cobrar por uma conta que nunca recebi, podem?
Já estou redigindo uma carta mentalmente. "Prezado Gerente do cartão VISA. Sua carta confundiu-me. A que conta está se referindo precisamente? Nunca recebi nenhuma conta de sua parte. Não gostei do tom de sua carta e devo avisá-lo de que estou escrevendo para Anne Robinson da Watchdog."
Ou sempre existe a opção de me mudar para o exterior.
— Becky? — Levanto a cabeça abruptamente e vejo Clare olhando para mim.
— Você já terminou o texto sobre o Lloyds?
— Quase — minto. Como ela está me observando, sinto-me forçada a trazê-lo para a tela do meu computador só para mostrar força de vontade. Mas a chata ainda está me observando.
"Quem economiza pode beneficiar-se do acesso instantâneo" — digito no computador, copiando diretamente de um release à minha frente. — "A conta também está oferecendo taxas de juros diferenciadas para quem investe mais de 5.000 libras."
Digito um ponto final, tomo um gole de café e viro para a segunda página do release.
É isto que faço, por falar nisso. Sou jornalista de uma revista financeira. Sou paga para dizer às outras pessoas como administrar seu dinheiro.
Não é a carreira que eu sempre quis, claro. Ninguém que escreve sobre finanças pessoais jamais pensou em fazê-lo. Todos dizem que "caíram" nas finanças pessoais. Estão mentindo. O que eles querem dizer é que não conseguiram um emprego para escrever sobre nada que fosse mais interessante. Querem dizer que se candidataram para empregos em The Times, no Express, na Marie-Claire, na Vogue, na GQ e na Loaded, mas só receberam um fora.
Começaram então a candidatar-se para a Metalwork Monthly (uma publicação mensal do setor de metalurgia), a Cheesemakers Gazette (revista dos fabricantes de queijo) e a What Investment Plan? (publicação sobre investimentos), foram admitidos como assistentes editoriais insignificantes ganhando muito pouco, e ficaram agradecidos. E continuaram escrevendo sobre metalurgia, queijo ou poupança desde então — porque é tudo o que sabem. Eu comecei na revista com o título cativante de Personal Investment Periodical (publicação sobre investimentos pessoais). Aprendi como copiar um release, acenar com a cabeça em entrevistas coletivas e fazer perguntas de forma a parecer que sabia do que estava falando. Depois de um ano e meio — acredite se quiser — fui convidada para trabalhar na Successful Saving (uma publicação sobre investimentos bem-sucedidos).
Obviamente ainda não sei nada sobre finanças. As pessoas no ponto de ônibus sabem mais sobre esse assunto do que eu. As crianças nas escolas sabem mais do que eu. Há três anos desenvolvo essa atividade e ainda estou esperando que alguém me contrate para outro lugar.
Naquela tarde Philip, o editor, chama meu nome e eu pulo de medo.
— Rebecca? — diz ele. — Uma palavrinha. — E me chama à sua mesa. Sua voz parece mais baixa, quase num tom conspirador, e ele sorri para mim como se estivesse pronto para dar-me uma boa notícia.
Ah, meu Deus, penso. Promoção. Deve ser. Ele sabe que não é justo eu ganhar menos que Clare, então vai promover-me para o nível dela. Ou talvez acima. E está me dizendo discretamente para que Clare não fique enciumada.
Um sorriso amplo enfeita meu rosto, levanto e ando cerca de três metros ou coisa parecida até sua mesa, procurando ficar calma mas já planejando o que vou comprar com meu aumento salarial. Vou comprar aquele casaco trançado na Whistles. E umas botas pretas de salto da Pied à Terre. Talvez saia de férias. E pagarei aquela abominável conta do VISA de uma vez por todas. Sinto-me contente e aliviada. Eu sabia que tudo daria certo...
— Rebecca? — Ele joga um cartão para mim. — Não vou poder ir a esta entrevista coletiva — diz ele. — Mas talvez seja bem interessante. Você pode ir? É na Brandon Communications.
Percebo minha expressão alegre escorrer do meu rosto como geléia. Ele não está me promovendo. Não estou recebendo um aumento de salário. Sinto-me traída. Por que sorriu para mim daquele jeito? Devia saber que estava aumentando minhas esperanças. Seu sacana.
— Alguma coisa errada? — pergunta Philip.
— Não — murmuro. Mas não consigo sorrir. Na minha frente vejo meu novo casaco trançado e minhas botas de salto alto sumirem como num passe de mágica. Nenhuma promoção. Só uma entrevista coletiva sobre... Volto os olhos para o cartão de relance. Sobre uma nova cota de fundo. Como alguém consegue chamar aquilo de interessante?
— Poderá escrever sobre isso para a revista — diz Philip.
— Está bem — encolho os ombros num sinal de aceitação e me afasto.